FRAGMENTOS DE UMA FÉ ESQUECIDA

FRAGMENTOS DE UMA FÉ ESQUECIDA

ALGUNS BREVES ESBOÇOS ENTRE OS GNÓSTICOS, PRINCIPALMENTE DOS PRIMEIROS DOIS SÉCULOS — UMA CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DAS ORIGENS CRISTÃS BASEADA NOS MATERIAIS MAIS RECENTEMENTE RECUPERADOS — POR G. R. S. MEAD.

SEGUNDA EDIÇÃO.

Londres e Benares Sociedade Teosófica de Publicação

Compreende, pois, a Luz, respondeu ele, e faze amizade com ela.

HERMES TRISMEGISTO.

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO.

A segunda edição é praticamente uma reimpressão da primeira.

Removi ou alterei algumas palavras e frases, acrescentei os logoi de Oxirrinco recentemente descobertos, esforcei-me por atualizar a bibliografia e anexei um índice.

G. R. S. M. CHELSEA, 1906.

PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO.

HÁ alguns anos, publiquei em forma de revista uma série de breves esboços, intitulada Entre os Gnósticos dos Primeiros Dois Séculos, extraída dos escritos polêmicos dos Padres da Igreja.

Desde então, fui repetidamente solicitado a resgatá-los do esquecimento dos números atrasados de uma Revista e publicá-los à parte.

Isso, por muito tempo, relutei em fazer, pois havia planejado uma grande obra, a compreender vários volumes, a ser chamada Em Torno do Berço da Cristandade, cujos materiais eu vinha coletando e gradualmente publicando em artigos de revista, com a intenção de, ao final, reuni-los todos, revisá-los e imprimi-los em forma de livro.

Isso, porém, teria significado o trabalho de muitos anos, trabalho que talvez nunca fosse concluído (pois nenhum homem pode contar com o futuro), e que, portanto, teria permanecido na forma de uma massa aparentemente desconexa de artigos, sem plano ou propósito.

Decidi, portanto, publicar um esboço pioneiro — um programa, por assim dizer — cujas linhas gerais espero preencher com trabalho mais detalhado em uma série de volumes, pequenos ou grandes conforme a importância dos diversos assuntos exigir.

viii.

FRAGMENTOS DE UMA FÉ ESQUECIDA.

A segunda das três divisões principais do presente volume consiste, então, em sua maior parte, de matéria já publicada; foi, no entanto, cuidadosamente revisada em toda a sua extensão.

Quanto ao restante, esforcei-me por dar ao leitor uma visão panorâmica de todo o campo do gnosticismo primitivo.

Portanto, acrescentei aos artigos acima mencionados o material principal derivado dos Atos Apócrifos e das obras gnósticas coptas, e precedi o todo com uma introdução geral, tratando principalmente do pano de fundo da Gnose.

A tudo isso acrescentei uma breve conclusão e algumas indicações bibliográficas para auxiliar o estudante.

O tratamento do assunto é, portanto, novo, na medida em que ninguém anteriormente tentou reunir todos esses materiais.

Estes esboços, no entanto, não se destinam principalmente ao estudante, mas são escritos para o leitor comum.

Esforcei-me ao máximo para manter sempre em vista os interesses deste último, embora espero ao mesmo tempo ter dado ao estudante a garantia de que as melhores autoridades foram invariavelmente consultadas.

Portanto, por um lado, expliquei muitas coisas com as quais se supõe que o erudito já esteja familiarizado e, por outro, resisti vigorosamente à tentação de anotações eruditas, às quais o assunto se presta facilmente em cada parágrafo, mas que aumentariam este volume para dez vezes seu tamanho atual.

Escrevi, então, de modo que o homem de uma única língua possa ler da primeira à última página, sem ser forçado a lamentar sua ignorância de outras línguas; pois creio que o assunto é de profundo interesse humano, e não de mera importância acadêmica.

É verdade que a dificuldade do assunto é por vezes tão grande que, mesmo com a melhor boa vontade do mundo, falhei inteiramente em tornar a questão clara; mas isso também é verdade para todos os outros escritores na área.



**ANTECEDENTES DA GNOSE** 29—

**CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES** ... ... 29—

A Maior História do Mundo ... ... ...

A Necessidade de um Antecedente ... ... ...

Os Principais Meios para uma Recuperação dos Contornos

As Escolas Gnósticas ... ... ... ... 32 V

Onde Procurar suas Origens ... ... ...

A Natureza do Campo a ser Examinado

O Solo do Campo ... ... ...

Três Correntes Mães ... ... ...

GRÉCIA ... ... ... ... ... 36—

A Grécia de 600 a.C. ... ... ...

Os Precursores de Pitágoras ... ... ...

A Tradição Órfica ... ... ... ...

Hélade Primitiva ... ... ... ...

As Ondas de Imigração Ariana ... ...

A Linhagem Órfica ... ...

A Grécia de "Homero" ... ... ...

"Orfeu" retorna à Grécia ... ... ...

Os Mistérios ... ... ... ... ...

Sua Corrupção ... ... ... ...

A Razão disso

**SINOPSE DO CONTEÚDO.**

Xlll.

PÁGINA

As Várias Tradições ... ... ...

Os Mistérios Políticos ... ... ...

Os Mistérios Privados ... ... ...

As Comunidades Órficas ... ... ...

Os Mistérios Filosóficos ... ... ...

Pitágoras e Platão ... ... ...

Aristóteles e o Ceticismo ... ... ...

Oriente e Ocidente ... ... ...

Roma ... ... ... ... ...

Os Mistérios de Mitras ... ...

EGITO ... ... ... ... ... 57—

A Sabedoria do Egito ... ... ...

As Misturas de Tradição ... ...

As Comunidades Místicas ... ...

Os Terapeutas

Os Primeiros Cristãos de Eusébio ...

A Teoria do Pseudo-Fílon ...

Seu Golpe de Morte ... ...

Uma Questão Interessante de Data ...

O Título e o Contexto ... ... ...

**FÍLON SOBRE A VIDA CONTEMPLATIVA** ... 66—86 Os Essênios ... ... ... ... ...

O Nome Terapeuta ... ... ...

Seu Abandono do Mundo ... ...

Seus Retiros

A Colônia Mareótica ... ... ...

Suas Moradas ... ... ...

O Significado Original do Termo Mosteiro

Suas Orações e Exercícios ... ...

A Natureza de seus Livros ... ...

Seu Modo de Reunião ... ... ...

O Santuário ... ... ...

Sua Regra ... .

xiv.

**FRAGMENTOS DE UMA FÉ ESQUECIDA.**

PÁGINA

Jejum          ...              ...              ...  ...

A Refeição Comum do Sétimo Dia  ...

Habitação e Vestuário                 ...

Suas Festas Sagradas    ...  ...

O Banquete no Quinquagésimo Dia  ...

Antiguidade        ...              ...              ...

As Discípulas

Os Leitos Simples      ...              ...

Os Servidores...              ...              ...

A Comida Frugal          ...  ...

O Presidente               ...

A Instrução            ...              ...  ...

A Interpretação das Escrituras  ...

O Canto de Hinos               ...  ...

Pão e Sal            ...              ...  ...

A Dança Sagrada   ...              ...  ...

A Oração Matinal  ...              ...  ...

Uma Nota sobre os Números Sagrados  ...

A Conexão de Fílon com os Terapeutas . . .

Os Discípulos Leigos       ...              ...

A Variedade de Comunidades     ...  ...

JUDAÍSMO   ...  ...  ...  ...  ...       86—

A Influência da Babilônia          ...  ...

A Escrita da História das Escrituras  ...

A Mitologia da História        ...

Autoengano Honesto    ...              ...  ...

A Espiritualização do Judaísmo  ...  ...

Zelotismo       ...              ...              ...  ...

Farisaísmo     ...              ...              ...  ...

Os Hassidim e Essênios       ...  ...

As Escolas Internas       ...              ...  ...

ALEXANDRIA          ...  ...  ...  ...     95 —

Uma Vista Panorâmica da Cidade...

SINOPSE    DOS    CONTEÚDOS.

XV.

PÁGINA

A População                ...

A Biblioteca...                               ...  ...

O Museu                 ...              ...

As Escolas dos Sofistas      ...  ...

A Terra do Amanhecer             ...

A Nova Religião       ...

Escolas Judaicas e Cristãs    ...

CRISTIANISMO GERAL E GNÓSTICO  121—

A EVOLUÇÃO DO CRISTIANISMO CATÓLICO  ...   121 —

O Cânon    ...              ...

Os Evangelhos...

As Cartas de Paulo    ...

A Gentilização do Cristianismo  ...

OS EBIONITAS             ...             ...  ...   126—

Os Nazoreanos             ...              ...  ...

Os Homens Pobres

A Tradição Ebionita de Jesus  ...

OS ESSÊNIOS        ...                             ...  ...   131  —

Seu Modo de Vida                 ...

Os Graus de Santidade            ...  ...

Pontos de Contato com o Cristianismo  ..

AS TENDÊNCIAS DO GNOSTICISMO ... ... 136 — 142 k

A "Secularização" do Cristianismo ...

Yahweh não é o "Pai" de Jesus ...

O Ensinamento Interno ... ...

Várias Classes de Almas ... ...

A Pessoa de Jesus ... ... ...

As Principais Doutrinas ... ... ...

A LITERATURA E AS FONTES DO GNOSTICISMO.

—

Literatura ... ... ... ... ...

Fontes Indiretas ... ... ...

Fontes Diretas

XVI.


PÁGINA

A GNOSE SEGUNDO SEUS ADVERSÁRIOS ... 155—

ALGUNS FRAGMENTOS GNÓSTICOS RECUPERADOS DOS ESCRITOS POLÊMICOS DOS PADRES DA IGREJA ... 157—

Nenhuma Classificação Possível ... ...

OS "SIMONIANOS" ... ... 160—

A Origem do Nome ... ..

DOSITEU ... ... ... ... ... 162 —

Um Seguidor de João Batista

A Gnose Pré-Cristã ... ...

"SIMÃO MAGO" ... ...

O "Simão" Ebionita

A Literatura "Simoniana" ... ...

O Sistema "Simoniano" de Ireneu ...

O Grande Anúncio ... ...

O Fogo Oculto ...

A Árvore de Fogo ... ...

Os Eons ... ... ...

MENANDRO ... ... ... ...

Sua Data ... ... ...

Suas Doutrinas ... ... ...

Um Vínculo com o Zoroastrismo ... ...

SATURNINO ...

A Cadeia de Mestres ... ...

Ascetismo ... ... ... ... 17$

Resumo das Doutrinas ... ...

A Criação do Homem ... ...

OS "OFITAS"... ... ... ...

A Obscuridade do Assunto ...

SINOPSE DO CONTEÚDO.

xvii.

PÁGINA

O Termo "Ofita" ... ... ...

O Símbolo da Serpente ... ... ...

O Mito do Êxodo ... ...

Pseudo-filologia ... ... ...

UM SISTEMA ANÔNIMO DE IRINEU ... 188 —

A Criação Espiritual ...

Yahweh Ialdabaoth ... ... ...

Exegese do Antigo Testamento

Cristologia ... ... ... ...

Jesus ... ... ... ...

UM SISTEMA "OFITA" PRIMITIVO ... ... 193—

Justino ... ... ...

O Livro de Baruque ... ...

Baruque ... ...

Cristologia ... ...

OS NAASSENI ... ... 198—

Sua Literatura ... ... ...

Sua Exegese Mística ... ...

Os Mistérios Assírios ... ...

Os Egípcios ... ...

Os Gregos ... ... ...

Os Samotrácios ... ... ...

Os Frígios ... ... ...

Os Mistérios da Grande Mãe ... ...

O Fragmento de um Hino ... ...

OS PERATAS ... ... ... ...

A Fonte de sua Tradição ... ...

Os Três Mundos ... ...

Uma Citação Direta ... ... ...

O Significado do Nome ... ...

Fisiologia Psicológica ... ...

Os Livros Perdidos de Hipólito ... ...

XVIII. FRAGMENTOS DE UMA FÉ ESQUECIDA.

PÁGINA

OS SETIANOS ... ... ... ... ... 213—

Sete ... ... ... ... ... ...

Um Esboço de seu Sistema ... ...

Os Mistérios ... ...

OS DOCETAS ... ... ... 217—

Deus ... ... ... ... ... ...

Os Eões ... ... ... ... ... ...

Cosmos e Homem ... ... ...

O Salvador ... ... ... ... ...

MONOIMO ... ... ... ... ... ... 222—

Teorias dos Números ... ... ...

Como Buscar a Deus ... ...

OS CHAMADOS CAINITAS ... ... ... ... 224—

A Obscuridade do Assunto ... ...

Os Inimigos de Yahweh, os Amigos de Deus ...

Judas ... ... ... ... ... ... ...

Um Fragmento de História ... ...

OS CARPOCRACIANOS ... ... ... ... 229—

Sua Ideia de Jesus ... ... ...

Reencarnação ... ... ... ...

"EPÍFANES" ... ... ... 233—

O Deus-Lua ... ...

Comunismo ... ... ... ... ... ...

A Gnose Monádica ... ... ... ...

CERINTO ... ... ... ... ... ... ... 237—

O Bode Expiatório para os "Apóstolos-Colunas" ...

O Reescritor do Apocalipse ... ...

NICOLAU ... ... ... ... ... ... ... 239—

"Coisas que Eu odeio" ... ... ...

CERDO ... ... ... ... ... ... 240—

O Mestre de Marcião

SINOPSE DO CONTEÚDO.

XIX

MARCIÃO

A Propagação do Marcianismo

A "Crítica Superior"

O Evangelho de Paulo ...

Eznik

Um Sistema Marcionita...

O Título Chrestos ...

APELES

Sua Ampla Tolerância ... Filumena ... Suas Visões...

A GNOSE BASILIDIANA

Basílides e seus Escritos

Nossas Fontes de Informação

A Divindade além do Ser

Universalidade além do Ser

Ex Nihilo ...

A Filialidade...

O Espírito Santo

O Grande Governante

A Criação Etérea

Os Espaços Sub-lunares

Soteriologia ...

O Evangelho Místico ...

Os Filhos de Deus

A Consumação Final

Jesus

Karma e Reencarnação

A Teoria dos "Apêndices"

Responsabilidade Moral ...

Um Traço de Zoroastrismo

O Sistema Espúrio ...

PÁGINA

241—249 250—252 253—284 XX. FRAGMENTOS DE UMA FÉ ESQUECIDA.

PÁGINA

O MOVIMENTO VALENTINIANO

O "Grande Desconhecido" do Gnosticismo ...

"Os de Valentino" ...

As Chamadas Escolas Oriental e Ocidental

Os Líderes do Movimento... 287 A Sintetização da Gnose Fontes de Informação

VALENTINO ... ... 294 —

Biografia ... ...

Data ...

Escritos ... ... ...

Os Fragmentos que Restam ... 298 Sobre a Criação da Primeira Raça

da Humanidade ...

Sobre os Puros de Coração ... 300 Sobre um dos Poderes do

Homem Perfeito ... 302 Vós Sois Filhos de Deus ...

A Face de Deus ... ...

Sobre o Povo do Amado ...

Os Galileus ... ...

A Sabedoria do "Pequenino"

A Cadeia do Ser ... ...

O Fio de Ariadne para Fora do Labirinto...

ALGUNS ESBOÇOS DE EONOLOGIA ... 311 —

Em Direção ao Grande Silêncio

A Profundidade além do Ser

O Mundo dos Éons ... ...

Os Sólidos Platônicos ...

Um Simbolismo Vivo ... 316 A "Quarta Dimensão"

O Átomo Eterno ... 320 A Lei da Sizígia ...

SINOPSE DO CONTEÚDO.

XXI

PÁGINA

A Lei da Diferenciação ... ...

Os Três e os Sete ... ...

Os Doze e os Dez ... ...

O Dodecaedro ... ... 

A Década ... ... 

Caos ... ... ... ... 

Teos ... ... ... ... 

Cosmos ... ... ... ... 

Mitologia ... ... ... ... 

O Sophia-Mito ... ... 

A Mãe de Muitos Nomes ... ....

RELATO DE HIPÓLITO SOBRE UMA DAS VARIANTES

DO MITO DE SOPHIA ... ... 335 —

O Pai de Todos ... 

Os Pais dos Eões ... ... 

Os Nomes dos Eões ... ... 

A Mãe do Mundo ... ... ... 

O Aborto ... ... ... ... 

O Termo "Unigênito" ... ... 

A Cruz ... ... ... ... ... 

O Último Limite ... ... ... 

O Jesus Místico ou Cósmico ... ... 

A Dor de Sophia ... 

O Mundo Sensível ... ... ... 

Seu Demiurgo ... ... 

"Palavras" ou Mentes ... ... ... 

Almas ... ... ... ... ... 

Corpos ... ... ... ... ... 

O Novo Homem ... ... ... 

O Corpo Místico do Cristo ... 

Soteriologia ... ... ... ... ... 

O SIMBOLISMO NUMÉRICO DE MARCOS ... 358 —

Fontes

XX11. FRAGMENTOS DE UMA FÉ ESQUECIDA.

PÁGINA

Letras Numéricas ... ... ... ... 

Cabala ... ... ... ... ... ... 

O Grande Nome ... ... ... 

O Eco do Nome 

O Corpo Simbólico do Homem da Verdade 

Os Números 

Exegese Evangélica ... ... ... ... 

A Criação do Mundo Sensível ... 

A Tetraktys ... ... ... ... ... 

Aritmética Teológica ... ... ... 

Jesus, o Mestre ... ... ... ... 

A "Imagem Móvel da Eternidade" 

Do Ritual Marcosiano ... ... ... 

PTOLOMEU ... ... ... ... 383 —

A Carta a Flora ... ... ... ... 

A "Crítica Superior" ... 

A Fonte da Inspiração de Moisés ... 

O Proêmio ao Quarto Evangelho ... 

HERACLEÃO ... ... ... ... ... ... 391 —

Seu Comentário sobre o Quarto Evangelho... 

BARDESANES ... ... ... ... ... ... 392 —

Biografia ... ... ... ... ... ... 

Escritos ... ... ... ... ... ... 

Fontes Indiretas ... ... ... ...

De  Seus  Hinos        ...              ...  ...  ...

O  Livro  das  Leis  dos  Países  ...

Karman         ...              ...              ...  ...

Fortuna  e  Natureza   ...              ...  ...

A  Direita  e  a  Esquerda   ...

O  Hino  da  Alma              ...              ...  ...

O  HINO  DO  MANTO  DE  GLÓRIA  .  406—

SINOPSE    DO    CONTEÚDO.

XXIII.

PÁGINA

ALGUNS  VESTÍGIOS  DA  GNOSE  NOS

ATOS  NÃO-CANÔNICOS   ...  415—

PREFÁCIO             ...             ...             ...  ...  415 —

Os  Atos  Gnósticos        ...              ...  ...

Trabalho  Católico  Posterior               ...  ...

Primeiros  Coletores           ...              ...  ...

DOS  ATOS  DE  TOMÉ              ...  ...  419 —

Um  Hino  à  Sabedoria...              ...  ...

Seu  Significado...              ...              ...  ...

Duas  Invocações  Sacramentais   ...  ...

Uma  Nota  sobre  elas           ...  ...

O  Palácio  que  Tomé  construiu...  ...

DOS  ATOS  DE  JOÃO  ...             ...  ...  426 —

Um  Fragmento  Recentemente  Publicado  ...

A  Razão  de  Ser  do  Docetismo        ...  ...

A  Evolução  da  Tradição       ...  ...

Histórias  Místicas  de  Jesus              ...  ...

O  Cristo  fala  com  Jesus  ...  ...

Uma  Forma  Antiga  de  um  dos  Grandes  Milagres

Um  Ritual  dos  Mistérios   ...  ...

A  Doxologia               ...              ...  ...

O  Mistério  da  Cruz         ...  ...

A  sua  Interpretação         ...  ...

A  Iniciação  da  Cruz       ...  ...

Os  Eus  Superior  e  Inferior...  ...

Uma  Oração  de  Louvor  a  Cristo  ...  ...

Discurso  de  Despedida  de  João  à  sua  Comunidade

Última  Oração  de  João     ...              ...  ...

A  História  de  João  e  os  Insetos  ...

DOS  ATOS  DE  ANDRÉ            ...  ...  445 —

Discurso  à  Cruz...

XXIV.

FRAGMENTOS    DE    UMA    FÉ    ESQUECIDA.

PÁGINA

DAS  VIAGENS  DE  PEDRO           ...              ...  446—

A  Descida  do  Homem  ...              ...              ...

A  Redenção  Mística  através  da  Cruz

Posfácio     ...              ...              ...

A  GNOSE  SEGUNDO  SEUS

AMIGOS                              ...  451—

ALGUMAS    OBRAS    ORIGINAIS    GREGAS    EM

TRADUÇÃO  COPTA   ...  453—

OS  CÓDICES  ASKEW  E  BRUCE  ...  ...

O  Códice  Askew       ...              ...

O  Códice  Bruce         ...              ...              ...

Traduções... ...                               ...

A Dificuldade do Assunto    ...              ...

Programa    ...              ...              ...              ...

RESUMO DO CONTEÚDO DO CHAMADO

TRATADO PISTIS SOPHIA  ...  ...

O Ensinamento dos Onze Anos  ...  459  A Transfiguração Mística e Ascensão no

Décimo Segundo Ano

O Mestre Retorna aos Seus Discípulos  ...

A Encarnação Mística dos Doze  ...  460  Que a Alma de Elias Nasce em João

Batista           ...              ...

De Sua Própria Encarnação            ...              ...

Sobre o Manto de Glória...

O Hino de Boas-Vindas "Vinde a Nós"

As Três Vestes de Luz    ...              ...

A Jornada para a Altura  ...              ...

O Mestre Rouba dos Eões um Terço de

Sua Luz          ...              ...

As Perguntas de Maria               ...              ...

Por que os Governantes Foram Roubados  ...

SINOPSE DO CONTEÚDO.

XXV.

PÁGINA

O Encurtamento dos Tempos    ...

A Jornada Celestial Continuada

O Mito de Pistis Sophia        ...  469  A Inimizade do Arrogante

A Queda na Matéria...

A Descida da Alma

Seu Arrependimento e Redenção

Os Graus de Purificação       ...

A Coroa de Luz

A Vitória Final      ...

Uma História de Infância de Outra Forma Desconhecida

Da Glória dos do Décimo Terceiro Eão

A Escala de Luz     ...                              ...

Os Perfeitos Serão Mais Elevados do que as

Emanações de Luz no Reino

Os "Últimos" Serão os "Primeiros"...              ...

Os Três Espaços Supernos da Luz

A Herança da Luz

O Mistério do Primeiro Mistério          ...  479  A Gnose de Jesus, o Mistério do

Inefável                ...  479  Os Discípulos Perdem a Coragem em Admiração

diante das Glórias da Gnose  4«0  O Mais Alto Mistério é o Mais Simples de

todos                ...              ...

Sobre a Única Palavra do Inefável

A Glória Daquele que Recebe o Mistério

Dos Tronos no Reino da Luz     ...

Há Outros Logos

Os Graus dos Mistérios  ...

Os Benefícios que Concedem                ...              ...

Os Membros do Inefável       ...              ...

Os Mil Anos de Luz...              ...

Os Livros de Ieou

XXVI.


PÁGINA

Vós Sois Deuses                 ...              ...              ...

Das Almas em Encarnação             ...

A Pregação dos Mistérios                ...

O Fardo da Pregação              ...              ...

Os Marcos Divisórios das Sendas dos

Mistérios               ...              ...              ...

O Estado Pós-Morte dos Justos

Não-Iniciados            ...              ...              ...

Dos que se Arrependem e Novamente Caem

As Glórias Acrescentadas dos Salvadores de Almas

Acerca dos Irreconciliáveis . . .              ...

Da Infinita Compaixão do Divino

Dos que Imitam os Mistérios        ...

Podem as Dores do Martírio ser Evitadas  494  O Mistério da Ressurreição dos

Mortos      ...              ...              ...              ...

O Transporte dos Discípulos                 ...

Que este Mistério Deve ser Mantido em Segredo

A Constituição do Homem           ...              ...

O Desejo Maligno que Constranje um

Homem a Pecar         ...              ...

O Estado Pós-Morte do Pecador       ...

E dos Justos Iniciados               ...

" Concorda com o Teu Inimigo"    ...              ...

A Impressão dos Pecados nas Almas...  499  A Queima dos Pecados pelos Fogos

dos Mistérios do Batismo   ...              ...

O Infinito Perdão dos Pecados               ...

Mas Não Demores a Arrepender-te         ...              ...

Pois em Certo Tempo as Portas da

Luz serão Fechadas              ...              ...

" Não sei de onde vós sois"...

O Dragão das Trevas Exteriores                ...

O Trago do Esquecimento           ...              ...

SINOPSE DO CONTEÚDO.

XXVII.

PÁGINA

Os Pais que Devemos Deixar  ...

Os Livros de Ieou Novamente          ...  505  O Cristo, o Primeiro desta Humanidade a

Entrar na Luz  ...  506  É Ele Quem Segura as Chaves dos

Mistérios               . . .  506  SUMÁRIO DOS EXTRATOS DOS LIVROS DO

SALVADOR        ...  ...  ...  507—

Os Membros Imanentes do Inefável    ...

O Cristo é o Inefável        ...

A Gnose do Cristo                            ...

A Iniciação dos Discípulos no Monte

O Primeiro Véu é Afastado

Eles Entram no Caminho do Meio         ...

A Ordenação da Esfera do Destino é Descrita  510  Todos os Mistérios até o Tesouro de Luz são

Prometidos a Eles     ...              ...              ...

As Punições dos Caminhos do Meio

A Duração das Punições            ...

Os Discípulos Oram por Misericórdia aos Pecadores  513  Eles Entram numa Atmosfera de Luz

Excessivamente Grande          ...              ...

A Visão dos Mistérios do Batismo      ...

Eles Retornam à Terra

A Celebração da Eucaristia Mística

Os Mistérios que Devem ser Revelados...  515  A Punição dos Pecadores nas Regiões Inferiores    e    os    Corpos    Malignos    que

Recebem ao Renascer         ...              ...

O Cálice da Sabedoria  ...              ...              ...

A Nota de um Escriba  517  RESUMO DOS FRAGMENTOS DO LIVRO DO GRANDE LOGOS SEGUNDO O MISTÉRIO                                               ...  518 —

XXV111.       FRAGMENTOS DE UMA FÉ ESQUECIDA.

PÁGINA

O Livro das Gnoses do Deus Invisível

A Sabedoria Oculta...              ...              ...

Um Dito Obscuro é Explicado    ...              ...

A Carne da Ignorância              ...              ...

Os Mistérios do Tesouro de Luz...

A Serem Revelados Somente aos Dignos    ...

Os Mistérios Menores...              ...              ...

Os Bons Mandamentos         ...              ...

Os Mistérios Maiores                ...              ...

Os Poderes que Conferem            ...              ...

O Rito Místico do Batismo da

Água da Vida      ...              ...              ...

O Batismo de Fogo  ...              ...

O Batismo do Espírito Santo  526  O Mistério de Retirar o Mal dos

Governantes             ...              ...              ...

Os Poderes que os Mistérios Menores Conferem

O Mistério do Perdão dos Pecados

Os Poderes que Confere                ...              ...

A Ordenação dos Tesouros de Luz        ...

A Grande Luz          ..               ...              ...

Invocação ao Deus Verdadeiro      ...              ...

Invocação ao Inacessível            ...

O Mistério dos Doze Éons... ...

O Décimo Terceiro Éon... ...

O Décimo Quarto Éon... ... ... ...

Os Três Grandes Governantes ... ... ...

Acerca de leou, o Emanador do

Mundo de Luz do Meio ... ... ...

O Tetragrama ... ... ... ...

O Tipo dos Tesouros ... ... ...

O Tipo do Verdadeiro Deus leou

Os Diagramas Místicos... ... ... ...

Embriologia Cósmica ... ... ...

SINOPSE DO CONTEÚDO.

xxix.

PÁGINA

O Selo na Testa de leou

Características Gerais dos Diagramas...

Os Doze a Ordem de Jesus 538 Hino ao Primeiro Mistério cantado nos Treze

O Décimo Terceiro Mon ... ...

Os Sessenta Tesouros ... ...

A Pequena Ideia ... ...

O Nome do Grande Poder 542 Hino ao Deus Inacessível cantado

no Sétimo Tesouro

Os Grandes Logoi segundo o Mistério

A Ideia Universal ... ...

Hino ao [1 Primeiro] Mistério

O Caminho do Meio

SELEÇÕES DO APOCALIPSE SEM TÍTULO

DO CODEX BRUCIANUS... ... 547—

O Primeiro Ser ... ... 54?

O Segundo Ser ... ...

A Cruz Suprema ... ...

Os Doze Abismos ... ...

A Fonte Primordial ... ... ...

O Não-Manifestado ... ...

O Manifestado, o Pleroma ... ...

Espaço de Três Faces e de Duas Faces

A Visão do Comentarista

Marsanes, Nicoteu e Fosilampes ... ...

O Logos Criativo ... ...

A Descida da Centelha de Luz

O Átomo Espiritual ... ... 554 Hino ao Logos ... ...

O Cristo ... ... ... ...

O Glorificado do Logos ... ...

XXX.


PÁGINA

A Reconciliação ... ... ...

Soteriologia ... ... ... ... ...

A Vestidura Inefável ... ... ...

A Purificação da Natureza Inferior ... ...

O Salvador do Mundo ... ... ...

A Promessa... ... ... ... ...

Os Poderes da Vestidura de Luz ... ...

As Mães dos Homens ... ... ...

O Cântico de Louvor da Mãe Acima

Os Mundos Ocultos ... ... ...

O Homem ... ... ...

O Senhor do Esplendor ... ... ...

Sua Promessa aos que Creem ... ...

A Oração do Nascido da Terra ... ...

Os Poderes do Discernimento São-lhes

Dados ... ... ... ... ... ...

A Escada da Purificação ... ... ...

O Filho de Deus ... ... ... ...

Hino à Luz ... ... ... ... ...

NOTAS SOBRE OS CONTEÚDOS DOS CÓDICES BRUCE E

ASKEW ... ... ... 567 —

O Parentesco dos Tratados Intitulados ...

Data

Autoria ... ... ... ... ... ...

Os Títulos ... ... ... ... ... ...

Os Livros de Ieou ... ... ... ...

O Provável Autor ... ... ... ...

A Obscuridade do Assunto ... ... ...

O Tratado Original Pistis Sophia

A Tradução Copta

Os Livros do Salvador

O Copista ... ... ... ... ... ...

O Esquema Pressuposto nestes Tratados

SINOPSE DOS CONTEÚDOS.

XXXI.

PÁGINA

Uma Apreciação do Tratado Sem Título

Não Deve Ser Atribuído a um Único Autor

Sua Base Apocalíptica ... ...

O Trabalho Excessivo ... ...

O CÓDICE DE AKHMIM ... ... 579 —

O Manuscrito e seus Conteúdos ...

O Evangelho de Maria ... ... ...

A Sabedoria de Jesus Cristo ...

Irineu cita o Evangelho de Maria

Um Exame de suas Declarações

O Pai ... ... ... ...

A Mãe ... ... ... ... ...

A Pêntade ... ... ...

A Década ... ...

O Cristo ... ... ... ...

A Origem Egípcia do Tratado ...

A Opinião de Harnack ... ...

A Importância do Manuscrito ...

ALGUNS DITOS ESQUECIDOS ... ... 593 —

Logos Rejeitados ...

Os Papiros de Oxirrinco

CONCLUSÃO -. 603-

POSFÁCIO ... ... ... 605 —

BIBLIOGRAFIAS ... ... 608 —

BIBLIOGRAFIA GERAL ... ... 609 —

Obras Antigas ... ...

Estudos Críticos anteriores a 1851 ... ...

Obras posteriores à Publicação da

Philosophumena em 1851 ...

XXXII.


PÁGINA

AS OBRAS GNÓSTICAS COPTAS ... ... 624 —

RESENHAS E ARTIGOS EM PERIÓDICOS INGLESES E

AMERICANOS ... ... 628 —

ATOS NÃO CANÔNICOS ...

GEMAS GNÓSTICAS (?) E ESTUDOS SOBRE ABRAXAS

OBRAS GNÓSTICAS MENCIONADAS POR ESCRITORES

ANTIGOS

OS TEXTOS MAIS RECENTES DOS PADRES DA IGREJA HERESIOLÓGICOS E SUAS TRADUÇÕES PARA O INGLÊS ... ... 631 —

ÍNDICE.

Abdias, 418.

Aberamentho, 514, 519.

Abirão, 226.

Aborto, 225, 269, 329, 340, 356.

Aboulfatah, 162, 163.

Abrasax, 280, 281, 282, 283.

Abismo, 188, 308, 312.

Acréscimos, 276.

Acembes, 208.

Achamoth, 334.

Atos, Gnósticos, 153, 415.

Atos, Leucianos, 417.

Atos dos Apóstolos, 128, 568.

Atos de André, 445.

Atos de João, 426, 434, 443, 445.

Atos de Pedro, 152, 417, 580.

Atos de Tomé, 403, 419, 422, 424.

Adão, 189, 190, 247, 299, 446, 447, 551; filhos de, 599.

Adão, Livro de, 126.

Adamant, 277, 406, 413.

Adamas, 465, 474, 510, 512; Sabáoth, 521, 527.

Adembes, 208.

Adityas, 327.

Éon, 207; divino, 390; décimo quarto, 532; incorruptível, 191; vivente, 311, 329, 344, 365; perfeito, 218; dos éons, 203; da noite, 208; décimo terceiro, 325, 466, 468, 476, 511, 515, 520, 522, 528, 531, 532, 539.

Éons, 173, 218, 313; nomes dos, 338; pais dos, 336; sede dos, 440; dez, 337; tesouros dos, 192; triacontada dos, 341; doze, 337, 465, 511, 531.

Éon-mundo, 313.

Etéreo, criação, 263; Jesus, 565.

Éteres, 208.

Estado pós-morte, 490, 497, 516.

Ágape, 235, 423.

Agatopo, 302.

Ágrafa, 412, 593.

"Concorda com teu adversário," 231, 499.

Agripa Castor, 147, 278.

Ahuramazda, 177.

Akasha, 204.

Códice de Akhmim, 152, 579.

Alexandre, 39, 97, 99, 279, 357.

Alexandria, 24, 53, 60, 69, 91,

Todo-Pai, 41, 385, 549, 583.

Todo-Mãe, 334, 375.

"Todas as coisas dependentes," 307.

Alegorias, 71, 79.

Unigênito, 218, 341, 388, 390, 553, 554, 555, 586.

Nascido-só, 551.

Alfa, 530.

Anagamin, 370.

Ananias, 580.

Anatólico, 287, 288, 354.

Anaxágoras, 68.

Anaximandro, 37.

Coração ancestral, 301.

XXXIV.


Ancião, de dias, 348; de eternidade, 397.

André, 445, 487, 581.

Ani, 393.

Anúncio, Grande, 165, 167, 170, 173, 174.

Antioquia, 175, 178, 288.

Antíteses, 226.

Ambrósio, 64.

Amém, 365, 431; primeiro, 527.

Amens, sete, 529; três, 523, 528.

Amru, 106.

Amshaspends, 177, 339.

Apelles, 250.

Aphredon, 551.

Afrodite, 511, 512.

Apocalipse, sem título, 547.

Apocalipses, 94.

Apócrifos, 94.

Apolônio de Tiana, 55.

Apologia, 381, 439, 483, 486, 499, 527, 600.

Apêndices, 276, 277, 301.

Sobre uma Alma Anexada, 277.

O Apóstolo, 245.

Arhat, 371.

Ararad, 505.

Arquimedes, 108.

Ardesianes, 355.

Ares, 510.

Ariano, 261.

Aritmética, 223, 335, 375.

Aristóbulo, 117.

Aristófanes, 109.

Aristóteles, 53, 104, 107.

Arrogante, 468, 469, 470.

Ascensão do pleroma, 478.

Ascetismo, 178, 184, 248, 274.

Códice Askew, 151, 343, 423, 453, 529.

Como Outros o Viram, 412, 594.

Astrologia, 207, 209, 283, 397.

Monte Atos, 212, 273.

Ilha Atlântica, 39, 40.

Átomo, 222, 223, 316, 318, 319, 320, 331, 554.

Expiação, 389, 556.

Atinge, 104.

Agostinho, 251.

Augusto, aniversário de, 3.

Autêntico, 304, 365, 504, 509, 512, 541, 542.

Axionicus, 288, 355.

B

Bebê, 274, 307.

Babel, 407, 410, 411.

Babilônia, 86, 89, 204.

Bacchi, 10.

Mistérios Báquicos, 67, 81.

Baco, 534.

Balança, 512.

Batismo, 176, 238, 377; mistérios do, 499, 533, (visão do) 514, (fogo do) 500; mito da pomba, 371; de fogo, 522, 526; de incenso, 515; de Jesus, 278; do Espírito Santo, 515, 522, 526; do meio, 511; do direito, 511; de água, 515, 522, (da vida) 524.

Consagração batismal, 380.

Barbelo, 178, 334, 514, 515, 531, 583, 584, 585, 586.

Barbelo-Gnósticos, 167, 568, 583, 589.

Barcabbas e Barcoph, 278.

Bardesanes, 288, 355, 392, 414, 420.

Bardesanitas, 395.

Bar-Manu, 393.

Livro de Baruque, 193, 196.

Basílides, 253.

Basilisco, 474.

Baur, 166.

Belzebu, 349, 350.

Amado, povo do, 305.

Dia do Conosco, 343.

Grande Pássaro, 473.

Nascimento novo, 203; de Hórus, 60; segundo, 191, 519; do homem espiritual, 60.

ÍNDICE.

XXXV.

Nascimentos de alegria, 550; de matéria, 563.

Amargo, 215, 598.

Flores, 442.

Corpo, 496.

Livro de Adão, 126.

Livro de Baruque, 193.

Livro dos Mortos, 301, 343.

Livro das Gnoses do Deus Invisível, 518.

Livro do Grande Logos segundo o Mistério, 152, 455, 457, 567.

Livro das Leis dos Países, 394, 398.

Livros de leou, 455, 487, 505, 533, 569.

Livros do Salvador, 151, 374,

507, 546, 567, 573. Seio, de Abraão, 351. Limite (ver Limite) 307, 342, 343; grande, 313, 379; altíssimo, 313.

Brahmarandhra, 205. Cérebro, 211. Sopro, grande, 330; de suas bocas, 467.

Câmara nupcial, 419, 421. Brooke, 391. Prostíbulo, 169. Irmão, Jesus meu, 475; Paulo nosso, 568.

Bruchion, 98, 100, 103, 105. Bubastis, 512. Buddha, 7, 37. Insetos, história de João e os, 443.

Burton, 145. Bythus, 312, 321, 323, 325, 327.

Caduceu, 185. Caim, 190, 224, 226. Cainitas, 198, 224. Chamado, 47, 199. Calígrafos, 103. Calímaco, 109.

Cânon, 121, 241, 243.

Canopus, 97, 103.

Cafarnaum, 244.

Capparatea, 175.

Caracala, 393.

Caravançará (ver Estalagem), 301, 443.

Carpócrates, 229.

Caverna, 435.

"Não cesses de buscar", 489.

Cécrops, 41.

Celbes, 208.

Celso, 150, 183, 233, 589.

Cerdo, 240.

Cerebelo, 211.

Cerinto, 237.

Caldeu, influência sobre o judaísmo, 93; logia, 172; mistérios, 51, 58, 89; culto das estrelas, 206; tradição, 43, 94.

Caos, 188, 208, 328, 469, 470, 471, 497; filho do, 189.

Carino, Lúcio, 417.

Chads, 588, 595.

Carismático, 124.

Chassidim, 93, 94.

Criança, pequena, 406; do caos, 189; da criança, 523, 528.

Crianças, pequenas, 598; da vida, 303; da plenitude, 524; da luz, 521; da verdadeira mente, 519.

Quiliasmo, 124.

Choiic, 199.

Corizantes, 104.

Eleito, de Deus, 90/92; povo, 87, 128.

Chrestos, 249.

Crisma, 205, 382, 515, 522.

Cristo, 227, 273, 327, 378, 448, 542, 556, 586, 587; um, 484; acima, 190; e o Espírito Santo, 341; distinto de Jesus, 427; gnose histórica de, 508; invocação a, 380; é o Verbo, 448; Jesus, 368; corpo místico de, 354; nome de, 422; o, 507, 555; o grande mestre, 430.

XXXVI.


Christliche Welt, Die, 4. Cristos, 176, 343, 595, 599. Circuitos (Turnês), 446. Cidade, 419, 421, 547, 557, 566, 602.

Cidadãos do céu, 82. Palmas das mãos, 79. Cláudio, 109. Argila, 208, 351. Clemente de Alexandria, 119, 148, 418. Literatura clementina, pseudo, 162, 164, 166. Cleóbio, 164.

Cleópatra, 98, 99, 106, 110. Quarto interior, 70. Túnicas de pele, 190. Códice, Akhmim, 152, 579; Askew, 151, 343, 423, 453, 529; Brucianus, 151, 192.

213, 303, 312, 374, 382, 421,

454, 515, 529, 591. "Vinde a nós," 409, 462;

dia de, 343.

Mandamentos, bons, 522. Commodus, 250. Fruto comum, 331, 345, 346,

349, 351, 352. Comunismo, 234. Comunidades, 30; místicas, 60;

Órficas, 50; variedade de,

85. Comunidade, Mareótica, 85; de

amigos, 305. Compêndio, 148; de Hipólito,

14, 149; de Justino, 178;

de Teodoreto, 150. Concepção, 169, 173. Sobre o Destino, 394. Sobre a Descendência de

Maria, 198. Confúcio, 37. Conglomeração de mistura de sementes,

262, 265, 272, 276. Consumação, final, 270; de

primeiro mistério, 503; gnóstica,

405.

Conversão, 448, 449; das esferas, 465, 466, 467.

Conybeare, 61.

Goran, 226.

Cantos, quatro, 525, 542.

Mistérios Coribânticos, 67.

Espírito contrafeito, 276, 471, 496, 498, 499, 500, 504, 505.

Leito, 433; leitos, 76.

Crátilo, 200.

Crítias, 39.

Cruz, 221, 330, 342, 343, 352, 371, 445, 446, 447, 548, 550, 559; endereço a, 445; arbusto de, 435; iniciação da, 438; mistério da, 435; de luz, 435; redenção da, 447; de madeira, 436; salvação da, 229; superna, 548.

Crotona, 50.

Crucificado no espaço, 330.

Crucificação, 227.

Crucificar o mundo, 303, 518.

Cubo, 222, 317, 324.

Cumont, 279.

Cálice, de água vivificante, 215; de sabedoria, 516.

Cureton, 394.

Chipre, 296.

Ciro, 89.

Hierarquias demoníacas, 512;

poderes, 190. Demônios, 59, 301. Daevos, 59. Daisan, 392. Dança, 80, 433, 437; circular,

; de iniciação, 431. Daniel, Livro de, 25. Escuridão, 188, 390; dragão da,

490, 492, 503; exterior, 490,

503, 546.

Escuridão, A Luz e a, 394. Dathan, 226. Daveithe, 588.

ÍNDICE.

XXXV11.

Davi, 588.

Dia Conosco, 343; grande,

; de luz, 487; de perfeitas

formas, 349; sexto, 371. Mortos, 203; orações pelos, 381,

; ressurreição dos, 494,

; ressuscitou-o dos, 354;

levantar-se dos, 176. Morte, face da, 304. Década, 82, 323, 324, 326, 378,

551, 586. Decanos, 510, 539. Deficiência, 225, 265, 328, 343,

379.

De Legatione, 65. Deleites do mundo, 496. Demiurgo (ver Artífice), 180,

262, 264, 307, 348, 349, 355,

372, 381, 533. Demócrito, 68. Profundidade, 313, 352, 547; além

ser, 312; inefável, 188. Profundezas, doze, 548. Deserto, 186. Destino, 496, 497, 498. Destruição das Falsas Doutrinas, 246.

Deucalião, dilúvio de, 40. Devas, 59, 363. Devi, 363.

Diabolus, 232, 349, 350, 384. Diagrama do homem da verdade, 367; dos Ofitas, 589. Diagramas, 536, 537. Diálogos contra os Marciomitas, 394. Diáspora ou Dispersão, 91, 135, 361.

Didascaleion, 119, 120. Dionísio, 42, 49. Docetismo, 217, 302, 328, 426, 427. Dodecada, 323, 324, 432, 536, 551. Dodecaedro, 209, 222, 317; rômbico, 325. Dollinger, 64. Porta, 433, 436.

Dositeu, 162.

Pomba, 377, 423, 424, 459; mito batismal de, 371; pai em forma de, 238, 278, 354, 515.

Dragão, grande, 490; das trevas, 490, 492, 503, 510.

Seco, vergonha do, 424.

Anão, 439, 598.

Águia, 262, 410.

Terra, mais bela, 194.

Ebion, 127, 237.

Ebionismo, 126, 165, 226, 237.

Eco, 365, 373.

Economia, 373, 378.

Éden, 194, 204, 334.

Edessa, 392.

Ovo, 185, 214, 320, 331.

Egito, 407, 466; antes do dilúvio, 40, 569; conquista persa de, 59; pragas de, 222; o corpo, 186; sabedoria de, 38, 57.

Egípcio, disciplina, 237; mistérios, 51, 58.

Eleito, 93, 199, 275, 303, 365, 468.

Eleleth, 588.

Elemento, esquema do uno, 367.

Onze anos, 459.

Eleusínia, 49, 50, 51, 202.

Eleutero, 296.

Elias, alma de, 461; por vir, 220.

Elkesai, 127.

Elohim, 189, 190, 194.

Embriologia, 281, 505, 536.

Encratismo, 178.

Energias, 436.

Enformação segundo a substância, 329, 376; segundo o conhecimento, 329, 376.

Enadas, 551.

XXXVIII. FRAGMENTOS DE UMA FÉ ESQUECIDA.

Enncea, 321, 323, 325.

Enoque, 487, 505, 569.

Efemeristas, 75.

Efraim, 395.

Epifânio, 127, 233.

Epifânio, 150, 589.

Epifania, 234.

Epopteia, 355.

Erani, 50.

Eratóstenes, 108.

Erecteu, 41.

Esaú, 226.

Essênios, 66, 84, 93, 94, 101, 131, 162, 227, 279. Eta, 532. Euclides, 108, 314. Eucaristia, 248, 423, 515, 526. Escatologia eudemonística, 142. Eulógio, 306. Eumenes, 104. Eufrates, 204, 208. Eusébio, 61, 62, 64, 150. Eva, 189, 190, 247, 351. "Se um homem não nascer da água", 221.

Excomunhão, 241, 295. Exegética, 254, 255, 274. Ex nihilo, 259. Êxodo (ver Saída) mito, 186.

Exterior dos exteriores, 462, 506. Excertos de Teódoto, 287, 292, 332, 356. Ezequiel, visão de, 94. Eznik, 246.

Face, 176, 303, 304, 422, 548.

Faces, autênticas, 504.

Queda, na matéria, 470; de Sofia, 305; da alma, 334.

Destino, 395, 397. Destino, Sobre o, 394. Esfera do destino, 209, 465, 477, 498, 505, 510.

Pai, somente bom, 301; "aquele que deixar," 504, 509; linguagem de meu, 533; -mãe, 336, 337, 338.

Paternidade, 368.

Paternidades, sessenta, 544.

Temor, 361; mistério de seu, 546; do Senhor, 267, 348.

Décimo quinto ano de César, 278.

Quinquagésimo dia, 74, 75.

Cinquenta, 82.

Figueira, 218.

Filioque, 261.

Fogo, 171, 468, 490; em Alexandria, 105, 109; batismo de, 522, 526; dedo de, 329; flor de, 172; oculto, 171; vivificante, 219; névoa, 185; árvore, 172.

Firmamento, 262, 263, 266, 311, 464.

Primogênito, 560, (filhos de Satã), 13, 32, 174; últimos serão, 478; primeiro homem, 188, 190, 191, 371, 447, 448, 498, 584, 585; primeiro estatuto, 463, 465; primeira mulher, 188.

Peixe, 261, 270.

Cinco, livros, 385; impressões, 529; membros, 422, 423; sustentáculos, 529; árvores, 523, 529, 544; silêncio de cinco anos, 278, 282.

Carne, da ignorância, 520; perfeita, 582; dos governantes, 468; da injustiça, 519; língua de, 438, 552, 578; Verbo feito, 390.

Dilúvio, 40, 505, 569.

Flora, Carta a, 383.

Presciência, 585.

Previdência, 550, 585.

Remissão dos pecados, 501, 523, 527, 530, 531, 533.

Informidade, 268, 270, 329.

"Por esta causa dobro meus joelhos," 352.

Fortuna, 398, 399, 400.

ÍNDICE.

XXXIX.

Quarenta e nove, 464, 465, 471, 506, 523. Quatro, 374; grandes luzes, 588; santos, 377; quadrantes, 509, 525, 542; paixões primordiais, ; superiores, 363. Quatro Quadrantes do Mundo, 167. Vinte e quatro invisíveis, 476. Vigésimo quarto mistério, 462.

Décimo quarto éon, 532. Quarta, dimensão, 318; evangelho, 260, 388, 391. Livre-arbítrio, 399. Frutos do espírito, 338.

Gabriel, 377, 473.

Galileus, 306.

Galileia, 524, 582; monte de, 515.

Vestimenta, uma, 425; nupcial, 405.

Porta, Canópica, 103; "Eu sou a verdadeira," 202; dos céus, 203; do Senhor, 202; da verdade, 204.

Gates, 538; de luz, 502, 503; do poderoso, 333; do tesouro, 474.

Gazzah, 406.

Genesaré, 430.

"Deus geometriza," 314.

Dons do espírito, 441.

Gitta, 164.

Boas novas, 243, 256, 517.

Glaucias, 254.

Glorificado do Logos, 556.

Glória, hino do manto da, 406, 419; rei da, 421; manto da, 460, 461, 464, 520; vestiduras da, 472.

Gnose, 266, 446; basilidiana, 254, 577, (lado ético da), 273;

definição de, 32; glórias da, 480; judaica, 118; mônada, 236; esboços do pano de fundo da, 94; pré-cristã, 163, 183; suprema, 480; sintetização da, 289, 295; síria, 177; de todas as gnoses, 484; de Cristo, 508; da gnose do inefável, 508; de Jesus, 479; do mistério do inefável, 480; do pleroma, 481, 484, 503; das coisas que são, 32, 52.

"Deuses, vós sois," 487.

Êxodo, mito do, 185, 210.

Bem, 67, 201; mandamentos, 522; divindade, 195; Deus, 203, 243, 247, 441; terra, 340; "Por que me chamas," 201.

Gorteu, 164.

Evangelho, 266, 268.

Evangelho segundo os Egípcios, 198, 200, 233, 249.

Evangelho segundo os Hebreus, 126.

Evangelho segundo Maria, 580.

Evangelho segundo Tomé, 198, 201.

Evangelho de Eva, 198, 439.

Evangelho de Judas, 226, 228.

Evangelho de Maria, 152, 165, 199, 423.

Evangelho de Paulo, 244.

Evangelho da Perfeição, 198.

Evangelho de Filipe, 198, 439, 540.

Governantes, 399, 401.

Graça, 390, 432, 434, 436, 440, 554, 555, 558.

Gafanhotos, 73.

Gratz, 342.

Grande, pássaro, 473; corpo, 366; limite, 313, 379; sopro, 330; consumação, 421; dia, 462; abismo, 312; dragão, 490; elementos, 188; firmamento, 263, 311; colheita,

xl.


; lao, 529; ignorância, 270, 271; invisível, 532; antepassado invisível, 469; Jordão, 202; apenas um, 532; rei, 529; luz, 474, 523, 529, 587; luzes, 188; limite, 270, 272; logoi segundo o mistério, 544; logos, 544; o próprio homem, 529; mestre, 430; misericórdia, 270; mente, 205; mãe, 191; nome, 363, 514, 523, 542, 599; um, 378, 420; paz, 142; poder, 164, 171, 173, 185, 543; receptor, 467; governante, 262, 266, 267, 272; Sabaoth, 513, 529; mar, 40; silêncio, 311; alma, 467; apoiadores, 479; professor, 5; pensamento, 173; desconhecido, 309; festa de casamento, 397.

Grandeza, 352, 363, 372, 423, 424, 440.

Grandezas, 368, 537.

Pesar, 346.

"Os gregos são apenas crianças," 111.

Grenfell e Hunt, 600, 602.

Guardiões, 523, 528, 538.

H

Hades, 447.

Cabelo de sua cabeça, 548.

Pendurado na árvore, 343.

Harmógenes, 588.

Harmonia, 365, 436.

Harmozel, 588.

Harnack, 4, 144, 589.

Harpocratianos, 233.

Colheita, grande, 308.

Curadores, 61, 442.

Coração, ancestral, 301; das eternidades, 317; puro em, 300.

Céu, cidadãos de, 82; jornada, 468; reino de, 201, 202, 203, 514, 602; homem do, 371; guerras em, 208; mundo, 347. Céus, sete, 396. Homem celestial, 201, 202, 222, 300, 329, 330, 344, 423, 439, 566. Hébdomada, 264, 266, 268, 269, 271, 272, 273, 280, 307, 323, 333, 348, 349, 371. Hegésipo, 164. Inferno, 247.

Helena, 43: mito de, 168. Helena, 163, 168. Helenistas, 117. Hefesto, 40. Heracleão, 288, 391. Hércules, 194, 196. Heresias, Sobre as, 251. Hermes, 57, 201, 222, 511; primeiro, 570; três vezes grande,; pastor de, 438. Escolas herméticas, 57. Heródoto, 40. Hesíodo, 38, 43. Hésiquio, 388. Alta crítica, 14, 25, 242,; ego, 471; eu superior, 433; eus superiores, 421. Hiparco, 108, 211. Hipólito, 149, 212, 293, 590. Hiranya-garbha, 320. Lendas historicizadas de iniciação, 278.

Historicização da mitologia, 88. Hititas, 101. Santidade, graus de, 133. Santo, santo, santo, 554; dos santos, 374, 551; o Santo, 434; santos, 377; "O Espírito virá sobre ti," 269; mesa santa, 80; mulheres santas, 251. Homero, 44. Honestas, 55. Hormuz, 339. Cornucópia, 205, 222; um chifre,

222. Horos (Limite), 308.

ÍNDICE.

xli.

Horus, 233; nascimento de, 60.

Hort, 144, 250.

"Minha hora ainda não chegou," 271.

"Como o senhor do pleroma nos mudou," 464.

"Até quando vos suportarei," 487.

Hicsos, 58, 213.

Hyle, 139, 210, 246, 466, 471, 472, 474.

Hílicos, 193.

Hino, 431; Naasseno, 205; de Jesus, 431; de louvor, 462; dos poderes, 464; da veste de glória, 406, 419; da alma, 403; de boas-vindas "Vinde a nós," 462; à luz, 566; ao primeiro mistério, 539, 545; ao logos, 555; ao deus inacessível, 543; à sabedoria, 419.

Hinos, 394; contra as heresias, 395; de Bardesanes, 414, 420; de Efraim, 395; órficos, 45; penitenciais, 471; canto de, 79.

Hipátia, 96, 100.

Hircânia, 412.

Hystera, 225.

Hysterema, 225.

Hissopo, 73, 77, 80, 342.

I

"Sou um andarilho," 220.

"Eu sou aquele homem," 483.

"Eu sou aquele mistério," 502.

"Eu sou o deus de Abraão," 266.

"Eu sou a verdadeira porta," 202.

"Eu sou tu," 439, 598.

"Torno-me o que quero," 201.

"Não vim chamar os justos," 490.

"Reconheci a mim mesmo,"; "meu pecado," 268.

"Rasguei-me em pedaços," 488.

"Conheço a mim mesmo," 382.

"Sei quem tu és," 440.

"Reconheci a mim mesmo," 600.

"Irei para aquela região," 470.

labe (lave), 534.

labraoth, 510, 527, 540.

lacchus (Yach), 534.

laldabaoth, 189, 191, 192, 470.

lao, 381, 509, 534; grande, 529.

Gelo, 490.

Icosaedro, 222, 317.

Ideia, pequena, 537, 541, 543, 545.

Ideias, grandezas ou, 537.

Idolatria, 247.

Ídolos, coisas sacrificadas a, 239.

Adoração de ídolos, 300.

leou, 465, 504, 505, 510, 512, 513, 524, 529, 533, 534, 535, 540, 544; livros de, 455, 487, 505, 533, 569; selo na testa de, 537, 538; primeiro homem, 498; tipo do verdadeiro deus, 535.

leous, 537, 544.

lesssei, 126.

"Se não beberdes do meu sangue," 202.

"Se não fizerdes o direito como o esquerdo," 448.

Ignorância, 377, 472; carne de, 520; grande, 270, 271; natureza de, 520.

Iluminação, 377.

Ilusionistas, 217.

Ilusório, 427.

Imagem, 180, 304, 313, 349, 387, 424, 471, 547, 584; imagens, 305, 328.

Imaginação, 172.

Imóveis, 529.

Impassíveis, 529, 545, 555.

Impressões, cinco, 529.

xlii.


"No lugar onde estarei," 484.

Incenso, batismo do, 515.

Éon incorruptível, 191; tesouro do, 192; nomes-mistério, 511.

Incorruptibilidade, 440, 585.

Índia, 55.

Religião indiana, 393.

Individuitatis, principium, 344.

Indivisível, 552, 554.

Habitante da luz, 478.

Inefável, 462, 463, 464, 486; crisma, 205; primeiro mistério do, 479; gnose da gnose do, 508; membros do, 483, 485, 507; mistérios das vestimentas do, 501; mistério do, 481, 482, 494, 500, 507; nome, 543; uma palavra do, 481; espaço do, 477, 479; língua do, 482; vestimenta, 557.

Inefáveis, 566.

Infância, história da, 412, 474.

Herança da luz, 477, 478, 479, 483, 487.

Iniquidade, semente da, 504; ira da sua, 512.

Iniciação, 355, 370, 375, 380, 411, 423, 427, 462; cerimônias, 358; dança da, 431; graus da, 182; lendas historicizadas da, 278; montanha da, 598; da cruz, 438; dos discípulos, 508; vestes da, 405.

Iniciações, 382. Estalagem, 352.

Intercurso, mistério do, 469; com machos, 501. Interior dos interiores, 460, 462, 464, 506. Investidura, 462. Íon, 41, 43. Iota, 222.

Irineu, 147, 291, 582; não confiabilidade de, 280.

Isidoro, 273, 277, 301, 306. Ísis, 201, 323. Itálico, 287, 354. Ítie, 403.

Jacó, 202, 225.

Jâmblico, 57, 58.

Tiago, 580.

Jeová, 534.

Jerônimo, 150.

Jerusalém, 557; acima, 349, 351, 396, 421; abaixo, 435, 447; celestial, 340; igreja de, 119; destruição de, 92.

Jesus, 186, 199, 204, 221, 272, 302, 375, 353, 368, 376, 378, 472, 543, 565; um menino pastor, 197; o nome um substituto, 368; batismo de, 278; Cristo distinto de, 427, cósmico, 345; tradição ebionita de, 128; hino de, 431; Maria, mãe de, 474; meu irmão, 475; mistérios de, 532; nosso Deus, 442; pessoa de, 140; retrato de, 233; filho de Maria, 269; histórias de, 428; o mestre, 376; mistério da gnose de, 479; nome de seis letras, 369; gêmeo de, 424.

Jeu (ver leou), 534.

João, 237, 580, 581; Apócrifo de, 152, 580; discurso de despedida, 441; última oração de, 442; o virgem, 484; o batista, 162, 461.

Mito de Jonas, 447.

Jordão, 185, 186, 202, 204, 221.

Joseph, 475.

Josephus, 118.

Joshua, 186.

Alegria, 419; nascimentos de, 550.

Judas, 224, 226.

ÍNDICE.

xliii.

Judas Thomas, 419, 424; Atos de, 403. Juliano, 97. Justo, deus, 243, 384; um, grande,

Justino Mártir, 148, 178, 590. Justino, 193, 246.

K

Cabala, 94, 133, 361.

Kalapatauroth, 505.

Karma, 232, 265, 274, 394, 397, 399.

Kenoma, 307, 313.

Reino, dos céus, 201, 602; da luz, 481, 506; dos céus, 202, 203, (chaves de), 514; do meio, 308; dos mistérios, 491.

"Parente para mim", 437.

"Joelhos, Por esta causa dobro os meus", 352.

Conhecimento, "falsamente chamado", 384; movimentos de, 413; das coisas supramundanas, 254, 255; árvore de, 487, 505.

Conhecimentos, 413.

Kolarbasus, 127.

Kostlin, 574.

Krishna, 7.

Kronos, 510.

Kundalim, 204.

Kushan, 406.

Lago Maroea, 69, 97.

Lâmpada, 433.

Terra, leite e mel, 340; portadora de deuses, 555; boa, 340; prometida, 186; Siriádica, 58. Laotze, 37.

"Os últimos serão os primeiros", 478. Esquerda, 334, 348, 436, 447, 448, 449, 465, 466, 477, 513, 515, 523, 528, 548.

Leibnitz, 320.

"Haja luz", 259.

Atos leucianos, 417, 426.

Levi, 581.

Biblioteca, de Alexandria, 96, 98, 102; de Aristóteles, 104; de Persépolis, 279.

Vida, 389, 564; sopro, 320; filhos de, 303; divina, 372; eterna, 585; face de, 304; pai de, 404; fogo que dá, 219; água que dá, 197; do pai, 518; centelha, 180; árvore de, 446, 487, 505; virgem de, 526; água de, 201, 565; palavra e, 374.

Luz e as Trevas, 394.

Luz, 320, 380, 387, 434, 446, 564; atmosfera de, 514; raios, 75; ilimitada, 509, 525; filhos de, 521; coletor de, 467; cruz de, 435; coroa, 473; chamas, 504; dia de, 487; fluido, 189; portões de, 502, 503; grande, 474, 523, 529, 587; hino a, 566; imagem de, 471, 544; habitante interno de, 478; herança de, 477, 478, 479, 483, 487; reino de, 481, 484, 506; donzela, 397; mistérios, 479; do tesouro, 512; supervisor de, 465; poder, 470, 473, 496, 505; raio, 216; reino, 460; receptores de, 491; manto, 382, 404, 460; sete virgens de, 525; filhos de, 371, 511; centelha, 179, 180, 189, 190, 303, 305, 329, 465, 548, 554, 562, 584, 586, 599; centelhas, 214, 461, 600; esfera, 322; espírito, 586; corrente, 473, 483; correntes de, 504; três espaços da, 478; terça parte de sua, 465; tesouro, 466, 468, 523, 530; tesouro de, 477, 478, 509, 511, 514,

xliv.


520, 522, 525, 527; vestidura, 191, 468, 559; vestidura de, 460, 463, 483, 499; virgem de, 476, 491, 497, 498, 499, 517; água de pura, 584; mundo, 195, 311, 320, 322, 421, 459, 477, 540.

Luzes, grandes, 188, 512, 588.

Membros, 366, 437, 439, 445, 462, 482, 540, 547, 556, 600; cinco, 422, 423; do homem celestial, 566; do inefável, 483, 485, 507.

Limite (ver Limite), grande, 267, 270, 272, 343, 462, 463.

Espírito limitar, 262, 266, 267, 269, 272, 343.

Linus, 418, 446.

Lipsius, 150, 291, 415.

Pequeno, criança, 406; crianças, 598; ideia, 537, 541, 543, 545; homem, 439; meio, 531; um, 306; Sabaoth, 512, 516.

Liturgi, 539.

O Vivente, 380, 381, 382, 518, 520, 534, 554, 602.

Logia, caldeia, 172.

Logoi, ou logia, 294, 484, 507, 508, 593; rejeitados, 593.

Logos (ver Verbo), 56, 201, 207, 216, 330, 344, 368, 372, 373, 384, 388, 412, 433, 445, 535, 537, 544; criador, 553, 556; doutrina de, 58; glorificado de, 556; grande, 544; hino ao, 555; nascido da mente, 566; Osíris, o, 59; homem perfeito ou, 215; segundo aspecto de, 261.

Lote, 225.

Luminares, 588.

M

Madalena, 466, 484.

Magos, 271, 279.

Magia, 167, 175, 318, 466.

Magna Vorago, 331.

Mago, 167.

Maha-pralaya, 270.

Donzela, 419, 421.

Maimônides, 143.

Mainandros, 177.

Maishan, 407, 411.

Masculino-feminino, 173, 174, 199, 200, 218.

Malícia, mistério da, 522.

Homem, 273, 422, 433, 438, 439, 446, 547, 548, 550, 559, 562, 566; Adão, o, 551; e a igreja, 323, 337, 374; constituição do, 496; descida do, 446; doutrina, 188; primeiro, 188, 190, 191, 371, 498, 584, 585; do céu, 371; celestial, 201, 202, 222, 300, 329, 330, 344, 423, 439 (membros do), 586; ele mesmo, grande, 529; "Eu sou isso," 483; interior, 351, 352; último, 371; pequeno e grande, 439; novo, 353; da verdade, 366, 367; perfeito, 427; aperfeiçoado, 354; poderes do, 302; segundo, 188; filho do, 189, 199, 202, 378, M; filho deste, 222; filhos do, 372; espiritual, 271; teu, 440; caminho do primeiro, 448; mulher, 334, 584.

Mandaitas, 126.

Manetão, 40, 569.

Maniqueísmo, 392, 395, 416.

Mansel, 145.

Muitos, "chamados, poucos escolhidos," 47; "membros, um corpo," 507; "portadores de tirso, poucos bacantes," 10.

Marcianos, 177, 288.

Marcião, 25, 175, 240, 241.

Marcionita, antíteses, 226; igrejas, 242; movimento, 240.

Marcionitas, Diálogos contra os, 394.

ÍNDICE.

xlv.

Marcellina, 233.

Ritual marcosiano, 380.

Marcosianos, 288.

Marco, 287, 590; simbolismo numérico de, 358.

Comunidade mareótica, 69, 85; lago, 69, 97.

Mariamne, 199.

Casamento, 273; sagrado, 420.

Marsanes, 553.

Marta, 589.

Martírio, 275; dores do, 494.

Mártires, 249, 274; de Lyon, 292.

Maria, Sobre a Prole de, 198.

Maria, Genealogia de, 589.

Maria, Evangelho de, 152, 165, 199, 423.

Maria, Evangelho segundo, 580.

Maria, Questões de, 198, 454, 466.

Maria, Questões Maior e Menor de, 199, 589.

Maria, 353, 461, 506, 511, 581, 589; o corpo, 269; Jesus, filho de, 269; Madalena, 466, 484; mãe de Jesus, 474.

Masboteu, 164.

Matemáticos, 207, 361.

Mathesis, 294, 315.

Matriz, 334.

Matéria, 466, 471, 554, 557, 558, 560, 576; nascimentos da, 563; queda na, 470; devoram os seus próprios, 467; purgações da, 489; virgem da, 564.

Matias, 254.

Max Müller, 8.

Maya-vadins, 217.

Mayavi-rupa, 428.

Medula, 211.

Melquisedeque, 467, 512, 513, 526.

Membros, 539, 550.

Memórias dos Apóstolos, 162.

Menandro, 175.

Mercúrio, vara de, 185.

Misericórdia, grande, 270; perfeita, 422, 423.

Merintianos, 237. Metempsicose, 219. Metensomatose, 220. Metrópole do Unigênito, 553.

Miguel, 473. Espaço médio, 173, 188, 334, 348, 540. Meio, 308, 333, 488, 516; batismo do, 511; a terra se torna, 519; pequeno, 531; caminho do, 490, 510, 511, 513, 514, 546. Milcíades, 291. Mente, 173, 185, 205, 334, 388, 518, 519, 551, 561. Mente e verdade, 323, 336. Natureza mineral da alma, 277. Miriã, 81. Espelho, 433. Miscelâneas, As, 287. Mitra, 55, 56, 279. Mistura, 488, 496. Essência úmida, 204, 208. Maomé, 7. Mônada, 67, 222, 318, 335, 373, 548, 549, 550, 551, 555, 557. Gnose monádica, 236. Monadidade, 374. Monadologia, 320. Mosteiro, 70, 71. Cambistas, 596. Monoiimus, 222. Montanista, 251. Lua, 263, 473, 510. Moisés, 81, 185, 196, 222, 225, 266, 387; de Chorene, 393. Mosheim, 234. Mãe, acima, 191, 396, 561; respiração, 330; mistérios da grande, 203; de todos, 169, 185; de compaixão, 422; de muitos nomes, 334; dos vivos, 334; de trinta nomes, 379; sua mãe, 382; brilhante, 334; virgem, 58.

Monte, 370, 429, 430, 435, 439, 508, 598; Atos, 212, 273; da Galileia, 515; das Oliveiras, 435, 459.

Montanha, Sermão Secreto na, 440.

Mistérios, 46, 411, 431, 4:3; assírios, 200; báquicos e coribânticos, 67; marcos de fronteira dos, 490; caldeus, 51, 58; graus dos, 484; egípcios, 51, 58, 201; eleusinos, 51; maiores, 203, 522; gregos, 201; chaves dos, 506; reino dos, 491; menores, 203, 215, 522, 527; imitadores dos, 493; mitríacos, 55, 56, 279; do batismo, 499, 514, 533; da embriologia, 281; de Jesus, 532; de Seth, 58; do sexo, 184; da grande mãe, 203; órficos, 51, 216; filosóficos, 50, 51; frígios, 201, 202; pregação dos, 489; privados, 49; políticos, 49; ritual dos, 431; samotrácios, 202; estatais, 49; trácios, 202; doze, 485.

xlvi.


Mistério, 356, 437; segundo o, 152, 455, 457, 544, 567; culto, 49; drama, 433; fogos do batismo, 500; primeiro, 459, 460, 461, 462, 463, 464, 465, 472, 473, 474, 477, 478, 479, 482, 493, 500, 502, 503, 506, 507, (hino ao) 539, 545, (mistério do) 479, (espaço exterior do), 479; vigésimo quarto, 462; "Eu sou isso", 502; mantido em segredo, 495; último, 462, 463; olhar para dentro, 486; mitos, 191; nomes, 511; da quebra dos selos, 498; de toda natureza, 447; de intercâmbio, 469, 510; da cruz, 435; do perdão dos pecados, 523, 527, 530, 531, 533; do inefável, 479, 480, 481, 482, 494, 500, 507; da luz de teu pai, 515; da ressurreição dos mortos, 494, 495; do crisma espiritual, 522; dos doze éons, 531; do seu temor, 546; do afastamento do mal, 522, 527; relativo ao, 552; que era desconhecido, 269, 353; tipo de raça, 471; mundo além, 462; entre o céu e a terra, 439; sabedoria declarada no, 268.

Mirra, 420.

Murta, 420.

Vozes místicas, 365.

Mito, Êxodo, 185, 186, 210; Jonas, 447; de Helena, 168; de Pistis Sophia, 469; de Valentim, 306.

Mitologização da história, 88.

Mitologia, 332.

Muesis, 355.

Mulaprakriti, 258.

N

Naas, 196.

Naassenos, 198.

Documento naasseno, 198; hino, 205.

Nadis, 597.

Nahashirama, 392.

Prego da disciplina, 449.

Nome, 300, 304, 377, 381, 440, 462, 516, 565; autêntico, 541, 542; eco do, 365; grande, 363, 514, 523, 542, 599; inefável, 543; "Jesus" um substituto, 369; de Cristo, 422; do grande poder, 542; do poder, 282; do pai, 509; da verdade, 380; de seis letras, 368.

Nomes, 374, 550; autênticos,

ÍNDICE.

xlvii.

365, 509, 512; imperecíveis, 545, 546; mãe de muitos, 334, (de trinta), 379; dos filhos, 338.

Lugar estreito, 560, 564.

Natividade, 400, 402.

Natureza, 399, 400; de sete vestes, 210; superior, 437.

"Nada era," 257.

Nazareno, 580.

Nazarenos, 126.

Neander, 144, 236.

Rede, 440.

"Nunca envelhecer," 176.

Nicolaítas, 213, 239.

Nicópolis, 100.

Nicoteu, 553.

Noite, 208.

Nilo, celestial, 204.

Nove vezes maior, 476.

Nônuplo, 548, 559.

Nínive, 447.

Nirvana, 142, 236, 474.

Átomo nirvânico, 319; oceano, 330.

Vale Nitriano, 101.

Noé, 190.

Nochaitse, 198.

Mundo noético, 320.

Nomina barbara, 339.

Não-número, 373, 374.

Norton, 145.

Nulidade, 373.

Nuhama, 392.

Número, letras, 359; nupcial, 83; de almas perfeitas, 467, 486, 502, 503; permutações, 375; simbolismo, 358; teorias, 222.

Números, 82, 516.

Juramentos de segredo, 416. Esquecimento, 496; gole de, 504, 516. Oceano, 186, 202, 326, 330, 509, 545.

Octaedro, 222, 317, 324.

Ode a Sophia, 419.

Odes, de Basilides, 255; de Salomão, 470, 572.

Ogdôada, 266, 268, 269, 271, 280, 307, 322, 323, 324, 333, 344, 345, 349, 350, 376, 396, 432, 587.

Omar, 106.

Ômega, 530, 532.

Ônfale, 197.

Sobre uma Alma Anexada, 277.

Sobre Heresias, 251.

Sobre a Justiça, 234.

Sobre a Alma, 251.

Um, 67, 374; e tudo, 321; e único, 486, 531, 556, 561, 562, 565; palavra, 482; vestimenta, 425; grande, 378, (justo), 532; santo, 434; chifre, 222; em mil, 282, 506; pequeno, 306; vivo, 380, 381, 382, 518, 520, 534, 554, 602; virgem, 218; palavra, 481.

Unidade, 373.

Unigênito, 341.

Onamacritus, 38.

“Abre-nos”, 503.

Ofianos, 183.

Ofitas, 181, 193; diagrama de, 589.

Ofitismo, 158.

Orgeones, 50.

Orígenes, 149.

Oroiael, 588.

Orfeu, 42, 44, 331.

Órfico, 49, 192; comunidades, 50, 54; hinos, 45; vida, 50; linha, 42; mistérios, 51, 216, 411; poemas, 38; canções, 45; tradição, 39.

Osíris, 59, 201, 323, 438.

Osirificado, 600.

Osymandyas, 103.

Contorno do rosto, 548.

Os Esboços, 292.

xlviii.


Supervisor, 547, 551; da luz, 465.

Ovum, 331, 536. Oxirrinco, 600.

Palas Atena, 41.

Panteno, 294.

Paraíso, 189, 190, 247, 334, 396, 487, 505. Paráfrase de Sete, 213. Paraplex, 513. Pergaminho, 104. Pais, dos eons, 336; devemos deixar, 504. Sem pais, 337, 524, 529. Paixão, 371, 378, 390, 434, 438, 446.

Paixões, 346, 347. Anel “Não-passarás”, 311. Pastas, 421. Paulo, 176, 248, 252, 499; Ascensão de, 226; Apocalipse de, ; igrejas de, 165; evangelho de, 244; cartas de, 123; nosso irmão, 568; Visão de, 227. Pérola, 407, 440. Pelasgos, 40. Pêntade, 423, 551, 584. Pentateuco, 388. Peratas, 186, 198, 206. Perfeito, eão, 218; divindade, 387;

carne, 582; liberdade, 557;

homem, 215, 302, 354, 427;

misericórdia, 422, 423; mente, 551;

número de, 467, 486, 502,

; triângulo, 74, 82. Perfeição, deus da, 495; Evangelho

da, 198; selo da, 423. Pérgamo, 105, 239. Persépolis, 279. Pessoa, 210; de Jesus, 140. Pedro, 176, 501, 581; Atos de,

152, 417, 580; Circuitos de,

164, 166; intérprete de, 254;

Martírio de, 446.

Controvérsia petro-paulina, 128, 166, 245.

Controvérsia petro-simoniana, 166.

Farisaísmo, 92, 93.

Faros, 97.

Ferecides, 37.

Filastro, 150.

Filipe, 466; Evangelho de, 198, 439, 540.

Fílon, 55, 117; e amantes da sabedoria, 60, 84; autobiografia, 84; Sobre a Vida Contemplativa, 61; pseudo, 62.

Philosophumena, 273.

Filoxeno, 397.

Filumene, 250.

Fliunte, 216.

Fosilampes, 553.

Fronesis, 588.

Mistérios frígios, 201, 202.

Glândula pineal, 211.

Pistis Sophia (Fé-Sabedoria), 339, 468, 470, 565; mito de, 469.

Pistis Sophia, 151, 199, 208, 281, 283, 290, 297, 303, 312, 343, 374, 382, 397, 398, 405, 409, 412, 449, 454, 529, 538, 567, 571, 578, 591; sistema de, 192, 574; tradução de, 456; tratado, original, 572.

Plágio por antecipação, 117.

Pragas do Egito, 222.

Planície, cidades da, 226; da verdade, 230.

Platão, 39, 45, 49, 51, 53, 314.

Platão, Número Nupcial de, 83.

Sólidos platônicos, 222, 314.

Pleroma, 207, 225, 311, 389, 461, 547, 550, 566; ascensão do, 478; limite do, 342; fruto comum do, 331, 345, 346, 349, 351, 352; configuração do, 551; drama, 327; emanação do, 499, 505; gnose do, 481, 484, 503; senhor do, 464; senhores do, 501; semente do, 377; filhos do, 511.

ÍNDICE.

xlix.

Pleromata, 305, 365.

Arado, 440.

Plutarco, 55, 56, 57.

Pneumáticos, 139, 421, 468.

Ponto, 218.

Polaridade, 321.

Poliedros, 314.

Origem poliédrica das espécies, 322.

Homens pobres, 126, 127, 166, 227, 427.

Porfírio, 25, 393.

Retrato de Jesus, 233.

Poseidon, 40, 99.

Poder, 547; acima, 334, 447; ilimitado, 173; demoníaco, 190; demiúrgico, 349, 372; grande, 164, 171, 173, 185, 542, 543; nome do, 282; do altíssimo, 269, 353, 377; manto do, 343, 344; supercelestial, 381.

Poderes, 462; cruéis, astutos, 474; quarenta e nove, 516, 523; do homem perfeito, 302; cântico dos, 409, 464; triplo, 468, 469.

Pralaya, 344.

Oração, última de João, 442; matinal, 82; do nascido da terra, 564.

Orações dos Terapeutas, 70; pelos mortos, 381, 494; sacramentais, 422.

Gnose pré-cristã, 163, 183.

Preuschen, 567.

Principalidades, 436.

Proasteioi até Mfher, 209, 280.

Proclus, 314.

Proculus, 291.

Filho pródigo, parábola do, 405.

Profetas, escolas dos, 86, 94.

Prouneikos, 334.

Providência, 274, 275.

"Providentissimus Deus," 14.

Pseudepígrafos, 85, 94.

Pseudo-Clementinas, 162, 164, 166.

Ptolemseus, 288, 590; a Flora, 293.

Ptolomeus, 57. Ptolomeu, 108, 383; I (Sóter), 98, 102, 104; II (Filadelfo), 104, 116; III (Evergeta), 105. Pululação, 259. Puranas, 204. Purgações da matéria, 468, 488, 489.

Esferas purgatoriais, 381. Purificação, graus de, 472; escada da, 565. Purusha, 301. "Não adies," 502. Pitágoras, 37, 39, 45, 51, 314. Comunidades pitagóricas, 50; triângulo, 82. Pitagóricos, 51, 82, 84.

Rainha do Oriente, 405, 411. Questões de Maria, 198, 199, 454, 466, 589.

R

Rabis do sul, 94.

Raça, 69, 437, 447, 564; eleita, ; tipo misterioso de, 471; da mente, 518; justa, 519.

Ragadouah, 99. Raguel, 588. Raciocínios, 250. Renascimento, 205, 220, 230, 354, 371, 381, 407, 504, 548. Receptor, grande, 467. Receptores, 486, 498, 499, 511, ; de luz, 491; de ira, 491, 497. "Reconheci-me," 540, 600. Mar Vermelho, 81, 186.

L Redenção, 265, 381, 471; angélica, 380; de Sophia, 334; da cruz, 447.


Reflexos, autogerados, 565. Refutatorii Sermones, 167. Regeneração, 371, 372, 376, 445.

Reinado de 1000 anos, 92. Entidade reencarnante, 301. Reencarnação, 167, 192, 231, 232, 274, 276, 404, 516. Parente do mistério, 552. "Remédio da Alma," 103. Reminiscência, 230, 236, 474. Renúncia ao mundo, 481, 485, 489.

"Arrependei-vos, não tardeis," 502. Arrependimento, 446, 449, 471;

lugar de, 565; cânticos de, 470. Arrependimentos, 470, 471. Resch, 412, 593. Restituição de todas as coisas, 364. Restauração, 265, 268, 270, 271,

273, 380. Ressurreição, 254, 404, 440,

; do corpo, 176; dos mortos,

494, 495.

Rhacotis, 99, 100. Rapsodos, 38. Rheinhardt, 579. Rhodon, 250, 251. Direito, 264, 334, 348, 357, 401,

411, 436, 447, 448, 449, 465,

466, 477, 478, 483, 488, 511,

512, 548, 563.

"Direito como o esquerdo," 448. Justos, 490, 498, 519, 551. Ritual, dos mistérios, 431;

Marcosiano, 380. Rios do Éden, 194. Manto, de glória, 460, 461, 464,

520, (hino do), 406, 419; de

iniciação, 405; de poder,

343, 344. Vara, 201, 222; a de Moisés, 222;

de Mercúrio, 185. Raiz, éons, 218; inferior, 436;

de imortalidade, 440; universal, 171.

Rudras, 327.

Governante, 264, 439, 498; grande, 262, 266, 267, 272.

Governantes, 230, 467, 469, 497, 498; maus, 526; carne dos, 468; setenta e dois maus, 522; três grandes, 532.

Sabaoth, Adamas, 521, 527; grande, 513, 529; pequeno, 512, 516.

Sacrifícios, 93.

Saduceus, 163.

Sais, 39.

Sakadagamin, 370.

Salmon, 236, 246, 424, 443.

Salomé, 233, 598.

Sal, 73, 77, 80, 440; pão e, 80; com, 425.

Crônica Samaritana, 162.

Mesmo, 234.

Mistérios samotrácios, 202.

Samsara, 197, 303, 381.

Sarbug, 407, 410.

Satã, 436; filhos de, 13, 32, 174.

Saturnino, 177.

Salvador, 58, 207, 271, 273, 505; Livros do, 374, 454, 507, 546, 567, 573; primeiro, 485; da verdade, 381; palavras do, 385.

Salvadores, 176; das almas, 492; doze, 461; gêmeos, 529.

Schmidt (Carl), 159, 538, 545, 552, 567, 574, 577, 579, 588.

Schwartze, 146, 281.

Selos, 214, 219, 317, 423, 498, 499, 537, 538.

Secularização do Cristianismo, 136.

Secundus, 287, 357.

Mistura de sementes, 263; conglomerado da, 262, 265; de todos os universos, 258; de iniquidade, 504; do pleroma, 377.

ÍNDICE.

li.

Selene, 163, 168.

Ancianidade, 75.

Septuaginta, 104.

"Sepulcros, Sois branqueados," 203.

Serapeum, 97, 99, 105, 106.

Sermão da Montanha, Secreto, 440.

Serpente, 189, 206, 215; e ovo, 185, 331; voadora, 331; formada, 189, 190; lenda, 167; vara, 185; símbolo, 183.

Força serpentina, 185, 222.

Servo, vestimenta de um, 215, 216; forma de um, 247.

Servidores, 76.

Seth (ou Set), 58, 59, 213; mistérios de, 58, 59; Paráfrase de, 213.

Setheus, 213, 551, 553.

Setianos, 213.

Sete, 74, 82, 323, 422; améns, 529; Elohim, 190; cabeças, 474; céus, 396; grandeza numerada, 372; pilares, 333; Ísis revestida, 323, (natureza), 201; esferas, 379, 396; estrelas, 398; tempos, 491; virgens da luz, 525; vozes, 516, 523, 524, 526, 529; discípulas mulheres, 582; anos, 201.

Sétimo dia, refeição comum, 73.

Setenta, 116, 375, 522.

Severianos, 251.

Shakti, 363, 432, 595.

Vergonha, do seco, 424; vestimenta de, 598.

Ovelha, 270; perdida, 169.

Sheol, 447.

Menino pastor, Jesus um, 197.

Oráculos Sibilinos, 126.

Siddhis, 302.

Sige, 327.

Silêncio, 173, 313, 336, 341, 377, 378, 423, 548, 564; grande, 311; de cinco anos, 278, 282.

Silêncios, 524, 529.

Simão, 583; Mago, 168, 164; de Cirene, 283.

Literatura simoniana, 167.

Simonianos, 160, 423.

"Não pecou, Ele," 275.

Sinope, 241.

Pecados nas almas, estampagem de, 499.

Terra siriádica, 58.

Sírius, 58.

Sitianos, 198.

Sessenta, paternidades, 544; tesouros, 540.

Skemmut, 505.

Pele, vestes de, 190.

Lodo, abissal, 208.

Smith e Wace, 144.

Salomão, 557; odes de, 470; selo de, 317; Sabedoria de, 298.

Sólon, 39, 40.

Filho, unigênito, 390; de Deus, 269, 565; do homem, 189, 191, 199, 202, 378, 581; do pai, 60; do vivente, 404;

Filhos, de Adão, 599; Deus, 5, 266, 268, 303, 353, 354; luz, 371, 511; Satanás, 174; o homem, 372; o pleroma, 511.

Filiação, 259, 260, 264, 354, 555; salvador da, 262; segunda, 261; terceira, 262, 263, 265, 272, 303.

Sophia, 188, 189, 298, 304, 339, 561; queda de, 305; dor de, 346; mito, 306, 333, 335, 469; ode a, 419; redenção de, 334.

Soria y Mata, 314, 322.

Soteriologia, 355; de Basilides, 265.

Sothis, 58.

Alma, 277, 387, 496; revestida de uma própria, 272; descida de, 334, 471; grande, 467; hino da, 403; de Elias,

lii.


; Sobre um Apêndice, 277; Sobre a, 251; natureza vegetal de, 277; natureza mineral de, 277.

Almas, exaladas, 219; classes de, 139; ida e vinda das, 26; frenéticas, 495; em encarnação, 488; retorno das, 23; salvadoras das, 492. Espaço, bendito, 261; crucificado no, 330; primeiro, 492; limite, 267; meio, 173, 334, 348; do primeiro mistério, interior, 478, 479; do inefável, 477, 479; dos doze eões, 465; sol, 263. Espaços, de luz, três supernos, 478; três, 529; de três faces e de duas faces, 551; gêmeos, 463, 477; sublunares, 264, 268.

Espermatozoide, 331, 536. Esfera, destino, 209; primeira, 464; segunda, 465.

Esferas, conversão das, 465, 466, 467; purgatoriais, 381; sete, 379, 396. Aranha, 259. Espiral, 331.

Espírito, 434, 475; batismo, 515, 522; falsificado, 276, 496, 498, 499, 500, 504, 505; excelente, 305; frutos do, 338; dons do, 441; santo, 260, 261, 262, 278, 327, 353, 377, 378, 397, 422, 526; como uma pomba, 354; limítrofe, 266, 267, 269, 272, 343; vivente, 420; "virá sobre ti", 269; virginal, 203, 531, 583, 584. Espíritos, 276; nascidos da mente, 563; mundanos, 236. Esplendor, senhor do, 562. Srotapanna, 370. O que está de pé, 163. Estatuto, 440, 564, 565; primeiro, 463, 465.

Regiões sublunares, 263; espaços, 264, 268.

Sol, 473; disco do, 510; em sua forma verdadeira, 476; luz do, 498, 510; espaço, 263; adoração do, 55.

Superfluidade de malícia, 524.

Supersubstancial, 566.

Desenvolvimento suplementar, 259.

Suplicante, 65.

Súplica, 346.

Sustentadores, 525; cinco, 529; grandes, 479.

Sínesis, 588.

Gnose siríaca, 177.

Sízigia, 305, 423, 468, 472; lei da, 321.

Suor dos corpos, 467.

Tabor, 597.

"Tenha coragem", 460.

Tantra, 367.

Tau, 438.

Lágrimas de seus olhos, 467.

Tehuti (Thoth), 57.

Teii, 323; eões, 337; tribos, 89.

Tertuliano, 149, 293, 590; pseudo, 149.

Tétrade, 323, 375, 377.

Tétrades, 357, 378.

Tetragramaton, 132, 534.

Tetraedro, 222, 317.

Tétractis, 350, 373, 390.

Thalatth (Tiamat), 209.

Tales, 37.

Aquilo-que-é, 553.

Tebaida, 101.

Tebas, 103.

Telesis, 588.

Teócrito, 109.

Teodas, 294.

Teodoreto, 150.

Teódoto, 288, 292, 294, 357;

ÍNDICE.

liii.

Extratos de, 287, 292, 332, 356.

Teofrasto, 104, 223.

Theos, 329.

Terapeuta, nome, 66; ordem, 62.

Terapeutas, 62, 66, 101.

Terapêutrides, 66.

Terapeutas, 60, 63, 64; livros dos, 71; leigos discípulos dos, 84; conexão de Fílon com os, 84; orações dos, 70; regra, 72.

Teudas, 294.

Tíasos, 50.

Ladrões e salteadores, 353.

Terceiro, da sua luz, 465; ventrículo, 211.

Décimo terceiro éon, 325, 466, 468, 476, 511, 515, 520, 522, 528, 531, 532, 539.

Trinta horas, 460; dois, 419; éons, 421.

Trigésimo, 328.

Tomé, 602; Atos de, 419, 422, 424; palácio de, 424; Evangelho segundo, 198, 201; Judas, 419, 424.

Tote, 57.

Mil, um em, 506; anos de luz, 486.

Trácia, 42.

Mistérios trácios, 202.

Três vezes consumado, 474.

Três vezes espiritual, 524, 529.

Tronos, 484.

Tirso, 185; portadores, 10.

Timeu, 39, 299.

Tito, 92.

Tobe (ver Tybi), 278.

Tom, 547.

Língua, de carne, 438, 552, 578; do inefável, 482; da sabedoria, 421.

Tormentos, 504.

"Rasguei-me a mim mesmo", 488, 505.

Transcendentalistas, 186, 209.

Transfiguração, 459; história, 370.

Transmigração, 169, 276, 488, 499, 498, 503.

Tesouro, 267; portões do, 474; casa, 172; luz do, 512; de luz, 477, 478, 509, 511, 514, 520, 522, 525; véu do, 468, 469; purgações do, 488; segunda luz, 530.

Tesoureiros, 412.

Tesouros, 172; de luz, 527; do incorruptível, 192; sessenta, ; tipo de, 535.

Tesouraria, 406.

Árvore, 221; figueira, 218; fogo, 172; pendurado em, 342; vivificante, ; do conhecimento, 487, 505; da vida, 487, 505.

Árvores, 172, 194, 196; cinco, 523, 529, 544.

Triângulo, 207; perfeito, 74, 82.

Literatura trismegística, 57, 58, 223, 441.

Trismegisto, Hermes, 58, 440.

Guerra de Troia, 43, 44, 168.

Deus Verdadeiro, 530, 533, 534, 535, 537, 542, 559, 587; deuses verdadeiros, 543.

Palavra Verdadeira, 150, 183.

Verdade, 419, 549; corpo da, 366; diagrama da, 367; pai da, 377; porta da, 204; deus da, 304, 367, 485, 486, 508; nome da, 380; planície da, 230; salvador da, 381.

Doze, 323, 420, 422, 461, 500; éons, 337, 465, 511, 531; profundezas, 548; encarnação dos, 460; mistérios, 485; salvadores, 461; os, 538, 542; tribos, 202; anos, 523.

Gêmeo, de Jesus, 424; salvadores,

;    espaços,  463,  477.  Gêmeos,  423.  Tybi,  278,  459.

liv.

FRAGMENTOS    DE    UMA    FÉ    ESQUECIDA.

Typhon,  59.  Tiranos,  474,  465,  468.  Escola  de  Tübingen,  166.  Agitação,  276.

u

Inabordável,  543,  544  ;  deus,  521,  528  ;  deus,  hino  ao,  543  ;  único  e  somente,  531.

Incontíveis,  521,  529,  530,  545,  555,  566.

Significado  subjacente,  71,  79.

Unguento,  261,  262.

Incognoscível,  invisível,  565.

Desconhecido,  grande,  309.

Universalidade  além  do  ser,  257.

Imaculáveis,  529,  564.

Apocalipse  sem  título,  547.

Profundeza  inefável,  188.

Upanishads,  204,  301,  302,  307,  320,  439.

Valentinianismo,        285,        286 ;

escolas  de,  287.  Valentinus,  284,  289,  290,  294,

570,    578  ;     evangelho  de,   298 ;

mito  de,   306;     "os  de,"

285,   571  ;     Sabedoria  de,  298  ;

escritos  de,  297.  Vasus,  327.  Véu,  322  ;    primeiro,  509.  Véus,  538  ;    do  décimo  terceiro  éon,

;    do  tesouro,  468,  469.  Ventrículo,  terceiro,  211.  Vestidura,    547,    566 ;     inefável,

;    de  luz,  460,  483,  499  ;

de    vergonha,    598 ;     de    poder,

558.  Vestiduras,   562;    de  glória,  472;

de    luz,    463 ;     de   inefável,

501.

Videira,  verdadeira,  446.  Vinha,  475.  Virgem,    191,    377,    558;     João

o,  484  ;    feita  corpo,  221  ;

mãe,    58 ;     da  vida,  526 ;

de  luz,  476,  491,   497,  517,

(a  juíza),  498,  499  ;  matéria,

564;    uma,  218;    grávida,

;    ventre,  215,  225.  Espírito  virginal,   203,    531,    583,

584.

Virgindade,  75,  520.  Virgens,   251  ;     de   luz,    sete,

525.  Visão,    328 ;     de    Ezequiel,  94 ;

de  Jacó,  202  ;    de  Paulo,  227  ;

da  visão  dos  mistérios  do  batismo,  514.  Voz,  435,  448  ;  e  nome,  171.  Vozes,    sete,    516,  523,  524,

526,  529  ;   três,  536,  541.  Volkmar,  234.  Vórtice,  329,  331.

w

"  Desperta,  tu  que  dormes,"  201.

"  Peregrino,  eu  sou  um,"  220.

Água,  210  ;  acima,  viva,  200  ;  batismo  de,  515,  522  ;  "  Se  um  homem  não  nascer  da,"  221  ;  imagem  de,  424 ;  vivificante,  197,  216,  515;  da  vida,  201,  565,  (batismo  de),  524 ;  de  luz  pura,  584  ;  redemoinho,  323.

Águas  do  Jordão,  185,  204.

Caminho,  433,  448  ;  do  erro,  448  ;  do  primeiro  homem,  448  ;  do  meio,  498,  510,  511,  513,  514,  546;  para  deus,  3,  32,  223.

Casamento,  grande  festa,  397 ;  vestimenta,  405.

"  Quando  dois  forem  um,"  595.

"Onde está ele?" 475.

"Onde, então, ó Egito," 466.

"Coisas que odeio," 239.

Redemoinho, vasto, 331.

Turbilhão, poderoso, 185.

"Por que me chamas bom," 201.

Wiedemann, 301.

ÍNDICE.

Iv.

Vinho, jarras de, 524.

"Asa ou pensamento," 260.

Globo alado, 473.

Asas, 260.

Sabedoria, 27, 37, 169, 226, 331, 333; acima, 375, 396; abaixo, 376, 396; caldaica, 89, 94; taça de, 516; declarada em um mistério, 268; deus da, 57; deusa da, 41; harmonia da, 436; hino à, 419; amantes, 60; da divindade, 9; do Egito, 38, 57; de Jesus Cristo, 152, 580, 582, 589; de Salomão, 298; de Valentino, 298;

Dentro, olhando, 473, 474, 486.

Útero, impuro, 215; virgem, 215, 225; mundo, 225.

Mulheres discípulas, 75, 251, 582.

Verbo (ver Logos), 363, 368, 434, 435, 438, 448, 587; e vida, 323, 336, 374; Cristo é o, 448; feito carne, 390; um e único, 482.

Palavras, 354, 442, 507, 508; do Senhor, 138; do Salvador, 385; da verdade, 485; ou anjos, 352; ou mentes, 351; inefáveis, 269.

Obreiro (ver Demiurgo), 349, 350, 351, 353.

Verme, 180, 189.

Ira, 436; da sua iniquidade, 512; receptores de, 491, 497; obreiros de, 497.

Coroa, 442, 555, 557. Coroas, 556.

X

Xerxes, 38.

Yahoo, 534.

Yahweh, 92, 138, 179, 534; amigos de Deus, inimigos de, 225.

Yantras, 367. Yhvh, 534. Yoga, 302. Yogins, 429. Yod, 222.

Zahn, 417.

Zama, zama, 462.

Zelote, 94.

Zelotismo, 91, 92, 97.

Zeus, 511, 512; pai de todos, 41.

Zodíaco, signos do, 209, 325, 379, 448.

Zoroastro, 7.

Zoroastros, último dos, 37.

Logia zoroastriana, 172; tradição zoroastriana, 87.

Zoroastrismo, 91, 177, 278.

Zorokothora (Melquisedeque), 512, 525, 526.

INTRODUÇÃO.

Toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora, esperando a manifestação dos filhos de Deus.

PAULO (segundo a tradição gnóstica).

PROLEGÔMENOS.

O MISTERIOSO Tempo está mais uma vez grávido e em trabalho de parto para dar à luz seu vigésimo filho, conforme o mundo ocidental conta sua prole; pois, segundo os livros, apenas dezenove filhos de sua ninhada centenária viveram e morreram desde que Ele apareceu, a quem todos os cristãos consideram como Mestre do Caminho para Deus.

A consciência comum da Igreja Geral flui não apenas do fato de que todos creem ser Ele o Mestre do Caminho, mas da fé de que Ele é o próprio Caminho.

Este é o vínculo comum dos cristãos em todo o mundo, e este tem sido o símbolo de sua união através dos séculos.

Há cerca de mil e novecentos anos o Iluminador apareceu e a luz jorrou sobre o mundo — tal é o credo comum dos adeptos da grande religião do mundo ocidental.

Como diziam as inscrições honoríficas sobre o dia do nascimento do Imperador Romano Augusto, assim disseram depois delas todos os cristãos sobre o dia natalício de Jesus: "Este dia deu à terra um aspecto inteiramente novo.


O mundo teria ido à destruição se não tivesse jorrado dele, que agora nasceu, uma bênção comum.

"Justamente julga aquele que reconhece neste dia natalício o começo da vida e de todos os poderes da vida; agora terminou o tempo em que os homens se compadeciam de si mesmos por terem nascido.

"De nenhum outro dia recebe o indivíduo ou a comunidade tal benefício como deste dia natalício, pleno de bênção para todos.

"A Providência que rege sobre tudo encheu este homem de tais dons para a salvação do

o

mundo que o designam como Salvador para nós e para as gerações vindouras; das guerras ele dará fim, e estabelecerá todas as coisas dignamente.

"Por seu aparecimento se cumprem as esperanças de nossos antepassados; não só superou as boas ações dos tempos anteriores, mas é impossível que um maior do que ele possa jamais aparecer.

"O dia do nascimento de Deus trouxe ao mundo boas novas que estão ligadas a ele.

"De seu dia natalício começa uma nova era."

Assim reza a mais perfeita de uma série de inscrições recentemente encontradas na Ásia Menor e erigidas para comemorar a introdução do Calendário Juliano pelo Imperador Augusto.

Traz uma data correspondente ao nosso 9 a.C. (Ver artigo de Harnack em *Die christliche Welt*, dez. 1899).

A esperança dos adeptos do culto ao Imperador foi rapidamente desfeita; a expectativa da

PROLEGOMENA.

Cristandade permanece em grande parte não cumprida, pois

Os dezenove séculos que se passaram envelheceram, cada um, em anos de amarga luta, de guerras internas e das mais sangrentas, de perseguição e intolerância em coisas religiosas que nenhum outro período na história conhecida do mundo pode igualar. Testemunhará o século XX o cumprimento desta tão grande expectativa; pode-se dizer do tempo presente que "toda a natureza trava em conjunto, aguardando a manifestação dos Filhos de Deus"?

Pode alguém que observe atentamente os sinais dos tempos duvidar de que agora, no alvorecer do século XX, entre as nações cristãs, a natureza geral do pensamento e do sentimento em coisas religiosas está sendo avivada e expandida, e, por assim dizer, está trabalhando nas dores de algum novo nascimento? E se assim é, por que não haveria o século XX de testemunhar alguma realização geral da esperança há muito adiada pelas almas que nele hão de nascer? Nunca no mundo ocidental a mente geral esteve mais madura para o nascimento do entendimento em coisas religiosas do que está hoje; nunca as condições foram mais favoráveis para a ampla sustentação de uma visão sábia da real natureza do Cristo e da tarefa que Ele está trabalhando para realizar na evolução de Sua fé mundial.

Nossa tarefa presente será tentar, ainda que imperfeitamente, apontar certas considerações que possam tender a restaurar a grande figura do Grande Mestre ao seu ambiente natural na história e na tradição, e revelar os pontos íntimos de contato que o verdadeiro ideal da religião cristã tem com a única fé mundial das almas mais avançadas de nossa humanidade comum — em suma, restaurar o ensinamento do Cristo ao seu verdadeiro espírito de universalidade.


Nem por um instante tentaríamos diminuir a reverência e o amor de qualquer alma individual por aquela Grande Alma que vigia sobre a Cristandade; nossa tarefa será antes apontar para um solo no qual esse amor possa florescer cada vez mais abundantemente e, com crescente confiança, abrir seu coração aos raios racionais do Sol Espiritual.

Esse solo é rico o bastante para o pleno crescimento da planta-homem; é parte do solo original e fornece nutrição a todos os ramos da natureza humana — emocional e moral, racional e espiritual.

Com muitos outros, sustentamos que há apenas uma Religião para a humanidade; as muitas fés e credos são todos rios ou riachos desse grande rio.

Isso pode talvez parecer uma palavra dura para alguns, mas consideremos brevemente seu significado.

O Sol da Verdade é uno.

Seus raios fluem para as mentes e corações dos homens; certamente, se cremos em algo, sustentamos essa fé na Paternidade de Deus! Não devemos então crer que nosso Pai comum não faz acepção de pessoas e que, em todos os tempos, em todas as terras, Ele amou, ama e amará Seus filhos? Seríamos discípulos obtusos, de fato, se dezenovecentos anos do ensino do Cristo não nos tivessem ensinado isso.

E, no entanto, quantos realmente creem nisso? Toda a história das Igrejas da Cristandade é um registro de descrença nesse

PROLEGOMENA.

dogma fundamental da religião universal, e nenhum inimigo maior assombrou os passos do Cristianismo do que o gênio maligno do particularismo judaico, que sempre o instigou a cada surto de intolerância e perseguição.

Esse mesmo espírito também se infundiu no Maometismo, e podemos traçar os resultados nas páginas sangrentas de sua história.

É possível que esse particularismo cru e exclusivismo na religião seja um fator necessário no desenvolvimento de certas classes de almas, e

A Doutrina dos Filhos.

que é usada para um fim último de bem pela Sabedoria que guia o mundo; mas não é possível para nós, agora, uma porção maior da bênção de nosso Pai? Não podemos ver que não importa se um homem aprendeu o Caminho pelos ensinamentos de Krishna ou do Buda, de Maomé ou de Zoroastro, ou do Cristo — contanto que ele apenas ponha os pés nesse Caminho, tudo é um só para nosso Pai comum? Foi Ele quem os enviou a todos e os iluminou, para que todos, através deles, tivessem o alimento espiritual adequado às suas necessidades.

As palavras falham até mesmo para sugerir a sublimidade dessa concepção, o vislumbre glorioso da estupenda realidade da providência de Deus que essa doutrina iluminadora nos abre. E perceber isso — não acreditar de modo hesitante e praticamente negá-lo por nossas outras crenças — quão grande é o crescimento do coração! É sob a luz do sol dessa doutrina mais abençoada de todos os salvadores do mundo que pedimos a nossos leitores que se aproximem da consideração das muitas formas de fé do cristianismo primitivo com as quais teremos de lidar nestas páginas.

Sob essa luz do sol A "heresia" e a "falsa religião" frequentemente assumem um aspecto tão modificado que parecem bastante belas ao lado da "ortodoxia" e da "verdadeira religião" de seus oponentes pouco simpáticos.


Mas estejamos em guarda contra todo exagero e esforcemo-nos por ver as coisas em suas verdadeiras proporções, pois é somente assim que podemos perceber a eterna providência de Deus, que, por meio de Seus Mensageiros, em Seu próprio tempo oportuno, sempre ajusta o equilíbrio.

Foi dito pelo Professor Max Müller que não deveríamos falar de ciência comparativa da religião, mas sim empregar a expressão ciência comparativa da teologia.

Isso é bastante verdadeiro quanto ao trabalho que até agora foi feito, e bem feito, pela erudição oficial; o principal esforço tem sido descobrir diferenças e exagerar a análise dos detalhes.

Até agora, fora de um pequeno círculo de escritores, houve pouca tentativa de síntese.

Não estamos, contudo, preparados para abandonar o termo ciência comparada das religiões; acreditamos que existe tal ciência — talvez a mais nobre a que qualquer homem possa dedicar-se.

Mas é uma das mais difíceis.

Requer não apenas uma experiência íntima da natureza humana, bem como um amplo conhecimento da história, mas também uma profunda simpatia pelas esperanças e temores da consciência religiosa, e acima de tudo uma fé inabalável na providência infalível de Deus em todos os assuntos humanos.

Supondo ser possível que um homem pudesse amar e reverenciar todos os grandes Mestres conhecidos pela história tão profunda e sinceramente quanto cada religioso exclusivista reverencia e ama o seu próprio Mestre particular;

PROLEGOMENA.

supondo que ele pudesse realmente acreditar na verdade de cada uma das grandes religiões em tão plena medida, embora sem exclusividade, como o ortodoxo de cada grande fé acredita na verdade da sua própria revelação; supondo, finalmente, que ele pudesse sentir a Sabedoria da Divindade em operação ativa em todas essas manifestações — que gloriosa Religião seria então a sua! Quão vasta e forte seria a sua Fé, apoiada pelas evidências de todas as bíblias do mundo e pelas exortações de todos os mestres do mundo! Persuadido do fato do renascimento, ele se sentiria um verdadeiro cidadão do mundo e herdeiro presuntivo de todos os tesouros dos livros sagrados.

Pouco se importaria com as zombarias de "eclético" ou "sincretista" lançadas contra ele pelos analisadores de exterioridades e buscadores de diferenças, pois estaria banhando-se na corrente vital da Religião, e de bom grado os deixaria a examinar o seu leito e canais, e a perscrutar a lama do seu fundo e o solo das suas margens; menos ainda notaria o grito de "herege" atirado contra ele por alguns que remam numa poça na praia.

Não que ele pensasse pouco da análise ou menos da ortodoxia, mas a sua análise seria tanto de dentro quanto de fora, e ele encontraria a sua ortodoxia na vida da corrente e não na forma das margens.

A Religião Única flui nos corações dos homens e a corrente de Luz derrama seus raios no solo da natureza humana.

A análise comparativa de uma religião é, portanto, uma análise da humanidade.

Toda grande religião tem expressões tão múltiplas quanto as mentes e os corações de seus adeptos.


A manifestação de sua verdade na vida e nas palavras de um grande sábio deve diferir amplamente do reflexo débil de sua luz, que é tudo o que o intelecto obtuso e a vida impura dos ignorantes e imorais podem expressar.

É verdade que sua luz e sua vida são livres para todos; mas, como há graus de almas, todas em diferentes estágios de evolução, como pode ser que todas reflitam igualmente essa luz? Quão insensato é, então, comparar as visões mais esclarecidas de um grupo de religiosos com as crenças mais ignorantes e as práticas mais supersticiosas de outro grupo! E, no entanto, este é um passatempo muito favorito daqueles que buscam gratificar-se com a persuasão de que sua própria fé é superior à de toda outra criatura.

Este método nunca nos levará a uma compreensão da verdadeira Religião ou a um entendimento de nosso irmão humano.

Analise qualquer uma das grandes religiões, e você encontrará os mesmos fatores em ação, os mesmos problemas de imperfeição humana a serem estudados, os muitos que são "chamados" e os poucos que são "escolhidos" — há em cada religião, como sempre houve, "muitos portadores de tirso, mas poucos Bacos". Comparar os Bacos de uma religião com os portadores de tirso de outra é mera tolice.

Nem todos os hindus, por exemplo, são adoradores uninteligentes de ídolos, nem todos os cristãos imitadores fervorosos do Cristo.

Se compararmos os dois de algum modo, coloquemos a adoração de imagens da Igreja Romana ou o culto de ícones da Igreja Grega ao lado da adoração do Brahma de quatro faces

PROLEGÔMENOS.

e do restante das figuras do panteão; mas, se quisermos encontrar o paralelo adequado à vida santa e à melhor teologia da cristandade, então devemos ir à melhor teologia e aos mais santos viventes entre os brâmanes.

Então, se analisarmos uma religião, descobrimos que as pessoas mais humildes pouco sabem dela e se apegam desesperadamente a muitos equívocos e superstições, e que dessa deturpação do que ela realmente é, sobem grau após grau de inteligência superior e expressão menos errônea, até chegarmos àquela classe de almas que conscientemente buscam acolher a luz em toda a sua plenitude e fazem disso o único objetivo de suas vidas.

É dentro dessa classe de mentes que devemos procurar a verdadeira natureza de uma religião.

Aqui, então, esperamos encontrar os verdadeiros pontos de contato entre a religião e suas fés-irmãs, e aqui sentimos a presença do glorioso Sol Espiritual, o pai de todos os Raios de Luz derramados sobre o mundo.

Ora, de todas as grandes religiões, nenhuma pode ser de maior interesse para qualquer estudante da ciência comparada das religiões no Ocidente do que a Fé Cristã.

Ela o pressiona a cada passo; é um problema do qual não pode escapar.

Ele se admira da ignorância geral de tudo o que está relacionado à sua história e origens.

Quantos são aqueles que realmente estudaram o assunto, fora do corpo relativamente pequeno de estudiosos cuja profissão é lidar com tais pesquisas — e mesmo entre eles, quantos lançaram alguma luz real sobre o assunto, apesar de sua admirável diligência.


De fato, é difícil para qualquer um possuído das ideias que procuramos expressar acima, cheio de entusiasmo pela unidade da religião e com uma fé viva na natureza verdadeiramente universal do ensinamento de Cristo, obter muita ajuda real dos estudos de racionalistas ou apologistas.

Por muito tempo, ele se vê confrontado com bibliotecas de livros repletos de opiniões mutuamente contraditórias, e valiosos apenas como um meio de peneirar material para uso futuro.

Ele descobre, à medida que prossegue em seus estudos, que cada uma de suas preconcepções sobre os tempos primitivos tem de ser consideravelmente modificada, e a maioria delas, de fato, inteiramente rejeitada.

Ele gradualmente abre caminho até um ponto de onde pode obter uma visão desimpedida dos restos dos primeiros dois séculos, e contempla ao redor um mundo do qual nunca ouviu falar na escola, e sobre o qual nenhuma palavra é proferida do púlpito.

É este o mundo da Igreja Primitiva sobre o qual ele leu nos manuais aceitos e do qual foi informado por pastores e mestres? É esta a imagem da comunidade única e simples dos seguidores de Jesus; esta a doutrina única que o levaram a acreditar ter sido transmitida em sucessão ininterrupta e em uma única forma desde os primórdios? Ele contempla ao redor um mundo religioso de imensa atividade, uma vasta agitação de pensamento e um esforço religioso intenso ao qual a história do mundo ocidental não oferece paralelo.

Milhares de escolas e comunidades por toda parte, lutando e contendendo, uma vasta liberdade de

PROLEGOMENA.

pensamento, um poderoso esforço para viver a vida religiosa.

Aqui ele encontra inúmeros pontos de contato com outras religiões; ele se move em uma atmosfera de liberdade da qual anteriormente não tivera nenhuma experiência na tradição cristã.

Quem são todas essas pessoas — não pescadores e escravos e os pobres e desamparados, embora esses também estejam se esforçando — mas esses homens de erudição e vida ascética, santos e sábios tanto quanto muitos outros aos quais o nome foi dado com muito menos razão? Todos são hereges, dizem os escritores eclesiásticos posteriores, gente muito pestilenta e inimigos da Verdadeira Fé que agora estabelecemos por nossos decretos e concílios.

Mas o estudante prefere olhar para os primeiros dois séculos em si mesmos, em vez de ouvir as opiniões e decisões daqueles que vêm depois, os quais, por estarem mais distantes das origens, dificilmente se pode esperar que saibam mais delas do que aqueles que anatematizaram após sua morte.

Agora é notável que, embora tão abundante e minuciosa pesquisa tenha sido empregada no problema das origens do Cristianismo pela análise dos documentos canônicos, tão pouca atenção crítica tenha sido dedicada aos escritos desses "hereges", embora por meio deles grande luz possa ser lançada sobre muitos dos problemas obscuros relacionados com a história dos primórdios; somente em anos relativamente recentes é que a utilidade do seu testemunho foi reconhecida e que se fizeram tentativas de trazê-los ao tribunal.

A "voz geral" da Igreja Católica desde a sua ascendência estigmatizou esses "hereges" como os "filhos primogênitos de Satanás", e os fiéis acreditaram inquestionavelmente que essa voz era "Sancto Spiritu suggerente". Mas, para o Protestantismo ao menos, tais opiniões cruas já não podem satisfazer a mente liberal nas coisas religiosas no início do século vinte.

Por mais de cem anos, a cristandade liberal tem testemunhado os mais enérgicos e corajosos esforços para resgatar a Bíblia das mãos de um obscurantismo ignorante que, de muitas maneiras, a havia degradado ao nível de um fetiche literário e a privado da luz da razão.

Essa política de obscurantismo é realmente uma de desespero, de falta de confiança na presença viva e persistente da inspiração na Igreja, uma confissão tácita de que a inspiração havia cessado na infância da Fé.

Como é bem sabido, o dogma da inspiração verbal e literal pelo Espírito Santo, no sentido mais pleno dos termos, de todo documento canônico foi até recentemente universalmente sustentado, e ainda é sustentado pela maioria dos cristãos hoje.

A famosa encíclica de Leão XIII ("Providentissimus Deus" — 1893) formula a ortodoxia da cristandade católica romana no seguinte conselho de desespero:

"É absolutamente errado e proibido, ou restringir a inspiração a certas partes apenas da Sagrada Escritura, ou admitir que o escritor sagrado tenha errado."

Pois o sistema daqueles que, para se livrarem dessas dificuldades, não hesitam em conceder que a inspiração divina diz respeito às coisas da fé e dos costumes, e nada além disso, porque (como erroneamente pensam) na

PROLEGÔMENOS.

questão da verdade ou falsidade de uma passagem, devemos considerar não tanto o que Deus disse, mas a razão e o propósito que Ele tinha em mente ao dizê-lo — esse sistema não pode ser tolerado, pois todos os livros que a Igreja recebe como sagrados e canônicos são escritos inteira e totalmente, com todas as suas partes, sob o ditado do Espírito Santo; e tão longe está de ser possível que qualquer erro possa coexistir com a inspiração, que a inspiração não apenas é essencialmente incompatível com o erro, mas o exclui e rejeita tão absoluta e necessariamente quanto é impossível que o próprio Deus, a verdade suprema, possa proferir o que não é verdadeiro.

Esta é a fé antiga e imutável da Igreja, solenemente definida nos Concílios de Florença e Trento, e finalmente confirmada e mais expressamente formulada pelo Concílio do Vaticano.

. . . Portanto, porque o Espírito Santo empregou homens como Seus instrumentos, não podemos dizer que foram esses instrumentos inspirados que, porventura, caíram em erro, e não o autor primário.

Pois, por poder sobrenatural, Ele os moveu e impeliu a escrever — esteve tão presente a eles — que as coisas que Ele ordenou, e somente essas, eles, primeiro compreendendo corretamente, depois quiseram fielmente escrever, e finalmente expressaram em palavras aptas e com verdade infalível.

De outro modo, não se poderia dizer que Ele era o autor de toda a Escritura.

Tal tem sido sempre a convicção dos Padres.

. . . Segue-se que aqueles que sustentam que um erro é possível em qualquer passagem genuína das sagradas escrituras, ou pervertem a noção católica de inspiração, ou fazem de Deus o autor de tal erro.


Esta encíclica não é uma curiosa relíquia literária do medievalismo; é a voz mais solene e autoritativa do Chefe da maior e mais poderosa Igreja da Cristandade, de longe, obrigatória para todos os fiéis, e circulada amplamente no final do século XIX, em que nos vangloriávamos de ser tão melhores que nossos pais.

É, naturalmente, perfeitamente evidente que tal pronunciamento é inevitável por parte do Chefe de uma Igreja que aderiu ao dogma da infalibilidade, e cuja vida depende da manutenção de sua autoridade inquestionável.

A consequência, no entanto, é que, para reconciliar esse dogma com a razão, seus eruditos têm de recorrer a um método casuístico que é extremamente desagradável para aqueles que são nutridos no ar livre da pesquisa científica, e que infelizmente torna os escritos dos críticos católicos romanos passíveis da acusação de insinceridade.

Não precisamos, contudo, necessariamente, duvidar de sua sinceridade, pois no domínio da religião o fenômeno mais comum é a fé fazendo violência à razão; como estudantes da vida, portanto, observamos com o mais vivo interesse essa tragédia da razão humana lutando nas amarras de uma autoridade autoimposta, e, como crentes na Providência, temos confiança de que a força assim gerada será eventualmente usada para o bem, embora no presente pareça a muitos de nós um mal puro.

Este é um lado do quadro, e de fato um dos mais interessantes para o estudante da natureza humana.

Indubitavelmente, muitos milhões ainda creem firmemente, como são ordenados a crer pelo Santo Padre, e, com uma ligeira diferença de conteúdo e edição, muitos milhões de protestantes, que repelem para longe a autoridade do Papa, creem tão cegamente nessa visão da inspiração e são até mais fervorosos bibliólatras do que seus irmãos católicos romanos.

Esta força conservadora e reacionária é aparentemente ainda necessária; é a pressão que insiste em uma minúcia cada vez maior daqueles que estão abrindo caminho para a aceitação de uma doutrina viva de inspiração, para substituir o que, para um número cada vez maior, parece ser o fóssil de um dogma sem vida.

Este conservadorismo, acreditamos, não se provará um mal para a Cristandade a longo prazo, pois é em grande parte ditado por uma fé — embora cega — na realidade da inspiração, na sublimidade das "coisas não vistas", que se recusa a ter seu lugar positivo no coração humano preenchido pelo que lhe parece, no presente, uma negação de suas convicções mais queridas.

Mas, pudessem tais crentes abrir os olhos de seu entendimento, veriam que as almas laboriosas que estão removendo as obscurações de séculos de mal-entendidos estão imbuídas de uma fé tão viva quanto a sua própria — e, por sua devoção à verdade, estão fazendo a obra de Deus ao preparar o caminho para uma realização mais plena de Sua Sabedoria eterna e um entendimento mais profundo da natureza humana.

É verdade que, para realizar essa tarefa, essas almas enérgicas estão imbuídas de um entusiasmo pela crítica que é talvez exagerado, mas que, não obstante, é o necessário companheiro de jugo do conservadorismo cego.


É o filho desses dois que trará a luz.

Pois se nos voltarmos para o outro lado do quadro,

o Progresso, notamos a mente aguçada e treinada do intelecto científico a esmiuçar cada palavra e letra da Escritura para testar as afirmações da fé cega.

A Crítica Textual, ou Crítica Inferior, destruiu para sempre a pretensão do Concílio de Trento de estabelecer a questão de um "Textus Receptus". O Texto Recebido provou ter sofrido, em sua tradição, tantos infortúnios às mãos de escribas ignorantes e editores dogmáticos que a razão humana permanece estupefata diante do espetáculo.

É possível, pergunta ela, que qualquer alma possuidora do bom dom de Deus, a razão, possa crer na inspiração literal de tal coleção de mudanças proteanas de palavras?

É talvez um erro ter dado o nome

Temor da Crítica a tal pesquisa, porque a pessoa comum encara o termo como implicando algo hostil e inimigo; o significado original da palavra, contudo, não transmitia tal ideia, mas simplesmente o sentido de examinar e julgar bem.

Mas o sábio não se deixará abater por um termo; ele olhará para a coisa em si, e longe de encontrar algo ímpio numa arte tão admirável como a da crítica textual, a considerará um meio potentíssimo para remover o erro humano.

Mas a Crítica não termina com a investigação do texto; ela prossegue a um ramo mais elevado e ocupa-se com a pesquisa sobre a data e a história dos livros sagrados, a análise e comparação dos seus vários conteúdos, e as suas relações com outros

PROLEGÔMENOS.

escritos; em suma, ela examina todo o campo da literatura bíblica quanto ao conteúdo em todas as suas partes.

Os resultados dessa investigação são tão estupendos, que parecemos entrar numa nova terra religiosa.

Mas antes de entrarmos nas águas banhadas de sol do porto desse novo país, temos de ter atravessado muitas tempestades que nenhuma barca de fé cega jamais sobreviverá; o único navio que pode atravessá-las é o navio de uma fé racional.

Em suma, o método da crítica é racional, é o do julgamento privado; embora, na verdade, eu duvide que haja alguma classe de homens que tenha buscado mais seriamente ajuda e orientação em sua tarefa do que os grandes Críticos da Cristandade.

É esse fato, o alto valor moral dos nossos Críticos e o seu profundo senso religioso, que torna o seu trabalho tão valioso.

É o melhor da Cristandade criticando a si mesma — não uma banda de inimigos externos, tentando provocar o seu desconcerto.

Uma religião cujos adeptos podem fazer isso está viva, e enquanto esse espírito existir, não pode morrer.

Esse espírito é tanto a inspiração do Espírito Santo quanto é a convicção da fé cega no "credo quid absurdum" da tradição romana de inspiração verbal.

Mas não devemos supor que a Crítica seja um fim em si mesma; é apenas um meio para uma nova definição dos problemas eternos da religião — um meio deveras potentíssimo, porque esses problemas podem agora ser definidos com uma inteligência e um conhecimento da natureza humana que infinitamente acrescem seu interesse e exigem mais imperiosamente do que nunca sua solução; mas a Crítica não pode resolvê-los.


A sua solução depende de uma faculdade ainda mais elevada, uma faculdade que transcenderá a ciência das coisas visíveis para a gnose das coisas invisíveis.

Este é o filho que nascerá do congresso das duas grandes forças de progresso e reação de que temos falado.

Pois, concedendo que a Bíblia seja uma biblioteca de livros, em sua maior parte composta de fragmentos de outros documentos, de datas muito variadas, editados e reeditados; que os depósitos mais antigos da porção judaica extraiam largamente da mitologia de outras nações e falseiem a história em uma extensão incrível; que em seus depósitos mais antigos sejam pródigos em doutrinas imorais e absurdos patentes, e pintem o quadro de um Deus que revolta todas as mentes pensantes; que os depósitos mais recentes das Escrituras Hebraicas, embora respirando um espírito muito mais elevado, ainda estejam abertos a muitas objeções; e que os livros da porção cristã sejam igualmente postos em questão em numerosos pontos; — ainda assim há tanta beleza e concepção elevada nos ensinamentos da Bíblia, e por tantos séculos ela tem sido considerada o veículo da revelação de Deus ao homem, que o problema da inspiração, em vez de ser diminuído por esses fatos, torna-se tanto mais premente por sua solução.

Qual é a natureza dessa faculdade superior que transcende a razão; e por que os registros de sua atividade são maculados por imperfeições e absurdos que a razão pode tão claramente detectar?

Isso o cientista, como cientista, o erudito, como erudito, jamais poderá explicar plenamente.

Igualmente, o místico, como místico, não pode lançar plena luz sobre o problema.

PROLEGÔMENOS.

O que se requer é a natureza nascida da união dos dois — uma natureza tão difícil de encontrar que quase se pode dizer que é inexistente.

O místico não se submeterá à disciplina e ao treinamento da ciência; o erudito se recusa a atribuir qualquer validade aos métodos do místico.

E, no entanto, sem a união dos dois, o filho do entendimento não pode nascer.

Por cerca de trezentos anos, o mundo ocidental vem evoluindo um instrumento maravilhoso de pesquisa natural, um grau sutil de mente treinado no que chamamos de método científico; tem desenvolvido, nesse instrumento, numerosos novos sentidos, e, entre eles, o principal é o senso de história.

Suas conquistas são tão brilhantes que os homens tendem a acreditar que nunca antes tais coisas existiram: somos desdenhosos do passado, impacientes com seus métodos, insensíveis às suas ideias e pouco inclinados a aproveitar as lições que ele pode ensinar.

Como sempre foi o caso das nações em seu auge, pensamos que "nós somos o povo, e a sabedoria morrerá conosco". Tudo isso é perfeitamente natural e até necessário para o devido desenvolvimento desse aguçado instrumento intelectual, desse grau de mente do qual todos nos orgulhamos tanto.

Mas o estudante da natureza humana e o erudito da ciência da vida continua olhando para o passado a fim de melhor prever o futuro; seu senso de história se estende para além do domínio da "Crítica Superior" e se esforça para se tornar clarividente.

Tivemos cerca de trezentos anos de catalogação e crítica, análise e ceticismo, de pesquisa física brilhantíssima em todos os departamentos; os piedosos temeram pela derrocada da religião, e os positivistas ansiaram pela queda da superstição.

O que tudo isso significou; para que bom propósito serve esse crivo; como a contenda exemplifica a sábia providência de Deus?

Talvez não seja tão difícil quanto parece à primeira vista apontar a direção na qual as respostas a essas perguntas podem ser, em certa medida, antecipadas.


Que fenômenos semelhantes recorrem no mundo natural é a experiência invariável da humanidade; que o tempo é a imagem sempre móvel da eternidade, e que a roda da gênese está sempre girando, é testemunhado pelas mentes mais sábias da humanidade.

Para onde, então, deveríamos olhar na história dos assuntos humanos por fenômenos semelhantes aos acontecimentos destes últimos trezentos anos? Para onde mais certamente do que para a história dos tempos que testemunharam o nascimento da religião de Cristo? Os muitos paralelos marcantes entre os aspectos sociais e religiosos da civilização daquela época crítica e dos nossos próprios tempos já foram esboçados por alguns poucos escritores, mas nenhuma atenção geral foi dada aos seus esforços, e menos ainda foi extraída qualquer lição prática da revisão dessa experiência do passado.

Pois a experiência da humanidade é a nossa própria experiência, se tivermos bastante discernimento para compreender.

A alma do homem retorna repetidas vezes para aprender as lições da vida nesta grande escola-mundo,

PROLEGOMENA.

de acordo com uma das grandes doutrinas da religião geral.

Se assim for, segue-se que quando condições semelhantes O Retorno recorrem, uma classe semelhante de almas retorna para continuar suas lições de experiência.

Pode bem ser até que muitas das mesmas almas que estavam encarnadas nos primeiros séculos do cristianismo estejam continuando sua experiência entre nós hoje.

Pois por que outra razão as mesmas ideias recorrem, por que os mesmos problemas surgem, as mesmas maneiras de ver as coisas? Elas não podem cair em nosso meio vindas da "Ewigkeit"; não deve ser que tenham sido trazidas de volta por mentes para as quais já eram familiares?

Seria, naturalmente, extremamente imprudente estender mesmo uma única de nossas paralelas a uma As identidade; devemos ter em mente que, embora muitas das Condições condições sejam notavelmente semelhantes, alguns fatores em grande da Comparação. proeminência na civilização do mundo greco-romano são apenas muito fracamente delineados em nossa civilização atual, enquanto alguns traços fortemente marcados de nossos próprios tempos são apenas imperfeitamente rastreáveis naquela época.

Devemos ainda lembrar que os registros daquela época são frequentemente muito imperfeitos, enquanto a história da nossa própria era está inscrita em detalhes penosos; e que, embora possamos rever as principais linhas gerais de toda aquela fase de civilização, só podemos contemplar uma parte da nossa, pois seu ciclo não está encerrado e os registros do futuro ainda não estão abertos ao nosso entendimento.

Finalmente, devemos lembrar que a qualidade geral da vida e da textura mental da nossa própria época é geralmente muito mais sutil do que era há mil e novecentos anos — pois a humanidade evolui.


Todas essas considerações devem ser mantidas em mente se quisermos antecipar o futuro a partir de uma análise da história do passado.

Mas, na verdade, não exige grande esforço de imaginação, mesmo para o mais superficial estudante de história, perceber uma marcante semelhança entre a inquietação geral e a busca por um novo ideal que caracterizaram o período de brilhante desenvolvimento intelectual que precedeu o nascimento do Cristianismo, e a incerteza e a ávida curiosidade da mente pública nos anos finais do século XIX.

A tendência é a mesma em espécie, embora não em

O Presente.

grau; as realizações dos cientistas e eruditos de Alexandria (para citar o exemplo mais notável) durante os trezentos anos que precederam a era cristã foram vastamente superadas pelas conquistas de seus sucessores em nosso próprio tempo.

Hoje a vida é mais intensa, o pensamento mais ativo, a experiência mais extensa, a necessidade da solução do problema mais premente.

A mente moderna nasceu na Grécia há cerca de dois mil e quinhentos anos e desenvolveu-se pelo contato íntimo com o antigo Oriente, um contato tornado fisicamente possível pela "conquista mundial" de Alexandre e, subsequentemente, pelo gênio organizador de Roma.

Mas hoje não são as conquistas de um Alexandre nem o poder de Roma que construíram as vias de comunicação entre as nações; são as conquistas da ciência física que, na verdade,

PROLEGÔMENOS.

uniu os confins da terra e construiu um sistema arterial e nervoso para a nossa comum mãe Ocidente e Oriente, que ela jamais possuíra anteriormente.

Já não é a mente especulativa da Grécia e o gênio prático de Roma que se encontram; não é sequer a mente do então confinado Ocidente encontrando-se com o entusiasmo e o misticismo do então Oriente; é o encontro das grandes águas, o pensamento desenvolvido e a observação laboriosa de todo o mundo ocidental de hoje encontrando-se com a antiga e lenta corrente do Oriente antigo e moderno.

O grande impulso que o estudo das línguas e idiomas orientais, há muito mortos, recebeu durante os últimos cem anos, tem conduzido à iniciação de uma ciência comparativa da literatura antiga — das bíblias do mundo — e da religião, que está lenta mas seguramente modificando todas as nossas preconcepções.

Hoje, não é um Porfírio que refuta a autenticidade do Livro de Daniel, nem um Marcião que devasta o que posteriormente se tornou o cânon do Novo Testamento, mas é a "Alta Crítica" que desferiu o golpe mortal à bibliolatria irracional.

O conflito entre religião (ou, se preferirdes, teologia) e ciência produziu uma geração que anseia e busca por uma reconciliação.

Essa reconciliação virá; o Céu e a Terra voltarão a se beijar.

Ela veio no passado para aquelas almas que a buscavam, e virá para aqueles que a procuram hoje.

Se o coração humano buscar a Luz, a Luz jorrará sobre ele. Assim foi há mil e novecentos anos; os homens buscaram a Luz, e a Luz veio em resposta às suas preces.

E se esta visão puder a princípio parecer estranha àqueles que foram ensinados a considerar o estado de coisas antes da vinda do Cristo como de depravação absoluta, a leitura destas páginas talvez possa conduzi-los a uma visão mais razoável das condições que exigiram a vinda de tão grande Alma para o auxílio da humanidade.

A Luz foi recebida pelos homens na proporção de sua capacidade de compreendê-la, e a Vida foi derramada neles conforme suas naturezas eram capazes de expansão.

E se a história subsequente dos tempos, quando a nuvem escura da ignorância e da intolerância se assentou sobre a Cristandade por tantos séculos, faz parecer que essa Vida foi derramada em vão, e que essa Luz irradiou sem propósito, devemos lembrar que elas foram prodigalizadas sobre almas e não sobre corpos; que o caminho das almas individuais não deve ser traçado na evolução dos corpos raciais.

As almas encarnadas na civilização da Grécia e de Roma, que eram capazes de receber a Luz, eram muito diferentes das almas que foram encarnadas nas hordas semibárbaras que destruíram essa civilização, e das quais as novas raças haveriam de ser desenvolvidas.

As raças antigas, que forneciam as condições para a experiência das almas mais avançadas, haviam de desaparecer gradualmente, e novas raças haviam de ser desenvolvidas, que em sua infância não podiam fornecer as condições necessárias para a encarnação de intelectos tão sutis, mas que em sua

PROLEGOMENA.

maturidade atrairiam para si almas ainda mais elevadas, talvez.

Isso, naturalmente, não ocorreu com subitaneidade; foi tudo muito gradual, houve muito entrelaçamento de raças, à medida que as antigas unidades e átomos eram lentamente substituídos por novos.

Mas como se poderia esperar que Vândalos e Godos compreendessem os grandes problemas que deleitavam as mentes dos filósofos e místicos da Grécia e de Roma? E, além disso, não teria tudo isso sido previsto e providenciado pela Sabedoria que vigia os assuntos humanos?

Raças e nações nascem e morrem, assim como os homens nascem e morrem; podem ser longevas ou de vida curta, podem ser boas, más ou indiferentes.

Mas quaisquer que sejam seus caracteres e características em comparação com outras raças, seu período inicial é o da infância, seu período médio o da maturidade, e seu período posterior o da velhice.

Segue-se, portanto, que, como regra geral, a classe de almas que busca experiência neles durante a infância não é a mesma que o grau de almas que neles encarna na meia-idade ou na velhice.

Naturalmente, há numerosas exceções individuais, pois o acima exposto é apenas o mais breve esboço dos elementos do problema; os detalhes são tão complicados, as permutações e combinações tão inúmeras, que nenhuma mente pode compreendê-los plenamente.

Além disso, raças e nações tanto se sobrepõem e se misturam, suas origens e desaparecimentos tanto se dissolvem em outras nações e raças, que a analogia de suas vidas com as vidas dos homens não deve ser forçada além da medida.


O momento do nascimento e o momento da morte são muito difíceis de detectar no caso de uma raça, e o período embrionário e os estágios de desintegração não podem ser claramente definidos.

No entanto, podemos traçar os momentos principais de sua evolução e perceber as diferenças em seus principais períodos de idade.

Nosso mundo ocidental, veículo da mente moderna, teve seu período de infância; nasceu do ventre da civilização grega e romana, e sua infância vigorosa foi um período natural de ignorância e paixão.

Tais considerações nos permitirão compreender melhor o espetáculo, de outro modo triste, das idades das trevas e da Idade Média na Europa; foram os concomitantes naturais da infância, e foram seguidos pelo desenvolvimento intelectual da juventude e do início da maturidade.

O mundo ocidental está aparentemente chegando à maioridade, e no futuro podemos esperar que pense e aja como um homem e abandone as coisas de criança.

Os problemas que no futuro ocuparão a atenção de sua inteligência desenvolvida foram prefigurados no ventre de sua progenitora, e nossa tarefa mais imediata será lidar com alguns dos contornos dessa prefiguração.

ALGUNS ESBOÇOS GERAIS DO FUNDO DA GNOSE.

CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES.

A história familiar das origens do Cristianismo, que todos nós absorvemos como que com o leite materno, é, em seus traços gerais, a seguinte: O Grande

O leite materno pode ser considerado quase uma parte da história na consciência do mundo ocidental.

Está entrelaçado com nossas primeiras recordações; foi gravado em nossa consciência infantil com uma solenidade que reprimiu todo questionamento; tornou-se a "coisa a que nos acostumamos". Tem a seu favor aquela força estupenda da inércia, o poder do costume, contra o qual poucos têm forças para lutar.

Mas, uma vez que o homem comum deseje saber mais sobre a maior história do mundo, como afirmam todos os seus narradores, ele deve iniciar a luta.

Anteriormente, ele foi levado a crer não apenas que a história é absolutamente única, mas que é inteiramente sobrenatural.

Em suma, se ele analisa seu próprio entendimento da história, descobre-a violentamente divorciada de todo ambiente histórico, uma coisa em si mesma, isolada, em isolamento não natural.

Sua imagem não tem pano de fundo.

Além disso, ele achará muito difícil preencher esse pano de fundo, por mais industriosamente que trabalhe.

Ele pode ler muitos livros sobre a "Vida e os Tempos de Nosso Senhor", apenas para descobrir que, na maior parte, o ambiente foi ajustado à história e seus principais traços foram extraídos dela; em suma, ele não sente que foi posto em contato com o ambiente natural que procura.

Há, é claro, algumas obras que não são dessa natureza, mas o leitor comum raramente ouve falar delas, pois geralmente são consideradas "perigosas" e "perturbadoras".

Mas mesmo se aprofundarmos a questão e fizermos um estudo especial da história das origens, com as maiores bibliotecas à nossa disposição, descobrimos que nenhum escritor nos deu ainda um esboço realmente suficiente do ambiente, e sem isso é impossível ter uma compreensão real da natureza do cristianismo infantil e do pleno alcance de sua iluminação; sem isso, nunca compreenderemos sua real naturalidade e seu vasto poder de adaptação a esse ambiente.

Pois se olharmos para trás, para as evidências dos primeiros dois ou três séculos da nossa era (e, a nosso ver, nenhuma evidência posterior a esse período tem validade alguma) para compreender o estado real das coisas, em vez de uma única Igreja e uma única forma de fé, encontramos inúmeras comunidades e inumeráveis modos de expressão — comunidades unidas para a vivência de uma Vida e sistemas que se esforçavam por expressar o esplendor de uma Luz.

Em muitas dessas comunidades e dessas expressões encontramos pontos íntimos de contato com a vida e a fé do que há de melhor na religião universal, e um meio que nos ajudará a preencher os contornos do pano de fundo das origens com um sentimento de confiança maior do que anteriormente julgávamos possível.

Longe de encontrarmos o divórcio acentuado entre ciência (ou filosofia) e religião (ou teologia) que caracterizou todos os períodos posteriores da era cristã até os nossos dias, era justamente o orgulho de muitas dessas comunidades que a religião era uma ciência; elas ousadamente afirmavam que era possível conhecer as coisas da alma tão definitivamente quanto as coisas do corpo; longe de limitarem a iluminação que haviam recebido à compreensão do intelecto mais pobre, ou de a confinarem à região da fé cega, afirmavam que ela lhes havia fornecido os meios de formular uma filosofia mundial capaz de satisfazer o intelecto mais exigente.

Talvez nunca o mundo tenha testemunhado esforços mais audazes para alcançar uma solução do problema do mundo do que os tentados por alguns desses filósofos místicos e cientistas religiosos.

Que suas tentativas sejam, em sua maioria, incompreensíveis para a mente moderna deve-se em parte ao fato de que nosso registro delas é tão imperfeito, e em parte à impossibilidade natural de expressar em linguagem humana as estupendas realidades a que aspiravam; no entanto, seu "assalto aos céus", quando

CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES.


Podemos compreender sua natureza, é um espetáculo que move nossa admiração e (se deixarmos de lado todo preconceito) nos faz curvar a cabeça diante do Poder que inspirou seus esforços.

Eles se esforçaram pelo conhecimento de Deus, a ciência das realidades, a gnose das coisas-que-são; a sabedoria era seu objetivo; as coisas sagradas da vida, seu estudo.

Foram chamados por muitos nomes por aqueles que posteriormente os arrancaram de seus retiros ocultos para ridicularizar seus esforços e anatematizar suas doutrinas, e um dos nomes que usavam para si mesmos, o costume selecionou para ser seu título geral atual.

Eles são agora geralmente referidos na história da Igreja como os Gnósticos, aqueles cujo objetivo era a Gnose — se de fato esse for o significado correto; pois um de seus mais antigos documentos existentes declara expressamente que a Gnose não é o fim — é o começo do caminho, o fim é Deus — e, portanto, os Gnósticos seriam aqueles que usavam a Gnose como meio para firmar seus pés no Caminho para Deus.

A questão que imediatamente se impõe à atenção do estudante de história é: De onde vieram esses homens? Surgiram eles subitamente

Onde encontrar sua Origem.

no meio de um mundo que não se importava com essas coisas; estavam eles inteiramente fora de contato com o passado; não tinham predecessores? De modo algum; aqueles que tão amargamente se opuseram a eles, que — vangloriando-se de serem os únicos herdeiros legítimos da iluminação do Cristo — em seu momento mais irado, estigmatizaram os Gnósticos como "os primogênitos de Satanás", podem nos ajudar a firmar nossos pés na

CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES.

direção onde encontraremos alguns materiais sobre os quais basear uma resposta.

Em momento menos amargo, os Padres da Igreja nos dizem que as doutrinas da Gnose são de Platão e Pitágoras, de Aristóteles e de Heráclito, dos Mistérios e Iniciações das nações, e não de Cristo.

Tentemos então, por um breve espaço, seguir essa pista e preencher alguns contornos gerais do pano de fundo da Gnose; estaremos então mais aptos a dizer se juntamos ou não nossas vozes ao alarido dos caçadores de heresias.

No que se segue, tentaremos apenas indicar vagamente o vasto campo de pesquisa no qual o estudante das origens cristãs terá de trabalhar, antes que possa realmente apreciar a natureza do solo em que a semente foi lançada.

A história política e as condições sociais da época devem ser cuidadosamente estudadas e continuamente lembradas, mas o campo mais importante a ser examinado é a natureza do mundo religioso, especialmente durante os três séculos anteriores à nossa era.

Como é possível, perguntamo-nos, ao contemplarmos as mesclas de culto, o sincretismo de teogonias e cosmogonias e as misturas de fé que abundavam nesses séculos, separá-los em seus elementos originais? O problema parece tão desesperador quanto o esforço de rastrear as misturas de raças e sub-raças, de nações e famílias, que foram os meios materiais dessas mesclas de culto e religião.

Onde podemos começar? Pois se começarmos onde a história conhecida falha (como geralmente acontece) e imaginarmos que chegamos aqui a um estado de coisas primitivo, somos forçados a revisar constantemente nossas hipóteses a cada nova descoberta arqueológica e etnológica.

Tribos que considerávamos selvagens primitivos são descobertas como remanescentes decadentes de outrora grandes nações; suas superstições e práticas bárbaras são encontradas mescladas com remanescentes de altas ideias que nenhuma selvageria poderia evoluir; onde devemos agarrar um começo nesse material de mudança proteana? Certamente não podemos rastreá-lo apenas pelas linhas da evolução material? Não pode ser que haja também a "alma de um povo" com a qual se deva contar?


Assim como os corpos dos homens nascem de outros corpos, também as nações nascem de nações.

Mas se a hereditariedade física de um homem é difícil de rastrear (pois quanto mais se recua, mais ela se ramifica), muito mais difícil é a hereditariedade de uma nação, pois enquanto um homem tem apenas dois pais, uma nação pode ter muitos, e enquanto os corpos dos pais de um homem, na morte, são ocultados para apodrecer na terra, os corpos das nações apodrecem à vista de todos e persistem misturados com seus filhos e netos, e com toda a árvore genealógica que compartilham com outras nações.

As nações podem ter certas características distintivas, mas não são individualizadas da mesma maneira que um homem é individualizado; e o problema de sua hereditariedade interior é mais difícil de resolver do que até mesmo o da natureza da alma animal, pois está em uma escala mais vasta.

Sendo tal, então, a natureza do veículo físico da consciência religiosa geral, não é

CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES.

surpreendente descobrir que a história da evolução das ideias religiosas é um dos estudos mais difíceis.

Se tivermos em mente todas essas pressuposições, é necessária a maior coragem para aventurar-se em qualquer tentativa de generalização; sentimos que toda afirmação deveria ser qualificada por tantas outras considerações que quase nos repugna sua crueza, e sabemos que estamos apenas traçando os ossos de esqueletos quando deveríamos estar revestindo-os de carne e tornando-os vibrantes de vida.

Mas voltemos aos antecedentes do período e movimento especiais que temos em vista.

Três correntes principais misturam suas águas no torvelinho caudaloso que gira através da terra nesses séculos críticos.

Três elementos principais estão combinando sua substância e transmutando suas naturezas no cadinho fervente dos primeiros séculos da era cristã.

Grécia, Egito e Judeia recebem a criança em seus braços, amamentam o corpo do recém-nascido, e três velam ao redor de seu berço.

A alma irracional dele é semelhante às almas animais de suas nutrizes; sua alma racional é de igual hereditariedade com suas mentes, mas o espírito dentro dele é iluminado pelo Cristo.

É à hereditariedade de sua alma racional e espiritual, contudo, que prestaremos a maior atenção; pois nela se encontra o lado interno das religiões da Judéia, do Egito e da Grécia.

Temos, então, de buscar com o máximo cuidado na direção em que isso pode ser encontrado; não o encontraremos no culto e na prática do povo, mas na religião e na disciplina do filósofo e do sábio, do profeta e do sacerdote.


Pois, na antiguidade, havia tantos graus na religião quantos eram os níveis da natureza humana; a instrução nos graus internos era reservada àqueles que eram aptos a compreender; instituições de mistérios e escolas de iniciação de todos os graus podiam ser encontradas em todas as grandes nações, e é nelas que devemos procurar o que havia de melhor em suas religiões — não raramente, infelizmente, também o pior, pois o pior é a corrupção do melhor; mas disso falaremos em outro lugar.

Voltemos, então, primeiramente nossa atenção para a religião da inteligência da Grécia.

GRÉCIA.

SE nos voltarmos para a Grécia do século VI anterior à nossa era, podemos perceber os sinais do nascimento de um novo espírito no mundo ocidental, o início de uma grande atividade intelectual; é, por assim dizer, a idade da puberdade do gênio grego, novas forças de pensamento entram em atividade, e os mitos de outrora e a antiga sabedoria oracular recebem nova expressão na ciência nascente da física empírica e no nascimento da filosofia.

Essa atividade é parte integrante de um grande despertar, uma efusão de poder, que pode ser rastreada também em outras terras; é uma intensificação da consciência religiosa das nações, e intensificou o instinto religioso da Grécia de maneira notável.

Sua característica mais marcante

GRÉCIA.

é a aplicação do intelecto às coisas religiosas, devido ao desenvolvimento acelerado dessa faculdade no homem.

Os maiores pioneiros dessa atividade foram homens cujos nomes ainda vivem no templo da fama.

No Extremo Oriente temos Confúcio e Lao-Tsé, na Índia Gautama, o Buda, na Pérsia o último dos Zoroastros, na Grécia Pitágoras; houve outros, sem dúvida, em outras partes, que atuaram como mensageiros da Luz, mas nossos registros existentes são imperfeitos demais para nos permitir traçar seus caminhos.

Pode alguém que acredita na providência da Sabedoria nos assuntos humanos duvidar de que isso fizesse parte de algum grande plano para o avanço do homem? Se há uma Providência "que molda nossos fins", onde podemos ver sua mão mais claramente do que em tais grandes acontecimentos?

Mas para nos limitarmos à Grécia; não devemos supor que Pitágoras não teve predecessores; pois embora seus seguidores posteriores quisessem nos fazer pensar que toda a filosofia fluiu dele, não podemos acreditar nesse aparecimento tão súbito dela, e não duvidamos que Pitágoras se considerasse o enunciador de verdades antigas e apenas um dos mestres de uma linhagem de doutrina.

Ele teve Ferécides, Anaximandro e Tales antes dele na Ásia Menor, e outros mestres no Egito, na Caldeia e em outros lugares.

Na verdade, nesses primeiros dias é quase impossível separar a filosofia da mitologia e de todas as ideias antigas a ela ligadas. Se olharmos para os tempos de Tales, que é considerado o arauto dos primeiros elementos da filosofia no mundo grego, e que viveu um século antes de Pitágoras, encontramos um estado de coisas mais ou menos como segue.


Os gregos educados e viajados da época consideravam o Egito como o centro de todo o aprendizado e cultura, e seus próprios antepassados como sem importância em tais assuntos.

Os rapsodos dos poemas homéricos lisonjeavam sua vaidade cantando a proeza de seus antigos heróis, mas nada podiam dizer aos inteligentes sobre religião; quanto a Hesíodo e sua teogonia e o resto, pouco podiam fazer deles.

Ele era, sem dúvida, mais inteligível do que os fragmentos arcaicos dos poemas órficos, que guardavam os elementos mais antigos da tradição religiosa da Hélade.

Mas ele ficava muito aquém da sabedoria do Egito.

Quanto aos fragmentos órficos, eles eram as relíquias de seus ancestrais bárbaros, e ninguém acreditava neles, exceto os supersticiosos e ignorantes.

Mas uma nação que deve ser algo por si mesma, e não uma mera copiadora de outras, precisa ter confiança em suas tradições passadas, e encontramos por volta dessa época que surgiu um interesse crescente por esses antigos fragmentos, o que gradualmente levou à sua coleta e tradução para o grego do período.

Isso ocorreu no final do século VI, e o nome mais intimamente identificado com essa atividade de recuperar os fragmentos da antiga tradição foi o de Onomacritus.

É interessante notar como isso foi feito justamente antes do período em que a Grécia repeliu as hostes invasoras de Xerxes das costas da Europa.

O esforço parece ter sido o de reviver na Grécia a memória de seu passado, recuperando o canal de sua antiga inspiração, e ao mesmo tempo

GRÉCIA.

fazer com que ela sentisse a força de seu gênio peculiar ao pensar a antiga sabedoria oracular em termos de seu intelecto fresco, para que assim pudesse encontrar coragem para repelir as forças invasoras do Oriente e abrir caminho para suas futuras conquistas desse mesmo Oriente nos dias de Alexandre.

Nesse período, então, notamos o surgimento da filosofia e o renascimento da tradição órfica.

mted2|phic Mas isso não é tudo; o fermento está trabalhando tanto interna quanto externamente, e encontramos uma atividade enormemente aumentada naquelas instituições mais sagradas da vida religiosa da Grécia — os Mistérios.

Mas antes de procedermos a considerar brevemente este, talvez, o ponto mais importante de todos, tentemos fazer uma retrospectiva apressada ao longo da linha da tradição órfica; pois aqueles que estudaram tais assuntos na Grécia posterior mais profundamente do que os demais afirmam, com uma só voz, que a linha de sua descendência era de Orfeu através de Pitágoras e Platão.

Os gregos conhecidos pela história parecem ter feito parte de uma das ondas de imigração para a Europa do grande tronco ariano.

Da onda principal, houve sem dúvida muitas ondulações.

Se podemos ousar acreditar que algum germe de história subjaz aos registros dos sacerdotes de Sais, comunicados a Sólon e preservados para nós por Platão em seu *Crítias* e *Timeu*; segundo eles, já há dez mil anos antes de nossa era, a Ática era ocupada pelos ancestrais há muito esquecidos dos Helenos.

Então veio o grande dilúvio, quando a Ilha Atlântica foi destruída, e as costas do Mediterrâneo tornaram-se inabitáveis por distúrbios sísmicos, dos quais o grande cataclismo era apenas um de vários, o terceiro, diz-se, antes do "Dilúvio de Deucalião." Era o tempo do Egito "antes do dilúvio," do qual temos menção nos escritos de Maneto.


Se isto é verdade, podemos imaginar como a vaga da raça ariana conquistadora que então ocupava a Hélade — os senhores dos "autóctones" do período — foi repelida, e como o país ficou por muito tempo sob a ocupação desses mesmos "autóctones," a quem Heródoto chama de "Pelasgos." Eles eram para os gregos o que os dravidianos foram e são para os indo-arianos, "autóctones" se assim o quiserdes, mas com uma longa história própria, se pudéssemos recuperar seus registros.

A organização política dos antigos habitantes gregos da Ática, segundo as notas de Sólon, guarda uma notável semelhança com a organização política dos antigos arianos na Índia, e sem dúvida suas tradições religiosas primitivas provieram de um tronco comum.

Quanto aos "Pelasgos," quem conhece suas tradições, ou as misturas de raças que ocorreram antes que seus restos pudessem ser classificados como uma massa indistinta? Dizem-nos que eram governados por chefes vindos da Ilha Atlântica, que diligentemente estendiam suas conquistas às mais distantes costas do Grande Mar (o Mediterrâneo), e que os antigos Helenos disputavam a soberania com essa raça dominante.

Que enormes possibilidades de misturas de cultos, fusão de mitos e teocrasia temos aqui! Foram esses atlantes que introduziram os cultos de Posídon e Hefesto (Vulcano), os poderosos poderes do

GRÉCIA.

mar e do fogo subterrâneo, que haviam destruído seus pais.

Para a estirpe ariana helênica, havia o Pai-Todo-Poderoso Zeus e a Deusa da Sabedoria, Palas Atena, que também era uma deusa guerreira, como convinha a uma raça belicosa.

O que era a religião grega nesse período, quem poderá dizer? Mas não é um palpite tão absurdo supor que ela possa ter sido de natureza bárdica — explosões de hinos adequados a guerreiros, das quais temos relíquias nas lendas do Druida e do Bardo e em todas aquelas antigas tradições do Celta, na mitologia do Teutão e do Nórdico, e até mesmo no folclore lendário preservado pelos antigos Eslavos.

Podemos imaginar como, nesses primeiros anos, enquanto a forte corrente do dilúvio ariano os arrastava adiante, as Ondulações

das Ondulações

de Imigração Ariana.

ondulação sobrepunha-se a ondulação, horda lutava contra horda,

e que a terra sorridente da Hélade era um rico prêmio

para os mais fortes.

Podemos imaginar como, quando os

efeitos dos "dilúvios" haviam diminuído e, no curso de

muitos e muitos anos, as perturbações sísmicas haviam se reduzido,

a estirpe helênica reocupou o terreno novamente, não

apenas na própria Grécia, mas também nas costas da Ásia

Menor.

Mas quantas ondulações de imigração

afluíram até os tempos homéricos, quem poderá dizer?

Talvez algum dia seja possível extrair

dos mitos algum depósito de história, e perceber

como um Cécrops, um Erecteu e um Íon não

se sucederam em rápida sucessão, mas foram grandes

líderes que estabeleceram reinos separados por longos

períodos de tempo.

Não poderia ser ainda que, com esses reis conquistadores, vieram bardos para aconselhar e encorajar, e suprir Que religião se considerava boa para eles? Não poderíamos procurar aqui o protótipo de Orfeu, e atribuir a uma das últimas ondas migratórias os fragmentos arcaicos dos mais antigos poemas religiosos? Quase podemos ver alguma pompa religiosa da época descendo pela Via Sacra até Eleusis, sempre o lugar mais sagrado da Grécia, com algum Orfeu do tempo incitando os guerreiros ao entusiasmo com seus cantos, harpa na mão, com suas madeixas grisalhas esvoaçando ao vento, enquanto a marcha regular dos guerreiros mantinha o ritmo da melodia, e a enfatizava com o choque rítmico de seus escudos.


Seria vão procurar qualquer apresentação intelectual da religião órfica ao longo desta linha; fosse o que fosse, deve ter sido inspiradora, profética e oracular; e de fato esta é a característica peculiar da tradição órfica.

Mas mesmo nesses primeiros dias era a tradição pura? Dificilmente; as várias raças devem ter aberto caminho através de outras raças, e se estabelecido por um tempo entre elas antes de chegarem à Hélade, e a linha principal de sua marcha parece ter sido ao redor das costas meridionais do Mar Negro e através da Trácia.

Na Trácia, eles encontrariam o culto de Dionísio e absorveriam algumas de suas tradições; não que a Trácia fosse o lar desse culto, suas origens parecem estender-se para o leste e para trás no tempo — um culto amplamente difundido com raízes no solo de um semitismo arcaico, cujos vestígios são difíceis de descobrir nos registros obscuros e fragmentários que agora possuímos.

Além disso, há alguma mistura da tradição caldeia na linhagem órfica, mas se ela existiu nesse período ou foi acrescentada posteriormente, é difícil dizer.

Como era exatamente a religião das primeiras dessas sucessivas ondas migratórias, quando se estabeleceram nas terras ricas da Grécia e se tornaram mais civilizadas, não podemos mais dizer, pois não temos registros, mas sem dúvida elas foram vigiadas e receberam inspiração suficiente para suas necessidades.

Se agora nos voltarmos para a Grécia de Homero, e tentarmos encontrar vestígios de Orfeu, estamos fadados a decepcionar-nos. A Grécia

. de Homero.

mento; mas isso não é de todo inexplicável.

Homero canta uma Grécia que parece ter inteiramente esquecido seus antigos bardos, de heróis que haviam deixado sua religião em casa, por assim dizer.

Os gregos de cabelos louros que conquistaram a supremacia após o tempo de Íon eram uma estirpe que dava pouca atenção à religião; eles dão a impressão de serem uma espécie de guerreiros vikings que se importavam pouco com as atividades agrícolas em que seus predecessores se ocupavam, se podemos julgar pela tradição preservada por Hesíodo.

Vemos uma série de chefes independentes ocupando os muitos vales da Grécia, cuja ideia de prover para uma população crescente é por meio de incursões e conquistas.

Pode ter havido uma Helena volúvel e um Páris demasiado galante que violou a hospitalidade de seus anfitriões, mas a Guerra de Troia foi mais provavelmente uma incursão desses guerreiros para obter novas terras — uma incursão não contra uma raça alienígena, mas contra aqueles de seu próprio parentesco geral; pois os troianos eram gregos, talvez um tanto orientalizados em seus costumes pelo contato com as nações da Ásia, mas, apesar de tudo, gregos — gregos de cabelos escuros, com um culto semelhante ao culto dos de cabelos louros, e com, talvez, na maioria das vezes, tão pouco entendimento a respeito dele.

É, no entanto, justamente essa ausência do sacerdote, ou a posição muito subordinada que ele ocupa, que é uma indicação do germe daquela independência de pensamento que é a característica marcante da mente grega que foi subsequentemente desenvolvida, e da qual a Grécia da história foi o depositário especial e cuidadosamente vigiado, para que pudesse evoluir para o propósito mundial ao qual estava destinada.

Era bom para os homens encarar os deuses corajosamente e batalhar com eles, se necessário fosse.


"Homero" foi o bardo desses heróis vikings; mas o bardo de seus predecessores (que eram igualmente gregos) da estirpe helênica que eles haviam dominado foi "Orfeu". Os descendentes dos heróis de Troia naturalmente olhavam para "Homero" como o cantor dos feitos de seus antepassados e como o registrador de seus costumes e culto; eram orgulhosos demais para ouvir "Orfeu" e os antigos "teólogos" que haviam sido os bardos dos conquistados; assim, as antigas canções e sagas dessa linhagem bárdica, os cânticos e lendas dessa Grécia mais antiga, foram deixados ao povo e, consequentemente, ao abandono e à falta de compreensão.

Tal era o estado de coisas quando a filosofia¹ Orfeu surgiu no século VII; foi então descoberto pelos poucos que Homero não podia satisfazer as necessidades religiosas dos homens pensantes; não havia nada em Homero que se comparasse às tradições religiosas do Egito e da Caldeia; os gregos aparentemente não tinham nada de religião; seus ancestrais eram bárbaros.

Então ocorreu a alguns coletar e comparar os antigos oráculos e mitos religiosos do povo — os fragmentos dos cânticos órficos — e neles encontraram provas de uma antiga tradição grega das coisas invisíveis que poderia ser favoravelmente comparada com muito do que o Egito e a Caldeia podiam lhes contar.

A Grécia tinha uma tradição religiosa; seus antepassados não eram bárbaros.

Aqueles que se ocuparam de tais assuntos nesse período crítico, podemos acreditar, não foram deixados sem orientação; e poetas e pensadores foram ajudados conforme podiam receber. Os fragmentos dessa atividade na poesia órfica que chegaram até nós mostram sinais dessa inspiração; não nos referimos aos tardios "Hinos Órficos", cerca de oitenta em número, que podem ser lidos em inglês na tradução de Taylor, mas aos fragmentos antigos dispersos nas obras de escritores clássicos e patrísticos.

Muitos desses foram baseados nos fragmentos arcaicos dos tempos pré-homéricos e olhavam para essa tradição arcaica como seu fundamento.

Mas o cenário místico e mitológico desses poemas, seu caráter entusiástico e profético, embora suficiente para muitos, não se adequava à nascente intelectualidade da Grécia, que se afirmava com tanto vigor.

Portanto, os maiores líderes desse pensamento buscaram meios de revestir as ideias que estavam consagradas no mito e na poesia, em modos mais adequados aos intelectuais da época; e temos a filosofia de um Pitágoras e, posteriormente, de um Platão.


Mas, ao lado dos cultos públicos e das tradições populares, existia um organismo interno de religião e canais de tradições secretas ocultos nas instituições de Mistérios.

Se é difícil formar qualquer noção precisa da evolução das ideias religiosas populares na Grécia, muito mais difícil é traçar as várias linhas das tradições dos Mistérios, que eram consideradas com a maior reverência possível e guardadas com o maior sigilo possível, sendo a menor violação do juramento punível com a morte.

A ideia que fundamentava a tradição dos Mistérios na Grécia era semelhante à que fundamentava todas as instituições similares na antiguidade, e é difícil encontrar qualquer culto de importância sem esse lado interno.

Nessas instituições, nos santuários internos do templo, encontravam-se os meios de uma participação mais íntima no culto e instrução nos dogmas.

A instituição dos Mistérios é o fenômeno mais interessante no estudo da religião.

A ideia da antiguidade era que havia algo a ser conhecido na religião, segredos ou mistérios nos quais era possível ser iniciado; que havia um processo gradual de desdobramento nas coisas religiosas; em suma, que havia uma ciência da alma, um conhecimento das coisas invisíveis.

Uma tradição persistente em conexão com todas as grandes instituições de Mistérios era que seus vários fundadores foram os introdutores de todas as artes da civilização; eles eram ou eles mesmos deuses, ou foram instruídos nelas pelos deuses —

GRÉCIA.

Em suma, que eram homens de conhecimento muito maior do que qualquer um que veio depois; eram os mestres das raças infantis.

E não apenas lhes ensinaram as artes, mas também os instruíram na natureza dos deuses, da alma humana e do mundo invisível, e expuseram como o mundo veio a existir e muito mais.

Encontramos o mundo antigo entremeado por essas instituições.

Elas eram de todos os tipos e

Sua Corrupção.

espécies, desde as mais puras e nobres até as mais degradadas; nelas encontramos o melhor e o pior da religião e da superstição da humanidade.

Nem deveríamos nos surpreender com isso, pois quando a natureza humana é intensificada, não apenas o que há de melhor nela é estimulado, mas também o que há de pior encontra maior escopo.

Quando o conhecimento é dado, o poder é adquirido, e depende dos receptores se o usarão para o bem ou para o mal.

Os mestres da humanidade sempre foram opostos pelas forças inatas do egoísmo, pois a evolução é lenta, e a humanidade é voluntariosa; além disso, os homens não podem ser forçados, devem vir por sua própria livre vontade, "pois o amor é o cumprimento da lei"; e assim, novamente, embora "muitos sejam os 'chamados', poucos são os 'escolhidos'."

Diz-se que esses primeiros mestres da humanidade, que fundaram as instituições dos Mistérios como o meio mais

A Razão

eficiente de dar à humanidade infantil instrução nas coisas superiores, eram almas pertencentes a uma humanidade mais altamente desenvolvida do que a nossa.

Os homens de nossa humanidade infantil eram crianças com mentes pouco desenvolvidas, e capazes apenas de compreender o que viam e sentiam distintamente.


Nos tempos mais remotos, segundo essa visão, os Mistérios eram conduzidos por aqueles que possuíam um conhecimento das forças da natureza que era a aquisição de uma humanidade anterior aperfeiçoada, não necessariamente nascida na Terra, e as maravilhas ali exibidas eram tais que nenhum de nossa humanidade poderia, por si só, produzir.

À medida que o tempo passava e a nossa humanidade desenvolvia cada vez mais a faculdade da razão, e foi considerada suficientemente forte para se sustentar sobre os próprios pés, os mestres gradualmente se retiraram, e os Mistérios foram confiados aos cuidados dos alunos mais avançados dessa humanidade, que tiveram finalmente de substituir por símbolos e artifícios, dramas e representações cênicas, aquilo que anteriormente havia sido revelado por meios superiores.

Foi então que a corrupção se insinuou, e o homem foi deixado para conquistar sua própria divindade pela autoconquista e pela luta persistente contra os elementos inferiores de sua natureza.

Os mestres permaneceram invisíveis, sempre prontos a ajudar, mas não mais se movendo visivelmente entre os homens, para compelir sua reverência e adoração.

Assim reza a tradição.

Se, como vimos, a origem e a evolução

Os Vários dos cultos populares da Grécia são difíceis de

ns" rastrear, muito mais difíceis são os começos

e o desenvolvimento do culto-mistérico grego.

A principal característica dos Mistérios era

o profundo sigilo em que suas tradições

eram guardadas; portanto, não temos materiais adequados

sobre os quais trabalhar, e temos de nos apoiar principalmente em

indícios e alusões veladas.

Tanto, porém, é

GRÉCIA.

certo, que o lado mistérico da religião era a iniciação em seu culto e doutrina superiores; o maior elogio é concedido aos Mistérios pelos maiores pensadores entre os gregos, que nos dizem que eles purificavam a natureza, e não apenas faziam os homens viverem melhor aqui na terra, mas os habilitavam a partir da vida com esperanças mais brilhantes quanto ao futuro.

O que as tradições primitivas do culto-mistérico, ao longo das linhagens de descendência órfica, dionisíaca e eleusina, possam ter sido, é desnecessário especular neste esboço geral; mas se descermos aos dias de Platão, encontramos instituições mistéricas existentes que podem ser caracterizadas aproximadamente como políticas, privadas e filosóficas.

Os Mistérios políticos — isto é, os Mistérios de Estado — eram os famosos Eleusínios, com seus suntuosos espetáculos externos e seus esplêndidos ritos internos.

Nesse período, quase todo cidadão respeitável de Atenas era iniciado, e podemos facilmente perceber que as provas não poderiam ter sido muito rigorosas, quando tantos eram admitidos todos os anos.

Na verdade, esses Mistérios de Estado, embora proporcionassem um grau ou vários graus de avanço ao longo do caminho da vida reta e da correta compreensão da vida, haviam se tornado algo superficial, como todos os departamentos de uma religião de Estado estão fadados a se tornar com o tempo.

Ao lado dos Eleusínia, existiam certos Mistérios privados, não reconhecidos pelo Estado, cujo número posteriormente aumentou enormemente, de modo que quase toda variedade de culto de Mistério Oriental encontrou seus adeptos na Grécia, como pode ser visto a partir de um estudo das associações religiosas entre os gregos, conhecidas como Thiasi, Erani e Orgeones; entre comunidades e sociedades privadas desse tipo, naturalmente havia muitos elementos indesejáveis, mas ao mesmo tempo elas satisfaziam as necessidades de muitos que não podiam extrair nenhum alimento espiritual da religião de Estado.


Entre essas fundações privadas estavam comunidades de ascetas rígidos, homens e mulheres, que se dedicavam inteiramente à vida santa; dizia-se que tais pessoas viviam a "vida órfica" e eram geralmente conhecidas como Órficos.

Naturalmente, havia charlatães que os parodiavam e fingiam possuir sua pureza e conhecimento, mas estamos atualmente seguindo as indicações daqueles cuja conduta correspondia à sua profissão.

Essas comunidades órficas parecem ter sido os refúgios daqueles que anelavam pela vida religiosa, e entre elas estavam as escolas pitagóricas.

Pitágoras não estabeleceu algo inteiramente novo na Grécia quando fundou sua famosa escola em Crotona; ele desenvolveu algo já existente, e quando sua escola original foi dissolvida e seus membros tiveram que fugir, buscaram refúgio entre os Órficos.

As escolas pitagóricas desaparecem nas comunidades órficas.

É na tradição pitagórica que vemos os sinais do que chamei de Mistérios filosóficos; é, portanto, nas melhores tradições órficas e pitagóricas que temos de encontrar as indicações da natureza dos verdadeiros Mistérios, e não nos Eleusínios políticos da GRÉCIA, ou nos elementos desordenados dos cultos orientais.

De fato, os Órficos muito fizeram para melhorar os Eleusínios e os apoiaram como um meio mais necessário para educar o homem comum rumo a uma compreensão da vida superior. Mistérios filosóficos.

É evidente, no entanto, que os Mistérios que satisfaziam as aspirações dos Órficos e Pitagóricos eram algo mais elevado do que os Mistérios de Estado do cidadão comum.

Esses Pitagóricos foram famosos em toda a antiguidade pela pureza de suas vidas e pela elevação de seus objetivos, e os Mistérios que eles reverenciavam com tão profunda devoção devem ter sido algo além dos Eleusínios, algo para o qual os Eleusínios eram apenas uma das abordagens exteriores.

Temos, então, de buscar a vida religiosa mais íntima da Grécia nessa direção, e lembrar que as experiências interiores dessa vida eram guardadas em profundo segredo e não exibidas nos telhados. Pitágoras e Platão.

Diz-se que Pitágoras foi iniciado nos Mistérios Egípcios, Caldeus, Órficos e Eleusínios; ao mesmo tempo, foi um dos principais fundadores da filosofia grega.

Sua filosofia, no entanto, não era algo isolado, mas a aplicação de seu intelecto — especialmente de seu gênio matemático — ao que havia de melhor nessas tradições dos Mistérios; ele viu que era necessário tentar conduzir a intelectualidade em rápida evolução da Grécia por seus próprios caminhos à contemplação da natureza interior das coisas; caso contrário, na alegria de sua liberdade, ela se descontrolaria por completo e rejeitaria as verdades da sabedoria antiga.


Platão deu continuidade a essa tarefa, embora por caminhos um tanto diferentes; ele atuou mais no mundo do que Pitágoras, e seu principal esforço foi limpar o terreno de equívocos, para que o intelecto pudesse ser purificado e levado a um estado adequado para contemplar as coisas-que-são.

Ele passou a vida nessa tarefa, construindo não tanto um sistema de conhecimento, mas desobstruindo o caminho para que as grandes verdades da Gnosis das coisas-que-são, como Pitágoras a denominou, pudessem tornar-se evidentes por si mesmas.

É um erro supor que Platão formulou um sistema de filosofia distintamente novo; suas concepções principais são parte integrante da antiga sabedoria transmitida pelos videntes dos Mistérios; mas ele não as formula tanto quanto limpa o terreno por meio de seu método dialético, para que a mente possa ser levada a um estado adequado para recebê-las.

Por isso, as conclusões de seus diálogos são quase sempre negativas, e "somente no fim de sua longa vida, provavelmente contra seu melhor juízo e em resposta à importunação de seus discípulos, é que ele apresenta um documento positivo no Timeu, composto de fragmentos dos escritos não publicados de pitagóricos e outros.

Infelizmente, a maioria daqueles que imediatamente o seguiram imaginou que seu método dialético fosse um fim em si mesmo, e assim, em vez de viver a vida da filosofia e buscar a visão clara da verdadeira iniciação, degeneraram em argumentação vazia e terminaram na negação.

Aristóteles veio em seguida com seu admirável método de análise e observação exata dos fenômenos, e como tratava do exterior mais do que do interior, foi, de um ponto de vista, melhor compreendido do que Platão, mas, de outro, mais mal compreendido, na medida em que seu método também foi tomado como um fim em si mesmo, e não simplesmente como um meio.

E assim chegamos aos três séculos anteriores à era presente, quando a vida intelectual da Grécia estava centrada em Alexandria.

Era uma Grécia muito mais extensa do que a Hélade de Platão; era uma Grécia cuja pujança física havia conquistado o Oriente, e que se vangloriava de que seu vigor intelectual conquistaria o mundo.

Em toda parte, ela confrontava seu intelecto vigoroso contra o antigo Oriente e, por um tempo, imaginou que a vitória estava com ela.

Sua independência de pensamento dera origem a inúmeras escolas em guerra umas com as outras, e o espetáculo que ela nos oferece é muito semelhante ao espetáculo da Europa moderna durante os últimos trezentos anos.

Vemos ali em ação, embora em escala menor — em germe, por assim dizer — a mesma atividade intelectual que caracterizou o surgimento do método científico moderno, e com ela o mesmo desmoronamento de velhas visões, a mesma inquietação, o mesmo espírito de ceticismo.

Se olharmos apenas para a superfície das coisas, poderíamos quase dizer que a Grécia havia esquecido inteiramente a tradição dos Mistérios e se gloriava unicamente na força desassistida de seu intelecto.

Mas se olharmos mais fundo, descobriremos que não é esse o caso.

Em nos dias de Platão, o Oriente e o Egito foram trazidos à Grécia, por assim dizer, enquanto mais tarde a Grécia foi ao Egito e ao Oriente.


Ora, a sabedoria antiga tinha seu lar no Egito, na Caldeia e no Oriente em geral, de modo que

embora as comunidades órficas e pitagóricas do tempo de Platão tenham importado para a Grécia um Orientalismo modificado, que adaptaram ao gênio grego ao longo das linhas de sua própria tradição de sabedoria antiga, quando os gregos, aos milhares, saíram para o Oriente, aqueles dentre eles que estavam preparados pelo contato com essas escolas entraram em intimidade mais estreita com a sabedoria antiga do Oriente e a absorveram prontamente.

Quanto à generalidade, assim como a introdução do Orientalismo na Grécia entre o povo trouxe consigo abusos e ritos entusiásticos de caráter indesejável, ao mesmo tempo em que intensificava a vida religiosa e dava maior satisfação às emoções religiosas, assim também a conquista grega do Oriente espalhou um espírito de ceticismo e descrença, ao mesmo tempo em que aguçava as faculdades intelectuais.

Mas todo esse processo foi muito gradual, e quanto mais o ceticismo aumentava, mais intenso se tornava o desejo de muitos de se retirarem do conflito

CT

embate de opiniões, e buscar refúgio na vida contemplativa que lhes oferecia conhecimento.

Pensadores e místicos orientais foram helenizados segundo as linhas da filosofia pitagórica e platônica, e filósofos gregos foram orientalizados pelo contato com membros das muitas comunidades que entreteciam não apenas o Egito e o restante das

GRÉCIA.

nações "bárbaras" sujeitas à Grécia, mas também a Ásia Menor e até a própria Hélade.

Quão numerosas eram essas comunidades no primeiro século pode ser visto a partir de um estudo dos escritos de Fílon de Alexandria e da vida de Apolônio de Tiana, e a partir do quadro da Grécia mística que pode ser recuperado dos ensaios éticos e teosóficos de Plutarco, e também das muitas inscrições recentemente descobertas relativas às inúmeras Associações Religiosas na Grécia.

Quando os reinos gregos dos Sucessores de Alexandre foram, por sua vez, humilhados sob Roma,

o poder conquistador de Roma, o gênio itálico organizador, policiou o mundo, de modo um tanto semelhante à maneira da atual ocupação britânica da Índia.

A mente jurídica e o gênio prático de Roma nunca estiveram realmente à vontade nas

/ sutilezas metafísicas da filosofia grega, ou no misticismo do Oriente.

Na literatura e na arte, ela só podia copiar a Grécia; na filosofia, buscava uma

-f regra de conduta em vez de um sistema de conhecimento, e assim a encontramos, nas pessoas de seus melhores homens, como seguidora do naturalismo estoico, que resumia seu código de ética no ideal de "honestas".

No entanto, Roma não pôde, mais do que a Grécia, evitar o contato religioso com o Oriente, e nós a

11  ii  i       ji    Os Mistérios

encontramos passando pelas mesmas experiências que a

De Mitras.

Grécia, embora de forma muito mais modificada.

O principal ponto de contato entre as muitas religiões do Império Romano estava no culto comum do Sol, e o núcleo interior desse culto mais popular era, desde cerca de A.C.


em diante, a ser encontrado nos Mistérios de Mitras.

"O culto de Mitras, ou do deus-sol, era o mais popular dos cultos pagãos, e o principal antagonista da verdade durante os primeiros quatro séculos do nosso período." Tal é a declaração de quem o observa do ponto de vista de um eclesiástico cristão, e de fato os Padres da Igreja, desde a época de Justino Mártir em diante, declararam que o Diabo, nos Mistérios de Mitras, havia plagiado por antecipação os seus mais sagrados ritos.

Os Mistérios Mitríacos representavam o lado esotérico de um grande movimento religioso internacional, que a união de muitos povos no mundo greco-romano tornara possível, e que resultou do contato da Grécia e de Roma com o pensamento do Oriente.

Os cultos nacionais e locais foram gradualmente influenciados pela forma de simbolismo empregada pela tradição caldeu-persa modificada; o culto do Sol Espiritual, o Logos, com o símbolo natural do glorioso orbe do dia, que era comum, sob uma forma ou outra, a todos os grandes cultos, e o restante do simbolismo solar, gradualmente permeou as formas populares e indígenas de religião.

Com o tempo, Mitra, o sol visível para os ignorantes, o Sol Espiritual, o Mediador entre a Luz e as Trevas, como nos diz Plutarco, para os instruídos, fez com que os seus raios brilhassem até os limites extremos do Império Romano.

E assim como o seu culto externo dominou as formas restritas do culto nacional, também a tradição dos seus Mistérios modificou o culto-mistérico do antigo mundo ocidental.

GRÉCIA.

EGITO.

VOLVAMO-NOS agora ao Egito e lancemos um olhar sobre a perspectiva que há de ser examinada, antes que os contornos desta parte do pano de fundo da Gnose possam ser preenchidos.

Apesar da sua reserva e do imensurável desprezo pelo gênio grego arrivista, o Egito, mesmo nos tempos dos primeiros Ptolomeus, havia dado da sua sabedoria à Grécia.

Houve uma enorme atividade de tradução de registros e documentos, cuja origem está associada ao nome de Manetão.

É muito provável que Plutarco, em seu tratado sobre os Mistérios de Ísis, tenha extraído a maior parte de suas informações de Manetho, e é evidente que as doutrinas ali apresentadas como a sabedoria tradicional do Egito possuem inúmeros pontos de contato com a literatura trismegística grega, aqueles tratados místicos e teosóficos que formavam os manuais de instrução nas escolas herméticas internas, comunidades místicas que transmitiam a tradição de sabedoria de Thoth, ou Tehuti, o Deus da Sabedoria, cujo nome, como nos diz Jâmblico, era "comum a todos os sacerdotes", ou seja, era a fonte de inspiração da tradição de sabedoria em todos os seus ramos.

Os gregos, encontrando em seu próprio Hermes alguns pontos de semelhança com as características de Tehuti, chamaram-no por esse nome, com o título adicional de Trismegisto, ou Três Vezes Grande, por causa de sua grande sabedoria.


Que o conteúdo, embora não a forma, dos mais antigos tratados dessa literatura trismegística fosse em grande parte egípcio é ainda evidenciado por Jâmblico em seu tratado sobre os Mistérios dos Egípcios e Caldeus.

Ao longo dessas linhas de contato entre o Egito e a Grécia, podemos proceder a examinar a sabedoria egípcia em seu próprio solo e nela encontrar muitas doutrinas plenamente desenvolvidas que, sem essa investigação, teríamos considerado inteiramente indígenas ao solo puramente cristão.

De fato, na literatura trismegística encontramos uma série de doutrinas distintivas do cristianismo gnóstico, mas sem o Cristo histórico; e todas essas doutrinas são vistas como tendo existido por milhares de anos anteriormente na tradição egípcia direta — especialmente as doutrinas do Logos, do Salvador e da Virgem Mãe, do segundo nascimento e da união final com Deus.

Mas, como no caso da Grécia, assim no caso do Egito, dentro da própria tradição egípcia há todo tipo de confluência de doutrinas, de sincretismo e mesclas, não apenas nos cultos populares externos, mas também nas tradições internas.

Para citar um único exemplo, houve uma forte mistura semítica datando da linhagem dos hicsos (2000-1500 a.C.). Naquela época, Seth, talvez idêntico ao título do Supremo na língua dos conquistadores semitas, era um nome de grande honra.

Foi identificado com Sothis, Sirius, a estrela guardiã do Egito, a Terra Siriádica; e os Mistérios de Seth foram sem dúvida

EGITO.

misturados de alguma forma com os de Osíris.

Após a expulsão dos odiados hicsos, é verdade que Seth ou Set foi gradualmente identificado com Typhon, o oponente de Osíris, o Logos; mas isso não afeta as verdadeiras doutrinas dos Mistérios de Seth, mais do que o fato de que os arianos iranianos usarem o nome Daevos para designar entidades malignas destruiu a natureza benéfica dos Devas dos indo-arianos; isso simplesmente registra uma rivalidade de culto e raça e aponta para uma época anterior em que houve contato íntimo entre as raças e suas religiões.

Da mesma forma, o uso cristão do termo Demônio não elimina o fato de que os Daimones dos gregos eram seres benéficos; testemunha o Daimon de Sócrates, "que o impedia se ele estivesse prestes a fazer algo não corretamente."

As antigas relações políticas estreitas entre a Caldeia e o Egito, reveladas pela pesquisa arqueológica, e a posterior conquista persa do Egito, devem também ter descoberto pontos de contato no domínio da religião, especialmente nas tradições dos Mistérios, e futuras pesquisas nos muitos campos até então não trabalhados da Egiptologia lançarão, sem dúvida, nova luz sobre a herança mista da religião no Egito, que talvez seja ainda mais complicada do que a dos cultos da Grécia.

Em todo caso, não podemos deixar de sentir a sublimidade de muitas das concepções da religião interior do Egito, apesar de nossa atual incapacidade de classificá-las de maneira satisfatória.

O vasto e misterioso pano de fundo dos cultos do Egito, as frases sonoras e títulos grandiosos que peneiramos As Comunidades Místicas.


Os Terapeutas.

Da presente ininteligibilidade do mito e do símbolo, persuade-nos de que havia algo de grande operando internamente, e encontramos os esforços mais íntimos dos místicos dedicados ao "Nascimento de Hórus", uma prefiguração do maior de todos os mistérios: o nascimento espiritual do homem, pelo qual o homem se torna um deus e um filho do Pai.

Os próprios egípcios, segundo os escritores gregos, olhavam para trás, para um tempo em que seu sacerdócio iniciado possuía maior sabedoria do que a que tinham em tempos posteriores; eles confessam que haviam se afastado desse alto padrão e perdido a chave para grande parte de seu conhecimento.

Contudo, o desejo de sabedoria ainda era forte em muitos da nação, e o Egito sempre foi um dos países mais religiosos do mundo.

Assim, encontramos o judeu Fílon, ao escrever sobre os amantes da sabedoria por volta de 25 d.C., declarando que "essa classe natural de homens é encontrada em muitas partes do mundo habitado, tanto no mundo grego quanto no não-grego, participando do bem perfeito. No Egito, há multidões deles em cada província, ou nomo, como a chamam, e especialmente ao redor de Alexandria."

Esses amantes da sabedoria, Fílon os chama pelo nome comum de Terapeutas, seja porque professavam uma arte de cura superior à de uso comum, pois curavam almas e corpos, ou porque eram servos de Deus.

Ele descreve uma de suas comunidades, que evidentemente pertencia ao círculo do judaísmo místico; mas as muitas outras comunidades que ele menciona também eram dedicadas aos mesmos fins; seus membros eram buscadores esforçados da sabedoria e praticantes devotos da vida santa.

Essas irmandades secretas não deixaram registros; mantinham-se afastadas do mundo, e o mundo não as conheceu.

Mas são justamente essas comunidades que foram os elos imediatos na cadeia de hereditariedade da Gnose.

EGITO.

Devemos, portanto, aproveitar ao máximo o que Fílon tem a nos dizer sobre esses Terapeutas; para fazê-lo a fundo, seria naturalmente necessário percorrer toda a sua volumosa obra e submeter o material assim coletado a um exame crítico — tarefa que está fora do escopo destes breves esboços.

Mas, como a questão é de vital importância, não podemos nos abster de apresentar ao leitor uma tradução da principal fonte nos escritos de Fílon da qual extraímos nossa informação.

Antes, porém, de fornecer esta tradução, é necessário prefixar algumas palavras a título de introdução.

O aparecimento, em 1895, da admirável edição de Conybeare do texto do famoso tratado de Fílon *Sobre a Vida Contemplativa* finalmente colocou uma das engenhosamente invertidas pirâmides das origens cristãs de Eusébio firmemente sobre sua base novamente.

O título completo desta importante obra é: *Fílon sobre a Vida Contemplativa, ou o Quarto Livro do Tratado sobre as Virtudes* — editado criticamente com uma defesa de sua autenticidade por Fred C. Conybeare, M.A. (Oxford, 1895). Este livro contém uma excelente bibliografia de obras relacionadas ao assunto.

A sobrevivência da volumosa obra de Fílon através da negligência e do vandalismo da Idade das Trevas e da Idade Média deve-se ao fato de que Eusébio, em seus esforços para construir história sem materiais, apoderou-se avidamente da descrição de Fílon sobre os aspectos externos da ordem dos Terapeutas e declarou corajosamente que era a mais antiga Igreja Cristã de Alexandria.

Essa visão permaneceu incontestada até o surgimento do Protestantismo, e só então foi questionada porque o partido papal baseava sua defesa da antiguidade do monaquismo cristão neste famoso tratado.

Por três séculos, toda a artilharia da erudição protestante tem sido voltada contra essa posição principal das Igrejas Romana e Grega.

Pois, se o tratado fosse genuíno, então a Igreja mais antiga era uma comunidade de ascetas rígidos, homens e mulheres; o monaquismo, o bête noire do Protestantismo, era contemporâneo das origens.

Esses três séculos de ataque finalmente desenvolveram uma teoria que, ao ser aperfeiçoada por Gratz, Nicolas e Lucius, foi aceita por quase todos os nossos principais estudiosos protestantes, e afirma-se ter demolido para sempre o documento objectionável.

Segundo essa teoria, "os Terapeutas ainda são cristãos, como o eram para Eusébio; mas não mais de um caráter primitivo. Pois a atribuição da obra a Filo é declarada falsa, e os ascetas nela descritos são, na realidade, monges de cerca do ano 300 d.C.; dentro de poucos anos dessa data supõe-se que o tratado tenha sido forjado" (op. cit., p. vi.).

A consequência é que toda história eclesiástica, dicionário e enciclopédia protestante recente, ao tratar dos Terapeutas, está abundantemente salpicada de referências à engenhosa invenção chamada "Pseudo-Filo".

Essa pirâmide das origens foi mantida apoiada sobre seu ápice até 1895, quando a obra de Conybeare foi publicada, e todos os suportes foram arrancados de sob ela. Por estranho que pareça, foi então, e somente então, que um texto crítico desse tratado tão violentamente atacado foi colocado em nossas mãos. Por fim, todos os manuscritos e versões foram cotejados.

Com persistência implacável, Conybeare reuniu seus Testimonia, e com admirável paciência comparou cada frase distintiva e expressão técnica com volumosas citações do restante das obras de Filo, das quais há uma "ignorância tão prevalente e lamentável". A isso ele acrescentou um extenso Excursus sobre a autoria filoniana do tratado.

Se Filo não escreveu o De Vita Contemplativa, então todo cânone de crítica literária é uma ilusão; a evidência aduzida pelo antigo Fellow do University College pela autenticidade do tratado é irresistível.

Temos assim um novo ponto de partida na pesquisa filoniana. O perigo que um estudo aprofundado do restante das obras de Filo ameaçaria a certas presunções ortodoxas é evidenciado pelo parágrafo conclusivo do prefácio de Conybeare, onde ele escreve:

É quase inacreditável, e algo como uma censura a Oxford como lugar de aprendizado, que nem uma única linha de Fílon, nem qualquer obra que trate especificamente dele, seja recomendada para leitura aos estudantes em nossa Honour School de Teologia; e que, embora este mais espiritual dos autores seja, pela admissão, tácita ou expressa, de uma longa linhagem de mestres católicos, desde Eusébio e Ambrósio no século IV até Bull e Dollinger nos tempos modernos, o pai não apenas da exegese cristã, mas também, em grande medida, da dogmática cristã" (op. cit., p. x.).


Fica assim estabelecido que o De Vita Contemplativa é um tratado genuinamente filoniano.

Quanto à sua data, somos

Uma Questão confrontados com algumas dificuldades; mas a opinião

Interessante de especialista de Conybeare nos assegura que "cada releitura das obras de Fílon confirma meu sentimento de que o D.U.C. é uma de suas obras mais antigas" (op. cit., p. 276). Ora, como Fílon nasceu por volta do ano 30 a.C., a data do tratado pode ser aproximadamente atribuída ao primeiro quarto do primeiro século.

("Por volta do ano 22 ou 23" — op. cit., p. 290). A questão surge naturalmente: Em tal data, podem os Terapeutas de Fílon ser identificados com a mais antiga Igreja Cristã de Alexandria? Se as datas aceitas das origens estão corretas, a resposta deve ser enfaticamente, Não. Se, pelo contrário, as datas aceitas estão incorretas, então um vasto problema se abre, da mais alta importância para as origens da fé cristã.

Seja como for, o conteúdo do D.V.C. é de imensa importância e interesse, pois nos proporciona um vislumbre daquelas misteriosas comunidades nas quais os cristãos, por tantos séculos, reconheceram seus precursores.

Os Terapeutas não eram cristãos; Fílon não sabe absolutamente nada do cristianismo em qualquer sentido possível em que a palavra é usada hoje.

Quem eram eles, então? A resposta a esta questão

EGITO.

exige uma reformulação completa da história aceita das origens.

O Título

O tratado traz em alguns MSS.

a superscrição, "Os Suplicantes, ou Sobre as Virtudes, Livro IV., ou Sobre a Virtude dos Suplicantes, Livro IV." Por "Suplicante" Filão nos diz que ele quer dizer "aquele que fugiu para Deus e se refugiou Nele." (De Sac. Ab. et C., i. 186, 33). É altamente provável que nosso tratado fizesse parte do quarto livro da volumosa obra de Filão, De Legatione, da qual apenas fragmentos sobreviveram.

"O tempo e os editores cristãos truncaram o De Legatione de uma forma tripla.

Primeiramente, uma boa parte do segundo livro foi removida, talvez porque contrariasse a tradição cristã concernente a Pôncio Pilatos.

Em segundo lugar, o quarto livro inteiro foi removido, por formar um todo em si mesmo; e a primeira parte dele foi perdida, exceto o fragmento sobre os Essênios que Eusébio nos preservou na Praeparatio Evangelica; enquanto o relato sobre os Terapeutas foi colocado separadamente e preservado como um livro à parte.

... Em terceiro lugar, a palínodia que formava o quinto livro foi perdida" (op. cit., p. 284).

Mas ao próprio tratado.


FILÃO SOBRE A VIDA CONTEMPLATIVA.

"Como já tratei dos Essênios que praticam assiduamente a vida [religiosa] de ação,

executando-a em todos, ou, para não falar presunçosamente, na maioria de seus graus, passarei imediatamente, seguindo a sequência do meu assunto, a dizer o quanto for apropriado sobre aqueles que abraçam [a vida de] contemplação; e isso também sem acrescentar nada de meu para melhorar a questão — como todos os poetas e escritores de história costumam fazer na escassez de bom material — mas apegando-me sem artifícios à própria verdade, pois até o [escritor] mais hábil, eu sei, falhará em falar de acordo com ela.

"No entanto, o esforço deve ser feito e devemos lutar através dele; pois a grandeza da virtude desses homens não deve ser causa de silêncio para aqueles que consideram certo que nenhuma coisa boa seja mantida em silêncio.

"Agora, o propósito de nossos amantes da sabedoria é

O Nome imediatamente evidente a partir de seu nome.

Eles são

Terapeutas, chamados Tterapg e Terapeutrides [homens e

mulheres] no sentido original da palavra; ou

porque professam uma arte de cura superior

àquela em uso nas cidades (pois esta apenas cura

(θepαπεύει) os corpos, enquanto aquela [cura nossas] almas

também, quando tomadas por doenças difíceis e de difícil

cura, que o prazer e o desejo, e a dor e o medo, o egoísmo e a loucura, e a injustiça, e

FILON SOBRE A VIDA CONTEMPLATIVA.

a interminável multidão de paixões e vícios, lhes infligem), ou então porque foram instruídos pela natureza e pelas leis sagradas a servir (θεραπεύειν) Aquilo que é melhor que o Bem, e mais puro que o Uno, e mais antigo que a Mônada."

Filon aqui se entrega a uma digressão, contrastando a adoração não inteligente dos externos pelos mal instruídos em todas as religiões com a adoração da verdadeira Divindade por aqueles que seguem a vida contemplativa.

Aqueles que se contentam em adorar os externos são cegos; que permaneçam, então, privados da visão.

E acrescenta significativamente que não fala da visão do corpo, mas daquela da alma, pela qual somente a verdade e a falsidade se distinguem uma da outra.

"Mas quanto à raça dos devotos [os Terapeutas], que são sempre ensinados a ver cada vez mais, que se esforcem pela intuição Daquilo que é; que transcendam o sol que os homens percebem [e contemplem a Luz além], nem jamais deixem esta fileira [ordem, espaço, ou plano], que conduz à bem-aventurança perfeita.

Ora, aqueles que se dedicam ao [divino] serviço [o fazem], não por causa de algum costume, ou por conselho ou apelo de alguém, mas arrebatados pelo amor celestial, como os iniciados nos Mistérios Báquicos e Coribânticos; eles ardem com Deus até contemplarem o objeto de seu amor.

"Então é que, através de seu anseio por aquela Vida imortal e bendita, pensando que sua vida mortal já está finda, eles deixam suas posses a seus filhos e filhas, ou, talvez, a outros parentes, com resoluta disposição, fazendo-os seus herdeiros antes do tempo; enquanto aqueles que não têm parentes [dão sua propriedade] a seus companheiros e amigos."


Numa digressão, Fílon aponta a diferença entre o abandono sóbrio e ordenado da propriedade para seguir a vida filosófica, que ele elogia, e os exageros selvagens das lendas populares, que contavam como Anaxágoras e Demócrito, quando tomados pelo amor à sabedoria, permitiam que todos os seus bens fossem devorados pelo gado.

"Sempre que então [nossos amantes da sabedoria] dão o passo de renunciar a seus bens, não mais são seduzidos por ninguém, mas apressam-se sem uma única vez voltar atrás, deixando para trás irmãos, filhos, esposas, pais, os inúmeros laços de parentesco e vínculos de amizade, suas terras natais em que nasceram e foram criados; pois o habitual é um entrave e o mais poderoso atrativo.

"Tampouco emigram para alguma outra cidade (como seus escravos maltratados ou inúteis que, ao reivindicarem compra

Retiros.

de seus senhores, apenas obtêm para si uma mudança de mestres e não a liberdade), pois toda cidade, mesmo a mais bem governada, está cheia de inúmeros tumultos, formas de destruição e desordens que seriam insuportáveis para um homem que uma vez tomou a sabedoria como guia.

"Mas eles fazem sua morada fora dos muros, em bosques [fechados] ou terras cercadas, em busca da solidão, [e isso] não para satisfazer qualquer sentimento de aversão grosseira a seus semelhantes, mas pelo conhecimento de que o contato contínuo com aqueles de

FÍLON SOBRE A VIDA CONTEMPLATIVA.

disposições dessemelhantes às suas é inútil e prejudicial.

"Ora, esta classe natural de homens [lit. raça] encontra-se em muitas partes do mundo habitado, tanto o mundo grego quanto o não grego participando do bem perfeito."

"No Egito, há multidões deles em cada província, ou nomo, como a chamam, e especialmente na Mareótida, ao redor de Alexandria.

Pois aqueles que são, em todos os sentidos, Colônia [ou em cada nomo] os mais altamente avançados vêm como colonos, por assim dizer, para a pátria dos Terapeutas, para um local extremamente bem adaptado para o propósito, situado em um terraço bastante elevado [pequeno planalto ou grupo de pequenas colinas] com vista para o Lago Marea ou Lago Mareótis, imediatamente ao sul de Alexandria, em uma situação mais favorável tanto para a segurança quanto para a suavidade da temperatura.

A segurança [ci. contra ladrões] é garantida pelo cinturão de propriedades e vilarejos [que circunda o terraço], e a suavidade da temperatura deve-se às brisas contínuas enviadas pelo lago, que se abre para o mar, e à proximidade do próprio mar aberto.

As brisas do mar são leves, enquanto as do lago são fortes, e sua combinação produz uma condição [da atmosfera] mais saudável.

"As moradias da comunidade são muito simples, servindo apenas como abrigo contra as duas maiores necessidades — o calor extremo do sol e o frio extremo do ar.

As moradias não são próximas umas das outras como as das cidades, pois a vizinhança é irritante e desagradável para aqueles O Significado Original do Termo Mosteiro.


Suas Orações e Exercícios.

que buscam a solidão; nem são muito distantes, por causa do convívio que lhes é tão caro, e também para ajuda mútua em caso de ataque de ladrões.

"Em cada moradia há um lugar sagrado, chamado santuário ou mosteiro [uma pequena câmara, cubículo ou cela], no qual, em solidão, eles realizam os mistérios da vida santa, não levando para dentro nem bebida, nem comida, nem qualquer outra coisa necessária às necessidades do corpo, mas apenas as leis e ditos inspirados dos profetas, e hinos, e o restante, pelos quais o conhecimento e a devoção crescem juntos e se aperfeiçoam.

"Assim, eles preservam uma memória ininterrupta de Deus, de modo que mesmo em sua consciência onírica nada lhes é apresentado à mente senão as glórias das virtudes e poderes divinos."

Portanto, muitos deles divulgam as doutrinas rítmicas da sabedoria sagrada, que obtiveram nas visões da vida onírica.

“Duas vezes por dia, ao amanhecer e ao entardecer, costumam oferecer orações; ao nascer do sol, orando pela luz do sol, a verdadeira luz do sol, para que suas mentes sejam preenchidas com a Luz celestial, e ao pôr do sol, orando para que sua alma, completamente aliviada da luxúria dos sentidos e sensações, possa retirar-se para a sua própria congregação e câmara de conselho, ali para rastrear a verdade.

“Todo o intervalo do amanhecer ao pôr do sol eles dedicam aos seus exercícios.

Tomando os escritos sagrados, passam seu tempo em estudo [literalmente, filosofar], interpretando alegoricamente o seu código ancestral, pois

FÍLON SOBRE A VIDA CONTEMPLATIVA.

eles pensam que as palavras do significado literal são símbolos de uma natureza oculta que se torna clara [apenas] pelo subentendido.

“Eles também têm obras de autores antigos que foram outrora líderes de sua escola e deixaram para trás

A Natureza

deles muitos monumentos do método usado em seus Livros.

obras alegóricas; tomando estas como padrões, por assim dizer, imitam a prática de seus predecessores.

Não passam então seu tempo apenas em contemplação, mas compõem canções e hinos a Deus em todos os tipos de metros e melodias, delineados necessariamente sobre [um pano de fundo de] os números mais solenes [literalmente, ritmos]. “Por seis dias seguidos, cada um permanece à parte em solidão consigo mesmo em seu ‘monastério’, como é

Seu Modo de

chamado, ocupado em estudo, nunca pondo os pés

Reunião.

para fora da porta, nem mesmo olhando pela janela.

Mas a cada sétimo dia eles se reúnem como que em uma assembleia geral e tomam seus assentos em ordem, de acordo com sua ‘idade’ [isto é, o tempo de sua membresia na ordem], na atitude prescrita, com as mãos com as palmas para baixo, a direita entre o peito e o queixo, a esquerda ao lado.

Então, aquele que é o mais antigo e mais hábil nas doutrinas adianta-se e discorre, com olhos firmes e voz firme, com razão e ponderação, sem fazer exibição de habilidade verbal, como os retóricos e sofistas de hoje, mas examinando de perto e explicando o significado preciso nos pensamentos, um significado que não apenas toca as pontas dos ouvidos, mas perfura o ouvido e alcança a alma e ali permanece firmemente.


O Santuário.

Sua Regra.

Os demais todos ouvem em silêncio, significando sua aprovação apenas por um olhar nos olhos ou um aceno de cabeça.

"Agora, este santuário geral no qual se reúnem a cada sétimo dia consiste em dois recintos: um separado para homens, e o outro para mulheres.

Pois as mulheres também habitualmente fazem parte da audiência, possuindo o mesmo desejo ardente e tendo feito a mesma escolha deliberada [que os homens].

"A divisão, no entanto, entre os dois salões é apenas parcialmente construída, cerca de três ou quatro côvados a partir do chão, como um parapeito, sendo o restante, até o teto, deixado aberto, e isso por duas razões: em primeiro lugar, para a preservação daquela modéstia que tão bem convém à natureza da mulher, e em segundo lugar, para que, sentadas ao alcance do ouvido, possam ouvir facilmente, já que nada obstrui a voz do orador.

"Agora [nossos Terapeutas] primeiramente estabelecem a continência como um fundamento, por assim dizer, para a alma, e então procedem a edificar sobre ela o restante das virtudes. Assim, nenhum deles pensaria em tomar alimento ou bebida antes do pôr do sol, pois consideram que a prática da filosofia merece a luz, enquanto as necessidades do corpo [podem contentar-se com] as trevas; portanto, atribuem o dia àquela, e uma breve porção da noite a estas.

"Um número deles, nos quais a sede de sabedoria está implantada em maior grau, lembram-se de seu alimento apenas uma vez a cada três dias,

FÍLON SOBRE A VIDA CONTEMPLATIVA.

Enquanto poucos são tão animados e se saem tão suntuosamente Jejuando, no banquete de ensinamentos da sabedoria, que ela tão ricamente e sem parcimônia lhes oferece, que podem durar o dobro do tempo, e mesmo após seis dias mal tomam um bocado do alimento mais necessário, sendo treinados para viver do ar, como se diz que fazem os gafanhotos [Platão, Fedro], suas necessidades tornadas leves pelo seu canto, segundo penso.

"Visto que consideram o sétimo dia como festa inteiramente santificada e solene, julgam-no digno de honra especial, e nele, após prestar a devida atenção à alma, ungem o corpo, dando-lhe, como também fazem ao seu gado, repouso do trabalho contínuo.

Contudo, não participam de nenhuma iguaria refinada, mas de pão simples com sal por tempero, que os gourmets suplementam com um relishes extra de hissopo; e por bebida têm água da fonte.

Assim, ao aplacar esses tiranos que a natureza estabeleceu sobre a raça mortal — fome e sede —, não lhes oferecem nada que lhes faça cócegas na vaidade, mas apenas as necessidades básicas que tornam a vida possível.

Por conseguinte, comem apenas para escapar da fome e bebem apenas para escapar da sede, evitando a saciedade como inimiga e conspiradora contra a alma e o corpo.

"Agora há dois tipos de cobertura — roupas e casa.

Quanto à sua moradia, já declarei acima que ela é tudo menos bela de se ver, e construída de qualquer maneira, feita para atender apenas ao seu propósito mais absolutamente necessário; e quanto ao seu vestuário, é igualmente da mais simples descrição, apenas para protegê-los do frio e do calor; no inverno, um manto espesso em vez de uma pele lanosa, e no verão, uma túnica sem mangas de linho fino.


"Pois em tudo praticam a simplicidade, sabendo que a vaidade tem a falsidade por origem, mas a simplicidade, a verdade, cada uma delas contendo o poder inato de sua fonte; pois da falsidade emanam as múltiplas espécies de males, enquanto da verdade vêm as abundantes bênçãos do bem, tanto humano quanto divino."

"Eu também tocaria nas reuniões gerais em que eles passam o tempo com maior festividade do que o habitual, banqueteando-se juntos, contrastando-as com os banquetes de outros."

Filon aqui se entrega a uma longa digressão em que pinta com as cores mais fortes a devassidão e a extravagância dos banquetes dos voluptuosos, a fim de contrastá-los o máximo possível com as sagradas festas dos Terapeutas.

"Em primeiro lugar, todos se reúnem ao final de cada sétima semana, pois reverenciam não apenas o simples período de sete dias, mas também o período da potência [ou quadrado] de sete, uma vez que sabem que o 'sete' é puro e sempre-virgem.

Sua festa do sétimo dia, então, é apenas um prelúdio para sua maior festa, que é designada ao quinquagésimo, o mais santo e natural dos números, [a soma] das potências do triângulo retângulo [perfeito], que foi designado como a origem da geração dos elementos cósmicos.

"Quando então se reúnem, vestidos com vestes brancas, com semblantes alegres e com a

FILON SOBRE A VIDA CONTEMPLATIVA.

maior solenidade, a um sinal de um dos Efemereutas do dia (pois este é o nome usual para aqueles que se ocupam de tais deveres), e antes de

Sobre o

, . i ,-, Quinquagésimo

sentarem-se, permanecendo de pé, uns ao lado dos outros, em Dia.

fileiras em certa ordem, e erguendo os olhos e as mãos ao céu — os olhos, pois são treinados para contemplar coisas dignas de contemplação; e as mãos, pois são puras de ganho, imaculadas por qualquer pretensão de negócios lucrativos — oferecem oração a Deus para que seu banquete seja agradável e aceitável.

"Após as orações, os anciãos sentam-se à mesa, seguindo a ordem de sua eleição.

Pois eles não Ancianidade.

consideram anciãos meramente aqueles que são avançados em anos e alcançaram a velhice (não, eles consideram tais como crianças bem jovens se apenas recentemente se apaixonaram pela vida superior), mas aqueles que cresceram e chegaram à maturidade na parte contemplativa da filosofia, que é inquestionavelmente sua porção mais bela e mais divina."

"E as mulheres também compartilham do banquete, a maioria das quais envelheceu na virgindade, preservando sua pureza não por necessidade (como algumas das sacerdotisas entre os gregos), mas antes por sua própria livre vontade, através de seu zeloso amor pela sabedoria, com a qual estão tão ardentemente desejosas de passar suas vidas que não dão atenção aos prazeres do corpo.

Seu anseio não é por filhos mortais, mas por uma progênie imortal que somente a alma apaixonada por Deus pode gerar, quando o Pai nela implantou aqueles raios de luz espirituais, com os quais ela contemplará as leis da sabedoria.

Há, no entanto, uma divisão feita entre eles em seus lugares à mesa, estando os homens separados à direita, e as mulheres separadas à esquerda."

(Deve-se lembrar que era costume no mundo greco-romano reclinar-se à mesa, apoiando-se no cotovelo esquerdo com uma almofada sob o braço. A pessoa que se reclinava à direita de outra dizia-se deitar sobre o peito desta (ἀνακεῖσθαι ἐν τῷ κόλπῳ). Cf. a frase canônica, "o discípulo que se reclinou sobre o Seu peito à mesa.")

"Talvez você suspeite que almofadas, se não luxuosas, pelo menos de tolerável maciez, sejam providenciadas para pessoas bem-nascidas e bem-educadas e estudantes de filosofia, ao passo que eles não têm nada além de colchões do material mais facilmente obtido (o papiro do país), sobre os quais [lançam] as mais simples possíveis esteiras, levemente elevadas no cotovelo para que se apoiem.

Pois, por um lado, eles relaxam um pouco seu [usual] rigor espartano de vida [em tais ocasiões], enquanto, por outro, [mesmo nos banquetes] estudam sempre a mais liberal frugalidade em tudo, rejeitando os atrativos do prazer com todas as suas forças."

"Tampouco são servidos por escravos, pois consideram a posse de servos em geral contrária à natureza."

Porque a natureza criou todos os homens livres; mas a injustiça e o egoísmo daqueles que lutam pela desigualdade (a raiz de todo o mal) colocaram o jugo do poder sobre os pescoços dos mais fracos e os atrelaram aos [carros dos] mais fortes.

FÍLON SOBRE A VIDA CONTEMPLATIVA.

"Assim, neste santo banquete não há escravo, como já disse, mas é servido por homens livres que realizam o serviço necessário, não por compulsão, ou aguardando ordens, mas por sua própria livre vontade, antecipando os pedidos [dos convidados] com prontidão e entusiasmo.

Pois não são homens livres ao acaso que são designados para tal serviço, mas os mais jovens da ordem, que foram selecionados em ordem de mérito com todo o cuidado possível, que (como convém àqueles nobres e bem-nascidos e ansiosos por alcançar o cume da virtude) com rivalidade afetuosa, como se fossem seus filhos legítimos, servem a estes seus pais e mães, considerando-os como seus pais comuns, ligados a eles por laços mais estreitos do que seus pais por sangue: pois, para aqueles que pensam, não há laço mais estreito do que a virtude e a bondade.

E eles entram para servir sem cinto, com suas vestes soltas, para que nenhuma semelhança com a vestimenta de um escravo seja introduzida."

"Sei que alguns de meus leitores rirão de um banquete como este; mas tal riso lhes trará choro e tristeza."

"Tampouco se traz vinho nessas ocasiões, mas a mais clara água, fria para a maioria, e aquecida para aqueles dos homens mais velhos cujos gostos são delicados.

A mesa, além disso, não contém nada que tenha sangue, pois o alimento é pão com sal para tempero, ao qual se acrescenta hissopo como um condimento extra para os gulosos.

Pois, assim como a reta razão ordena que os sacerdotes façam oferendas livres de vinho e sangue, assim também ordena que estes sábios vivam.

Pois o vinho é uma droga que traz a loucura, e os temperos caros despertam o desejo, o mais insaciável dos animais.

Tanto, então, quanto aos preparativos do banquete." Agora, depois que os convidados tomaram seus lugares nas fileiras que descrevi, e os servidores se posicionaram em ordem, prontos para servir, quando se obtém completo silêncio — (e quando não há? podeis dizer; mas então há um silêncio mais profundo que antes, de modo que ninguém se atreve a fazer um som ou mesmo respirar com dificuldade) — o presidente procura alguma passagem nas escrituras sagradas ou resolve alguma dificuldade proposta por um dos membros, sem qualquer pensamento de exibição, pois não visa a uma reputação de habilidade em palavras, mas simplesmente deseja obter uma visão mais clara de alguns pontos [de doutrina]; e, quando o faz, compartilha desinteressadamente com aqueles que, embora não tenham visão tão aguçada quanto a sua, têm, no entanto, um igual anseio de aprender.


' O presidente, por sua vez, emprega um método um tanto vagaroso de transmitir instrução, pausando em intervalos e detendo-se em frequentes recapitulações, gravando as ideias em suas almas.

(Pois quando, ao dar uma interpretação, alguém continua a falar rapidamente sem pausar para respirar, a mente dos ouvintes fica para trás, incapaz de acompanhar o ritmo, e deixa de compreender o que é dito.) Enquanto eles, por seu lado, fixando toda a sua atenção nele, permanecem na mesma e única atitude, ouvindo atentamente, mostrando seu entendimento e compreensão [de suas palavras] por meio de acenos e olhares; louvor ao orador por uma expressão satisfeita e

FILON SOBRE A VIDA CONTEMPLATIVA.

o voltar pensativo de seus rostos para ele, e hesitação por um suave balançar de cabeça e um movimento do dedo indicador da mão direita.

E os mais jovens que permanecem a serviço são tão atentos quanto os mais velhos à mesa.

"Ora, a interpretação das escrituras sagradas baseia-se nos significados subjacentes nas narrativas alegóricas; pois esses homens consideram toda a

A Interpretação da Escritura.

Escritura como algo semelhante a um ser vivo, tendo corpo e alma.

seu código de leis como sendo semelhante a um ser vivo, tendo por corpo os comandos falados, e por alma o pensamento invisível armazenado nas palavras (no qual pensamento a alma racional [do estudante] começa a contemplar coisas nativas de sua própria natureza mais do que em qualquer outra coisa) — a interpretação, por assim dizer, no espelho dos nomes, avistando as belezas extraordinárias das ideias contidas neles, desembrulhando e desnudando os símbolos deles, e trazendo à luz os significados interiores nus, para aqueles que são capazes, com um pouco de sugestão, de chegar à intuição do sentido oculto a partir do significado aparente.

"Quando então o presidente parece ter discursado o suficiente, e o discurso, de acordo com seu alcance, ter feito boa prática nos pontos visados no seu caso, e no deles [ter encontrado devida] atenção, há uma explosão de aplausos da companhia, como se oferecessem seus parabéns, mas isso é restrito a três palmas das mãos."

"Então o presidente, levantando-se, canta um hino que foi feito em honra a Deus, ou um novo que ele mesmo compôs, ou um antigo dos poetas antigos. Pois eles deixaram para trás muitos metros e melodias em épicos trímetros, hinos processionais, odes de libação, cantos de altar, coros estacionários e canções de dança, [todos] admiravelmente medidos em diversificados tons."

"E depois dele os outros também em bandos, em ordem adequada, [retomam o canto], enquanto os demais ouvem em profundo silêncio, exceto quando têm de se juntar no refrão e estribilhos; pois todos, tanto homens quanto mulheres, participam."

"Então, quando os hinos terminam, os juniores trazem Pão e a mesa, que foi mencionada pouco antes, com o alimento todo-puro sobre ela, pão levedado, com tempero de sal misturado com hisopo, por respeito à mesa sagrada erguida no lugar santo do templo."

Pois sobre esta mesa estão pães e sal sem tempero; os pães são ázimos e o sal não está misturado com mais nada; pois convinha que as coisas mais simples e puras fossem destinadas à mais excelente divisão dos sacerdotes, como recompensa de seu ministério, enquanto os demais deveriam aspirar a coisas de pureza semelhante, mas abster-se do mesmo alimento [que os sacerdotes], a fim de que os mais excelentes tivessem esse privilégio.

"Após o banquete, celebram a sagrada vigília de toda a noite.

E é assim que ela é celebrada.

Levantam-se todos em conjunto e, por volta do meio da refeição, primeiramente se separam em duas bandas, os homens em uma e as mulheres na outra. E um líder é escolhido para cada uma, o condutor cuja reputação é a maior e o mais adequado para o posto.

Dança.

FÍLON SOBRE A VIDA CONTEMPLATIVA.

Entoam então hinos compostos em honra de Deus em muitos metros e melodias, ora cantando em coro, ora uma banda marcando o ritmo para o canto de resposta da outra, [ora] dançando ao som de sua música, [ora] inspirando-a, ora em hinos processionais, ora em cânticos estacionários, girando e retornando na dança.

"Então, quando cada banda se regalou [isto é, cantou e dançou] separadamente por si mesma, bebendo do néctar que agrada a Deus, tal como nos ritos báquicos os homens bebem o vinho puro, então se unem, e um único coro é formado das duas bandas, em imitação do coro unido nas margens do Mar Vermelho, por causa das obras maravilhosas que ali foram realizadas.

Pois o mar, por ordem de Deus, tornou-se para um grupo causa de salvação e para o outro causa de ruína."

(Fílon aqui se refere à lendária dança de triunfo dos israelitas na destruição de Faraó e seu exército, quando Moisés conduziu os homens e Miriã as mulheres numa dança comum; mas os Terapeutas de todo o mundo não poderiam ter atribuído o costume a esse mito.)

"Assim, o coro de homens e mulheres Terapeutas, formado o mais próximo possível deste modelo, por meio de melodias em partes e harmonia — as notas agudas das mulheres respondendo aos tons graves dos homens — produz uma sinfonia harmoniosa e altamente musical.

As ideias são das mais belas, as expressões das mais belas, e os dançarinos reverentes; enquanto o objetivo das ideias, expressões e dançarinos é a piedade.


A

Oração Matinal.

"Assim, embriagados até a luz da manhã com esta bela embriaguez, sem peso na cabeça ou sonolência, mas com olhos e corpo mais frescos até do que quando vieram ao banquete, eles se colocam de pé ao amanhecer, quando, avistando o sol nascente, erguem as mãos ao céu, orando por luz solar e verdade e agudeza de visão espiritual.

Após esta oração, cada um retorna ao seu próprio santuário, ao seu costumeiro trato com a filosofia e ao trabalho em seus campos.

"Até aqui, então, sobre os Terapeutas, que são devotados à contemplação da natureza e vivem nela e somente na alma, cidadãos do céu e do mundo, legitimamente recomendados ao Pai e Criador do Universo por sua virtude, que lhes obtém Seu amor, virtude que estabelece diante de si como prêmio a recompensa mais adequada de nobreza e bondade, superando todo dom da fortuna, e a primeira a chegar na corrida até a própria meta da bem-aventurança."

Com relação aos números místicos 7 e 50 Uma Nota sobre mencionados no texto acima, pode ser de interesse Números.

observar que Filon em outro lugar (Leg.

Alleg., i. 46) nos diz que os Pitagóricos chamavam o número 7 de sempre-virgem, porque "ele não produz nenhum dos números dentro da década [isto é, de 1 a 10] nem é produzido por qualquer um deles." A potência ou quadrado de 7 é 49, e a grande festa, portanto, ocorria a cada quinquagésimo dia.

O número 50 é baseado na proporção dos lados do triângulo retângulo "perfeito", o famoso triângulo pitagórico,

FILON SOBRE A VIDA CONTEMPLATIVA.

tão frequentemente referido por Platão."

(Ver *O Número Nupcial de Platão*, de James Adam, M.A., Cambridge, 1891; a melhor obra sobre o assunto.) Os lados deste triângulo guardam as proporções de 3, 4 e 5, e 3² + 4² = 5², ou 9 + 16 = 25; e 9 + 16 + 25 = 50. Em outro tratado (*Qu. in Gen.*, iii. 39) obtemos algumas informações adicionais interessantes sobre o 50. Fílon fala de duas séries, que ele chama de triângulos e quadrados, a saber, 1, 3, 6, 10, e 1, 4, 9, 16. À primeira vista, é difícil descobrir por que Fílon chamaria a primeira série de números de triângulos, mas ocorreu-me que ele tinha em mente alguma disposição como a seguinte.

Muitas correspondências interessantes podem ser extraídas do estudo da aparentemente simples ordenação desses pontos, mônadas ou átomos, mas no momento estamos apenas ocupados com a consideração do número 50.

Com relação à série triangular, 1, 3, 6, 10, deve-se notar que 1 = 1; 3 = 1 + 2; 6 = 1 + 2 + 3; e 10 = 1 + 2 + 3 + 4.

Com relação à série quadrada, 1, 4, 9, 16, vemos de imediato que 1 = 1²; 4 = 2²; 9 = 3²; e 16 = 4². Além disso, 1 + 3 + 6 + 10 = 20; e 1 + 4 + 9 + 16 = 30; e finalmente 20 + 30 = 50.


A Conexão de Fílon com os Terapeutas.

Muito mais poderia ser dito; mas nosso espaço é limitado, e aqueles que se interessam pelo assunto podem facilmente elaborar os detalhes por si mesmos.

Ao ler este tratado e o restante das referências aos Terapeutas dispersas pelos escritos de Fílon, as principais questões que naturalmente surgem são: Qual era a conexão de Fílon com eles; e até que ponto podemos confiar em seu relato? Há uma passagem importante em seus escritos que nos dá o ponto crítico de partida na busca de uma resposta.

Fílon (*Leg. Alleg.*, i. 81) escreve:

"Também eu, muitas vezes, deixei meus parentes, meus amigos e minha pátria, e fui para o deserto [ou para a solidão] a fim de compreender as coisas dignas de serem vistas, mas nada aproveitei; pois minha alma foi dispersada ou picada pela paixão, e caiu na corrente exatamente oposta."

Aprendemos com este interessante item autobiográfico que o próprio Filo não obtivera êxito na vida contemplativa.

Isso explica sua grande reverência e alto respeito por aqueles que haviam conseguido compreender as coisas "dignas de serem vistas". Ora, como Filo nunca abandonou sua propriedade, ele não poderia, portanto, ter sido um membro plenamente aceito de uma dessas irmandades.

Com toda probabilidade, pertencia a um de seus círculos externos.

Como era o caso com os pitagóricos e os essênios, os terapeutas tinham discípulos leigos que viviam no mundo e que talvez recorressem à comunidade de vez em quando por um período de "retiro", e então retornavam novamente ao mundo.

Que esses discípulos leigos eram homens de grande habilidade

FILO SOBRE A VIDA CONTEMPLATIVA.

e discernimento é amplamente demonstrado pelas obras do próprio Filo, mas que havia uma vasta literatura de caráter ainda mais elevado e inspirado também é evidente pelo que Filo tem a dizer sobre seus mestres.

O que aconteceu com todas essas obras, comentários, interpretações, hinos, sermões, exposições, apocalipses — obras que despertaram a admiração de um escritor tão distinto como Filo? Parece-me que, embora possamos ter alguns fragmentos delas embutidos nos Pseudepígrafos judaicos que chegaram até nós, muitas delas pertenciam aos agora perdidos precursores dos fragmentos da literatura gnóstica que sobreviveram.

Mas eram os terapeutas judeus, como Filo nos levaria a crer em sua apologia por aquela nação? É evidente por suas próprias declarações que a comunidade que ele descreve, e com a qual provavelmente estava conectado como discípulo leigo, era apenas uma de um vasto número espalhado por todo o mundo.

Filo quer que acreditemos que sua comunidade particular era a principal de todas, sem dúvida porque era majoritariamente judaica, embora não ortodoxamente, pois eram "adoradores do sol".

É portanto razoável concluir que havia nessa época numerosas comunidades de místicos

e ascetas dedicados à vida santa e à ciência sagrada espalhadas por todo o mundo, e que

A comunidade Mareótica de Fílon era uma dessas.

Outras podem ter sido tão fortemente tingidas por elementos egípcios, caldeus, zoroastrianos ou órficos quanto a que ficava ao sul de Alexandria era tingida pelo judaísmo.

Não é, além disso, incrível que houvesse também entre elas comunidades verdadeiramente ecléticas, que combinavam e sintetizavam as várias tradições e iniciações transmitidas pelas comunidades doutrinariamente mais exclusivas, e é, portanto, nessa direção que devemos procurar luz sobre as origens do gnosticismo e o pano de fundo oculto do cristianismo.


Essas comunidades não faziam proselitismo nessa época, embora possam ter estado indiretamente por trás de alguns dos maiores esforços proselitistas, como no caso de Fílon.

Também penso que as comunidades gnósticas posteriores não faziam proselitismo diretamente, e que quaisquer obras que possam ter apresentado para alunos leigos, ou por alunos leigos, eram apenas uma pequena parte de sua literatura.

Para o povo havia a Lei e os Profetas e o Evangelho; para os alunos leigos, a literatura intermediária; e para os iniciados, aqueles tratados mais altamente místicos e abstrusos que ninguém além dos místicos treinados poderia possivelmente entender ou se esperava que entendessem.

JUDAÍSMO.

A terceira corrente que desaguou na matriz das origens cristãs foi a do judaísmo.

Mesmo antes do Exílio, as indisciplinadas tribos que compunham essa peculiar nação tiveram suas "Escolas dos Profetas", pequenas comunidades que se mantinham à parte e eram recrutadas por videntes e visionários.

Até essa época, as tradições dos judeus e suas concepções de religião haviam sido, em sua maioria, de natureza muito rude em comparação com as das nações mais altamente civilizadas que os cercavam, embora, é claro, fossem distinguidas pelo particularismo de um monoteísmo exclusivo nascente e uma crescente detestação da idolatria.

Na Babilônia, porém, entraram em contato íntimo com uma grande e muito antiga civilização, e a impressão que isso lhes causou pode ser claramente traçada na história de seu desenvolvimento religioso subsequente.

A maior parte da nação permaneceu contente na Babilônia, enquanto os líderes dos que retornaram puseram-se a reescrever suas antigas tradições e reformular suas concepções religiosas, à luz das visões mais amplas que haviam absorvido — tudo o que se pode traçar claramente nos vários estágios de evolução de sua escritura nacional, cujos diversos estratos nos são revelados pelas pacientes pesquisas dos eruditos bíblicos científicos e pelas sempre novas descobertas da arqueologia.

Os escritores judeus apropriaram-se das tradições da grande raça semítica e das nações da Caldeia e da Babilônia, e as usaram para a glorificação de suas próprias origens e história, na estranha convicção de que todas se aplicavam a eles como o "povo escolhido" de Deus.

A elaborada doutrina da pureza, à qual a tradição zoroastriana persa dava tanto destaque, foi avidamente adotada por seu sacerdócio, e percebemos em sua biblioteca de livros religiosos a gradual eliminação das ideias mais grosseiras da Divindade e o gradual desenvolvimento de concepções muito

FRAGMENTS OF A FAITH FORGOTTEN.

História.

mais elevadas, em (por vezes) arroubos poéticos dos mais maravilhosos.

Não se deve supor, contudo, que os reescritores e editores das antigas tradições fossem falsificadores ou deturpadores em qualquer sentido comum da palavra.

A antiguidade em geral não tinha concepção de moralidade literária em seu significado moderno, e toda escrita de caráter religioso era o resultado de um impulso interior.

A riqueza de termos técnicos atribuída a esses antigos escritores e seus métodos pelos críticos bíblicos modernos força o estudante, quase inconscientemente, a ler naqueles tempos ideias e padrões que então não existiam.

Novamente, um erro comum é atribuir a esses antigos dignitários dos judeus motivos de ação e refinamentos de crença que pertencem apenas ao que há de melhor na cristandade; e assim não apenas cometemos grave injustiça contra suas memórias, mas também inserimos em sua história uma atmosfera de refinamento excessivo para que o judeu real da época pudesse ter vivido nela. Deve-se também lembrar que a mitologização da história e a historicização da mitologia não eram peculiares aos judeus, mas comuns àqueles tempos; o que lhes era peculiar era sua crença fanática no favoritismo divino e sua pretensão egrégia ao monopólio da providência de Deus.

Ora, os judeus, como todos os filhos do deserto,

tinham arraigado neles um desejo invencível de

liberdade, e ao mesmo tempo possuíam a imaginação

poética inata de todos aqueles que vivem em estreito

contato com a natureza.

Os dois "reinos" que estavam sempre em luta

entre si e com seus vizinhos, "Israel" e "Judá", foram

sucessivamente deportados pelas autoridades assírias,

para remover um centro de perturbação perpétua.

As "dez tribos" que foram as primeiras a serem deportadas, consistindo como consistiam de elementos mais adaptáveis ao seu entorno do que os judaítas, estabeleceram-se na Babilônia e gradualmente se adaptaram ao seu novo ambiente; seria interessante saber que desenvolvimento ocorreu nas escolas de seus profetas em contato com a antiga sabedoria caldeia, e a história subsequente daquele "Israel" que não apenas assim se estabeleceu na Babilônia, mas ali permaneceu.

Quando as tribos judaítas mais turbulentas foram subsequentemente, por sua vez, deportadas, alguns deles seguiram o exemplo de seus parentes; mas a maioria dos judaítas recusou-se a se adaptar às novas condições, ansiando por sua liberdade, e apesar de estarem cercados pelos monumentos de uma grande civilização, olhavam para trás, para seu pobre assentamento de Jerusalém, como se este estivesse na terra do Paraíso, e suas modestas casas fossem os palácios de reis.

Os pais teciam para os filhos histórias da beleza e riqueza de sua terra natal, das glórias de seus palácios e dos grandes feitos de seus antigos xeques; acima de tudo, insistiam em seu destino peculiar como homens que haviam feito um pacto com um Deus que lhes prometera vitória sobre todos os inimigos.

Os pais, que gradualmente passaram a acreditar em suas próprias histórias, morreram antes que o conquistador Ciro, em gratidão por sua ajuda contra o poder assírio, concedesse o retorno do povo judeu.


Aqueles que retornaram eram da geração seguinte, e reocuparam as ruínas de Jerusalém com ideias de uma grandeza anterior que existia na imaginação poética e no amor à liberdade de seus pais, mais do que na história real.

Cheios de entusiasmo pelo passado, escreveram o que seus pais lhes haviam contado, expandindo os antigos registros em uma esplêndida "história", e trazendo para ela tudo o que haviam desenvolvido de religião por meio da controvérsia com os babilônios e persas — uma controvérsia que consistia em sustentar persistentemente que sua religião era melhor que a de seus oponentes, reivindicando o que havia de melhor na posição ou tradição de seus oponentes como sendo seu, e sempre afirmando que possuíam algo ainda mais elevado.

O judeu tinha uma convicção tão firme de que era o Escolhido de Deus que provavelmente realmente acreditava em todas as suas afirmações; em todo caso, o senso de história não existia naqueles dias, e não havia ninguém para refrear o entusiasmo desses primeiros escribas.

Eles provavelmente argumentavam: Somos o povo escolhido de Deus; nossa religião é melhor que qualquer outra religião, na verdade todas as outras religiões são falsas, todos os outros deuses são falsos; os dias áureos de nossa religião foram antes do Cativeiro; aqueles tempos devem ter sido maiores que os melhores tempos de outras nações, nosso templo deve ter sido mais grandioso, nossos sacrifícios maiores que quaisquer outros no mundo; nossos pais o disseram, e sentimos que é verdade.

Em tal estado de espírito e com o fervor poético inato de sua natureza, sentiram-se impelidos a escrever, e por seus escritos transformaram os antigos registros para além de todo reconhecimento histórico, e de tais começos gradualmente evoluiu uma literatura que as gerações futuras receberam sem questionamento, não apenas como um registro preciso dos fatos, mas como uma escritura divinamente escrita e verbalmente inspirada.

O desenvolvimento dessa literatura foi um crescimento natural, embora os fatores distintos que nela desempenharam um papel sejam um tanto difíceis de desembaraçar; mas há sinais distintos de modificações repetidas de concepções mais grosseiras, e do fermento da nação por uma força espiritual em constante desenvolvimento.

De onde veio essa persistente espiritualização das antigas concepções?

Ao buscar uma resposta para essa questão, o ponto de partida pode ser encontrado no fato de que a maioria da nação não retornou; e não apenas isso, mas que a maioria dos judeus, no curso do tempo, preferiu viver entre os gentios.

De fato, os membros da nação gradualmente se tornaram os grandes comerciantes do mundo antigo, de modo que encontramos colônias deles espalhadas por todos os grandes centros; por exemplo, pouco depois da fundação de Alexandria, ouvimos falar de uma colônia de nada menos que 40.000 judeus ali estabelecida.

Esses judeus da Diáspora ou Dispersão estavam em constante contato com seus correligionários palestinos de um lado, e do outro em íntimo contato com as grandes civilizações nas quais encontraram um lar.

A expectativa da salvação da raça e de um Salvador da raça, que os judeus absorveram do Zoroastrismo, eles adaptaram às suas próprias necessidades e à convicção de que Israel era o Escolhido de Deus.

Essa expectativa foi por muito tempo inteiramente de natureza material; eles esperavam um rei que os restaurasse à liberdade e pisasse sob os pés as nações do mundo, quando ele reinaria por mil anos em Jerusalém.

Tudo isso seria efetuado pela interposição direta de Yahweh, seu Deus.

Por cerca de quatrocentos anos, até a destruição final de Jerusalém por Tito, nos é apresentado o espetáculo de uma luta determinada pela liberdade; pois os judeus sempre foram decepcionados em suas esperanças e tiveram que se submeter ao domínio sucessivo da Grécia e de Roma.

Mas a esperança sempre renascia após cada nova decepção, e encontramos em sua literatura o registro de uma oposição determinada ao conquistador, alimentada até o auge pelas exortações ardentes e denúncias de um caráter pseudoprofético que não tem paralelo na história do mundo.

Se no gênio grego estava centrada a luta pela liberdade do intelecto, na nação judaica estava centrada a luta pela liberdade pessoal; e no Império Romano, após a destruição de Jerusalém, o judaísmo finalmente se tornou o centro de todo descontentamento e ideias revolucionárias.

Por trás de tudo isso estava o peculiar farisaísmo, uma fé exclusiva que o judeu havia evoluído, e que do ponto de vista romano o constituía como "o odiador da humanidade". Mas esse zeloísmo fanático, embora diretamente alimentado pelas declarações mais desequilibradas dos escritores e profetas religiosos, tornou-se cada vez mais desagradável para os melhores elementos da nação.

JUDAÍSMO.

Esses melhores elementos encontramos representados pelas visões mais espirituais que gradualmente se incorporaram à literatura sagrada, e a nação foi gradualmente fermentada pelo farisaísmo, que, embora chegasse ao extremo do cerimonial minucioso e das regras mais elaboradas de pureza externa, era, no entanto, um fator muito potente na ampliação do horizonte religioso.

O lado externo do farisaísmo nos é bastante conhecido; mas o lado interno desse grande movimento, ao qual pertenciam todos os judeus mais eruditos, é pouco compreendido.

O farisaísmo, com o tempo, foi dividido em numerosas escolas, a mais estrita das quais levava uma vida de rígida pureza interna.

Levando tal vida, não poderia deixar de ser que suas ideias se tornassem de natureza mais espiritual; de fato, o farisaísmo teve sua origem na Babilônia, e representava a principal corrente da influência caldeia e persa sobre o judaísmo.

Ao longo dessa linha de tradição, encontramos gradualmente evoluída uma visão muito mais espiritual do Messias — a doutrina; Israel não era a nação física dos judeus, mas o Eleito de Deus escolhido dentre todas as nações; os servos de Deus eram aqueles que O serviam com seus corações e não com seus lábios; o Deus deste Israel abominava seus sacrifícios de sangue.

Mas tais visões como estas, embora influenciassem indiretamente a escritura pública da nação, não podiam ser declaradas corajosamente entre um povo que sempre apedrejara seus profetas e se deleitava em sacrifícios de sangue.

Tais visões só podiam ser discutidas com segurança em particular, e encontramos numerosos registros da existência de escolas de Chassidim e daqueles a quem Josefo chama de Essênios, entre os quais estavam os mais puros e eruditos dos judeus, os "Rabis do Sul", vivendo à parte e em reclusão.


Essas escolas e comunidades parecem ter olhado para trás, por um lado, para a severa disciplina física das Escolas dos Profetas, e, por outro, ter estado em contato com as ideias espirituais da disciplina de sabedoria babilônica.

Na Babilônia, vemos como um dos videntes da nação contatou parte da tradição de sabedoria caldeia, e a famosa "Visão de Ezequiel" foi subsequentemente invocada como autoridade canônica para toda aquela gama de ideias que encontramos revividas tantas centenas de anos mais tarde na Cabala Medieval.

Mas, para compreender a natureza dos estudos e das experiências internas dos membros dessas escolas místicas dos Chassidim e de seus imitadores, é necessário ter um conhecimento crítico dos escritos judaicos não canônicos, especialmente a literatura sapiencial e aqueles numerosos apócrifos, apocalipses e apologias de profecias não cumpridas — uma massa de pseudepígrafos que foram tão ativamente produzidos nos últimos séculos anteriores à nossa era e nos seus primeiros séculos.

É verdade que possuímos apenas os restos fragmentários dessa literatura outrora enorme, muito provavelmente apenas as obras que foram escritas para circulação geral, e principalmente por aqueles membros dessas comunidades que ainda estavam obcecados pela concepção zelota de Israel; mas o suficiente permanece para preencher alguns contornos muito necessários do pano de fundo da Gnose, e para nos permitir perceber quão

JUDAÍSMO.

seriamente os homens se esforçavam por uma vida mais pura e um maior conhecimento de Deus naqueles primeiros dias.

Essas escolas místicas de teosofia judaica tiveram uma influência enorme sobre o cristianismo nascente; as escolas mais internas influenciaram as escolas internas da cristandade, e a literatura geral dos círculos intermediários deixou uma marca profunda no cristianismo geral.

A maioria dessas escolas e comunidades místicas, fossem de descendência grega, egípcia ou judaica, quando entravam em contato umas com as outras, davam e recebiam.

É verdade que algumas delas se recusaram a se misturar em pessoa ou doutrina, e havia escolas místicas rigidamente conservadoras de todas as três linhas de descendência; outras, no entanto, se não em sua capacidade corporativa, pelo menos nas pessoas de seus membros individuais, davam e recebiam, e assim modificavam suas preconcepções e ampliavam seu horizonte.

De fato, nos últimos dois séculos anteriores à nossa era e nos primeiros dois séculos dela, houve um enorme entusiasmo pelo sincretismo e pelo sintetismo entre os membros de tais escolas, cujos efeitos são claramente rastreáveis nos fragmentos da Gnose que nos foram preservados pelas citações polêmicas dos heresiólogos da ortodoxia posterior.

ALEXANDRIA.

Os contornos gerais do pano de fundo da Gnose, que nos esforçamos por esboçar, são necessariamente dos mais vagos, pois cada um dos muitos assuntos abordados merece um volume ou vários volumes.

Nossa intenção foi apenas dar uma ideia geral das múltiplas linhas ao longo das quais sua complicada herança precisa ser rastreada.

Mas nosso esboço é tão vago que talvez seja melhor, antes de prosseguirmos, dar ao leitor alguma noção das condições externas mais imediatas em que a Gnose cristã viveu e — não diremos morreu, mas — desapareceu.

A insistência em alguns dos pontos já abordados e mais alguns detalhes podem servir para tornar o assunto mais claro; e o melhor ponto de onde fazer nossa observação é Alexandria, e o melhor momento para um retrospecto é a época em que o Cristianismo geral havia definitivamente conquistado sua vitória e expulsado a Gnose do campo.

Deve-se lembrar que no esboço a seguir tentaremos retratar apenas as aparências externas das coisas; internamente, como já sugerimos e como mostraremos na sequência, havia uma vida oculta de grande atividade.

Se havia uma enorme biblioteca pública em Alexandria, havia também muitas bibliotecas privadas das escolas internas que tratavam da ciência sagrada das coisas invisíveis.

Foi precisamente desses círculos privados que procederam todos os escritos místicos, e podemos ver pela natureza das obras gnósticas e outras desse tipo que chegaram até nós que seus autores e compiladores tinham acesso a grandes bibliotecas de saber místico.

Transportemos então nossas mentes para o último quartel do século IV da era presente, quando Hipátia era uma jovem, após as esperanças ALEXANDRIA — UMA VISTA PANORÂMICA.


da Escola que traçava sua descendência através de Platão e Pitágoras desde Orfeu, recebera um choque tão rude com a morte prematura de Juliano, o imperador-filósofo; justamente a tempo de ver o Serapeu ainda de pé, não violado pelas mãos iconoclastas de um fanatismo que era a progênie imediata do Zelotismo Judaico e inteiramente estranho ao ensinamento do Cristo.

Subamos ao grande farol, de 400 pés de altura, na ilha defronte ao continente, o mundialmente famoso Farol de Alexandria, e tomemos uma vista panorâmica do centro intelectual do antigo mundo ocidental.

A cidade se estende diante de nós sobre uma longa faixa de terra ou istmo, entre a frente marítima e o grande lago ao sul, o Lago Mareótis.

Ao longe, à esquerda, está a foz mais ocidental do Nilo, chamada Canópica, e um grande canal serpenteia por ali até Canopo, onde está o sagrado santuário de Serápis.

Ao longo dele, se fosse época de festa, você veria multidões de peregrinos, apressando-se, em barcaças alegremente decoradas, para prestar homenagem a certos sábios sacerdotes, um dos quais, por essa época, era um distinto membro da Escola Platônica posterior.

A grande cidade, com sua população fervilhante, estende-se diante de nós com uma frente marítima de cerca de quatro ou cinco milhas; em forma, é oblonga, pois quando Alexandre, o Grande, centenas de anos atrás, em 331 a.C., demarcou suas muralhas originais com a farinha que seus veteranos macedônios carregavam (talvez segundo algum rito nacional), traçou-a na forma de uma clâmide, um manto duas vezes mais comprido do que largo.

Duas grandes ruas ou artérias principais, em forma de cruz, dividem-na em quatro quarteirões.

Essas vias são muito mais largas do que qualquer uma de nossas ruas modernas, e a mais longa, paralela à costa, estendendo-se através dos subúrbios afastados, tem três léguas de comprimento, de modo que os alexandrinos consideram uma verdadeira jornada atravessar sua cidade.

Onde essas ruas se cruzam há uma grande praça cercada de edifícios elegantes, e adornada com fontes, estátuas e árvores.

Há também muitas outras praças e fóruns, mas nenhum tão vasto quanto a grande praça.

Muitos pilares e obeliscos adornam a cidade; o mais conspícuo deles é um pilar de topo achatado, de pedra vermelha, sobre uma colina perto da costa, e dois obeliscos na própria costa, um dos quais é a atual Agulha de Cleópatra.

A ilha sobre a qual estamos é unida ao continente por um enorme molhe de quase um quilômetro de extensão, com duas passagens d'água que o cortam, atravessadas por pontes e defendidas por torres.

Este molhe ajuda a formar o grande porto à nossa direita, e o porto menor e menos seguro à nossa esquerda.

Há também uma terceira enorme doca, ou bacia, no quarto noroeste da cidade, fechada também por uma ponte.

As duas principais vias públicas dividem Alexandria em quatro quarteirões, que, juntamente com o primeiro subúrbio da cidade, foram originalmente chamados pelas cinco primeiras letras do alfabeto.

O grande quarteirão à nossa esquerda é, no entanto, mais geralmente conhecido como Bruchion, talvez devido ao palácio que Ptolomeu Sóter reservou para formar o núcleo da grande biblioteca.

É o quarteirão grego, o mais elegante, e arquitetonicamente muito magnífico.

Ali você vê o vasto

ALEXANDRIA.

mausoléu de Alexandre, o Grande, contendo o caixão de ouro no qual o corpo do herói conquistador do mundo foi preservado por centenas de anos.

Ali também estão os esplêndidos túmulos dos Ptolomeus, que governaram o Egito desde a época da divisão do império de Alexandre até o final do primeiro século a.C., quando os romanos arrancaram o reino de Cleópatra.

Observe em seguida o grande templo de Poseidon, deus do mar, uma divindade favorita da população marinheira.

Ali também está o Museu, o centro da universidade, com todas as suas salas de aula e auditórios, não o Museu original dos Ptolomeus, mas um edifício posterior.

Banhos, também, você vê em toda parte, milhares deles, edifícios magníficos onde os luxuosos alexandrinos passam grande parte de seu tempo.

À direita está o quarteirão egípcio, o noroeste, chamado Rhacotis, um nome muito antigo que remonta a uma época em que Alexandria não existia, e um antigo burgo egípcio, chamado Ragadouah, ocupava seu lugar.

A diferença no estilo de arquitetura imediatamente chama sua atenção, pois é, em sua maior parte, no mais sombrio estilo egípcio; e aquele grande edifício que você vê na parte oriental do bairro é o famoso Serapeum; não é tanto um edifício único quanto um grupo de edifícios, sendo o templo, naturalmente, o principal deles.

É um lugar semelhante a uma fortaleza, com muros pesados e simples, mais antigos que os edifícios gregos, lúgubres e severos, e adequados ao caráter egípcio; é o centro das escolas "pagãs", isto é, das salas de aula bárbaras ou não gregas.

Você sempre se lembrará do Serapeum por suas vastas escadarias ladeadas de inúmeros esfinges, tanto dentro quanto fora do grande portão.


Se você pudesse ver sob os edifícios, ficaria impressionado com a rede de abóbadas e criptas sobre a qual toda a cidade parece ter sido construída; essas abóbadas são usadas principalmente como cisternas subterrâneas para o armazenamento de água — uma provisão muito necessária em um país tão pouco alimentado por chuvas como o Egito.

O bairro sudeste, atrás do Bruchion, é o centro da colônia judaica, que remonta aos dias do próprio Alexandre, e nunca teve menos de 40.000 hebreus.

O grande espaço aberto à esquerda do Bruchion é o Hipódromo ou pista de corridas, e mais a leste ainda, ao longo da costa, fica o elegante subúrbio de Nicópolis, onde talvez viva Hipátia.

Do outro lado da cidade, além de Rácotis, há um enorme cemitério adornado com inúmeras estátuas e colunas, conhecido como Necrópole.

Mas os vários estilos de arquitetura e as características distintas dos diversos bairros podem dar apenas

População.

pouca ideia da população mista e heterogênea reunida no local onde a Europa, a Ásia e a África se encontram.

Primeiro, você tem os egípcios e gregos das classes superiores, em sua maioria extremamente refinados, altivos e efeminados; de romanos, poucos — os magistrados e militares, os legionários da guarda que patrulhavam a cidade e reprimiam as frequentes revoltas dos disputantes religiosos; por todos os quais, judeu ou cristão, gnóstico ou pagão, tinham um desprezo brusco e imparcial.

Nos ofícios mais humildes, você vê os egípcios de classe baixa,

ALEXANDRIA.

egípcios mestiços, descendentes da população aborígine, porventura, multidões deles.

Milhares de etíopes e negros também, nas cores mais vivas possíveis.

Ali também você vê bandos de monges da Tebaida, muitos do Vale Nitriano, a dois ou três dias de jornada ao sul, no deserto, além do grande lago; eles são facilmente distinguíveis, com suas madeixas emaranhadas e desgrenhadas, e peles como única vestimenta — na maioria das vezes, nessa época, um bando violento, ignorante e ingovernável de fanáticos.

Misturados com eles estão pessoas de preto, eclesiásticos, diáconos e oficiais das igrejas cristãs.

Lá embaixo, junto aos portos, porém, encontraremos muitos outros tipos, difíceis de distinguir na maioria das vezes por causa da intermistura e mescla.

Milhares deles vêm e vão nos pequenos navios que lotam os portos em frotas.

Muitos são aparentados com a outrora grande nação dos chamados "hititas"; gente do mar fenícia e cartaginesa em grande número, e comerciantes de portos muito mais distantes.

Judeus em toda parte e aqueles aparentados com judeus, em todas as regiões comerciais; alguns parecidos com afegãos; ascetas também, da Síria, descendentes dos essênios, porventura, ou terapeutas, prestando grande atenção à limpeza.

Também algumas pessoas altas de cabelos dourados, godos e teutões talvez, extremamente desdenhosos dos demais, a quem consideram uma multidão efeminada — sujeitos grandes, altos, fortes e rudes.

Alguns persas também, e orientais mais distantes.

Talvez, porém, você esteja mais interessado na população cristã, uma multidão das mais misturadas, por fora e por dentro.


Os eclesiásticos da cidade estão mais ocupados com política do que com religião; o restante dos fiéis pode ser dividido em duas classes, que oferecem apresentações do Cristianismo amplamente diferentes.

De um lado, as classes mais baixas e muitos dos monges, fanáticos e ignorantes, desdenhosos de toda educação, devotados ao culto dos mártires, sedentos pelo sangue dos judeus e loucos para derrubar toda estátua e arrasar todo templo até o chão.

De outro lado, um grupo de contendores refinados, teólogos filosóficos, sempre argumentando, ansiosos por entrar em disputa com os filósofos pagãos, gastando suas vidas em discussões públicas, enquanto as multidões que vêm ouvi-los são, em sua maioria, indiferentes ao certo ou errado da questão, e aplaudem cada ponto de debate com imparcialidade desdenhosa, desfrutando da contenda do ponto de vista de um ceticismo refinado.

Mas devemos apressar nossa tarefa, e completar nosso esboço da cidade com uma breve referência a duas de suas instituições mais famosas, a Biblioteca e o Museu.

Mesmo que a maioria de nós não tenha tido nenhum conhecimento prévio da topografia de Alexandria, e seja perfeitamente ignorante da história de suas escolas, de qualquer forma todos já ouvimos falar de sua Biblioteca de fama mundial.

Quando o reino de Alexandre foi dividido entre seus generais, o rico reino do Egito coube a Ptolomeu I, chamado Sóter, o Salvador.

Acreditando que a cultura grega era o fator mais civilizador do mundo conhecido, e os métodos gregos os mais esclarecidos, Sóter determinou não apenas fazer uma pequena Grécia no Egito, mas também tornar sua corte em Alexandria o asilo de todo o saber do mundo grego.

Inflamado por essa nobre ambição, ele fundou um Museu ou Universidade, dedicado às artes e ciências, e uma Biblioteca.

Não tivesse Aristóteles, o filósofo, ensinado ao seu grande líder, Alexandre, a arte do governo; e não deveria, portanto, o chefe de seus generais reunir todas as obras que tratassem de tão útil ciência? Felizmente, porém, o plano original de uma biblioteca puramente política foi rapidamente abandonado, e visões mais universais prevaleceram.

Não é, contudo, improvável que Ptolomeu, como governante egípcio, tenha apenas fundado uma nova biblioteca para sua capital, emulando as muitas bibliotecas já existentes naquela antiga terra.

Basta recordarmos a vasta coleção de Osymandyas em Tebas, o "Remédio da Alma", para nos persuadirmos do fato.

Portanto, embora a Biblioteca de Alexandria tenha sido a primeira grande biblioteca pública grega, ela de modo algum foi a primeira no Egito.

Tampouco foi sequer a primeira biblioteca na Grécia; pois Polícrates de Samos, Pisístrato e Euclides de Atenas, Nicócrates de Chipre, Eurípides, o poeta, e o próprio Aristóteles, todos possuíam grandes coleções de livros.

Em suma; a primeira coleção foi colocada na parte dos palácios reais próxima ao Portão Canópico, sendo o principal desses palácios chamado Bruchion, junto ao Museu.

Foram nomeados um bibliotecário e uma equipe — um exército de copistas e calígrafos.

Havia também estudiosos para revisar e corrigir os textos, e chorizontes (χωρίζοντες) para selecionar as edições autênticas e melhores; também fazedores de catálogos, categorias e analíticas.


Sob os primeiros Ptolomeus, a coleta de livros tornou-se verdadeiramente uma mania.

Ptolemeu Sóter enviou cartas a todos os soberanos reinantes, suplicando cópias de toda obra que seu país possuísse, fossem de poetas, logógrafos, ou escritores de aforismos sagrados, oradores, sofistas, médicos, filósofos médicos, historiadores, etc.

Ptolemeu II (Filadelfo) comissionou todo capitão de navio a trazer-lhe manuscritos, pelos quais pagava tão regiamente que muitas falsificações foram rapidamente colocadas no mercado.

Átalo e Eumenes, reis de Pérgamo, no noroeste da Ásia Menor, estabeleceram uma biblioteca rival em sua capital e prosseguiram na busca por livros com tal ardor que a biblioteca de Aristóteles, legada a Teofrasto e transmitida a Neleu de Cépsis, teve de ser enterrada para escapar das mãos de seus colecionadores vorazes, apenas para encontrar seu caminho, no entanto, para Alexandria por fim.

Filadelfo emitiu então uma ordem contra a exportação de papiro do Egito, e assim os colecionadores rivais de Pérgamo tiveram de se contentar com velino; daí, dizem alguns, pergamene, parchemin, pergaminho.

O comércio de manuscritos era realizado em toda a Grécia, sendo Rodes e Atenas os principais mercados.

Assim, Alexandria tornou-se possuidora dos manuscritos mais antigos de Homero e Hesíodo e dos poetas cíclicos; de Platão e Aristóteles, de Ésquilo, Sófocles e Eurípides, e de muitos outros tesouros.

Além disso, grande número de tradutores foi empregado para verter os livros de outras nações para o grego.

Os livros sagrados das nações foram traduzidos, e a versão da Septuaginta da Bíblia hebraica foi acrescentada ao número, não sem milagre, se devemos acreditar na lenda narrada por Josefo.

Já na época de Ptolomeu III (Evérgeta), o Bruchion não podia conter todos os livros, e um novo núcleo foi estabelecido nos edifícios do Serapeu, do outro lado da cidade, mas não no templo em si, com seus quatrocentos pilares, dos quais apenas a Coluna de Pompeu nos resta.

Que riqueza de livros em tão pouco tempo! Mesmo nos tempos dos três primeiros Ptolomeus, lemos sobre 400.000 rolos ou volumes.

Qual deve ter sido então o número em anos posteriores? Alguns dizem que excederam um milhão de rolos e papiros.

Lembremos, no entanto, que um "livro" ou "rolo" geralmente não era um volume como os nossos, mas antes o capítulo de uma obra.

Lemos sobre homens escrevendo "seis mil livros"! Os rolos tinham de ser relativamente pequenos, por conveniência, e uma obra frequentemente tinha tantos rolos quantos livros continha.

Devemos, portanto, tendo isso em mente, estar em guarda contra o exagero do tamanho da grande Biblioteca.

O Serapeum, no entanto, logo continha tantos livros quanto o Bruchion, e tudo correu bem até 47 a.C., quando o grande incêndio que destruiu a frota de César queimou o Bruchion até o chão.

Um versificador imaginativo, Luciano, afirma que o brilho da conflagração podia ser visto até de Roma!

Então tiveram que reconstruir o Bruchion e colocar no novo edifício a famosa biblioteca de Pérgamo, que a cidade havia legado ao Senado, e que o apaixonado Marco Antônio entregou a Cleópatra, a última dos Ptolomeus.


Quando a glória de Alexandria começou a declinar, sua biblioteca começou a compartilhar do mesmo destino.

Juliano, o imperador (360-363), levou muitos volumes para enriquecer sua própria biblioteca; quando os fanáticos "cristãos" em 387 invadiram o Serapeum, arrasaram o templo até os alicerces, e nada restou da biblioteca senão as prateleiras vazias.

Finalmente, em 641, Amru, general de Omar, segundo na sucessão ao Profeta, alimentou os fornos dos 4.000 banhos de Alexandria por seis meses inteiros com os tesouros inestimáveis do Bruchion.

Se o que os rolos continham estava no Alcorão, eram inúteis; se o que ensinavam não estava no Alcorão, eram perniciosos; em qualquer caso, queimai-os! Alguns apologistas maometanos tentaram recentemente inocentar Omar e negar toda a história; mas talvez ele seja tão pouco desculpável quanto os bárbaros "cristãos" que devastaram as prateleiras do Serapeum.

Tal era o material escrito sobre o qual os estudiosos, cientistas e filósofos de Alexandria tinham que trabalhar.

E não havia apenas uma biblioteca, mas também uma espécie de universidade, chamada Museu, dedicada às artes e ciências, e abrangendo, entre outras coisas, um observatório, um anfiteatro de anatomia, um vasto jardim botânico, um imenso zoológico, e muitas outras coleções de coisas úteis para a pesquisa física.

Era uma instituição concebida segundo um plano mais liberal, uma assembleia de sábios alojados em um palácio,

ALEXANDRIA.

ricamente dotados com a liberalidade dos príncipes, isentos de encargos públicos.

Sem distinção de raça ou credo, sem regulamentos impostos, sem plano fixo de estudo ou listas de palestras, os membros desta distinta assembleia ficavam livres para prosseguir suas pesquisas e estudos sem entraves e sem obstáculos.

Em suas fileiras havia inúmeros poetas, historiadores, geômetras, matemáticos, astrônomos, tradutores, críticos, comentaristas, médicos, professores de ciências naturais, filólogos, gramáticos, arqueólogos; em suma, sábios de todos os tipos lançando os primeiros fundamentos daquelas pesquisas que, uma vez mais em nosso próprio tempo, após o lapso de séculos, reivindicaram a atenção do mundo.

É verdade que o Museu de Alexandria deu passos vacilantes onde hoje avançamos com tamanha segurança; mas o espírito e o método eram os mesmos, débeis comparados à nossa força, mas o mesmo espírito agora fortalecido pela palingênese.

Muito semelhante era o temperamento então, nos últimos três séculos antes da era cristã, ao temperamento que marcou os últimos três séculos do nosso próprio tempo.

A religião havia perdido seu domínio sobre os educados; o ceticismo e a "ciência" e a filosofia aristotélica mal compreendida eram os únicos dignos de um homem de gênio.

Havia também "mulheres emancipadas", "filhas dialéticas", bastante comuns naqueles últimos dias da Grécia.

Não teria, pensavam esses escolásticos, seu grande fundador, Alexandre, conquistado o mundo político seguindo o conselho de seu mestre Aristóteles? Eles também seguiriam os ensinamentos do famoso Estagirita, que mapeara o céu e a terra e todas as coisas neles contidas, e logo também conquistariam o que mais houvesse no mundo a ser conquistado, tanto natural quanto intelectual.


Parecia tão provável então, tão simples e lógico.

Parece provável até agora — para algumas mentes!

Então eles se puseram a trabalhar com seus comentários e críticas, suas filologias, sua gramática e acentuação, suas categorizações e catalogações.

Eles se puseram a medir as coisas; sendo discípulos de Euclides, tentaram medir a distância do sol à terra; e Eratóstenes, por meio de armilas de cobre, ou círculos para determinar o equinócio, calculou a obliquidade da eclíptica e, por pesquisas adicionais, calculou a circunferência da terra; ele também mapeou o mundo a partir de todos os livros de viagem e conhecimento terrestre na grande Biblioteca.

Em mecânica, Arquimedes resolveu os mistérios da alavanca e da pressão hidrostática, que são a base de nossa estática e hidrostática modernas.

Hiparco também concebeu uma teoria dos céus, de fato invertida, mas correta o suficiente para calcular eclipses e o resto; e esta, trezentos anos mais tarde, sob os Antoninos, foi reformulada por certo Ptolomeu, mero comentador e não inventor, sendo a patente agora registrada em seu nome.

Hiparco foi também o pai da trigonometria plana e esférica.

Mas já se disse o bastante para nos dar uma ideia do temperamento da época, e seria demasiado longo deter-nos na longa lista de nomes famosos em

ALEXANDRIA.

outros departamentos — enciclopedistas e gramáticos como Calímaco e Aristófanes; poetas como Teócrito.

Assim, com a destruição do edifício no incêndio da frota de César e com a conquista romana, o primeiro Museu chegou ao fim.

É verdade que um novo Museu foi estabelecido no reinado de Cláudio (41-50 d.C.), mas era uma mera sombra do que fora, não um verdadeiro lar das Musas, mas o auditório oficial das enfadonhas escrituras de um imperador-rabiscador.

Cláudio havia escrito em grego, *Tnagis inepte quam ineleganter*, como observa Suetônio, oito livros de uma história de Cartago e vinte livros de uma história da Etrúria.

Ele, portanto, estabeleceria um Museu e faria com que suas preciosas escrituras fossem lidas à professoralidade bajuladora pelo menos uma vez por ano.

Assim passou a glória daquela encarnação de erudição e ciência; era uma coisa sem alma, na melhor das hipóteses, marcando um período de descrença e ceticismo, e destinada a desaparecer quando o homem despertasse novamente para o fato de que era uma alma.

E que dizer das escolas exteriores da chamada filosofia durante esse período? Também elas eram estéreis o bastante.

Os antigos sábios da Grécia eram sofistas, nada mais.

Pitágoras, Sócrates, Platão e Aristóteles haviam desaparecido da vista dos mortais.

Os homens que os seguiram eram, em sua maioria, meros rachadores de palavras e tecelões de frases.

Argumentadores dialéticos da escola megárica, erísticos ou contenciosos, pirrônicos ou céticos, cirenaicos que acreditavam apenas nos sentidos como únicas vias do conhecimento, pessimistas e aniquilacionistas, uma hoste de posteriores Céticos, cínicos, epicureus, acadêmicos, peripatéticos e estoicos — epicureus que buscavam viver confortavelmente; estoicos que, em oposição à doutrina de Platão das virtudes sociais, afirmavam a dignidade solitária do individualismo humano.


Após os três grandes reinados dos primeiros Ptolomeus, Alexandria caiu moralmente, juntamente com seus governantes; por cento e oitenta anos "sofistas disputaram, pedantes lutaram por acentos e lições com o verdadeiro ódio gramatical" até que Cleópatra, como Helena, traiu seu país para os romanos, e o Egito tornou-se uma província tributária.

Até então não havia havido filosofia no sentido próprio da palavra; isso não entrava no currículo do Museu.

Até então Alexandria não tivera filosofia própria, mas agora está destinada a ser o cadinho no qual o pensamento filosófico de toda espécie será fundido; — e não apenas filosofia, mas, mais importante ainda, religio-filosofia e teosofia de toda espécie serão derramadas no crisol, e muitos sistemas estranhos e algumas coisas admiravelmente boas e verdadeiras serão moldados a partir da matéria lançada nesse cadinho fervente.

Até então o gênio grego só pensou em exibir seus próprios métodos e pontos de vista diante do Oriente.

Para o Egito, a Síria, a Pérsia, até para a Índia, ele esvoaçou e se aqueceram ao sol.

Foram necessários muitos anos para convencer a complacência grega de que o período do gênio mundial não é limitado, de um lado, por Homero e, do outro, por Aristóteles.

Lenta mas implacavelmente, impõe-se à engenhosidade helênica que há uma antiguidade no mundo ao lado da qual

ALEXANDRIA

é uma mera arrivista.

O grego pode desprezar os orientais e chamá-los de meros "bárbaros", porque são estranhos à língua ática; mas o bárbaro há de rir por último e rir melhor, afinal, pois possui uma herança de sabedoria cuidadosamente guardada, que ainda não esqueceu por completo.

Os gregos também tiveram a tradição, e até a reviveram, mas agora a esqueceram novamente; os céticos substituíram Orfeu por Homero, e Pitágoras e o verdadeiro Platão por Aristóteles.

Seus Mistérios agora são maçônicos e já não são reais — exceto para muito, muito poucos.

E se o grego desprezava o bárbaro, o bárbaro, por sua vez, pensava pouco do grego.

"Vós, gregos, sois apenas crianças, ó Sólon", disse o sábio sacerdote de Sais ao legislador ático.

Vós, gregos, compreendeis mal e alterais os mitos sagrados que tendes. Sois orgulhosos, volúveis e descuidados, e superficiais nas coisas religiosas.

Tal era a crítica do antigo bárbaro ao jovem e inovador grego.

Lenta mas seguramente, a sabedoria dos egípcios, dos babilônios e caldeus, e seu reflexo em alguns dos doutores judeus, da Pérsia também, e talvez até da Índia, começa a reagir sobre o centro do pensamento grego, e a religião e todos os grandes problemas da alma humana começam a expulsar o mero escolasticismo, as belas-artes e as belas-letras das escolas; Alexandria não há de ser mais uma mera cidade literária, mas uma cidade de filosofia no sentido antigo do termo: há de ser amante da sabedoria; não que venha a ter êxito final mesmo nisso, mas tentará ter êxito.


Haverá também um novo método.

O oculto e escondido por tantos séculos será discutido e analisado; haverá ecletismo, ou uma escolha e síntese; haverá sincretismo e uma mistura dos elementos mais heterogêneos em uma espécie de colcha de retalhos; haverá analogeticismo, ou comparação e correspondência; esforços para descobrir uma religião mundial; para reconciliar o irreconciliável; para sintetizar também ciência, filosofia e religião; para criar uma teosofia.

Aparentemente falhará, pois a raça está próxima de seu fim; é a busca pela verdade no final de uma longa vida com um cérebro velho, com demasiadas velhas tendências e preconceitos a erradicar.

A raça morrerá e as almas que a animaram sairão da encarnação, para reaparecerem a seu tempo quando a roda tiver girado.

A velha raça será substituída por sangue novo e novo vigor físico; mas a mente da nova raça é incapaz de compreender os problemas de seus predecessores: Godos, Teutões, Vândalos, Hunos, Celtas, Bretões e Árabes são corpos para um lote de almas muito menos desenvolvido.

É verdade que a nova raça também crescerá e se desenvolverá e, por sua vez, alcançará a maturidade e a velhice, e transcenderá em muito sua predecessora em todos os sentidos; mas quando criança pensará como criança, quando homem como homem, e quando idoso como os idosos.

O que poderiam os bárbaros Hunos, Godos e Árabes fazer dos grandes problemas que confrontavam os altamente civilizados alexandrinos?

Para a nova raça, portanto, uma nova religião, adequada às suas necessidades, adequada talvez ao seu gênio, adequada à sua época.

Quais foram suas origens históricas reais estão até agora envoltas em obscuridade impenetrável; qual

ALEXANDRIA.

a história real de seu Fundador foi é impossível descobrir.

Isto, no entanto, é certo: que uma nova nota fundamental foi dada para a afinação do novo instrumento.

É sempre perigoso generalizar com demasiada liberdade e pintar o passado com pinceladas de cor demasiado berrantes, pois nos assuntos humanos nada encontramos puro; o bem estava misturado com o mal no método antigo, e o mal com o bem no novo.

O novo método era forçar para fora, à luz do dia, para todos os homens, uma porção dos sagrados Mistérios e ensinamentos secretos dos poucos.

Os adeptos da própria nova religião professavam abrir "tudo"; e muitos acreditavam que ela havia revelado tudo o que era revelável.

Isso porque eram ainda crianças.

Tão brilhante era a luz para eles que forçosamente acreditavam que ela vinha diretamente do Deus de todos os deuses — ou antes, de Deus somente, pois não queriam mais saber de deuses; os deuses foram imediatamente transmutados em demônios.

Os "muitos" haviam começado a brincar com forças psíquicas e espirituais, soltas dos Mistérios, e os "muitos" enlouqueceram por um tempo, e ainda não recuperaram a sanidade.

Detenhamo-nos nesse fenômeno intensamente interessante por alguns momentos.

É verdade que no Império Romano, que agora reduzira o "mundo" ao seu domínio, e assim unira politicamente tantas correntes de antiga civilização e barbárie em um só oceano, as coisas estavam em um estado muito precário, moral e socialmente.

A ordem antiga começava a chegar ao fim.

A liberdade política e a independência pertenciam ao passado, mas a tolerância intelectual e religiosa ainda era garantida, pois até então o mundo antigo não conhecia o significado da intolerância.


Os Estados estavam politicamente subordinados ao controle dos Césares, mas as instituições religiosas de tais Estados, das quais dependiam sua vida social e existência nacional, eram deixadas em absoluta liberdade.

No entanto, o espírito de realidade há muito abandonara as instituições antigas; elas eram ainda mantidas como parte integrante da arte de governar, e como necessárias para o povo, que precisava de um culto, e festivais, e espetáculos religiosos, então como agora; mas poucos levavam o assunto realmente a sério.

Para os educados havia a filosofia, e a sombra dos antigos Mistérios.

Mas essas coisas não eram para o povo, não para os não instruídos; as ordens sacerdotais haviam esquecido seus deveres e, usando seu conhecimento para autoengrandecimento, haviam agora quase inteiramente esquecido o que outrora souberam.

É uma história muito, muito antiga.

A igreja antiga era corrupta, o estado antigo escravizava.

Deve haver um protesto, em parte certo, em parte errado, como de costume o bem e o mal protestando contra o mal e o bem.

É verdade que os Mistérios são livres e abertos a todos — que são dignos.

É verdade que a moral e as virtudes são pré-requisitos absolutamente essenciais — mas não apenas estes.

É verdade que há um só Deus — mas Yahweh não é essa Divindade.

É verdade que há graus de ser e inteligência entre o Supremo e o homem — mas

ALEXANDRIA.

os deuses não são obra das mãos dos homens nem demônios, enquanto os anjos são criaturas de luz.

É verdade que a filosofia sozinha não pode resolver o problema — mas ela não deve ser negligenciada.

É verdade que todos os homens serão "salvos" — mas não antes os pobres do que os ricos, os ignorantes do que os sábios.

No protestantismo, nas coisas religiosas, não há meio-termo entre os não instruídos.

Eles voam para o polo oposto.

Portanto, quando o novo impulso se apodera do povo, teremos uma derrubada de velhas barreiras e um esforço por uma nova ordem de coisas, mas ao mesmo tempo uma intolerância selvagem, uma glorificação da ignorância, uma condenação em massa; uma comoção social, seguida de um triunfo político.

Uma coisa, porém, é adquirida definitivamente, um novo alento para a fé.

Foi bom para o povo acreditar de todo o coração após tanta descrença; foi bom para eles tornar a virtude primordial como o primeiro passo absolutamente necessário para o conhecimento de Deus.

Foi bom deixar de lado as coisas do corpo e amar as coisas da alma; foi bom trazer a realidade da vida mais uma vez aos corações dos homens.

O que poderia ter sido se conselhos mais moderados tivessem prevalecido, quem pode dizer?

O fato principal era que uma raça estava morrendo e outra nascendo.

As memórias do passado se aglomeravam no cérebro antigo, mas o cérebro novo era incapaz de registrá-las exceto em suas formas mais grosseiras.

A memória que conseguiu, por fim, imprimir-se com mais distinção no cérebro novo foi porventura a mais adequada às raças vigorosas e guerreiras que substituiriam as antigas raças do Império Romano; essa memória era a tradição do judeu.


Estamos, naturalmente, considerando apenas o lado popular e exterior do grande movimento que transformou a consciência religiosa geral do mundo antigo.

Dentro havia muito de grande excelência, apenas uma parte da qual poderia ser compreendida pelo jovem cérebro da nova raça.

Mas agora que a raça está crescendo até a maturidade, ela se lembrará de mais disso; já recuperou sua memória da ciência e da filosofia, e sua memória da religião será, sem dúvida, em breve trazida à tona.

Estamos, no entanto, ainda olhando para as condições externas judaicas entre as quais a Gnose estava trabalhando.

Em Alexandria, desde sua fundação, os judeus haviam sido um elemento importante na vida da cidade.

Embora a tradução das escrituras hebraicas pelos chamados "Setenta" tivesse começado no reinado de Ptolomeu Filadelfo, não parece ter atraído a atenção dos sábios oficiais gregos.

As ideias judaicas em Alexandria estavam naquela época confinadas aos judeus — e naturalmente assim, pois no início esses religionistas mais exclusivos e intolerantes guardavam suas ideias para si mesmos e as protegiam zelosamente dos gentios.

Mais tarde, as escolas judaicas em Alexandria foram tão estimadas por sua nação em todo o Oriente, que os rabinos alexandrinos eram conhecidos como a "Luz de Israel" e continuaram a ser o centro do

ALEXANDRIA.

pensamento e aprendizado judaicos por vários séculos.

Foi dentro dessas escolas que os judeus aperfeiçoaram suas teorias de religião e elaboraram o que haviam colhido da tradição "cabalística" dos caldeus e babilônios, e também das tradições de sabedoria do Egito.

Muitos dos doutores hebreus, além disso, eram estudantes do pensamento e da literatura gregos, e são portanto conhecidos como helenistas.

Alguns deles escreveram em grego, e foi principalmente através de suas obras que o mundo grego derivou suas informações sobre as coisas judaicas.

Aristóbulo, cuja data é desconhecida, mas conjecturalmente por volta de 150 a.C., esforçara-se por sustentar que a filosofia peripatética derivava de Moisés — uma teoria selvagem que foi subsequentemente desenvolvida e expandida a um ponto ridículo, e (com Platão substituído por Aristóteles) gozou do maior favor mesmo entre Padres da Igreja tão esclarecidos como Clemente de Alexandria e Orígenes.

Essa teoria de Aristóbulo foi a precursora da teoria ainda mais fantástica, inventada por Justino Mártir, de que a sabedoria da antiguidade, onde quer que fosse encontrada, era um "plágio por antecipação" do Diabo, a fim de contrariar a nova religião; e essa hipótese lamentável foi fielmente reproduzida pelos apologistas cristãos quase até os nossos dias.

Fílon (circa 25 a.C. — 45 d.C.), contudo, é o mais renomado dos helenistas.

Ele era um grande admirador de Platão, e sua obra evidencia muitas semelhanças entre o pensamento religioso rabínico e a filosofia grega.

É verdade que o método de exegese alegórica de Fílon, pelo qual ele insere concepções filosóficas elevadas nas narrativas cruas dos mitos de Israel, não é mais considerado legítimo; mas seus escritos são, não obstante, de grande valor.

Fílon acreditava não apenas que os documentos da Antiga Aliança eram inspirados em todas as suas partes, mas também que cada nome neles contido encerrava um significado oculto da mais alta importância.

Dessa maneira, ele se esforçava por explicar e descartar as cruezas da narrativa literal.

Mas, embora o método de Fílon — pelo qual ele podia invocar a autoridade de "Moisés" para as ideias de sua escola — seja cientificamente inadmissível, quando os documentos bíblicos são submetidos ao escrutínio da crítica histórica e filológica, seus numerosos tratados são, não obstante, de grande importância por nos fornecerem um registro das ideias que circulavam nos círculos ou escolas com os quais Fílon estava em contato.

Eles são uma preciosa indicação da existência de comunidades que pensavam como Fílon, e um valioso meio de nos familiarizarmos com o alcance da Gnose judaica em forma propagandista.

FRAGMENTS OF A FAITH FORGOTTEN.

Josefo (37–100 d.C.), o famoso historiador, também escreveu em grego e, assim, tornou sua nação conhecida em toda parte do mundo greco-romano.

Temos aqui, portanto, indicações dos pontos diretos de contato entre o pensamento grego e o pensamento judaico proselitista.

Ora, o cristianismo, em suas origens populares, havia se entrelaçado inteiramente com a tradição religiosa popular judaica, uma tradição isenta de toda filosofia ou misticismo cabalístico.

Os gentios que foram admitidos na nova fé,

ALEXANDRIA.

no entanto, logo se tornaram inquietos diante da imposição do rito da circuncisão, que os primeiros proselitistas insistiam em manter; e assim surgiu a primeira "heresia", e a "Igreja de Jerusalém", que permaneceu essencialmente judaica em todas as coisas, rapidamente se resolveu em uma seita estreita, mesmo para aqueles que consideravam o judaísmo como o único precursor da nova fé.

Com o passar do tempo, porém, e à medida que homens de maior educação se uniam às suas fileiras, ou que, em sua propaganda, eram forçados a se estudar para enfrentar as objeções de oponentes instruídos, visões mais amplas e mais liberais prevaleceram entre um número de cristãos, e as outras grandes tradições religiosas e filosofias entraram em contato com a corrente popular.

Todas essas visões, no entanto, eram encaradas com grande suspeita pelos "ortodoxos", ou melhor, por aquela visão que finalmente se tornou ortodoxa.

E assim, com o passar do tempo, até o liberalismo muito moderado de Clemente e Orígenes foi considerado um grave perigo; e com o triunfo da ortodoxia estreita e a condenação do saber, o próprio Orígenes foi por fim anatematizado.

Foi a escola alexandrina de filosofia cristã, cujos médicos mais famosos foram os mesmos Clemente e Orígenes, que lançou os primeiros fundamentos da teologia cristã geral; e essa escola deveu sua evolução ao contato com o pensamento grego.

Há uma história agradável sobre seus primeiros começos à qual podemos nos referir brevemente.

No final do primeiro século, os cristãos estabeleceram uma escola em Alexandria, a cidade das escolas.

Era uma escola dominical para crianças, chamada Didascaleion.

Com fé corajosa, foi estabelecida junto à porta do mundialmente famoso Museu, de cujas cátedras os cristãos comuns, devido à sua ignorância de arte, ciência e filosofia, eram excluídos.

Dessa mesma escola dominical, no entanto, surgiu o vasto edifício da teologia católica; pois os mestres do Didascaleion foram forçados a zelar por seus louros, e logo contaram em suas fileiras com homens que já haviam recebido educação nas escolas gregas de pensamento e formação.

Tal é um breve esboço de Alexandria e suas escolas, e foi em contato externo com um mundo tão fervilhante de pensamento e esforço que alguns dos maiores doutores gnósticos viveram.

Eles eram encontrados, é claro, em outras partes do mundo — na Síria, Ásia Menor e Itália, na Gália e na Espanha; mas o melhor quadro do mundo antigo com o qual estavam em contato externo deve ser esboçado na cidade onde Egito e África, Roma e Grécia, Síria e Arábia se encontravam.

CRISTIANISMO GERAL E GNÓSTICO.

A EVOLUÇÃO DO CRISTIANISMO CATÓLICO.

As origens históricas do cristianismo estão ocultas em obscuridade impenetrável.

Da história real da primeira metade do primeiro século não temos conhecimento.

Da história dos cem anos seguintes também temos, em sua maior parte, de nos basear em conjecturas.

O relato canônico agora universalmente aceito foi uma seleção de uma massa de tradição e lenda; é somente na segunda metade do segundo século que a ideia de um Cânon do Novo Testamento faz sua aparição, e é gradualmente desenvolvida pela Igreja de Roma e pelos Padres Ocidentais.

Os primeiros teólogos alexandrinos, como Clemente, ainda ignoram um Cânon preciso.

Seguindo as linhas dos primeiros apologetas de uma visão especial do cristianismo, como Justino, e usando esse Cânon em evolução como o único teste de ortodoxia, Irineu, Tertuliano e Hipólito, apoiados pela Igreja Romana, lançam os fundamentos da "catolicidade", e começar a erguer os primeiros cursos daquele edifício enorme de dogmas que hoje é considerado como a única visão autêntica da Igreja de Cristo.


Os primeiros dois séculos, no entanto, em vez de confirmarem a jactância dos ortodoxos posteriores, "uma igreja, uma fé, sempre e em toda parte", ao contrário nos apresentam o quadro de muitas linhas de evolução de crença, prática e organização.

A luta pela vida era travada ferozmente, e embora a "sobrevivência do mais apto" resultasse como de costume, houve crises frequentes nas quais o "mais apto" final é dificilmente discernível e às vezes desaparece de vista.

A visão das origens cristãs que eventualmente se tornou a tradição ortodoxa baseou-se principalmente

Os Evangelhos.

J

em documentos evangélicos compostos, com toda probabilidade, em algum momento do reinado de Adriano (117-138 d.C.). O esqueleto de três desses Evangelhos era presumivelmente uma coleção de Ditos e uma narrativa de Feitos na forma de uma vida ideal, um esboço composto por um dos "Apóstolos" das comunidades internas e destinado à circulação pública.

Em torno desse núcleo, os compiladores dos três documentos teceram outra matéria selecionada de uma vasta massa de mito, lenda e tradição; eram evidentemente homens de grande piedade, e sua seleção de material produziu narrativas de grande dignidade, e descartaram muito do que circulava que era tolo e fantástico, cujos restos ainda temos preservados em alguns dos Evangelhos apócrifos.

O escritor do quarto documento era um místico natural que adornou seu relato com uma beleza de concepção

EVOLUÇÃO DO CRISTIANISMO CATÓLICO.

e um encanto de sentimento que refletem a mais alta inspiração.

Ao mesmo tempo, a seleção canônica, muito felizmente, preservou para nós documentos de valor histórico muito maior.

Nas Cartas de Paulo, a maioria das quais são, em sua essência, acredito, autênticas, temos os primeiros

Cartas

registros históricos do Cristianismo que possuímos.

As Cartas Paulinas remontam a meados do primeiro século e são o verdadeiro ponto de partida para qualquer pesquisa verdadeiramente histórica sobre as origens.

Ao ler estas Cartas, é quase impossível persuadirmo-nos de que Paulo conhecia as afirmações do relato posteriormente historicizado dos quatro Evangelhos canônicos; todas as suas concepções respiram uma atmosfera totalmente diferente.

Em vez de pregar o Jesus dos Evangelhos historicizados, ele prega a doutrina do Cristo místico.

Ele não apenas parece ignorar os Feitos, mas até mesmo os Ditos em qualquer forma que conhecemos; no entanto, é quase certo que alguma coleção de Ditos deve ter existido e sido usada pelos seguidores do ensino público em sua época.

Embora inúmeras oportunidades surjam em seus escritos para referência aos Ditos e Feitos canônicos, pelas quais o poder de suas exortações teria sido enormemente aumentado, ele se abstém de fazer qualquer uma.

Por outro lado, encontramos suas Cartas repletas de concepções e termos técnicos que não recebem explicação nas tradições do Cristianismo geral, mas são fundamentais para os transmissores da Gnose.


O quadro que as cartas de Paulo nos dão do estado real de coisas em meados do primeiro século é o de um propagandista independente, com sua própria iluminação, em contato com as ideias de uma escola interna, por um lado, e com comunidades externas de vários tipos, por outro.

Sejam quais forem as escolas internas, as comunidades externas entre as quais Paulo laborava eram judaicas, sinagogas dos judeus ortodoxos, sinagogas das comunidades externas dos Essênios, comunidades que também haviam recebido alguma tradição do ensino público de Jesus, e o compreendiam ou o malcompreendiam conforme o caso.

A missão de Paulo era derrubar a exclusividade judaica e abrir caminho para a gentilização do Cristianismo.

O século que se seguiu a esta propaganda de Paulo (50-150) é, segundo Harnack, caracterizado pelos seguintes traços:

(i) O rápido desaparecimento do Cristianismo judaico (isto é, primitivo e original) [popular].

(ii) Supõe-se que cada membro da comunidade tivesse recebido o "Espírito de Deus"; o ensino era "carismático", isto é, da natureza dos "dons espirituais".

(iii) A expectativa do fim iminente da era, e o reinado de Cristo na terra por mil anos — "quiliasmo" — gozava de favor universal.

(iv) O cristianismo era um modo de vida, não um dogma.

(v) Não havia formas doutrinárias fixas e, consequentemente, a maior liberdade na pregação cristã.

EVOLUÇÃO DO CRISTIANISMO CATÓLICO.

(vi) Os Ditos do Senhor e o Antigo Testamento não eram ainda autoridades absolutas; o "Espírito" podia deixá-los de lado.

(vii) Não havia união política fixa das Igrejas; cada comunidade era independente.

(viii) Este período deu origem a "uma literatura bastante única, na qual foram fabricados fatos para o passado e para o futuro, e que não se submetia às regras e formas literárias usuais, mas avançava com as mais elevadas pretensões."

(ix) Ditos e argumentos particulares de supostos "Mestres Apostólicos" eram apresentados como sendo de grande autoridade.

Ao mesmo tempo, além dessa tendência gentilizante, que estava sempre realmente subordinada ao impulso original judaico, embora lisonjeando-se de ter sacudido inteiramente os grilhões da "circuncisão", havia uma tendência verdadeiramente universalizante em ação nos bastidores; e é esse esforço para universalizar o cristianismo que é a grande inspiração subjacente aos melhores dos esforços gnósticos que temos de revisar.

Mas essa universalização não pertence à linha das origens ao longo da qual o Cristianismo geral subsequentemente traçou sua descendência.


OS EBIONITAS.

Epifânio quer que os cristãos fossem primeiro chamados lessei, e diz que eles são mencionados sob esse nome nos escritos de Fílon.

Os seguidores dos primeiros convertidos de Jesus também são ditos terem sido chamados Nazoraei.

Ainda no final do quarto século, os Nazoraeanos eram encontrados espalhados por toda a Celesíria, Decápole, Pela (para onde fugiram na destruição de Jerusalém), a região além do Jordão, e até longe, na Mesopotâmia.

Sua coleção dos logoi era chamada O Evangelho segundo os Hebreus, e diferia muito dos relatos sinóticos do Cânon.

Até hoje, alguns afirmam que um remanescente dos Nazoraeanos sobrevive nos Mandaitas, uma seita estranha que habita os pântanos do sul da Babilônia, mas sua curiosa escritura, O Livro de Adão, como preservada no Codex Nasarceus, não tem nenhuma semelhança com os fragmentos conhecidos do Evangelho segundo os Hebreus, embora alguns de seus ritos sejam muito semelhantes aos ritos de algumas comunidades dos "Justos" referidos naquele estranho pseudepígrafo judaico, os Oráculos Sibilinos.

Quem eram os originais lessaeanos ou Nazoraeanos está envolto na maior obscuridade; sob outra de suas designações, no entanto, os Ebionitas ou "Homens Pobres", podemos obter algumas informações adicionais.

Esses primeiros seguidores externos de Jesus foram finalmente ostracizados do rebanho ortodoxo, e tão completamente

OS EBIONITAS.

foram sua origem e história obscurecidas pela indústria subsequente de caçadores de heresias, que finalmente os encontramos atribuídos a um certo Ebion, que é tão inexistente quanto vários outros hereges, como Epiphanes, Kolarbasus e Elkesai, que foram inventados pelo zelo e ignorância dos heresiólogos e "historiadores" do quarto século. Epiphanes é a personificação posterior de um mestre "distinto" (epiphanes) sem nome; Kolarbasus é a personificação do "quatro sagrado" (kol-arba), e Elkesai a personificação do "poder oculto" (elkesai). Tão ávidos estavam os refutadores posteriores em adicionar à sua lista de hereges, que inventaram nomes de pessoas a partir de epítetos e doutrinas.

Assim também com Ebion.

Os ebionitas foram originalmente assim chamados porque eram "pobres"; os ortodoxos posteriores acrescentaram "em inteligência" ou "em suas ideias acerca de Cristo". E isso pode muito bem ter sido o caso, e sem dúvida muitos compreenderam grosseiramente mal o ensinamento público de Jesus, pois não se deve esquecer que um dos principais fatores a serem considerados ao revisar o rápido progresso subsequente da nova religião foi a revolução social.

Nas mentes dos mais ignorantes dos primeiros seguidores do ensinamento público, a maior esperança despertada pode muito bem ter sido a proximidade do dia em que os "pobres" seriam elevados acima dos "ricos". Mas essa era a visão apenas dos mais ignorantes; embora sem dúvida fossem numerosos o bastante.

No entanto, foi o ebionismo que preservou a tradição dos primeiros convertidos do ensinamento público, e as comunidades ebionitas sem dúvida possuíam uma coleção dos Ditos públicos e baseavam suas vidas neles.

Foi contra esses seguidores originais do ensinamento público de Jesus que Paulo contendia em seus esforços para gentilizar o cristianismo.

Por muitos e longos anos, essa controvérsia petrino-paulina foi travada com grande amargura, e o Cânon do Novo Testamento é considerado por alguns como o meio adotado para formar a base de uma futura reconciliação; os documentos petrinos e paulinos foram cuidadosamente editados, e entre a porção evangélica e as cartas paulinas foi inserido o elo recém-forjado dos Atos dos Apóstolos, uma seleção cuidadosamente editada de uma enorme massa de Atos lendários, soldados em uma narrativa e embelezados com discursos à maneira de Tucídides.

Como então os ebionitas originais viam a pessoa e o ensinamento de Jesus? Eles consideravam seu líder como um homem sábio, um profeta, um Jonas, até mesmo um Salomão.

Além disso, ele era uma manifestação do Messias, o Ungido, que havia de vir, mas ainda não havia aparecido como o Messias; isso só ocorreria em sua segunda vinda.

Em seu nascimento como Jesus, ele foi simplesmente um profeta.

A Nova Dispensação era apenas a continuação da Antiga Lei; tudo era essencialmente judaico.

Eles, portanto, esperavam a vinda do Messias conforme literalmente profetizada por seus antigos homens.

Ele viria como rei, e então todas as nações seriam subjugadas ao poder do Povo Escolhido, e por mil anos haveria paz, prosperidade e abundância na terra.

OS EBIONITAS.

Jesus era um homem, nascido como todos os homens, filho humano de José e Maria.

Foi somente no seu batismo, aos trinta anos de idade, que o Espírito desceu sobre ele e ele se tornou um profeta.

Eles, portanto, guardaram seus Ditos como um depósito precioso, transmitindo-os de boca em boca.

Os ebionitas nada sabiam da pré-existência ou divindade de seu venerado profeta.

É verdade que Jesus era "cristo", mas assim também seriam todos aqueles que cumprissem a Lei.

Assim, eles naturalmente repudiaram Paulo e sua nova doutrina inteiramente; para eles, Paulo era um enganador e um apóstata da Lei, chegando mesmo a negar que ele fosse judeu.

Foi somente mais tarde que eles usaram O Evangelho segundo os Hebreus, que Jerônimo diz ser o mesmo que O Evangelho dos Doze Apóstolos e O Evangelho dos Nazarenos, isto é, dos Nazoreanos.

Deve-se lembrar que esses Nazoreanos nada sabiam da lenda de Nazaré, que foi posteriormente desenvolvida pela escola de historicizadores do "para que se cumprisse".

Os ebionitas não retornaram a Jerusalém quando o imperador permitiu que a nova colônia de Elia Capitolina fosse estabelecida em 138, pois nenhum judeu tinha permissão para retornar.

A nova cidade era gentia.

Portanto, quando lemos sobre "a reconstituição da igreja-mãe" em Elia Colônia, nos historiadores da Igreja, pouca confiança pode ser depositada em tais afirmações.

A "igreja-mãe", baseada no ensino público, era ebionita e permaneceu ebionita; a comunidade em Elia Colônia era gentia e, portanto, paulina.


O Cristianismo, como entendido pelos Ebionitas, sendo uma doutrina essencialmente nacional, o Paulinismo era uma necessidade se qualquer tentativa pública de universalidade fosse ser feita; por isso foi que o verdadeiro lado histórico do Cristianismo popular (a tradição ebionita original) tornou-se cada vez mais obscurecido, até que finalmente desaparecera tão completamente da área de tal tradição, que uma nova "história" poderia com segurança ser desenvolvida para adequar-se à evolução dogmática inaugurada por Paulo.

As formas posteriores do Ebionismo, contudo, que sobreviveram por vários séculos, eram de natureza gnóstica, e revelam o contato dessas comunidades exteriores da Cristandade primitiva, baseadas no ensino público, com uma tradição judaica interior, que evidentemente existiu contemporaneamente a Paulo, e pode ter existido muito antes.

OS ESSÊNIOS.

OS ESSÊNIOS.

Baseando-se nos Ditos preservados nos Evangelhos canônicos e na descrição das comunidades dada nos Atos, muitos supuseram que Jesus era membro ou intimamente familiarizado com as doutrinas e a disciplina das comunidades essênias.

Quem então eram esses Essênios ou Curandeiros?

Por séculos antes da era cristã, comunidades essênias haviam habitado as margens do Mar Morto.

Esses Essênios ou Esseanos, nos dias de Fílon e Josefo, estavam imbuídos do máximo respeito por Moisés e pela Lei.

Eles acreditavam em Deus, o criador, na imortalidade da alma, e em um estado futuro de retribuição.

Achando impossível cumprir na vida comum as minuciosas regulamentações das leis de pureza, eles haviam adotado a vida de comunismo ascético.

Sua principal característica era a doutrina do amor — amor a Deus, amor à virtude, e amor à humanidade — e a maneira prática pela qual eles executavam seus preceitos despertava a admiração de todos.

A sua estrita observância da disciplina purificatória instituída pelas leis levíticas compeliu-os, assim, a tornarem-se uma comunidade autossuficiente; todos trabalhavam num ofício, cultivavam seus próprios campos, fabricavam todos os artigos de alimento e vestuário que usavam e, assim, de todas as maneiras evitavam contato com aqueles que não observavam as mesmas regras.

Também parecem, em seus círculos internos, ter sido estritos celibatários.


Seu modo de vida era o seguinte: levantavam-se antes do sol, e nenhuma palavra era proferida até que se reunissem e, com os rostos voltados para a aurora, oferecessem orações pela renovação da luz.

Cada um então ia para sua tarefa designada, sob a supervisão dos mordomos ou supervisores ("bispos") eleitos por sufrágio universal.

Às onze horas reuniam-se novamente e, despindo suas roupas de trabalho, realizavam o rito diário de batismo em água fria; então, vestindo-se com mantos de linho branco, dirigiam-se à refeição comum, que consideravam um sacramento; o refeitório era um "templo santo". Comiam em silêncio, e a comida era da mais simples — pão e vegetais.

Antes da refeição, uma bênção era invocada, e ao final, graças eram rendidas.

Os membros tomavam seus lugares de acordo com a antiguidade.

Então saíam para trabalhar novamente até a tarde, quando se reuniam outra vez para a refeição comum.

Certas horas do dia, contudo, eram dedicadas ao estudo dos mistérios da natureza e da revelação, bem como dos poderes das hierarquias celestiais, os nomes dos anjos, etc.

; pois possuíam uma instrução interna, guardada com o máximo sigilo.

Esta era a regra para os dias da semana, enquanto o Sábado era observado com extremo rigor.

Não tinham, porém, sacerdotes, e qualquer um que fosse "movido" a fazê-lo assumia a leitura da Lei e a exposição dos mistérios relacionados ao Tetragrama, ou nome-mistério de quatro letras do Poder Criativo, e aos mundos angélicos.

O

OS ESSÊNIOS.

Os essênios, portanto, estavam evidentemente em contato com a "cabala" caldaica e a tradição zoroastriana da disciplina da pureza; no entanto, a lógica e a metafísica eram evitadas como prejudiciais a uma vida devocional.

Havia quatro graus na comunidade: (i.) noviços; (ii.) aproximadores; (iii.) novos membros plenos, ou associados; (iv.) membros antigos, ou anciãos.

(i.) Após o primeiro ano, o noviço entregava todos os seus bens ao tesouro comum e recebia uma cópia dos regulamentos, uma pá (para o propósito descrito nos regulamentos do acampamento de Moisés) e uma túnica branca, o símbolo da pureza; mas o noviço ainda era excluído dos ritos lustrales e da refeição comum.

(ii.) Após mais dois anos, o noviço participava dos ritos lustrales, mas ainda era excluído da refeição comum.

(iii.) Os associados estavam vinculados pelas mais solenes garantias e, em caso de qualquer delito, só podiam ser julgados pela "assembleia", composta de cem membros.

O essenismo é considerado por alguns como uma forma exagerada do farisaísmo; e pode ser motivo de surpresa para aqueles cujo único conhecimento dos fariseus é derivado de documentos canônicos, saber que o objetivo mais elevado desta escola esclarecida do judaísmo era alcançar um tal estado de santidade que pudesse realizar curas milagrosas e profetizar.

Os "graus de santidade" praticados pelos fariseus são ditos terem sido: (i.) o estudo da Lei e a circunspecção; (ii.) o noviciado, no qual o avental era o símbolo da pureza; (iii.) a pureza externa, por meio de lustrações ou batismos; (iv.) o celibato; (v.) a pureza interna, a pureza do pensamento; (vi.) um estágio ainda mais elevado, que não é definido posteriormente; (vii.) a mansidão e a santidade; (viii.) o temor de todo pecado; (ix.) o estágio mais elevado de santidade; (x.) o estágio que capacitava o adepto a curar os enfermos e ressuscitar os mortos.


Devemos, no entanto, lembrar que os Curandeiros absolutamente se recusavam a ter qualquer relação com os sacrifícios de sangue do culto do Templo, e recusavam-se a crer na ressurreição do corpo físico, que o restante dos fariseus sustentava como doutrina cardinal.

Neste breve esboço é, naturalmente, impossível apontar as semelhanças notáveis entre a disciplina dos essênios e a dos terapeutas do Egito e das escolas órfica e pitagórica.

Cada assunto referido nestes ensaios exige um volume ou vários volumes para o seu tratamento adequado; podemos apenas erguer algumas placas indicativas, e deixar o leitor fazer as suas próprias investigações.

Mas antes de deixar este tema tão interessante, será necessário apontar a identidade entre muitos dos regulamentos essênios e os ensinamentos e tradições evangélicos.

Exigia-se dos convertidos que vendessem os seus bens e os dessem aos pobres, pois o acumular tesouros era considerado prejudicial à vida espiritual.

Não só os essênios desprezavam as riquezas, mas viviam uma vida de pobreza autoimposta.

O amor à fraternidade e ao próximo era a alma da vida essênia, e a base de toda ação; e essa característica da

Pontos de

Contato

com

OS ESSÊNIOS.

sua disciplina suscitava admiração universal.

Os membros viviam juntos como em uma família, tinham todas as coisas em comum, e nomeavam um mordomo para administrar a bolsa comum.

Quando viajavam, hospedavam-se com irmãos que nunca tinham visto antes, como se fossem os mais antigos e íntimos amigos; e assim nada levavam consigo quando partiam em viagem.

Todos os membros eram colocados no mesmo nível, e a autoridade de um sobre o outro era proibida; no entanto, o serviço mútuo era estritamente ordenado.

Eram também grandes amantes da paz, e por isso recusavam-se a pegar em armas ou a fabricar armas de guerra; além disso, proscrviam a escravidão.

Finalmente, o objetivo dos essênios era ser mansos e humildes de espírito, mortificar todas as concupiscências pecaminosas, ser puros de coração, odiar o mal mas recuperar o malfeitor, e ser misericordiosos com todos os homens.

Além disso, o seu "sim" era "sim", e o seu "não", "não".

Eram dedicados à cura dos enfermos, à cura tanto do corpo quanto da alma, e consideravam o poder de realizar curas milagrosas e expulsar espíritos malignos como o mais alto estágio de disciplina.

Em suma, esforçavam-se por ser tão puros a ponto de se tornarem templos do Espírito Santo e, assim, videntes e profetas.

A essas comunidades internas estavam ligados círculos externos de discípulos que viviam no mundo, e que se encontravam em todos os principais centros da Diáspora.

Fílon distingue os essênios dos terapeutas ao dizer que os primeiros eram devotados à vida "prática", enquanto os últimos ascendiam ao estágio superior da vida "contemplativa", dedicando-se a problemas ainda mais elevados de religião e filosofia, e é nessa direção que devemos procurar o que há de melhor no gnosticismo.


AS TENDÊNCIAS DO GNOSTICISMO.

MAS aqui, novamente, dados históricos precisos estão fora de questão, e temos, na maioria das vezes, de lidar

com o que os alemães chamam de "Tendenz". Harnack

fala da tendência que, por longa convenção, é

geralmente chamada de gnóstica, como a "secularização aguda do cristianismo". Qual é, então, o significado dessa frase? Diz-se que o dogma católico é o resultado da gradual helenização do cristianismo geral, isto é, a modificação da tradição popular pelo método filosófico e teológico.

Toda evolução de crenças populares leva tempo, e os resultados alcançados pela mente geral somente após séculos são invariavelmente antecipados por mentes de maior instrução, gerações antes.

Os Galileus do mundo são invariavelmente condenados por seus contemporâneos.

A mente gnóstica chegou rapidamente, por um lado, a muitas conclusões que os católicos gradualmente adotaram somente após gerações de hesitação e, por outro, a uma série de conclusões que mesmo para a nossa presente geração parecem prematuras demais.

Todos os estudantes de teosofia estão, em questões de religião, séculos à frente de seu tempo, pela simples razão de que se esforçam por todos os meios ao seu alcance para encurtar o tempo da evolução normal e alcançar a meta mística, que a cada momento do tempo está próxima, dentro, mas

AS TENDÊNCIAS DO GNOSTICISMO.

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para a maioria está muito distante ao longo do caminho normal da evolução externa.

A frase "secularização aguda do cristianismo", então, representa a rápida teologização e sistematização do cristianismo; mas duvido que isso explique inteiramente os fatos.

A Gnose era pré-cristã; o Cristo iluminou sua tradição e, por Seu ensino público, praticamente abriu a todos o que anteriormente fora mantido "em segredo desde a criação do mundo" — para falar com mais precisão, os graus intermediários dos Mistérios.

O fermento agiu e, no decorrer do tempo, muito do que fora anteriormente reservado apenas aos "dignos" foi forçado à publicidade e tornado propriedade comum.

Foi forçado pela pressão das circunstâncias, inaugurado pela propaganda de Paulo e intensificado pela subsequente controvérsia heresiológica.

Os gnósticos afirmavam que havia duas linhas de tradição — os ditos públicos e os ensinamentos internos que tratavam de coisas que as pessoas do mundo não podiam compreender.

Esse lado de seu ensino eles mantiveram a princípio inteiramente para si mesmos, e apenas gradualmente expuseram uma pequena parte dele; o resto guardaram no mais estrito segredo, pois sabiam que não poderia de forma alguma ser compreendido.

Os gnósticos eram, então, os primeiros teólogos cristãos, e se é motivo de repreensão que o lado histórico real do novo movimento tenha sido obscurecido para atender às necessidades de uma religião que aspirava à universalidade, então os gnósticos são os principais culpados.

O catolicismo finalmente, ao aceitar o Cânon do Antigo Testamento em sua interpretação literal, adotou não as crenças populares do judaísmo e o culto a Yahweh-Pai, mas nos anos anteriores tinha sido inclinado de Jesus.

buscar uma interpretação alegórica.

O gnosticismo, ao contrário, sempre que não rejeitava inteiramente os documentos da Antiga Aliança, adotava invariavelmente não apenas o método alegórico, mas também um cânon de crítica que classificava minuciosamente a "inspiração" e, assim, peneirava a maior parte das passagens objetáveis do Cânon Judaico.

Assim, na busca de um ideal universal, o Deus tribal — ou antes, as concepções grosseiras da população judaica não instruída acerca de Yahweh — era, quando não inteiramente rejeitado, colocado em uma posição muito subordinada.

Em suma, o Yahweh dos Elohim não era o Pai de Jesus; o Demiurgo, ou poder criativo do mundo, não era o Deus Mistério sobre todos.

E assim como essa ideia do verdadeiro Deus transcendia as noções populares de divindade, também o verdadeiro ensinamento da Gnose iluminava os ditos enigmáticos ou parábolas.

Os ensinamentos éticos, ou "Palavras do Senhor", e as parábolas exigiam interpretação; o sentido literal era suficiente para o povo, mas para os verdadeiramente espirituais havia uma perspectiva infinita de significado interior que poderia ser revelada ao olho do verdadeiro gnóstico.

Assim, o ensinamento ético simples e os ditos obscuros e ininteligíveis eram para os não instruídos; mas havia uma instrução adicional, uma doutrina esotérica ou interior, que era transmitida somente aos dignos.

Muitos evangelhos e apocalipses foram assim

AS TENDÊNCIAS DO GNOSTICISMO.

compilados sob a inspiração do "Espírito", como se alegava — todos pretendendo ser a instrução concedida por Jesus aos Seus discípulos após a "ressurreição dos mortos", frase mística que em sua maioria representavam como significando o novo nascimento ou a iluminação gnóstica, a vinda à vida da alma a partir de seu estado morto anterior.

Mas mesmo esses tratados gnósticos não revelavam todo o assunto; é verdade que explicavam muitas coisas em termos de estados internos e processos espirituais; mas ainda deixavam muito sem explicação, e a revelação final era comunicada apenas oralmente no corpo, e por visão fora do corpo.

Assim, era costume entre eles dividir a humanidade em três classes: (a) a mais baixa, ou "hílicos", eram aqueles que estavam tão inteiramente mortos para as coisas espirituais que eram como a hyle, ou matéria imperceptiva do mundo; (b) a classe intermediária era chamada de "psíquicos", pois, embora crentes nas coisas espirituais, eram crentes simplesmente, e exigiam milagres e sinais para fortalecer sua fé; (c) enquanto os "pneumáticos", ou espirituais, a classe mais elevada, eram aqueles capazes de conhecimento das coisas espirituais, aqueles que podiam receber a Gnosis.

É um tanto costume em nossos dias, em círculos extremos, afirmar que todos os homens são "iguais". O teólogo moderno qualifica sabiamente essa afirmação com o advérbio "moralmente". Assim enunciada, a ideia não é de modo algum uma visão peculiarmente cristã — pois a doutrina é comum a todas as grandes religiões, visto que simplesmente afirma o grande princípio da justiça como uma das manifestações da Divindade.

A visão gnóstica, no entanto, é muito mais clara e mais de acordo com os fatos da evolução; ela admite a "igualdade moral", mas afirma ainda a diferença de grau, não apenas no corpo e na alma, mas também no espírito, a fim de tornar a moralidade proporcional, e assim realizar o significado interno da parábola dos talentos.

Essa classificação não se aplicava apenas entre os homens, mas também entre os poderes; e os profetas do Antigo Testamento, como instrumentos de tais poderes, eram, como afirmado acima, assim ordenados em uma hierarquia de dignidade.

A personalidade de Jesus, o profeta das novas boas-novas, provou, no entanto, um problema muito difícil para os doutores gnósticos, e podemos encontrar exemplos.

de todas as matizes de opinião entre eles — desde a visão ebionita original de que ele era simplesmente um homem bom e santo, até os antípodas da crença; que ele não era apenas uma descida do Logos de Deus — uma ideia familiar à antiguidade oriental — mas, de fato e em sua pessoa, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, uma necessidade imposta à fé pelo espírito jactancioso de um entusiasmo que buscava transcender as pretensões de toda religião existente.

A pessoa de Jesus foi assim feita para suportar o fardo de toda possibilidade do mundo oculto e de todo poder oculto da natureza humana.

Em seus esforços para reconciliar as ideias de um homem sofredor e de um iniciador triunfante e rei do universo (tanto sensível quanto intelectual), eles recorreram ao expediente do Docetismo, uma teoria que poderia cobrir todas as fases de contradição na justaposição aguda das naturezas divina e humana de seu ideal.

AS TENDÊNCIAS DO GNOSTICISMO.

A teoria docética é a teoria da "aparência". Uma distinção nítida foi feita entre Cristo, o éon divino ou "homem" aperfeiçoado, e Jesus, a personalidade.

O Deus, ou antes, Deus em Cristo, não sofreu, mas pareceu sofrer; somente o homem inferior, Jesus, sofreu.

Ou ainda, Cristo não foi realmente encarnado em um homem Jesus, mas tomou para si um corpo fantasmagórico chamado Jesus.

Mas estas foram desenvolvimentos doutrinários posteriores com base em certos fatos internos: (a) que um corpo fantasmagórico pode ser usado pelos "perfeitos", ser feito aparecer e desaparecer à vontade, e tornar-se denso ou materializado, de modo a ser sentido fisicamente; e (b) que o corpo físico de outro, geralmente um discípulo, pode ser usado por um mestre de sabedoria como meio de instrução.

Tais ideias subjacentes ocorrem nos tratados gnósticos e formam uma parte importante de sua cristologia, especialmente no que diz respeito ao período de instrução após a "ressurreição".

De fato, nenhum problema parecia elevado demais para a intuição do filósofo gnóstico; o de onde, o para onde, o porquê e o como das coisas foram investigados com espantosa ousadia.

Não apenas sua cosmogonia era do mais sublime e complexo caráter, mas os limites do mundo sensível eram estreitos demais para contê-la, de modo que buscavam suas origens nas regiões intelectuais e espirituais da mente imanente da divindade, onde postulavam uma eonologia transcendente que retratava as energizações da ideação divina.

Igualmente complexa era sua antropogonia, e igualmente sublimes as potencialidades que postulavam da alma e do espírito humanos.


Quanto à sua soteriologia, ou teoria da salvação ou regeneração da humanidade, eles não confinavam a ideia à noção crua e limitada de uma paixão física por um único indivíduo, mas a expandiam em um estupendo processo cósmico, forjado pela volição do Logos em Sua própria natureza.

Sua escatologia, ou doutrina das "últimas coisas", novamente pintava para a humanidade, ao final do ciclo-mundo, um futuro que dava "nirvana" ao "espiritual" e bem-aventurança eônica ao "psíquico", enquanto o "hílico" permanecia na obscuração da matéria até o fim da "Grande Paz" — um quadro um tanto diferente da expectativa crua do bom tempo de festa na terra dos "Homens Pobres", que Harnack tecnicamente refere como uma "escatologia eudemonista sensual".

Finalmente, toda a sua doutrina girava em torno da concepção da lei cíclica tanto para a alma universal quanto para a individual.

Assim, encontramos os gnósticos invariavelmente ensinando a doutrina não apenas da preexistência, mas também do renascimento das almas humanas; e embora uma característica principal de seus dogmas fosse a doutrina central do perdão dos pecados, eles, no entanto, mantinham rigidamente o funcionamento infalível da grande lei de causa e efeito.

É um tanto curioso que essas duas doutrinas principais, que explicam tanto no Gnosticismo e lançam luz sobre tantos lugares obscuros, tenham sido ou inteiramente ignoradas ou, quando não superficialmente tratadas com descuido, despachadas com algumas observações apressadas nas quais o crítico se esforça mais para se desculpar por tocar em superstições tão ridículas como a "metempsicose" e o "destino", do que para elucidar princípios que são uma chave para toda a posição.

LITERATURA E FONTES DO GNOSTICISMO.

A LITERATURA E AS FONTES DO GNOSTICISMO.

O estudo do Gnosticismo tem sido até agora quase inteiramente confinado a especialistas, cujas obras não podem ser compreendidas pelo povo; o leitor comum é dissuadido pela riqueza de detalhes, pela dificuldade dos termos técnicos, pela obscuridade da fraseologia teológica, e pelo sentimento de que se espera que ele saiba muitas coisas das quais nunca sequer ouviu falar.

Espera-se que em breve algum estudioso inglês competente, dotado do gênio da generalização lúcida, seja induzido a escrever um esboço popular do assunto, a fim de que homens e mulheres pensantes que não desfrutaram das vantagens de um treinamento técnico em história eclesiástica e dogmática possam compreender sua importância e interesse absorvente.

Enquanto isso, nosso presente ensaio pode, talvez, até certo ponto servir como um "guia para os perplexos", embora não concebido segundo o plano ou executado com a habilidade de um Maimônides, mas antes o mero registro de algumas notas e indicações que podem poupar ao leitor geral os anos de trabalho que o escritor gastou em buscar através de muitos livros.

Primeiro, então, quanto aos livros; quais são as melhores obras sobre Gnosticismo? Os melhores livros, sem exceção, são de estudiosos alemães.

Aqui, então, somos confrontados com nossa primeira dificuldade, pois o leitor geral, como regra, é um homem de uma única língua apenas.

Para o leitor comum de língua inglesa, portanto, tais obras são livros fechados, e ele deve recorrer a traduções, se é que existem.


Infelizmente, apenas duas dessas obras estão disponíveis em inglês.

O segundo volume da tradução (Bohn, nova ed., 1890) da História da Igreja de Neander (1825, etc.) trata dos gnósticos, mas a grande obra do teólogo alemão está agora desatualizada.

A melhor revisão geral do Gnosticismo à luz das pesquisas mais recentes encontra-se na admirável História do Dogma de Harnack, no primeiro volume, traduzido em 1894.

Para um relato mais detalhado, o Dicionário de Biografia Cristã de Smith e Wace (1877-1887) é absolutamente indispensável.

O plano desta obra útil contém um artigo geral, com longos artigos sobre cada mestre gnóstico, e artigos mais curtos sobre vários termos técnicos da Gnose.

Lipsius, Salmon e Hort são responsáveis pela obra, e seus nomes são garantia suficiente de rigor.

As duas últimas obras são tudo o que é necessário para uma compreensão preliminar do assunto, e são o resultado de profunda erudição e admirável perspicácia crítica.

É um prazer prestar homenagem de louvor a tal trabalho, embora o ponto de vista assumido por esses distintos estudiosos não seja suficientemente liberal para alguém profundamente convencido de que a inspiração de todo esforço honesto para formular a verdade interior das coisas é realmente do alto.

De outras obras inglesas, podemos mencionar os Gnósticos e seus Restos de King (2ª ed., 1887), uma obra destinada ao leitor comum.

King insiste fortemente

LITERATURA E FONTES DO GNOSTICISMO.

numa distinta influência indiana no Gnosticismo, e trata de vários pontos interessantes; mas sua obra carece do rigor do especialista.

Ele está, no entanto, muito distante da "ortodoxia", e tem uma simpatia excessivamente grande pelos gnósticos.

O ponto mais fraco da obra de King é o aspecto que ele trouxe para maior destaque; os chamados "restos" dos gnósticos, amuletos, talismãs, etc., pelos quais King, como numismata, tinha especial interesse, são agora declarados pelas melhores autoridades como tendo, muito provavelmente, nenhuma conexão com nossos filósofos.

No entanto, o livro de King vale bem a pena ser lido.

A obra póstuma de Mansel, *As Heresias Gnósticas dos Primeiros e Segundos Séculos* (1875), não é apenas antipática, mas, na maior parte, faz grave injustiça aos gnósticos, ao insistir em tratar suas ideias principais como uma metafísica a ser julgada pelo padrão dos métodos filosóficos alemães modernos, tendo o Reitor ele próprio ocupado uma cátedra de filosofia.

Norton, em suas *Evidências da Autenticidade dos Evangelhos* (1847), dedica seu segundo volume aos gnósticos, mas o valor de sua obra é pequeno.

A *Investigação de Burton sobre as Heresias da Era Apostólica* (1829) poderia ter sido escrita por um dos primeiros Padres da Igreja.

O esforço do conferencista de Bampton e o de Norton estão agora ambos desatualizados; além disso, seus livros e o de Mansel só podem ser obtidos no mercado de segunda mão.

Até aqui, as obras em inglês que tratam diretamente do Gnosticismo.


O estudante encontrará em Harnack bibliografias breves, mas criteriosas, após cada capítulo, nas quais todas as melhores obras são fornecidas, especialmente as dos estudiosos alemães; no Dicionário de Smith e Wace, cada artigo também é seguido por uma bibliografia razoável.

Uma breve bibliografia geral, e também uma lista de quase todos os trabalhos mais recentes sobre os únicos documentos diretos do Gnosticismo que possuímos, pode ser encontrada na Introdução à minha tradução do tratado gnóstico *Pistis Sophia* (1896); e uma bibliografia classificada de todas as obras mais importantes está anexada a este ensaio.

O estudante ficará surpreso ao ver como a escassez de informações em inglês se compara desfavoravelmente com a massa de trabalho enciclopédico em alemão, e como a França também, neste departamento de história da Igreja e pesquisa teológica, fica muito próxima da Inglaterra.

Mas a consideração dessas obras não se enquadra no plano deste breve ensaio.

Até aqui, então, para a literatura geral do assunto indireto em inglês; temos agora que considerar brevemente os documentos indiretos e diretos do Gnosticismo.

Por "documentos indiretos" quero dizer os escritos polêmicos dos Padres do que posteriormente se estabeleceu como a Igreja Católica ortodoxa.

Esses documentos indiretos eram praticamente as únicas fontes de informação até 1853, quando a tradução de Schwartze da Pistis Sophia foi publicada.

Por documentos "diretos" quero dizer os poucos tratados gnósticos que chegaram às nossas mãos por meio da tradução copta.

Nossas fontes indiretas de informação, portanto.

LITERATURA E FONTES DO GNOSTICISMO.

vêm pelas mãos dos mais violentos opositores da Gnose; e basta lembrarmos a intensa amargura da controvérsia religiosa em todos os tempos, e especialmente nos primeiros séculos da Igreja, para nos tornarmos profundamente céticos quanto à confiabilidade de tais fontes de informação.

Além disso, as fontes mais antigas e mais contemporâneas, e portanto comparativamente mais confiáveis, são encontradas principalmente nos escritos dos Padres da Igreja Ocidental, que eram menos capazes de compreender os problemas filosóficos e místicos que agitavam as comunidades orientais.

A mente romana e ocidental nunca pôde realmente compreender o pensamento grego e oriental, e os Padres Ocidentais foram sempre os principais defensores da "ortodoxia".

Devemos ainda lembrar que não temos nenhuma "refutação" contemporânea do primeiro século (se é que alguma existiu), ou dos primeiros três quartos do segundo.

O grande "depósito do Gnosticismo" é a Refutação de Irineu, que escreveu em Lyon, na Gália, longe do verdadeiro cenário da ação, por volta da penúltima década do segundo século.

Todos os refutadores subsequentes baseiam-se mais ou menos no tratado de Irineu, e frequentemente copiam a obra do bispo gaulês.

Se, então, Irineu puder ser considerado não confiável, todo o edifício da refutação fica ameaçado pela insegurança de sua fundação.

Este ponto importante será considerado mais adiante.

Antes de Irineu, um certo Agripa Castor, que floresceu no final do reinado de Adriano, por volta de 135 d.C., é dito por Eusébio ter sido o primeiro a escrever contra as heresias.


Sua obra está infelizmente perdida.

Justino Mártir, o apologista, também compôs uma obra contra as heresias; este Syntagma ou Compêndio também está, infelizmente, perdido.

A julgar pelo relato de Justino sobre a história do Evangelho em suas obras existentes, parece que as "Memórias dos Apóstolos", às quais ele se refere repetidamente, não eram idênticas aos nossos quatro Evangelhos canônicos, embora seja bem possível que esses Evangelhos estivessem assumindo sua forma atual nesse período.

Pode-se, portanto, supor que sua obra sobre as heresias lançou uma luz demasiado forte sobre a controvérsia pré-canônica para tornar desejável seu uso contínuo.

Esta pode também ser a razão do desaparecimento da obra de Agripa Castor.

Justino floresceu por volta de 140-160 d.C.

Clemente de Alexandria, cuja maior atividade literária ocorreu de cerca de 190-203 d.C., viveu no maior centro de atividade gnóstica e conheceu pessoalmente alguns dos grandes doutores da Gnose.

Suas obras estão, em sua maior parte, livres daquelas acusações generalizadas de imoralidade com as quais a maioria dos Padres da Igreja nos anos posteriores amava manchar o caráter dos gnósticos dos dois primeiros séculos.

Todos os críticos agora concordam que essas acusações foram calúnias infundadas no que diz respeito às grandes escolas e seus mestres, visto que a maioria era de ascetas rígidos.

Mas este ponto ficará mais claro mais adiante.

Supõe-se que Clemente tenha tratado dos problemas superiores do Gnosticismo em sua obra perdida, Os Esboços,

LITERATURA E FONTES DO GNOSTICISMO.

na qual ele se esforçou por construir um sistema completo de ensino cristão, cujos três primeiros livros guardavam forte semelhança com os três estágios dos platônicos: (i.) Purificação, (ii.) Iniciação, (iii.) Visão Direta.

Esta obra também está, infelizmente, perdida.

Era a continuação de seus famosos Miscelâneas, nos quais o filósofo cristão se esforçava por mostrar que ele próprio era um verdadeiro gnóstico.

Tertuliano de Cartago (fl. 200-220 d.C.), cuja intolerância, "zelo ardente" e linguagem violentamente abusiva são notórios, escreveu contra as heresias, copiando em sua maioria Ireneu.

Para os marcionitas, no entanto, ele é uma autoridade independente.

Parte do tratado contra as heresias atribuído a Tertuliano foi escrita por algum refutador desconhecido, e assim temos um Pseudo-Tertuliano a considerar.

Hipólito, Bispo de Portus na foz do Tibre, foi o discípulo de Ireneu.

Ele escreveu um Compêndio contra todas as heresias, baseado quase inteiramente em Ireneu, que se perdeu; mas uma obra muito maior do mesmo Padre foi descoberta em 1842 no Monte Atos.

Esta obra pretendia ser uma Refutação de Todas as Heresias e acrescenta consideravelmente à nossa informação proveniente de fontes indiretas; pois a obra não é uma mera cópia de Ireneu, mas acrescenta uma grande massa de matéria nova, com citações de alguns manuscritos gnósticos que caíram nas mãos de Hipólito.

A composição desta obra pode ser datada por volta de 222 d.C.

Por volta dessa época também (225-250), Orígenes, o grande Padre alexandrino, escreveu uma refutação contra um certo Celso, que se supõe ter sido o primeiro oponente do Cristianismo entre os filósofos, e que viveu cerca de setenta e cinco anos antes do tempo de Orígenes.

Nesta obra há passagens referentes a alguns dos gnósticos.

Se então incluirmos a obra de Orígenes contra A Verdadeira Palavra de Celso, teremos mencionado todos os Padres que têm algum valor real para as fontes indiretas do Gnosticismo nos primeiros dois séculos.

Filástrio, bispo de Bréscia na Itália, Epifânio, bispo de Salamina em Chipre, e Jerônimo, situam-se por volta do último quartel do quarto século e são, portanto (a menos que, naturalmente, citem escritores anteriores), tardios demais para a precisão com relação às coisas dos primeiros dois séculos.

Filástrio, além disso, é geralmente descartado devido à sua credulidade excessiva; e a confiabilidade de Epifânio é frequentemente passível de grave suspeita, devido à sua grande faculdade de inventar ou divulgar escândalos e todo tipo de torpeza.

Eusébio é cinquenta anos mais antigo, mas há pouco a colher dele sobre o assunto, e sua reputação de precisão foi posta em questão por muitos críticos históricos independentes.

O Compêndio de Teodoreto, baseado em seus predecessores e datando de cerca de meados do século V, é tardio demais para acrescentar algo ao nosso conhecimento dos primeiros dois séculos.

O estudo desses documentos indiretos tem exercitado a engenhosidade dos críticos e resultou em uma façanha maravilhosamente inteligente de erudição.

Lipsius demonstrou que Epifânio, Filastro e Pseudo-Tertuliano todos se baseiam em uma fonte comum, que era o Syntagma ou Compêndio perdido de Hipólito, consistindo principalmente de notas das palestras de Ireneu; isto é, com toda probabilidade, dos tratados polêmicos que o bispo lia para sua comunidade, e nos quais baseou sua obra maior.

Assim, reconstruindo o documento perdido, ele o compara com Ireneu e infere para ambos uma autoridade comum, provavelmente o Syntagma perdido de Justino.

Vemos assim que nossa principal fonte é Ireneu.

A Refutação de Ireneu é o "depósito do Gnosticismo" — segundo os Padres — para os primeiros dois séculos.

Ireneu viveu longe, nos ermos da Gália; sua evidência é confiável? Deixando de lado a presunção geral de que nenhum escritor eclesiástico em tal época poderia, pela natureza das coisas, ter sido justo com as opiniões de seus oponentes, as quais ele forçosamente considerava como produto direto do príncipe de toda iniquidade, veremos em breve que o destino finalmente — apenas alguns anos atrás — colocou a prova final dessa presunção em nossas mãos.

Mas, entretanto, voltemos nossa atenção para nossas Fontes Diretas.

fontes diretas de informação.

Temos agora nada menos que três Códices contendo traduções coptas de obras gnósticas originais em grego.

(i.) O Códice Askew, pergaminho, Museu Britânico, Londres: contendo o tratado Pistis Sophia e extratos dos Livros do Salvador.

(ii.) O Códice Bruce (consistindo de dois MSS. distintos), papiro, Biblioteca Bodleiana, Oxford: contendo uma série de longos fragmentos sob o título geral título  O  Livro  do  Grande  Logos  segundo  o  Mistério ;  outro  tratado  de  grande  sublimidade,  mas  sem  título;  e  um  fragmento  ou  fragmentos  de  ainda  outro  tratado.


(iii.)  O  Códice  de  Akhmim,  papiro,  Museu  Egípcio,  Berlim :  contendo  O  Evangelho  de  Maria  (ou  Apócrifo  de  João),  A  Sabedoria  de  Jesus  Cristo,  e  Os  Atos  de  Pedro.

O  Códice  de  Akhmim  foi  somente  descoberto  em  1896.  Antes  de  1853,  quando  o  Códice  Askew  foi  traduzido  para  o  latim,  nada  de  natureza  prática  era  conhecido  de  seu  conteúdo,  enquanto  o  conteúdo  do  Códice  Bruce  não  foi  conhecido  até  1891-1892,  quando  traduções  apareceram  em  francês  e  alemão.

Temos  de  refletir  sobre  a  indiferença  que  permitiu  que  esses  importantes  documentos  permanecessem,  num  caso  (Cod.

Ask.)  por  oitenta  anos  sem  tradução,  e  no  outro  (Cod.

Bruc.)  cento  e  vinte  anos !  A  primeira  tentativa  de  tradução  em  inglês  apareceu  somente  em  1896  na  minha  versão  de  Pistis  Sophia.

Ver-se-á,  assim,  que  o  estudo  do  Gnosticismo  a  partir  de  fontes  diretas  é  bastante  recente,  e  que  toda  pesquisa,  exceto  a  mais  recente,  está  desatualizada.

Essa  nova  visão  nos  é  ainda  mais  imposta  pela  mais  recente  descoberta,  que  no  MS.  de  Akhmim  coloca  em  nossas  mãos  os  meios  de  testar  a  precisão  de  Irineu,  a  âncora  de  segurança  dos  heresiólogos.

O  Evangelho  de  Maria  é  uma  das  fontes  originais  que  Irineu  utilizou.

Agora  somos  habilitados,  num  caso,  a  controlar  o  Padre  da  Igreja  ponto  por  ponto — e  descobrir  que  ele  condensou  e  parafraseou  tanto  seu  original  que  o  sistema  consistente  da  escola  de  Gnosticismo  que

LITERATURA   E   FONTES   DO   GNOSTICISMO.

ele  se  esforça  por  refutar  aparece  como  um  amontoado  incompreensível.

Essa  atividade  recente  entre  especialistas  em  pesquisa  gnóstica,  numa  época  em  que  um  interesse  generalizado  por  um  renascimento  dos  estudos  teosóficos  preparou  o  caminho  para  uma  reconsideração  do  Gnosticismo  a  partir  de  um  ponto  de  vista  totalmente  diferente  daquele  da  pura  crítica  ou  refutação,  é  uma  curiosa  coincidência.

Das considerações acima, é evidente que os gnósticos e suas ideias estão longe de serem sepultados naquele esquecimento que seus opositores tão fervorosamente desejaram e tão ativamente se esforçaram por assegurar, que agora, na abertura do século vinte, numa época em que a crítica bíblica trabalha com a energia e independência reencarnadas de um Marcião, a memória desses universalizadores do Cristianismo vem mais uma vez à tona e ocupa a atenção de estudiosos sinceros da religião.

Além dessas fontes indiretas e diretas, há também outra fonte que pode nos fornecer informações valiosas, quando submetida ao escrutínio de uma crítica esclarecida.

As lendas e tradições preservadas nos Atos Gnósticos merecem atenção mais próxima do que têm recebido até agora, como esperamos demonstrar no decorrer desta obra por meio de citações de várias delas.

A GNOSE SEGUNDO SEUS ADVERSÁRIOS.

Oh! quem dera que o meu adversário escrevera um livro!

Jó (segundo a Versão Autorizada).

ALGUNS FRAGMENTOS GNÓSTICOS RECUPERADOS

DOS ESCRITOS POLÊMICOS

DOS PADRES DA IGREJA.

Passaremos agora a apresentar ao leitor os principais mestres e escolas do Gnosticismo, na medida em que nos são conhecidos pelos escritos polêmicos dos Padres da Igreja.

Infelizmente, não estamos em posição de apresentar ao estudante uma classificação satisfatória das escolas gnósticas; toda classificação anteriormente tentada fracassou completamente, e no estado atual de nosso conhecimento devemos nos contentar em extrair as diferentes fases de desenvolvimento do amontoado da melhor maneira possível.

Clemente de Alexandria, no final do segundo século, tentou o expediente grosseiro de dividir essas escolas da Cristandade em seitas ascéticas e licenciosas; Neander, no início do presente século, esforçou-se por classificá-las por suas relações amigáveis ou hostis com o Judaísmo; Baur seguiu com uma tentativa que levou em consideração não apenas não apenas como encaravam o Judaísmo, mas também sua atitude em relação ao Paganismo; Matter adotou uma distribuição geográfica entre as escolas da Síria, Ásia Menor e Egito; e Lipsius seguiu com uma divisão mais geral entre o Gnosticismo da Síria e o de Alexandria.


Todas essas classificações fracassam em muitos pontos importantes; e somos assim compelidos a seguir as indicações imperfeitas dos primeiros heresiólogos patrísticos, que vaga e acriticamente atribuíam a origem do Gnosticismo a "Simão Mago". É, no entanto, certo que a origem das ideias gnósticas, longe de ser simples e rastreável a um indivíduo, era de natureza extremamente complexa; alguns pensaram que ela deve ser buscada ao longo da linha do chamado "Ofitismo", que é um termo geral entre os heresiólogos para quase tudo o que não podem atribuir a um mestre particular.

Mas a mistura de escolas e tendências que os Pais da Igreja indiscriminadamente amontoam como ofitas contém os elementos mais heterogêneos, bons e maus.

O nome Ofita, ou "adorador de serpente", é simplesmente um termo de abuso usado unicamente pelos refutadores, enquanto os adeptos dessas escolas geralmente se autodenominavam "Gnósticos", e foram aparentemente os primeiros a usar o termo.

Seguiremos, portanto, em primeiro lugar, a chamada linha de descendência "simoniana" até o primeiro quartel do segundo século; depois mergulharemos no caos indefinido dos "Gnósticos"; em seguida, refaremos nossos passos ao longo de uma fase gnóstica da tradição ebionita; e finalmente trataremos da época mais brilhante do Gnosticismo que conhecemos

ALGUNS FRAGMENTOS GNÓSTICOS.

— quando Basilides, Valentino e Bardesanes viveram, trabalharam e pensaram, e Marcião espantou a ortodoxia nascente com uma "crítica superior" que, em ousadia, talvez ainda não tenha sido igualada mesmo em nossos dias.

Foi uma época que gerou obras de tamanha excelência que, nas palavras do Dr. Carl Schmidt (na Introdução à sua edição do Codex Brucianus), "ficamos estupefatos, maravilhados com a ousadia das especulações, deslumbrados pela riqueza de pensamento, tocados pela profundidade de alma do autor" — "um período em que o gênio gnóstico, como uma águia poderosa, deixou o mundo para trás e pairou em círculos amplos e cada vez mais amplos rumo à luz pura, rumo ao conhecimento puro, no qual se perdeu em êxtase."

Devemos, contudo, ao estudar as vidas e os ensinamentos desses gnósticos, ter sempre em mente que nossas únicas fontes de informação têm sido até agora as caricaturas dos heresiólogos, e lembrar que apenas os pontos que pareciam fantásticos aos refutadores foram selecionados, e então exagerados por todas as artes da crítica hostil; os ensinamentos éticos e gerais que não ofereciam tais pontos foram quase invariavelmente omitidos.

É, portanto, impossível obter qualquer coisa além de um retrato mais distorcido de homens cujo maior pecado foi estarem séculos à frente de seu tempo.

Deve-se ainda lembrar que o termo "heresia" nos dois primeiros séculos não conotava geralmente o significado estreito que lhe foi atribuído posteriormente. Era simplesmente o termo usual para uma escola de filosofia; assim, lemos sobre a heresia de Platão, de Zenão, de Aristóteles.

Os gnósticos, e também o restante da cristandade, estavam assim divididos em um número de escolas ou "heresias", que naqueles tempos primitivos eram mais ou menos de igual dignidade e autenticidade.


OS "SIMONIANOS".

NÃO há razão para supor que os gnósticos A Origem a quem os Pais da Igreja chamam de "simonianos" do Nome teriam eles próprios respondido ao nome, ou teriam

reconhecido a linha de descendência imaginada para eles por seus oponentes como fundada em qualquer base factual.

Já em Justino Mártir (c. 150 d.C.), "Simão" assumiu uma proeminência desproporcional ao seu lugar na história.

Evidentemente, Justino o considerava com grande detestação, e acusava os romanos de adorá-lo como um deus, com base numa inscrição numa estátua em Roma.

Justino dá a inscrição como "Simoni Deo Sancto" — "A Simão, o santo Deus." Mas (ai! para a reputação da precisão de Justino quando envolvido em controvérsia) a arqueologia descobriu a estátua — e a encontra dedicada a uma divindade sabina, "Semo Sancus"! A afirmação de Justino, no entanto, foi recebida sem questionamento pelos heresiólogos subsequentes, como todas essas afirmações o eram naquela era acrítica.

Agora, é muito provável que Justino, em suas inúmeras controvérsias em defesa de sua visão particular do Cristianismo, tenha sido confrontado com algum argumento em que Simão era citado como exemplo.

Pode ter sido que Justino argumentasse que os

OS "SIMONIANOS."

milagres de Jesus provavam tudo o que Justino reivindicava em Seu nome, e fosse confrontado com o contra-argumento de que Simão também era um grande operador de maravilhas, e fazia grandes reivindicações, de modo que os milagres não provavam as alegações de Justino.

Assim, pode ter sido que Justino passou a detestar a memória de Simão, e o via a ele e a seus apoiadores em toda parte, até mesmo em Roma, numa estátua a um deus menor sabino.

Bem pode ter sido que algum operador de maravilhas chamado Simão tenha surpreendido as pessoas em Samaria com seus truques psicológicos, e que histórias sobre ele ainda fossem contadas entre o povo no tempo de Justino.

Mas o que mais contribuiu para estereotipar a lenda de que Simão foi o primeiro herege foi a inserção de seu nome numa das histórias incluídas nos Atos dos Apóstolos, posteriormente canônicos.

Isso ocorreu depois de Justino, e assim temos os primeiros momentos na evolução da lenda da origem da heresia (e, portanto, segundo os Padres, do Gnosticismo). O que então nos é dito sobre "Simão" e os "Simonianos" só tem interesse para recuperar algumas das ideias que o partido posteriormente católico se esforçava por refutar; não tem valor como história.


DOSITEU.

O pano de fundo lendário da polêmica Pseudo-Clementina informa-nos que o precursor de "Simão Mago" foi um certo Dositeu.

Ele é mencionado nas listas dos primeiros heresiólogos, em uma Crônica Samaritana, e na Crônica de Aboulfatah (século XIV); as notícias, no entanto, são todas lendárias, e nada de caráter verdadeiramente confiável pode ser afirmado sobre o homem.

Que ele não fosse, porém, uma personagem sem importância é evidenciado pela persistência da seita dos Dositeanos até o século VI; Aboulfatah diz até o século XIV.

Tanto Dositeu quanto "Simão Mago" eram, segundo a tradição, seguidores de João Batista; dizia-se, contudo, que eram inimigos de Jesus.

Diz-se que Dositeu afirmava ser o profeta prometido, "semelhante a Moisés", e que "Simão" fazia uma afirmação ainda mais elevada.

De fato, como tantos outros naqueles dias, ambos eram pretendentes ao Messianato.

Os Dositeanos seguiam um modo de vida muito semelhante ao dos Essênios; tinham também seus volumes secretos e, aparentemente, uma literatura não desprezível.

Dositeu (Dousis, Dusis ou Dosthai) era aparentemente um árabe, e na Arábia, temos todas as razões para crer, havia muitas comunidades místicas aliadas às dos Essênios e Terapeutas.

Um dos Evangelhos usados por Justino, sob o título geral "Memórias dos Apóstolos", afirma que os "sábios" vieram da Arábia.

Uma lenda chega a reivindicar Dositeu como o fundador da seita dos Saduceus! A tradição posterior atribuiu-lhe um grupo de trinta discípulos, ou, para ser mais preciso, vinte e nove e meio (o número de dias em um mês), sendo um deles uma mulher.

Isto é, o sistema de Dositeu girava em torno de uma base lunar, assim como sistemas subsequentes atribuídos a Jesus giravam em torno de uma base solar, os doze discípulos tipificando os meses solares ou signos zodiacais, ou melhor, certos fatos da tradição da sabedoria que subjazem a esse simbolismo.

Dositeu teria afirmado ser uma manifestação do "Que Está de Pé" ou princípio imutável, nome também atribuído ao princípio supremo dos "simonianos". A única discípula feminina era Helena (o nome da lua ou do mês, Selene, em grego), que também aparece na lenda de Simão.

Na tela obscura da tradição dos dositeanos, podemos assim ver sombras passantes das fontes de uma Gnose Pré-Cristã — árabe, fenícia, síria, Gnose.

Sombras babilônicas.

Ainda mais interessante, podemos assim, talvez, apontar para uma fonte à qual se pode rastrear, ao longo de outra linha de descendência, os trinta eons subsequentes do pleroma valentiniano ou mundo ideal, com a trigésima dividida, Sophia (dentro e fora, acima e abaixo), cujo aspecto inferior constituía a Alma do Mundo ou a substância primordial de um sistema-mundo.

Deve-se também observar que Aboulfatah situa Dositeu 100 anos a.C. Naturalmente, apenas um crédito muito limitado pode ser dado a este cronista tardio, mas ainda assim é possível que ele tenha se baseado em fontes não mais acessíveis a nós. A afirmação é interessante por mostrar que o cronista reconheceu o fato de uma Gnose pré-cristã; embora como ele reconcilie essa data de João Batista com a cronologia ortodoxa seja um enigma.


Teria ele sido influenciado pela tradição talmúdica da data de Jesus, que o situa um século antes de nossa era? Juntamente com Dositeu e "Simão", Hegesipo (segundo Eusébio) também menciona Cleóbio, Gorteu e Masboteu como líderes proeminentes das escolas cristãs primitivas.

"SIMÃO MAGO."

"SIMÃO MAGO", como já dissemos, é mencionado nos Atos dos Apóstolos, um documento da coleção do Novo Testamento, que se diz não ser citado antes de 177 d.C. Irineu e seus sucessores repetem a lenda dos Atos.

Justino Mártir (c. 150) fala de um certo Simão de Gitta, a quem quase todos os samaritanos reverenciavam com a maior devoção; este Simão, disse ele, afirmava ser uma encarnação do "Grande Poder", e tinha muitos seguidores.

Justino, no entanto, não faz referência à narrativa dos Atos, e assim alguns supuseram a existência de dois Simões, mas isso não parece necessário.

O relato de Justino é o núcleo da enorme lenda simoniana, que foi principalmente desenvolvida pelo ciclo da literatura pseudo-clementina do terceiro século, baseada nos Circuitos de Pedro do segundo século.

Somente Hipólito, no início do terceiro

"SIMÃO MAGO."

século, preservou alguns fragmentos da extensa literatura dos "simonianos"; o bispo de Porto cita uma obra intitulada O Grande Anúncio, e assim podemos formar alguma ideia de um dos sistemas desses gnósticos.

O esquema da Gnose contido neste documento, longe de apresentar uma forma rudimentar, ou mero germe, da doutrina gnóstica, transmite-nos uma fase altamente desenvolvida da tradição gnóstica, que, embora não tão elaborada quanto o sistema valentiniano, é, no entanto, quase tão madura quanto o esquema Barbelo, referido tão superficialmente por Irineu, e agora parcialmente recuperado no recentemente descoberto Evangelho de Maria.

Nos tempos mais remotos aos quais os cristãos católicos posteriormente atribuíram a origem de suas tradições, o

Ebionita

"(i. Simão."

houve, como sabemos por várias fontes, numerosos movimentos na Palestina e arredores, de natureza profética e reformadora, muitos profetas e mestres de doutrinas éticas, místicas, religioso-filosóficas e gnósticas.

As comunidades ebionitas encontraram-se em conflito com os seguidores desses mestres em muitos pontos, e a tradição ebionita transmitiu um relato deturpado desses conflitos doutrinários.

Acima de tudo, os ebionitas estavam em luta acirrada com as igrejas paulinas.

Mais tarde, o Cristianismo geral se propôs a reconciliar as diferenças entre Pedro e Paulo, principalmente por meio do documento dos Atos; e com o tempo, a tradição ebionita também foi editada à luz da nova visão, e o nome de Simão foi substituído pelo grande "herege" com quem os ebionitas haviam lutado.

E assim a tradição ebionita modificada, que era Presumivelmente registrado pela primeira vez por escrito nos Circuitos de Pedro, gradualmente evoluiu um romance, no qual os conflitos entre Simão Pedro, o ebionita, e Simão, o Mago, são graficamente retratados, as artes mágicas do samaritano são frustradas, e sua falsa teologia é exposta, pelo valente campeão dos "Pobres". A recensão mais recente deste ciclo de romance deu a tudo um cenário romano, e assim encontramos Simão finalmente derrotado por Pedro em Roma (para adequar-se à lenda da Igreja Romana de que Pedro havia vindo a Roma), mas em recensões anteriores Pedro não viaja além do Oriente, e Simão é finalmente derrotado em Antioquia.


Um exame minucioso da literatura pseudo-clementina revela uma série de depósitos literários ou estratos de lenda, um dos quais é de natureza muito notável.

Baur foi o primeiro a apontar isso, e seus seguidores na escola de Tübingen elaboraram suas visões na teoria de que Simão Mago é simplesmente o símbolo lendário de Paulo.

A notável semelhança dos pontos doutrinários em questão tanto nas controvérsias petro-simonianas quanto nas petro-paulinas não pode ser negada, e a reputação acadêmica da escola de Tübingen descarta a mera impossibilidade a priori.

Embora, é claro, não seja prudente adotar a visão extrema de que onde quer que Simão Mago seja mencionado, Paulo seja o significado, no entanto podemos distinguir claramente essa identidade em pelo menos um dos estratos da lenda.

Os sistemas "simonianos", conforme descritos pelos Padres, revelam as principais características da Gnose: o Pai sobre todos, a ideia do Logos, o mundo dos eons,

"SIMÃO MAGO."

ou universo ideal, sua emanação, e seus aspectos positivo e negativo representados como pares ou sizígias; a alma do mundo representada como o pensamento ou aspecto feminino do Logos; a descida da alma; a criação do mundo sensível pelos construtores; as doutrinas da reencarnação, redenção, etc.

A principal característica dos "simonianos" é dito ter sido a prática de "magia", que "Simão" teria aprendido no Egito, e que deu origem à maioria das histórias fantásticas inventadas por seus oponentes.

Mas é muito provável que o título de Mago cubra muito mais do que a história do fazedor de maravilhas samaritano, e nos coloca em contato com um elo gnóstico com a Pérsia e os Magos; e de fato o simbolismo do fogo usado no MS. citado por Hipólito confirma amplamente essa hipótese.

Em outros aspectos, a Gnose "simoniana" seguia linhas semelhantes aos desenvolvimentos Barbelo-Gnóstico e Basilido-Valentiniano; isso pode ser claramente visto nos fragmentos de A Grande Anunciação preservados por Hipólito.

O restante da literatura "simoniana" pereceu; um de seus principais documentos, no entanto, era um livro chamado Os Quatro Cantos do Mundo, e outro famoso tratado continha uma série de pontos controversos (Refutatorii Sermones) atribuídos a "Simão", que submetiam a ideia do Deus do Antigo Testamento a uma crítica minuciosa, especialmente lidando com a lenda da serpente em Gênesis.

O simbolismo principal, que os criadores da lenda de Simão parodiaram no mito de Simão e Helena, parece ter sido sideral; assim, o Logos e seu Pensamento, a Alma do Mundo, eram simbolizados como o Sol (Simão) e a Lua (Selene, Helena); assim também com o microcosmo, Helena era a alma humana caída na matéria e Simão a mente que realiza sua redenção.

Além disso, um dos sistemas parece ter tentado interpretar a lenda troiana e o mito de Helena de maneira espiritual e psicológica.

Isso é interessante por mostrar uma tentativa de invocar a autoridade da "Bíblia" grega popular, o ciclo da lenda homérica, em apoio às ideias gnósticas.

Era a extensão do método dos alegoristas judeus ao domínio da mitologia grega.

Os detratores dos "simonianos", entre os Padres da Igreja, no entanto, desenvolveram a lenda de que Helena era uma prostituta que Simão havia encontrado em Tiro.

O nome desta cidade presumivelmente levou Baur a sugerir que a terminologia de Simão (#ftt#, Sol) e Helena (SeAi/j/, Lua) está conectada com o culto fenício das divindades do sol e da lua, que ainda era praticado naquela antiga cidade.

Sem dúvida, as antigas ideias fenícias e sírias de cosmogonia eram familiares a muitos estudantes de religião naquele período, mas não precisamos ser demasiado precisos em assuntos tão obscuros.

Ireneu apresenta o seguinte esboço do sistema que ele atribui aos "simonianos". É o drama

"Simonianos"

Sistema de      mito do Logos e da Alma do Mundo, a Sophia,

Ireneu.

TTT.

,

ou Sabedoria.

Ireneu, no entanto, queria que fosse a alegação pessoal de Simão concernente

"SIMÃO MAGO."

Helena; ele evidentemente se baseia em um manuscrito no qual o Cristo, como o Logos, é representado falando na primeira pessoa, e nós, portanto, nos esforçaremos para restaurá-lo parcialmente à sua forma original.

" 'A Sabedoria foi a primeira Concepção (ou Pensamento) da Minha Mente, a Mãe de Tudo, por quem, no princípio, concebi em Minha Mente a criação dos Anjos e Arcanjos.

Este Pensamento, saltando de Mim, e conhecendo qual era a vontade de seu Pai, desceu às regiões inferiores e gerou os Anjos e Potestades, pelos quais também o mundo foi feito.

E depois que ela os gerou, foi detida por eles por inveja, pois eles não desejavam ser considerados a progênie de qualquer outro.

Quanto a Mim, sou inteiramente desconhecido para eles.'

"E o Pensamento", continua Ireneu, resumindo do manuscrito, "foi feito prisioneiro pelas Potestades e Anjos que haviam sido emanados por ela.

E ela sofreu todo tipo de indignidade às mãos deles, para impedi-la de reascender ao seu Pai, até mesmo sendo aprisionada no corpo humano e transmigrando para outros corpos femininos [?], como de um vaso para outro.

... Assim ela, transmigrando de corpo em corpo, e por isso também continuamente sofrendo indignidade, por fim até mesmo se prostituiu num bordel; e ela era a 'ovelha perdida'."

' "Portanto, também, vim para levá-la pela primeira vez e libertá-la de seus laços; para assegurar a salvação aos homens por Minha Gnose." '

"Pois como os Anjos", escreve o Pai da Igreja, "estavam administrando mal o mundo, pois cada um deles desejava a soberania, Ele viera para corrigir as coisas; e descera, transformando-Se e fazendo-Se semelhante aos Poderes e Principados e Anjos; de modo que apareceu aos homens como um homem, embora não fosse um homem; e pensou-se que sofrera na Judeia, embora não tenha realmente sofrido.


Os profetas, além disso, haviam falado suas profecias sob a inspiração dos Anjos que fizeram o mundo."

Todas essas doutrinas procederam de círculos que acreditavam no Cristo místico e são comuns a muitos outros sistemas; se Irineu apenas nos tivesse contado a história do documento que estava resumindo e glosando, se ele o tivesse copiado verbalmente, quanto trabalho teria poupado à posteridade! É verdade, ele pode ter copiado dos escritos polêmicos de Justino, e Justino já havia feito parte do resumo e comentário; mas, em qualquer caso, um único parágrafo do original nos teria dado uma base melhor para formar um julgamento do que toda a paráfrase e retórica desses dois antigos dignitários que tão cordialmente detestavam os gnósticos.

Felizmente, Hipólito, que veio depois, é mais correto em suas citações e ocasionalmente copia verbalmente porções dos MSS. que haviam chegado às suas mãos.

Um destes ele erroneamente atribui ao próprio "Simão", presumivelmente porque o considerava o mais antigo MS. gnóstico em sua posse; a maioria dos críticos, no entanto, considera-o uma forma posterior da Gnose do que o sistema resumido por Irineu, mas não há nada que justifique essa suposição.

Por esta época Anúncio. "SIMÃO MAGO".

a lenda de que "Simão" foi o primeiro herege tornara-se "história" para os heresiólogos, e sem dúvida Hipólito sentiu-se plenamente justificado em atribuir o conteúdo do MS. a alguém que ele supunha ser o mais antigo líder da Gnose.

O título do MS. era *O Grande Anúncio*, provavelmente um sinônimo de *O Evangelho*, no sentido basilidiano do termo; e abria com as seguintes palavras: "Esta é a Escritura da Revelação de Voz-e-Nome a partir do Pensamento, o Grande Poder, o Ilimitado.

Portanto, será selado, oculto, escondido, depositado na Morada da qual a Raiz Universal é o Fundamento."

Diz-se que a Morada é o homem, o templo do Espírito Santo.

O símbolo do Ilimitado, o Poder Oculto e a Raiz Universal, era o Fogo.

O Fogo era concebido como sendo de natureza dupla — o oculto e o manifestado; as partes ocultas do Fogo estão escondidas no manifestado, e o manifestado é produzido pelo oculto.

O lado manifestado do Fogo tem em si todas as coisas que um homem pode perceber das coisas visíveis, ou que ele inconscientemente deixa de perceber; enquanto o lado oculto é tudo o que se pode conceber como inteligível, ainda que escape à sensação, ou o que um homem deixa de conceber.

Antes de chegarmos à citação direta, porém, Hipólito nos presenteia com um longo resumo da exposição gnóstica que o precede, do qual podemos tomar o seguinte como representando o pensamento do escritor do MS. de modo menos errôneo do que o restante.

"De todas as coisas que são ocultas e manifestadas, o Fogo que está acima dos céus é a casa do tesouro, como que uma grande Árvore da qual toda a carne


Árvore de Fogo.

é nutrida.

O lado manifestado do Fogo é o tronco, os galhos, as folhas e a casca externa.

Todas essas partes da grande Árvore são incendiadas pela chama devoradora do Fogo e destruídas.

Mas o fruto da Árvore, se sua imagem foi aperfeiçoada e ela toma forma por si mesma, é colocado no celeiro (ou tesouro), e não lançado ao Fogo.

Pois o fruto é produzido para ser colocado no celeiro, mas a casca para ser entregue ao Fogo; isto é, o tronco, que é gerado não por si mesmo, mas pelo bem do fruto."

Este simbolismo é de grande interesse por revelar pontos de contato com as "Árvores" e "Tesouros" dos elaborados sistemas recuperáveis das obras gnósticas coptas, e também com a linha de tradição dos Lógia caldeus e zoroastrianos, que eram o estudo favorito de tantos da escola platônica posterior.

O fruto da Árvore de Fogo e a "Flor de Fogo" são os símbolos de (entre outras coisas) o homem imortal, a consciência espiritual colhida do homem-planta; mas a interpretação completa desse simbolismo gráfico incluiria tanto a gênese do cosmos quanto a divinização do homem.

O homem (ensina a Gnose que nos esforçamos por recuperar de Hipólito) está sujeito à geração e ao sofrimento enquanto permanece em potencialidade; mas, uma vez que sua "manifestação" é realizada, ele se torna semelhante a Deus e, liberto dos laços do sofrimento e do nascimento, atinge a perfeição.

Mas à nossa

"SIMÃO MAGO."

citação de O Grande Anúncio, tomada aparentemente do próprio início do tratado, imediatamente após a inscrição:

"A vós, portanto, digo o que digo e escrevo o que escrevo.

E a escrita é esta:

"Dos Eons universais há dois rebentos, sem começo ou fim, brotando de uma única Raiz, que é o Poder Silêncio invisível, inapreensível.

Desses, um aparece do alto, que é o Grande Poder, a Mente Universal, ordenando todas as coisas, masculino; e o outro de baixo, o Grande Pensamento (ou Concepção), feminino, produzindo todas as coisas.

"Assim, correspondendo-se mutuamente, eles se unem e manifestam o Espaço Intermediário, Ar [Espírito] incompreensível, sem começo ou fim.

Neste [Ar] está o [segundo] Pai que sustenta e nutre todas as coisas que têm começo e fim.

"Este [Pai] é Aquele que esteve de pé, está de pé e estará de pé, um poder macho-fêmea, como o pré-existente Poder Ilimitado, que não tem começo nem fim, existindo em unicidade.

Foi deste Poder Ilimitado que o Pensamento, que anteriormente estivera oculto na unicidade, primeiro procedeu e se tornou dois.

"Ele [o Ilimitado] era um; tendo-a em Si mesmo, Ele estava só.

Contudo, Ele não era o 'primeiro', embora 'preexistente', pois foi somente quando Ele se manifestou a Si mesmo a partir de Si mesmo que houve um 'segundo'. Nem foi chamado Pai antes de [o Pensamento] chamá-Lo Pai.

"Assim, portanto, produzindo a Si mesmo por Si mesmo, Ele manifestou a Si mesmo Seu próprio Pensamento, assim

FRAGMENTOS DE UMA FÉ ESQUECIDA-

também Seu Pensamento manifestado não fez o [manifestado — o segundo] Pai, mas, contemplando-O, ocultou-o — isto é, Seu poder — em si mesma e é macho-fêmea, Poder e Pensamento.

"Portanto, eles se correspondem mutuamente, sendo um; pois não há diferença entre Poder e Pensamento.

Das coisas acima se descobre o Poder, e das abaixo, o Pensamento.

"Assim, acontece que aquilo que é manifestado deles, embora uno, é encontrado como dois, macho-fêmea, tendo o feminino em si mesmo.

Igualmente, a Mente está no Pensamento; eles realmente são um, mas, quando separados um do outro, aparecem como dois."

Até aqui, O Grande Anúncio de "Simão". Que algum documento ainda possa ser descoberto, o qual lançará nova luz sobre o assunto, não é uma impossibilidade; entretanto, podemos reservar nosso julgamento e considerar todas as afirmações positivas de que "Simão" era o "filho primogênito de Satanás" como estranhas à questão.

MENANDRO.

1"

MENANDRO.

UM dos mestres da Gnose "Simoniaca" que foi destacado por Justino para menção especial, por ter desviado "muitos", assim como Marcião estava ganhando um enorme séquito no próprio tempo de Justino, é Menandro, natural, somos informados, da cidade samaritana de Capparatea.

A nota em Justino nos mostra que Menandro era um homem de uma geração passada e que era especialmente famoso por seu numeroso séquito.

Sabemos que as datas desse período são extremamente obscuras até mesmo para Justino, nossa autoridade mais antiga.

Por exemplo, escrevendo por volta de 150 d.C., ele diz que Jesus viveu 150 anos antes de seu tempo.

Suas datas para "Simão" e Menandro são igualmente vagas; Menandro pode ter vivido uma geração ou quatro gerações antes do tempo de Justino, ou ainda mais cedo.

O centro de atividade de Menandro é dito ter sido em Antioquia, uma das mais importantes cidades comerciais e literárias do mundo greco-romano, na via de comunicação entre o Oriente e o Ocidente.

Ele parece ter transmitido as linhas gerais da Gnose; insistindo especialmente na distinção entre o Deus acima de tudo e o poder ou poderes criativos, as "forças da natureza". A Sabedoria, ensinava ele, deveria ser alcançada pela disciplina prática da "magia" transcendental; isto é, a Gnose não deveria ser alcançada somente pela fé, mas por esforço definido e luta consciente ao longo do caminho da ciência cosmológica e psicológica.

Menandro professava ensinar um conhecimento dos poderes da natureza, e o modo pelo qual eles poderiam ser subjugados à vontade humana purificada; diz-se também que ele afirmava ser o Salvador enviado pelos Poderes superiores do mundo espiritual, para ensinar aos homens o conhecimento sagrado pelo qual eles poderiam libertar-se do domínio dos Anjos inferiores.

É, no entanto, quase certo que Menandro não reivindicava mais ser o Salvador (no significado católico do termo) do que "Simão". O Salvador era o Logos, como vimos acima.

A reivindicação dos Gnósticos era que um homem poderia aperfeiçoar-se de tal modo que se tornasse um trabalhador consciente com o Logos; todos aqueles que assim o fizessem tornavam-se "Cristos" e, como tais, eram Salvadores, mas não no sentido de serem o próprio Logos.

O neófito, ao receber o "batismo", isto é, ao alcançar um certo estado de purificação interior ou iluminação, dizia-se que "ressuscitava dos mortos"; a partir de então, ele "nunca envelhecia e se tornava imortal", isto é, obtinha a posse da consciência ininterrupta de seu ego espiritual.

Menandro opunha-se especialmente à doutrina materialista da ressurreição do corpo, e isso foi feito um motivo especial de queixa contra ele pelos escritores patrísticos dos séculos subsequentes.

Os seguidores de Menandro eram chamados menandristas, e só podemos lamentar que nenhum registro tenha sido deixado deles e de seus escritos.

Como parecem ter sido centralizados em Antioquia — visto que a tradição atribui a fundação da Igreja de Antioquia a Paulo, e atribui a ela Pedro como seu primeiro bispo; visto novamente que o incidente da "resistência face a face" é colocado pela tradição dos Atos na mesma cidade — pode ser que seus escritos teriam lançado alguma luz sobre essas tradições obscuras.

Eu sugeriria, no entanto, que Menandro deveria ser colocado muito antes de "Simão", e que deveríamos ver nele um dos primeiros elos entre o Gnosticismo e a tradição magiana.

Pode ser até que os gnósticos remontassem a tradição de seu conhecimento dos éons a este discípulo dos magos, pois a raiz de sua eonologia é encontrada nos Amshaspends zoroastrianos, as emanações pessoais de Ahura-mazda, como Mills e outros mostraram; embora eu mesmo buscaria a origem da doutrina dos éons no Egito.

SATURNINO.

SATURNINO, ou mais corretamente Satornilo, é geralmente considerado o fundador da Gnose Síria, mas há toda razão para supor que o Gnosticismo era difundido na Síria antes de seu tempo.

Justino Mártir (Trypho, xxxv.), escrevendo entre 150 e 160, fala dos satornilianos como um corpo muito importante, pois ele os coloca ao lado dos marcianos (? marcionitas), basilidianos e valentinianos, as escolas mais importantes da Gnose em seu tempo.

Saturnino, Basílides e Valentim foram separados um do outro respectivamente por pelo menos uma geração, e Saturnino pode assim ser colocado em algum lugar por volta do fim do primeiro e do início do segundo século; mas essa atribuição de data repousa inteiramente sobre as declarações patrísticas de que Menandro foi o mestre de Saturnino, Saturnino de Basílides, e Basílides de Valentim.

FRAGMENTS OF A FAITH FORGOTTEN.

Não é, contudo, improvável que, no que diz respeito aos dois primeiros, uma similaridade geral de doutrina tenha sido razão suficiente para que os heresiólogos atribuíssem a origem do sistema de Saturnino ao próprio Menandro, quando na realidade uma geração ou duas podem ter se passado entre eles, e podem nunca, de fato, ter se encontrado face a face.

Diz-se que Saturnino ensinou em Antioquia, mas

Ascetismo.

(como é quase invariavelmente o caso com os doutores gnósticos) não temos informação alguma sobre sua nacionalidade ou os incidentes de sua vida.

Ele foi especialmente distinguido por seu rígido ascetismo, ou encratismo.

Seus seguidores abstinham-se do casamento e de toda espécie de alimento animal, e a rigidez de seu modo de vida atraiu muitos adeptos zelosos.

Salmon diz que Saturnino parece ter sido o primeiro a introduzir o encratismo "entre aqueles que se chamavam cristãos". Teólogos protestantes especialmente consideram o encratismo uma prática herética; mas não parece haver razão suficiente para supor que uma característica tão comum da vida religiosa possa ser atribuída a qualquer mestre em particular.

Nossa informação sobre o sistema saturniniano

Doutrinas é, infelizmente, excessivamente deficiente; o breve resumo de Irineu é presumivelmente baseado em, ou uma cópia do, perdido Compêndio de Justino.

Isto é tanto mais lamentável quanto informações mais completas

O

provavelmente nos teriam permitido traçar sua conexão com os desenvolvimentos "Ofitas" e "Barbelo", e definir as relações de todos os três

SATURNINO.

com o Gnosticismo de Basílides e Valentim.

As principais características são da mesma natureza daquelas da Gnose "Simoniaca" e Menandriana; devemos, contudo, sempre ter em mente que estes sistemas primitivos, em vez de serem germinais, ou expressões simples, podem ter sido suficientemente elaborados.

O mero fato de Irineu fornecer um resumo que apresenta características comparativamente simples não é garantia de que os próprios sistemas possam não ter sido exposições completas e cuidadosamente desenvolvidas.

Podemos, com segurança, considerar o resumo do bispo de Lião como uma indicação aproximada dos pontos de doutrina, como um catálogo de assuntos despojados de seu conteúdo.

Assim, aprendemos que Saturnino ensinava o Pai Desconhecido; as grandes hierarquias intermediárias, arcanjos, anjos e potestades; as sete esferas criativas e seus regentes; os construtores do universo e os modeladores do homem.

Havia numerosas hierarquias inimigas e seus regentes, e um esquema de regeneração pelo qual um Salvador do Mundo, na forma aparente de homem, embora não sendo realmente um homem, efetua não apenas a derrota dos poderes malignos, mas também resgata todos aqueles que possuem a centelha de luz dentro de si, dos poderes das hierarquias criativas, entre as quais estava colocado o Javé dos judeus.

As escrituras judaicas eram imperfeitas e errôneas; algumas profecias sendo inspiradas pelos anjos criativos, mas outras pelos poderes malignos.

A característica mais interessante do sistema que Irineu nos preservou é o mito da criação do homem pelos anjos, ou antes, a fabricação do envelope externo do homem pelas hierarquias dos construtores.

A feitura do homem era desta maneira.

Uma imagem resplandecente ou tipo foi mostrada pelo Logos aos anjos demiúrgicos; mas quando eles não conseguiram apreendê-la, pois ela foi retirada imediatamente, disseram uns aos outros: "Façamos o homem segundo [esta] imagem e semelhança." Eles então se esforçaram para fazê-lo, mas os poderes da natureza só puderam evoluir um envelope ou plasma, que não conseguia ficar ereto, mas jazia no chão, indefeso e rastejando como um verme.

Então o Poder Superior, em compaixão, enviou a centelha de vida, e o plasma ergueu-se ereto, e os membros se desenvolveram e foram unidos, isto é, endureceram ou tornaram-se mais densos à medida que raça sucedia a raça; e assim o corpo do homem foi evoluído, e a centelha de luz, ou o homem real, nele tabernaculou. Esta centelha de luz apressa-se após a morte de volta àqueles de sua própria natureza, e o restante dos elementos do corpo é dissolvido.

Aqui temos, em sugestão grosseira, a mesma teoria da evolução dos corpos das primeiras raças que encontramos avançada, a partir de fontes totalmente diferentes e de um ponto de vista inteiramente diverso, por vários escritores modernos sobre doutrinas teosóficas — e, portanto, lamentamos ainda mais que os preconceitos ortodoxos de Irineu ou de seu informante tenham tratado Saturnino e sua "heresia" com tão escassa atenção.

OS "OFITAS".

OS "OFITAS".

A tarefa que agora temos de empreender é, de longe, a mais difícil que pode ser realizada pelo estudante do Gnosticismo Patrístico. A obscuridade do assunto.

Quando temos o nome de um mestre individual para nos guiar, há pelo menos um ponto em torno do qual certas ideias e afirmações podem ser agrupadas; mas quando não temos tais indicações, mas apenas fragmentos de informação, ou resumos de "alguns dizem" e "outros sustentam", como em Irineu; ou designações vagas de escolas difundidas de vários períodos, como em Hipólito; quando refletimos ainda que, em tais circunstâncias, estamos face a face com uma das principais correntes do Gnosticismo em evolução, e percebemos a completa ausência de quaisquer marcos definidos, onde tudo deveria ter sido cuidadosamente levantado — um sentimento quase de desespero toma conta até mesmo do estudante mais entusiasmado.

Supôs-se que, até a época de Irineu, os documentos gnósticos circulassem livremente; mas que, pela época de Hipólito (isto é, após o lapso de uma geração ou mais), a ortodoxia havia feito tanto progresso que os documentos gnósticos foram retirados de circulação e ocultados, e que isso explica a alegria de Hipólito, que provoca os gnósticos com sua posse de alguns de seus MSS secretos.

Estou, no entanto, convencido de que os tratados mais recônditos e técnicos dos gnósticos nunca circularam; os adeptos da Gnose estavam demasiado imbuídos da ideia de uma "doutrina secreta" e de graus de iniciação para proclamar seus dogmas internos nos telhados.


Também duvido extremamente que essas escolas entrelaçadas e fases de doutrina fossem separadas umas das outras de maneira muito precisa, ou que os basilidianos, valentinianos e os demais se distinguissem por tais designações.

O Gnosticismo era algo vivo, não um sistema cristalizado ou uma ortodoxia morta; cada estudante competente elaborava as principais características da Gnose à sua própria maneira e geralmente as expressava em seus próprios termos.

Ao tratar esta parte do nosso ensaio, outra dificuldade se apresenta; escrevemos para aqueles que presumivelmente têm apenas um leve conhecimento do assunto e que seriam apenas confundidos por uma massa de detalhes.

No entanto, são precisamente esses detalhes que têm interesse e importância e, portanto, um resumo deve, na melhor das hipóteses, ser extremamente imperfeito e sujeito a interpretações equivocadas.

Temos, portanto, de erguer nossas placas indicativas da melhor maneira possível.

Como afirmado acima, o termo "Ofita" é extremamente errôneo; ele não descreve geralmente as escolas de que tratamos; não era usado pelos adeptos das próprias escolas, que preferiam na maioria o termo Gnóstico; mesmo onde o simbolismo da serpente entra na exposição de seus sistemas, não é de modo algum a característica principal.

Em resumo, esse termo, que se originou na falácia de tomar uma parte muito pequena pelo todo — um truque favorito do heresiólogo, cuja principal arma era exagerar um detalhe menor em uma característica principal — tem sido usado como uma designação vaga para toda exposição da doutrina gnóstica que não pudesse ser atribuída a um mestre definido.

É neste asilo de enjeitados, por assim dizer, que devemos procurar os contornos gerais que formam a base dos ensinamentos até mesmo de Basílides e Valentino, cada um dos quais, como o resto dos gnósticos, modificou a tradição geral à sua própria maneira peculiar.

Este Gnosticismo "Ofita" é dito por Filástrio ser pré-cristão; Irineu, após detalhar um sistema, que Teodoreto, ao copiá-lo, chama de "Ofita", diz que era da escola valentiniana.

Celsus, o filósofo pagão, em sua *Palavra Verdadeira*, escrevendo por volta do terceiro quartel do segundo século, não faz distinção entre o resto do mundo cristão e aqueles a quem Orígenes, quase um século depois, em sua refutação de Celsus, chama de "Ofianos".

A crítica mais recente é de opinião que Filástrio se equivocou, mas a afirmação é evidência suficiente de que havia um corpo de Gnose pré-cristã, de que a corrente fluiu ininterruptamente e em volume sempre crescente durante os dois primeiros séculos, e de que a designação errônea "Ofita" ainda marca um de seus principais canais.

O símbolo da serpente desempenhou um grande papel nos Mistérios dos antigos, especialmente na Grécia, no Egito, A Serpente e na Fenícia; dali podemos rastreá-lo até a Síria, a Babilônia e, mais ao Oriente, até a Índia, onde ainda sobrevive e recebe a devida explicação.

Ele representava os processos mais íntimos da geração do universo e do homem, e também do nascimento místico.

Era o glifo do poder criativo, e em sua forma mais baixa foi rebaixado a um emblema fálico.


A procriação física e os processos de concepção são manifestações inferiores da energização da grande vontade criativa e do processo evolutivo do mundo.

Mas um está tão distante do outro quanto o corpo do homem está do corpo do universo, quanto o desejo animal do homem está da vontade divina da divindade.

Os mistérios do sexo eram explicados nos adyta dos templos antigos; e, naturalmente, a tentativa de penetrar por trás da grande paixão da humanidade era repleta do maior perigo.

Um conhecimento do mistério levava muitos ao ascetismo; uma mera curiosidade indiscreta no assunto levava ao abuso.

Iluminação, vidência e conhecimento espiritual eram a recompensa dos puros de corpo e mente; o excesso sexual e a depravação puniam a indiscrição dos não aptos.

Isso explica um dos fenômenos mais curiosos da história religiosa; os lados luminoso e sombrio são quase invariavelmente encontrados juntos; sempre que se tenta lançar alguma luz sobre o mistério do mundo e do homem, toda a natureza é avivada, e se o animal é o mais forte, torna-se ainda mais descontrolado devido a esse avivamento.

Assim, descobrimos que alguns grupos obscuros de curiosos na tradição dos mistérios caíram em graves erros, não apenas de teoria, mas de prática, e que os escritores patrísticos dos séculos subsequentes tentaram por todos os meios exagerar esse caso particular em uma acusação geral contra o "erro"; ao passo que, na realidade, é nos escritos dos próprios gnósticos que encontramos a mais severa condenação de tais abusos.

OS "OFITAS".

Assim como o homem foi gerado no ventre a partir de uma "serpente" e de um "ovo", assim também foi o universo; mas a serpente do universo era o Grande Poder, o Possante Redemoinho, o Vasto Vórtice, e o ovo era o Invólucro Total do sistema mundial, a primordial "névoa de fogo". A serpente era, portanto, o glifo da Vontade Divina, da Razão Divina, da Mente da Divindade, do Logos.

O ovo era o Pensamento, a Concepção, a Mãe de Tudo.

O universo germinal era figurado como um círculo com uma serpente estendida diagonalmente ao longo de seu campo, ou enroscada um certo número de vezes ao redor dele. Essa força serpentina moldou o universo e moldou o homem.

Ela o criou; e, no entanto, ele, por sua vez, poderia usá-la para a criação, se apenas cessasse a geração.

O Caduceu, ou Bastão de Mercúrio, e o Tirso nos Mistérios Gregos, que conduziam a alma da vida para a morte e da morte para a vida, figuravam o poder serpentino no homem e o caminho pelo qual ele carregaria o "homem" para o alto, se ele apenas fizesse as "Águas do Jordão" "fluírem para cima".

A serpente do Gênesis, a serpente-bastão de Moisés e a elevação da serpente de bronze no deserto foram prontamente apropriadas pelos gnósticos judeus como ideias mitológicas semelhantes aos mitos dos Mistérios.

Para dar ao leitor uma visão de seus métodos de exegese mística, que se voltavam para uma ciência psicológica interior, podemos aqui acrescentar sua interpretação do que pode ser chamado de "O Mito do Êxodo".

O Mito era comum a várias escolas, mas Hipólito o atribui a uma escola escola desconhecida chamada Peratas, supostamente significando Transcendentalistas, ou aqueles que, por meio da Gnose, haviam "ido além" ou "cruzado". Assim, então, eles explicavam o mito do Êxodo.


O Egito é o corpo; todos aqueles que se identificam com o corpo são os ignorantes, os egípcios.

"Sair" do Egito é deixar o corpo; e atravessar o Mar Vermelho é cruzar o oceano da geração, a natureza animal e sensual, que está oculta dentro do sangue.

Contudo, mesmo então não estão a salvo; cruzando o Mar Vermelho, entram no Deserto, o estado intermediário da mente inferior duvidosa.

Ali são atacados pelos "deuses da destruição", que Moisés chamou de "serpentes do deserto", e que afligem aqueles que buscam escapar dos "deuses da geração". A eles, Moisés, o mestre, mostra a verdadeira serpente crucificada na cruz da matéria, e por seu intermédio escapam do Deserto e entram na Terra Prometida, o reino da mente espiritual, onde está o Jordão Celestial, a Alma do Mundo.

Quando as Águas do Jordão fluem para baixo, então é a geração dos homens; mas quando fluem para cima, então é a criação dos deuses.

Jesus (Josué) foi alguém que fizera as Águas do Jordão fluírem para cima.

Muitos dos mitos antigos tinham um pano de fundo histórico-legendário, mas seu uso como mitos, ou romances religiosos e místicos, gradualmente apagara os traços da história.

Aqueles instruídos nos Mistérios eram versados na ciência da mitologia, e assim os Gnósticos eruditos percebiam imediatamente a

OS "OFITAS".

natureza mitológica do Êxodo e sua adaptabilidade a uma interpretação mística.

O exemplo acima é um ótimo exemplo desse método de exegese; grande parte dessa interpretação, no entanto, era excessivamente forçada, quando não decididamente tola.

A mente religiosa da época adorava exercitar sua engenhosidade em tais interpretações, e a diferença entre a exegese gnóstica e a dos subsequentes Ortodoxos é que os primeiros tentavam descobrir processos da alma nos mitos e parábolas das escrituras, enquanto os Ortodoxos consideravam apenas a interpretação teológica e dogmática como legítima.

A julgar pelo nosso conhecimento atual da linguagem, o elemento mais "tolo" que entrava em tais passatempos piedosos era o método do jogo de palavras, ou pseudo-filologia, que se encontra em toda parte nos escritos dos babilônios, egípcios, indianos, judeus e gregos.

Entre os escritores gnósticos e patrísticos, portanto, encontramos as mais fantásticas derivações de nomes, que eram apresentadas em apoio a doutrinas teológicas, mas que eram destituídas da mais rudimentar precisão filológica.

Homens, como Platão, que sob muitos outros aspectos eram gigantes do intelecto, contentavam-se em recorrer a tais métodos.

É, no entanto, agradável notar que a natureza da alma e as verdades da vida espiritual eram o principal interesse de tais "filólogos" antigos, e não a escavação de "raízes"; contudo, devemos ser cuidadosos ao detectar a limitação de tais mentes em certas direções, para nos guardarmos contra o erro de fechar os olhos às limitações de nossos próprios métodos modernos em direções onde os antigos realizaram muito bom trabalho.


Prosseguiremos agora a dar um breve esboço das principais linhas de uma das apresentações das ideias gnósticas gerais preservadas por Irineu.

UM SISTEMA ANÔNIMO DE IRINEU.

Na Insondável Profundeza havia duas Grandes Luzes, o Primeiro Homem, ou Pai, e seu Filho, o Segundo

A Criação.

Homem; e também o Espírito Santo, a Primeira Mulher, ou Mãe de todos os viventes.

Abaixo dessa tríade havia uma massa lânguida composta dos quatro grandes "elementos", chamados Água, Trevas, Abismo e Caos.

A Mãe Universal pairou sobre as Águas; enamorada de sua beleza, o Primeiro e o Segundo Homem produziram dela a terceira Grande Luz, o Cristo; e Ele, ascendendo acima, formou com o Primeiro e o Segundo Homem a Santa Igreja.

Este foi o nascimento à direita da Grande Mãe.

Mas uma Gota de Luz caiu para baixo, à esquerda, na matéria caótica; esta foi chamada Sophia, ou Sabedoria, a Mãe Torc.

As Águas do Éter foram assim postas em movimento e formaram um corpo para Sophia (o Éon de Luz), a saber, a Esfera Celeste.

E ela, libertando-se, deixou seu corpo para trás e ascendeu à Região Média abaixo de sua Mãe (a Mãe Universal), que formou o limite do Universo Ideal.

Pelo mero contato com as Águas do Espaço, ela já havia gerado um filho, o principal Poder Criativo do Mundo Sensível, que reteve parte do

SISTEMA ANÔNIMO DE IRINEU.

fluido de Luz; este filho era Ialdabaoth (dito por alguns significar o Filho do Caos), que por sua vez produziu um filho, e este outro, até que houvesse sete ao todo, os grandes Poderes Formativos do Universo Sensível.

E eles eram "lutadores" e brigavam muito com seus pais.

E por meio dessa interação de forças sobre a matéria surgiu a "mente", que era "em forma de serpente", e o "espírito", e a "alma", e todas as coisas no mundo.

E Ialdabaoth era vaidoso e arrogante, e exclamou: "Eu sou Pai e Deus, e além de mim não há outro." Mas Sophia, ouvindo isso, clamou a seu filho: "Não mintas, Ialdabaoth, pois acima de ti está o Pai de Todos, o Primeiro Homem, e o Homem, o Filho do Homem." E todos os Poderes ficaram espantados com a palavra; mas Ialdabaoth, para desviar sua atenção, clamou: "Façamos o 'homem' à nossa imagem." Então fizeram o "homem", e ele jazia como um verme no chão, até que o trouxeram a Ialdabaoth, que soprou nele o "sopro da vida", isto é, o fluido de Luz que recebera de Sophia, e assim se esvaziou de sua Luz.

E o "homem", recebendo-o, imediatamente deu graças ao Primeiro Homem e desconsiderou seus fabricantes (os Elohim).

Então laldabaoth (Yahweh) ficou com ciúmes e planejou privar Adão da Centelha de Luz, formando a "mulher". E os seis poderes criativos se enamoraram de Eva, e por ela geraram filhos, a saber, os anjos.

E assim Adão caiu novamente sob o poder de laldabaoth e dos Elohim; então Sophia, ou Sabedoria, enviou a "serpente" ("mente") ao Paraíso de laldabaoth, e Adão e Eva

Yahweh laldabaoth.

0. T. Exegese.


deram ouvidos aos seus sábios conselhos, e assim, mais uma vez, o "homem" foi libertado do domínio do Poder Criativo, e transgrediu a ordenança de ignorância de qualquer poder superior a si mesmo, imposta por laldabaoth.

Então laldabaoth os expulsou do seu Paraíso, e juntamente com eles a "serpente" ou "mente"; mas Sophia não permitiu que a Centelha de Luz descesse, e assim a retirou para evitar profanação.

E a "mente" (a mente inferior), a de forma serpentina, o primeiro produto de laldabaoth, gerou seis filhos, e estes são os poderes "demoníacos", que afligem os homens porque seu pai foi lançado abaixo por causa deles.

Ora, Adão e Eva, antes da queda, tinham corpos espirituais, como os "anjos" nascidos dessa Eva; mas depois da queda, descidos do Paraíso de laldabaoth, seus corpos tornaram-se cada vez mais densos, e cada vez mais lânguidos, e se tornaram "vestes de pele", até que finalmente Sophia, por compaixão, restaurou-lhes o doce odor da Luz, e eles souberam que carregavam a morte consigo.

E assim uma lembrança de seu estado anterior lhes voltou, e eles foram pacientes, sabendo que o corpo fora vestido apenas por um tempo.

O sistema então prossegue para lidar com as lendas do Gênesis referentes a Caim e Noé, etc., e o registro do Antigo Testamento em geral, com moderado sucesso; a ideia principal sendo que os profetas foram inspirados por um ou outro dos sete Elohim, mas ocasionalmente Sophia conseguira impressioná-los com revelações fragmentárias sobre o Primeiro Homem e o Cristo acima.

SISTEMA ANÔNIMO DE IRENEU.

O restante do sistema é dedicado à questão do esquema de regeneração e à interpretação cristológica.

dos Mistérios-mitos.

Sophia, ou Sabedoria, não encontrando descanso no céu ou na terra, implorou a ajuda da Grande Mãe, e ela, em compaixão, suplicou ao Primeiro Homem que o Cristo fosse enviado para ajudá-la.

E então a Sabedoria, sabendo que seu irmão e esposo vinha em seu auxílio, anunciou sua vinda por meio de João, e mediante o "batismo de arrependimento" Jesus foi preparado para recebê-lo, como em um vaso limpo.

E assim o Cristo desceu através das sete esferas, assemelhando-se aos Governantes, e esvaziando-os de seu poder, a Luz que eles haviam retido fluindo de volta para ele.

E antes de tudo, o Cristo vestiu sua irmã Sophia com a veste de Luz, e eles se alegraram juntos, e este é o místico "casamento" do "noivo e da noiva". Ora, Jesus, tendo nascido de uma "virgem" pela obra de Deus (em outras palavras, após o espiritual "segundo nascimento" ter sido alcançado pelo asceta Jesus), Cristo e Sophia, um envolvendo o outro, desceram sobre ele e ele se tornou Jesus Cristo.

Foi então que ele começou a realizar obras poderosas, a curar e a proclamar o Pai Desconhecido, e Jesus professou abertamente ser o Filho do Primeiro Homem.

Diante disso, os Poderes e especialmente laldabaoth tomaram medidas para matá-lo, e assim Jesus, o homem, foi "crucificado" por eles, mas Cristo e Sophia ascenderam ao Eon Incorruptível.

Mas Cristo não se esqueceu daquele em quem havia habitado, e assim enviou um poder que ergueu seu corpo, não de fato seu invólucro físico grosseiro, mas um corpo psíquico e espiritual.


E aqueles de seus discípulos que viram esse corpo pensaram que ele havia ressuscitado em sua estrutura física, mas a certos deles que eram capazes de recebê-lo, ele explicou o mistério e ensinou-lhes muitos outros mistérios da vida espiritual.

E Jesus agora está sentado à direita de seu pai, laldabaoth, e recebe as almas que receberam esses mistérios.

E na proporção em que ele se enriquece com almas, nessa medida é Ialdabaoth privado de poder; de modo que ele já não é capaz de enviar de volta almas santas ao mundo da reencarnação, mas apenas aquelas de sua própria substância; e a consumação de todas as coisas será quando toda a Luz for uma vez mais reunida e armazenada nos tesouros do Eon Incorruptível.

Tal é o relato desse esquema de forma alguma absurdo da Gnose, preservado para nós na bárbara tradução latina do resumo de Irineu.

Que o sistema original era muito mais elaborado, podemos supor a partir do agora conhecido método de Irineu de fazer um resumo muito breve das doutrinas que criticava.

As principais características da parte cristológica e soteriológica do sistema são idênticas aos contornos principais do sistema da Pistis Sophia e de um dos tratados do Códice Bruciano.

Este é um ponto muito importante e indica que as datas desses tratados não precisam necessariamente ser posteriores ao tempo do bispo de Lyon, mas a consideração desse importante assunto deve ser reservada para a continuação.

É interessante também observar a influência da tradição órfica,

UM SISTEMA "OFITA" ANTIGO.

pitagórica, platônica e hermética na parte cosmológica, e notar como tanto os mitos helênicos quanto os judaicos encontram um elemento comum na tradição caldaica.

UM SISTEMA "OFITA" ANTIGO.

HIPÓLITO dedica o quinto livro de sua Refutação aos "Ofitas", que, no entanto, todos se autodenominam seguidores da Gnose, e não "Ofitas", como explicado acima; ele parece considerá-los a corrente mais antiga da Gnose.

Após tratar de três grandes escolas, às quais nos referiremos posteriormente, ele destaca especialmente para menção um certo Justino, que não é mencionado por nenhum outro heresiólogo.

Este relato de Hipólito é tanto mais importante, visto que o sistema ao qual o nome de Justino está associado representa aparentemente uma das formas mais antigas da Gnose de que temos registro.

Isto foi contestado por Salmon, mas, a meu ver, seus argumentos não são convincentes; o fato de a escola justiniana, em sua exegese mística, não fazer referência aos textos da coleção do Novo Testamento, embora cite livremente o Antigo, deveria decidir a questão.

Um breve ditado é atribuído a Jesus, mas não é encontrado em nenhum lugar nos textos canônicos.

Este círculo possuía uma vasta literatura, da qual Hipólito seleciona um único volume, O Livro de Baruque, por apresentar a forma mais completa do sistema.

Os membros estavam vinculados por um juramento de sigilo, para não revelarem os princípios da escola, e a forma do juramento é fornecida.


A cosmogonia baseia-se em um mito de criação sírio, uma variante do qual é preservada por Heródoto (iv. 8-10), no qual Hércules (o deus-Sol) desempenha o papel principal, e um estrato do qual também é encontrado no Gênesis.

O mito tem pontos íntimos de contato com as tradições caldaicas e semíticas antigas.

O seguinte é o esboço do sistema.

Há três princípios do Universo: (i.) O Livro do Bem, ou Divindade onisciente; (ii.) o Pai, ou Espírito, o poder criativo, chamado Elohim; e (iii.) a Alma do Mundo, simbolizada como uma mulher acima do meio e uma serpente abaixo, chamada Éden.

De Elohim (um plural usado como coletivo) e Éden surgem vinte e quatro poderes cósmicos ou anjos; doze seguem a vontade do Pai-Espírito, e doze a natureza da Mãe-Alma.

Os doze inferiores são as Árvores do Mundo do Jardim do Éden.

As Árvores são divididas em quatro grupos, de três cada, representando os quatro Rios do Éden.

As Árvores são evidentemente da mesma natureza que as forças cósmicas que os hindus representam como tendo suas raízes ou fontes acima e seus ramos ou correntes abaixo.

O nome Éden significa Prazer ou Desejo.

Assim, toda a criação vem à existência, e, finalmente, da parte animal da Mãe-Alma são gerados os animais, e da parte humana, os homens.

A parte superior do Jardim é chamada a "Terra mais bela"; isto é, a Terra Cósmica, e o corpo do homem é formado do mais fino.

Tendo o homem sido assim formado, o Éden e os Elohim delegam seus poderes a ele; a Alma do Mundo lhe concede a alma, e o Espírito do Mundo nele infunde o espírito.

Assim foram constituídos homens e mulheres.

E toda a criação foi submetida aos quatro grupos dos doze poderes da Alma do Mundo, segundo seus ciclos, enquanto se movem em círculo como numa dança circular.

Mas quando se atingiu o estágio humano, o ponto de virada do processo mundial, Elohim, o Espírito, ascendeu aos espaços celestes, levando consigo seus próprios doze poderes.

E na parte mais alta do céu ele contemplou a Grande Luz brilhando através do Portal (? o sol físico), que conduzia ao Mundo de Luz do Bom.

E aquele que até então se julgara Senhor da Criação percebeu que havia um acima dele, e clamou em alta voz: "Abre-me os portais para que eu reconheça o [verdadeiro] Senhor; pois eu me considerava o Senhor." E uma voz saiu, dizendo: "Este é o Portal do Senhor; por este entram os justos." E, deixando seus anjos na parte mais alta dos céus, o Pai do Mundo entrou e sentou-se à direita do Bom.

E Elohim desejou recuperar pela força seu espírito, que estava ligado aos homens, de maior degradação; mas a Divindade Boa o conteve, pois agora que ele ascenderá ao Reino da Luz, não poderia operar destruição alguma.

E a Alma (Éden), percebendo-se abandonada por Elohim, enfeitou-se para atraí-lo de volta; mas o Espírito não retornaria aos braços da Mãe Natureza (agora que o "ponto médio da evolução fora ultrapassado). Em seguida, o espírito que ficara para trás no homem foi atormentado pela alma; pois o espírito ou mente desejava seguir seu Pai às alturas, mas a alma, incitada pelos poderes da Alma-Mãe, e especialmente pelo primeiro grupo que governa a paixão sexual e o excesso, entregou-se a adultérios e até a vícios maiores; e o espírito no homem foi por isso atormentado.


Agora, o anjo, ou poder, da Alma do Mundo, que Baruch.

especialmente incitava a alma humana a tais delitos, era o terceiro do primeiro grupo, chamado Naas (Heb. Nachash), a serpente, o símbolo da paixão animal.

E Elohim, vendo isso, enviou o terceiro de seus próprios anjos, chamado Baruch, para socorrer o espírito no homem.

E Baruch veio e se colocou no meio das Árvores (os poderes da Alma do Mundo), e declarou ao homem que de todas as Árvores do Jardim do Éden ele poderia comer o fruto, mas da Árvore Naas, não poderia, pois Naas havia transgredido a lei e dera origem ao adultério e à relação antinatural.

E Baruch também havia aparecido a Moisés e aos profetas através do espírito no homem, para que o povo pudesse ser convertido ao Bom; mas Naas invariavelmente obscurecera seus preceitos através da alma no homem.

E não apenas Baruch ensinara os profetas dos hebreus, mas também os profetas dos incircuncisos.

Assim, por exemplo, Hércules entre os sírios fora instruído, e seus doze trabalhos foram seus conflitos com os doze poderes da Alma do Mundo.

Contudo, Hércules também finalmente fracassara,

UM SISTEMA "OFITA" PRIMITIVO.

pois após parecer cumprir seus trabalhos, é vencido por Onfale, ou Vênus, que o despoja de seu poder ao vesti-lo com seu próprio manto, o poder do Éden inferior.

Por último, Baruch apareceu a Jesus, um jovem pastor, filho de José e Maria, uma criança de doze anos.

E Jesus permaneceu fiel aos ensinamentos de Baruch, apesar das tentações de Naas.

E Naas, em cólera, fez com que ele fosse "crucificado", mas ele, deixando sobre a "árvore" o corpo do Éden — isto é, o corpo psíquico ou alma, e o corpo físico grosseiro — e entregando seu espírito ou mente às mãos de seu Pai (Elohim), ascendeu ao Bom.

E ali ele contempla "as coisas que olhos não viram e ouvidos não ouviram, e que não entraram no coração do homem"; e banha-se no oceano de água vivificante, não mais na água abaixo do firmamento, o oceano da geração no qual os corpos físico e psíquico são banhados.

Este oceano de geração é, naturalmente, o mesmo que o samsara bramânico e búdico, o oceano de renascimento.

Hipólito tenta fazer crer que Justino era uma pessoa muito vil, porque ele apontou destemidamente um dos principais obstáculos à vida espiritual e os horrores da sensualidade animal; mas Justino evidentemente pregava uma doutrina de ascetismo rígido e atribuía o sucesso de Jesus à sua pureza triunfante.


OS NAASSENOS.

ANTES da seção sobre Justino, Hipólito trata de três escolas sob os nomes de Naassenos, Peratas e Setianos ou Sitianos.

Todas as três escolas aparentemente pertencem ao mesmo ciclo, e as duas primeiras apresentam características tão idênticas que tornam altamente provável que a obra Naassena e os dois tratados Peráticos dos quais Hipólito cita pertençam ao mesmo círculo gnóstico.

Embora o nome Naassena seja derivado do hebraico Nachash, uma serpente, Hipólito não chama os Naassenos de Ofitas, mas de Gnósticos; de fato, ele reserva o nome Ofita para um pequeno grupo ao qual também dá (viii. 20) os nomes de Cainitas e Nochaitse (?Nachaitae de Nachasli), e os considera de importância insuficiente para menção posterior.

Os Naassenos possuíam muitos livros, e também consideravam como autoritativas as seguintes escrituras:

O Evangelho da Perfeição, O Evangelho de Eva, As Perguntas de Maria, Sobre a Descendência de Maria, O Evangelho de Filipe, O Evangelho segundo Tomé e O Evangelho segundo os Egípcios.

Um de seus manuscritos havia caído nas mãos de Hipólito.

Era um tratado de caráter místico, psicológico, devocional e exegético, mais do que uma exposição cosmológica, e portanto o sistema é um tanto difícil de se compreender a partir das citações de Hipólito.

De fato, o Documento Naasseno, quando analisado em suas fontes, revela-se o trabalho cristão sobre o trabalho judaico de um comentário pagão sobre um Hino dos Mistérios.

A data do interpolador cristão pode ser situada aproximadamente em meados do século II, e o documento é especialmente valioso por apontar a identidade dos ensinamentos internos do Cristianismo Gnóstico com os preceitos dos Mistérios — frígios, eleusinos, dionisíacos, samotrácios, egípcios, assírios, etc.

O escritor cristão afirmava que sua tradição fora transmitida de Tiago a uma certa Mariamne.

Essa Miriam, ou Maria, é um tanto enigmática para a erudição; parece, no entanto, provável que o tratado pertencesse ao mesmo ciclo de tradição das Grandes e Pequenas Questões de Maria, do Evangelho de Maria, etc., no quadro do qual também está inserido o tratado Pistis Sophia.

As principais características do sistema são: o cosmos é simbolizado como o Homem (Celeste), masculino-feminino, de três naturezas — espiritual (ou inteligível), psíquica e material; essas três naturezas encontraram-se em perfeição em Jesus, que era, portanto, verdadeiramente o Filho do Homem.

A humanidade está dividida em três classes, assembleias ou igrejas: os eleitos, os chamados e os ligados (ou, em outras palavras, os espirituais ou angélicos, os psíquicos e os hílicos ou materiais), conforme uma ou outra dessas naturezas predomine.

Após esse breve esboço, Hipólito prossegue mergulhando na exegese mística do escritor e de seus

Sua Exegese interpoladores (a quem ele, naturalmente, considera uma só Mística, pessoa) e sua interpretação dos Mistérios, que se mistura aqui e ali com espécimes do jogo de palavras pseudo-filológico tão caro ao coração do Crátilo de Platão, como observado acima.


Supõe-se que o sistema subjaza a todas as mitologias — pagã, judaica e cristã.

É o antigo ensinamento do macrocosmo e do microcosmo, e do Self oculto no coração de tudo.

O caráter técnico dessa exegese e a natureza de nosso ensaio nos obrigam a fornecer apenas um breve resumo das ideias principais; mas o assunto é importante o suficiente para exigir um estudo especial em si mesmo.

O espírito ou mente do homem está aprisionado na alma, sua natureza animal, e a alma no corpo.

A natureza e a evolução dessa alma foram expostas em O Evangelho segundo os Egípcios, obra que infelizmente se perdeu.

Ora, os assírios (seguindo os caldeus, que juntamente com os egípcios eram considerados pela antiguidade como a nação sagrada por excelência) ensinaram primeiro que o homem era tríplice e, no entanto, uma unidade.

A alma é o princípio do desejo, e todas as coisas têm almas, até mesmo as pedras, pois elas aumentam e diminuem.

O verdadeiro "homem" é macho-fêmea, desprovido de sexo; portanto, ele se esforça para abandonar a natureza animal e retornar à essência eterna acima, onde não há macho nem fêmea, mas uma nova criatura.

O batismo não era a mera lavagem simbólica com água física, mas o banho do espírito ou mente na "água viva acima", o mundo eterno, além do oceano da geração e da destruição; e a unção com óleo era a introdução do candidato na bem-aventurança imarcescível, tornando-se assim um Cristo.

OS NAASSENI.

O reino dos céus deve ser buscado dentro do homem; é a "bendita natureza de todas as coisas que foram, são e ainda serão", mencionada nos Mistérios Frígios.

É da natureza do espírito ou mente, pois, como está escrito em O Evangelho segundo Tomé: "Aquele que me busca me encontrará em crianças desde a idade de sete anos"; e este é o representante do Logos no homem.

Entre os egípcios, Osíris é a Água da Vida, o Espírito ou Mente, enquanto Ísis é a "natureza de sete vestes, cercada e vestida com sete mantos etéreos", as esferas da geração sempre mutável, que metamorfoseiam a inefável, inimaginável, incompreensível substância-mãe; enquanto a Mente, o Eu, faz todas as coisas, mas permanece imutável, segundo o dito: "Torno-me o que quero, e sou o que sou; por isso, digo, imóvel é o movedor de tudo.

Pois Ele permanece o que é, fazendo todas as coisas, e nada é das coisas que existem." Isso também é chamado de O Bem, daí o dito: "Por que Me chamas Bom? Um só é Bom, Meu Pai nos céus."

Entre os gregos, Hermes é o Logos.

Ele é o condutor e reconductor (o psicagogo e o psicopompo), e originador das almas.

Elas são trazidas do Homem Celestial acima para o plasma de argila, o corpo, e assim feitas escravas do demiurgo do mundo, o deus ígneo ou passional da criação.

Portanto, Hermes "segura um cajado em suas mãos, belo, dourado, com o qual ele enfeitiça os olhos dos homens que quiser, e os desperta novamente do sono." Daí o dito: "Desperta, tu que dormes, e levanta-te, e Cristo te dará luz." O Samotrácio.


O Frígio.

Este é o Cristo, o Filho do Homem, em todos os que nascem; e isto foi exposto nos mistérios de Elêusis.

Este é também Oceano, "a geração dos deuses e a geração dos homens," o Grande Jordão, como explicado no Mito do Êxodo, dado acima.

Os samotrácios também ensinaram a mesma verdade; e no templo de seus Mistérios havia duas estátuas, representando o Homem Celestial e o homem regenerado ou espiritual, em tudo coessencial com aquele Homem.

Tal era o Cristo, mas Seus discípulos ainda não haviam alcançado a perfeição.

Daí o dito: "Se não beberdes do Meu sangue e não comerdes da Minha carne, de modo algum entrareis no Reino dos Céus; mas, ainda que bebais do cálice do qual Eu bebo, para onde Eu vou não podeis ir." E o escritor gnóstico acrescenta: "Pois Ele sabia de que natureza era cada um de Seus discípulos, e que era necessário que cada um deles fosse para a sua própria natureza.

Pois dentre as doze 'tribos' Ele escolheu doze discípulos, e através deles falou a cada 'tribo.' Por isso (também) nem todos os homens deram ouvidos à pregação dos doze discípulos, nem, se ouvem, podem recebê-la."

Os mistérios dos trácios e frígios são então referidos, e as mesmas ideias são ainda mais explicadas a partir dos documentos do Antigo Testamento.

A visão de Jacó é explicada como referindo-se à descida do espírito na matéria, descendo a escada da evolução, a Corrente do Logos fluindo para baixo, e então novamente para cima, através da Porta do Senhor.

Por isso o dito: "Eu sou a verdadeira porta." Os frígios

OS NAASSENOS.

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também chamavam o espírito no homem de "morto", porque estava sepultado no túmulo e sepulcro do corpo.

Por isso o dito: "Sois sepulcros caiados, cheios por dentro de ossos de mortos" — "pois o homem vivo não está em vós." E ainda: "Os mortos saltarão dos túmulos"; isto é, "de seus corpos materiais, homens espirituais regenerados, não carnais." Pois "esta é a ressurreição que se dá através da porta dos céus, e aqueles que não passam por ela, todos permanecem mortos."

Muitas outras interpretações de natureza semelhante são dadas, e mostra-se que os Mistérios Menores pertenciam à "geração carnal", enquanto os Maiores tratavam do novo nascimento.

"Pois esta é a Porta do Céu, e esta é a Casa de Deus, onde o Deus Bom habita sozinho, na qual nenhum homem impuro entrará, nenhum psíquico, nenhum homem carnal; mas é guardada somente para o espiritual, onde devem vir e, lançando fora suas vestes, todos se tornam esposos feitos virgens pelo Espírito Virginal.

Pois tal homem é a virgem com o filho, que concebe e dá à luz um filho, que não é psíquico, animal, nem carnal, mas um bendito eão dos eões."

Este é o Reino dos Céus, o "grão de mostarda, o ponto indivisível, que é a centelha primordial no corpo, e que nenhum homem conhece senão apenas o espiritual."

A escola dos Naassenos, diz-se, era toda iniciada nos Mistérios da Grande Mãe, porque descobriram que todo o mistério do renascimento era ensinado nesses ritos; eles eram também ascetas rígidos.


O nome Naasseni lhes foi dado porque representavam a "Essência Úmida" do universo — sem a qual nada do que existe, "seja imortal ou mortal, seja animado ou inanimado, poderia manter-se coeso" — pelo símbolo de uma serpente.

Esta é o Akasha cósmico dos Upanishads, e a Kundalini, ou força serpentina no homem, que quando segue o impulso animal é a força da geração, mas quando aplicada às coisas espirituais faz de um homem um deus.

São as Águas do Grande Jordão fluindo para baixo (a geração dos homens) e para cima (a geração dos deuses); o Akasha-ganga ou Ganges Celestial dos Puranas, o Nilo Celestial do Egito místico.

"Ele distribui beleza e florescimento a todos os que existem, assim como o [rio] 'que procede do Éden e se divide em quatro correntes'." No homem, diziam eles, o Éden é o cérebro "comprimido em vestes circundantes como céus," e o Paraíso é o homem apenas até a cabeça.

Essas quatro correntes são a visão, a audição, o olfato e o paladar.

O rio é a "água acima do firmamento [do corpo]."

Assim, para usar outro conjunto de termos simbólicos, "os espirituais escolhem para si mesmos, das águas vivas do Eufrates [o mundo sutil], que flui através do meio da Babilônia [o mundo grosseiro ou corpo], o que é adequado, passando pela porta da verdade, que é Jesus, o bendito," i.e., a "porta dos céus," ou o sol, cosmicamente; e microcosmicamente, a saída consciente do corpo através do centro mais elevado na cabeça, que os místicos hindus chamam de

OS NAASSENI.

o Brahmarandhra.

Assim, esses Gnósticos afirmavam ser os verdadeiros cristãos porque eram ungidos com o "crisma inefável," derramado pelo "chifre da abundância" serpentino, outro símbolo do poder espiritual da iluminação.

Concluiremos este breve esboço desses místicos tão interessantes citando um de seus hinos.

O

F riitr em 6ii t

O texto está infelizmente tão corrompido que partes de de um Hino.

são irremediavelmente perdidas; no entanto, o suficiente permanece para "sentir" o pensamento.

Ele fala da Mente Universal, o Pai, do Caos, a Mãe Cósmica, e do terceiro membro da trindade primordial, a Alma do Mundo.

Dali, a alma individual, o peregrino, e suas dores e renascimentos.

Finalmente, a descida do Salvador, o primogênito da Grande Mente, e a regeneração de tudo.

Por trás de tudo está o Inefável; então vem primeiro o Primogênito, o Logos:

"A Mente foi a primeira, a lei geradora de tudo; Segundo foi o Caos difuso, [consorte] do primogênito; Em terceiro lugar, a Alma laboriosa recebeu a lei; Por isso, envolvida numa forma aquosa, Ela se cansa, subjugada pela morte.

.     .     . Agora dominando, ela vê a luz; Logo, lançada em situação lastimável, ela chora.

Enquanto chora, ela se alegra; Agora lamenta e é julgada; E agora é julgada e morre.

E agora não pode passar .... No labirinto [do renascimento] ela vagueou.

[Jesus] disse: Pai! Uma busca pelo mal na terra Faz [o homem] afastar-se do teu Espírito,


Ele procura evitar o amargo Caos,

Mas não sabe como fugir.

Portanto, envia-me, ó Pai!

Selos em minhas mãos, eu descerei;

Através de cada éon seguirei meu caminho;

Todos os mistérios revelarei,

E mostrarei as formas dos deuses;

Os segredos ocultos da Senda Sagrada

Tomarão o nome de Gnose,

E eu os transmitirei."

OS PERATAS.

HIPÓLITO diz que os mistérios simbolizados pela serpente estão na raiz de todo Gnosticismo; e, embora o próprio Pai da Igreja não tenha ideia do que esses mistérios realmente são, como é amplamente provado por todas as suas observações, concordamos com ele, como procuramos mostrar acima.

Ele então passa a tratar do sistema dos Peratas, aos quais já nos referimos, e cujos Mistérios (Hipólito os chama de sua "blasfêmia contra Cristo") haviam sido mantidos em segredo "por muitos anos". Sabemos de outras fontes que a escola era anterior a Clemente de Alexandria.

O sistema dos Peratas baseava-se numa analogia com considerações siderais e dependia da tradição do antigo culto estelar caldeu.

No Livro IV, Hipólito já se esforçara por refutar o sistema caldaico das esferas estelares; mas, embora apresente alguns bons argumentos contra a astrologia vulgar

OS PERATAS.

da época, não afeta a doutrina misteriosa das esferas septenárias, cujo segredo os horoscopistas empíricos há muito haviam perdido, e em lugar da qual haviam substituído os planetas físicos.

Hipólito tinha especialmente em mente a escola perática em sua tentativa de refutação da arte dos astrólogos e matemáticos, da qual, no entanto, admite não ter conhecimento prático, mas o espaço nos obriga simplesmente a remeter o estudante ao quarto livro de seus *Philosophumena* para o esboço da astrologia que o Padre da Igreja apresenta.

Segundo a escola perática, o universo era simbolizado por um círculo encerrando um triângulo.

O triângulo denotava a tricotomia primordial nos três mundos: ingenerável, autogerável e gerável.

Assim, havia para eles três aspectos do Logos, ou, de outro ponto de vista, três Deuses, ou três Logos, ou três Mentes, ou três Homens.

Quando o processo do mundo atingia a completude de sua devolução, o Salvador descia do mundo ingenerável ou *Theon*; o tipo do Salvador é o de um homem aperfeiçoado, "com uma natureza tríplice, e corpo tríplice, e poder tríplice, tendo em si todas as [espécies de] concreções e potencialidades das três divisões do universo." Segundo a frase paulina: "Aprouve a Ele que nele habitasse toda a plenitude (*pleroma*) corporalmente."

É dos dois mundos superiores, o ingenerável e o autogerável, que as sementes de todos os tipos de potencialidades são enviadas para este mundo gerável ou formal.

Hipólito aqui interrompe, e, após informar- nos de que os fundadores da escola foram um certo Euphrates (a quem Orígenes chama de fundador daqueles ofitas a quem Celso se referiu por volta de 175 d.C.) e Celbes, a quem ele em outra parte chama de Acembes e Ademes, prossegue para nos contar algo mais sobre a arte caldaica.


Ele então diz que citará uma série de tratados peráticos para mostrar que suas ideias eram semelhantes às dos caldeus.

O Salvador não tem apenas uma tarefa humana, mas também cósmica a realizar; a tarefa cósmica é separar o bom do mau entre os poderes e influências siderais; essa mesma peculiaridade da soteriologia é posta em destaque no tratado *Pistis Sophia*, ao qual nos referiremos mais adiante. As "guerras no céu" precedem o conflito do bem e do mal na terra.

O tratado do qual Hipólito passa a citar diretamente é evidentemente um comentário gnóstico sobre uma antiga escritura cosmogônica babilônica ou síria, que o comentador se esforça por explicar em termos mitológicos gregos.

O início desse misterioso tratado é o seguinte:

"Eu sou a voz do despertar do sono no éon (mundo) da noite.

Doravante começo a desnudar o poder que procede do Caos.

É o poder do lodo abissal, que ergue o barro do vasto princípio úmido imperecível, toda a força da convulsão da cor da água, sempre em movimento, sustentando o estável, contendo o vacilante, . . . o fiel despenseiro da trilha dos éteres, regozijando-se naquilo que flui das doze fontes da Lei, o poder que

OS PERATAS.

toma seu tipo da impressão do poder das águas invisíveis acima."

Esse poder é chamado Thalassa, evidentemente a Thalatth (Tiamat), ou Mãe do Mundo, dos babilônios.

As doze fontes também são chamadas de doze bocas, ou canos, através dos quais os poderes do mundo derramam seu sibilar.

É o poder que está cercado por uma pirâmide dodecagonal ou dodecaedro — uma insinuação que deveria persuadir os astrólogos a reconsiderar seus "signos do zodíaco".

As citações e o resumo de Hipólito tornam-se aqui muito obscuros e exigem um tratamento crítico que ainda não lhes foi concedido; somos finalmente informados de que a matéria é extraída de um tratado que trata do mundo formal ou gerável, pois é denominado *Os Proasteioi até o Éter*; isto é, as hierarquias de poderes até o éter, que provavelmente eram representadas diagramaticamente por uma série de círculos concêntricos, sendo um "proasteion" o espaço ao redor das muralhas de uma cidade.

Hipólito aponta aqui novamente a correspondência entre o simbolismo astrológico e o ensinamento desta escola de Gnosticismo; é, diz ele, simplesmente astrologia alegorizada, ou antes, deveríamos dizer, cosmogonia teologizada.

Esses Peráticos, ou Transcendentalistas, derivam seu nome das seguintes considerações.

Eles acreditavam que nada do que existe por geração pode sobreviver à destruição, e assim a esfera da geração é também a esfera do destino.

Aquele que nada conhece além disso está preso à roda do destino; mas "aquele que está familiarizado com a compulsão da geração [samsara], e os caminhos pelos quais o homem entrou no mundo [gerável]," pode proceder através e transcender a destruição.

Essa destruição é a "Água" que é a "geração dos homens," e que é o elemento no qual as hierarquias da geração exercem seu domínio e têm seu ser.

É chamada água porque é dessa cor, a saber, o éter inferior.

O tratado do qual Hipólito cita mergulha novamente nas profundezas da mitologia e, entre outras coisas, aduz o Mito da Saída, e sua interpretação mística; finalmente, o comentador gnóstico explica os versículos iniciais do prólogo do quarto Evangelho canônico.

Hipólito, no entanto, começa a ser desconcertado pela incrível complexidade do sistema, como nos diz, e assim interrompe, e aparentemente toma outro tratado do qual citar.

O novo tratado é de caráter extremamente místico e aparentemente trata da fisiologia psicológica da escola.

O universo é figurado como tríplice: Pai, Logos e Matéria (Hyle), cada um de infinitas potencialidades.

Fisiologia.

O Logos demiúrgico, que modela, situa-se no meio-termo entre o imóvel Pai e a Matéria em movimento.

Em um momento, Ele se volta para o Pai e recebe os poderes em Seu disco (face, ou "pessoa"), e então, voltando-se, os lança na Matéria, que é desprovida de forma; e assim a Matéria é moldada e o mundo formal é produzido.

Vemos aqui uma tentativa de enxertar um ensinamento superior, da mesma natureza da doutrina platônica dos tipos

OS PERATAS.

e ideias, sobre o simbolismo primitivo de fenômenos naturais imperfeitamente observados.

O sol é o Pai, a lua é o Filho, e a terra é a Matéria.

A lua é figurada como uma serpente, devido ao seu caminho serpentino, e suas fases são imaginadas como o voltar de sua face para o sol, e novamente para a terra.

Se isso está correto, no entanto, a imobilidade do sol e o movimento da terra nos dão razão para acreditar que os caldeus eram mais bem familiarizados com a astronomia do que os seguidores do geocentrismo hiparco-ptolomaico, muito posterior.

O escritor gnóstico também possui uma teoria correta das influências magnéticas e outras, que ele expõe de maneira peculiar.

Podemos, além disso, distinguir três estratos de interpretação: (i.) metafísico e espiritual — o mundo ideal, o intermediário e o universo visível; (ii.) o mundo da geração — com suas forças de sol, lua e terra; e (iii.) o processo psicofisiológico analógico no homem.

O último é assim explicado.

O cérebro é o Pai, o cerebelo o Filho, e a medula a Matéria ou Hyle.

"O cerebelo, por um processo inefável e inescrutável, atrai através da glândula pineal a essência espiritual e vivificante da câmara abobadada [? terceiro ventrículo]. E, ao recebê-la, o cerebelo [também], de maneira inefável, transmite as 'ideias', assim como o Filho o faz, à Matéria; ou, em outras palavras, as sementes e os gêneros das coisas produzidas segundo a carne fluem para a medula espinhal." E, acrescenta Hipólito, os principais segredos da escola dependem do conhecimento dessas correspondências, mas seria ímpio para ele dizer algo mais sobre o assunto — um escrúpulo que surpreende encontrar em um Padre da Igreja, e especialmente em Hipólito, que dedicou o segundo e o terceiro livros de sua Refutação a uma exposição dos Mistérios.


Ora, é um fato curioso que esses dois livros tenham sido removidos fisicamente do manuscrito. Terá Hipólito,

Hipólito, então, revelado demais do "plágio por antecipação" dos ritos e doutrinas da Igreja, e terão aqueles que vieram depois dele considerado imprudente manter tais evidências registradas? Pois alguém teria pensado que, acima de tudo, os Padres ortodoxos se deleitariam em exibir a posse de tais informações diante dos pagãos e hereges, e teriam especialmente preservado esses dois livros da destruição.

Mas, de fato, é totalmente estranho que esta, a mais importante Refutação de todos os documentos heresiológicos que possuímos, não tenha sido utilizada pelos sucessores de Hipólito.

O único manuscrito conhecido no mundo ocidental foi trazido do Monte Atos em 1842, e seu conteúdo (devido ao número de citações diretas) revolucionou nossas ideias sobre o gnosticismo em muitos pontos.

Se os dois livros sobre os Mistérios tivessem sido preservados, talvez tivéssemos nossas ideias ainda mais revolucionadas.

OS SETIANOS.

OS SETIANOS.

Intimamente ligados aos gnósticos acima descritos estão os setianos, aos quais Hipólito dedica em seguida Sete.

sua atenção.

Ele fala de seus "inúmeros comentários" e remete seus leitores especialmente a um certo tratado, chamado A Paráfrase de Seth, para um resumo de suas doutrinas.

Mas se Hipólito cita ele próprio este documento, ou algum outro tratado ou tratados, não é evidente.

O título, Paráfrase de Seth, é extremamente enigmático; é difícil dizer qual é o significado exato do termo "paráfrase" e as doutrinas expostas por Hipólito não têm conexão com a lenda de Seth.

O termo setianos, como usado por Hipólito, não é apenas enigmático por essa razão, mas também porque seu resumo difere inteiramente dos fragmentos de informação sobre o sistema dos setitas, supostamente mencionados em seu perdido Syntagma, e aliado à doutrina dos nicolaítas pelos epitomadores.

Nestes últimos fragmentos, o herói Seth foi escolhido como o tipo do homem bom, o perfeito, o protótipo de Cristo.

Será possível que haja uma conexão entre o nome "Seth" e o misterioso "Setheus" do Codex Brucianus? E ainda, devemos procurar a origem dos setianos ao longo da linha egípcia de tradição do culto dos hicsos, cujo pano de fundo semítico fez de Seth o Deus do Mistério?


Os setianos de quem tratamos começam com uma trindade; Luz, Espírito e Trevas.

O Sistema.

O Espírito, no entanto, não deve ser pensado como um sopro ou vento, mas como que um odor sutil que se espalha por toda parte.

Os três princípios estão então intermisturados um com o outro.

E as Trevas se esforçam para reter a Luz e o Espírito, e aprisionar as centelhas de luz na matéria; enquanto a Luz e o Espírito, por seu lado, se esforçam para elevar seus poderes ao alto e resgatá-los das Trevas.

Todos os gêneros e espécies e indivíduos, até mesmo o céu e a terra, são imagens de "selos"; são produzidos de acordo com certos tipos pré-existentes.

Foi do primeiro concílio dos três princípios ou poderes originais que a primeira grande forma foi produzida, a impressão do grande selo, a saber, o céu e a terra.

Isto é simbolizado pelo ovo do mundo no ventre do universo, e o restante da criação é elaborado segundo a mesma analogia.

O ovo está nas águas, que são agitadas em ondas pelo poder criativo, e depende da natureza das ondas o que as várias criaturas virão a ser. Aqui temos toda a teoria das vibrações e a ideia da célula-germe em plena atividade.

Nos corpos assim trazidos à existência pelas ondas das águas (os veículos da matéria sutil) descem a centelha de luz e a fragrância do Espírito, e assim "a mente ou o homem" é "moldado em várias espécies".

"E esta [centelha de luz] é um deus perfeito, que, da Luz ingenerável do alto, e do Espírito, é trazido para baixo ao homem natural, como a um

OS SETIANOS.

santuário, pela maré da natureza e pelo movimento do vento [o poder criativo que causa as ondas], 'i . . . Assim, uma centelha mínima, uma lasca dividida do alto, como o raio de uma estrela, foi misturada nas águas muito compostas [corpos de vários tipos de matéria sutil] de muitas (existências). . . . Todo pensamento, então, e solicitude que atuam na Luz do alto é sobre como e de que maneira a mente pode ser libertada da morte — o corpo mau e escuro — do 'pai' abaixo, o vento [impulso generativo], que com agitação e tumulto ergueu as ondas, e [finalmente] produziu uma mente perfeita, seu próprio filho, e contudo não seu próprio em essência.

Pois ele [a mente] era um raio do alto, daquela Luz perfeita, subjugado na água escura e medonha, e amarga, e manchada de sangue; ele também é um espírito de luz flutuando sobre a água."

O poder gerativo é chamado não apenas de "vento", mas também de "besta" e "serpente", esta última por causa do som sibilante que produz, exatamente como o vento que gira.

Agora, o ventre impuro, ou esfera da geração, só pode produzir homens mortais, mas o ventre virgem ou puro, a Esfera de Luz, pode produzir homens imortais ou deuses.

É a descida do Homem Perfeito ou Logos no homem puro que somente pode aquietar as dores de parto do homem carnal.

Este processo natural e espiritual é demonstrado nos Mistérios; após passar pelos Mistérios Menores, que pertencem ao ciclo da geração, o candidato é lavado ou batizado e, despindo a veste de servo, veste uma vestimenta celestial e bebe do cálice de água vivificante.


Isto é, ele deixa sua forma servil, o corpo que está sujeito à necessidade da geração e é, portanto, um escravo, e ascende em seu corpo espiritual ao estado onde se encontra o oceano da imortalidade.

A escola setiana sustentava seus princípios teosóficos por analogias extraídas da filosofia natural e pela interpretação alegórica do Antigo Testamento; mas, diz Hipólito, seu sistema nada mais é do que os princípios dos Mistérios Órficos, que eram celebrados na Acaia, em Fliunte, muito antes dos de Elêusis.

Sem dúvida, os setianos baseavam suas teorias em uma ou mais tradições do culto dos Mistérios, mas não precisamos seguir Hipólito em sua seleção de apenas uma tradição, e essa também em sua fase mais grosseira e ignorante do falicismo vulgar.

A escola parece também ter tido afinidades com a tradição hermética e usava a analogia dos processos naturais e "alquímicos" para a explicação de questões espirituais.

Por exemplo, após citar o exemplo do ímã, um de seus livros continua: "Assim, o raio de luz [alma humana], misturado com a água [alma animal], tendo obtido através da disciplina e da instrução sua própria região apropriada, apressa-se em direção ao Logos [alma divina] que desce do alto em forma servil [corpo]; e juntamente com o Logos torna-se Logos ali onde o Logos tem o Seu ser, mais rapidamente do que o ferro [se apressa] para o ímã."

OS DOCETAS.

OS DOCETAS.

Como foi observado anteriormente, os restos do antigo leito da corrente da Gnose que nos esforçamos por examinar são tão fragmentários que nada se pode tentar além de um esboço mais imperfeito, ou antes, uma série de rascunhos grosseiros de certas seções que, algum dia, novas descobertas poderão nos permitir lançar na forma de um mapa.

Indicações cronológicas quase inteiramente faltam, e ainda não podemos formar nenhuma ideia da sequência correta dessas escolas gnósticas gerais.

Devemos, portanto, proceder um tanto ao acaso, e voltaremos agora nossa atenção para uma escola que Hipólito (Livro viii.) chama de Docetas, visto que suas doutrinas são muito semelhantes às das três escolas de que acabamos de tratar.

Não há, contudo, nada que mostre por que esse nome foi especialmente escolhido, exceto a obscura razão de que deriva da tentativa desses gnósticos de teorizar sobre a "matéria inacessível e incompreensível". Pode ser, portanto, possível que eles acreditassem na doutrina da não-realidade da matéria; e que o nome Docetas ("Ilusionistas") tenha derivação semelhante à dos Maya-vadins dos hindus.

O sistema desse círculo gnóstico guarda forte semelhança familiar com as doutrinas das escolas basilidiana e valentiniana; mas a doutrina da natureza não-física do corpo do Cristo, que é a característica geral do docetismo comum, não é mais proeminente entre eles do que entre muitas outras escolas.


O esboço de suas doutrinas dado por Hipólito é o seguinte.

O Ser Primordial é simbolizado como a semente de uma figueira, o ponto matemático, que está em toda parte, menor que o pequeno, porém maior que o grande, contendo em si infinitas potencialidades.

Ele é o "refúgio dos aterrorizados, a cobertura dos nus", e muito mais, como alegoricamente exposto nas Escrituras.

A maneira da geração infinita das coisas é também figurada pela figueira, pois da semente vem o caule, depois os ramos, e depois as folhas, e depois o fruto, contendo o fruto, por sua vez, sementes, e dali outros caules, e assim por diante, de maneira infinita; assim todas as coisas procedem.

Desta forma, mesmo antes de o mundo sensível ser formado, houve uma emanação de um mundo divino ou ideal de três aeons-raiz, cada um consistindo de tantos sub-aeons, macho-fêmea; isto é, mundos, ou seres, ou planos, de poderes autogeradores.

E este mundo-éon de Luz procedeu da única semente ideal ou raiz do universo, o ingenerável.

Então a hoste de aeons autogeráveis, unindo-se, produz da Única Virgem (substância cósmica ideal), o Unigênito (-gerado), o Salvador do universo, o éon perfeito; contendo em Si mesmo todos os poderes do mundo ideal dos aeons, igual em poder em todas as coisas à semente original do universo, o ingenerável.

Assim foi produzido o Salvador do universo ideal, o éon perfeito.

E assim tudo naquele mundo espiritual foi aperfeiçoado, sendo tudo da natureza Daquilo que transcende o intelecto, livre de toda deficiência.

Assim

OS DOCETAS.

foi realizado o eterno e ideal processo-mundo nos espaços dos aeons.

Em seguida, com relação à emanação do mundo ideal no universo sensível.

O terceiro éon-raiz, por sua vez, fez-se triplo, contendo em si todas as potencialidades supernas.

Assim, então, sua Luz brilhou para baixo sobre a substância caótica primordial, e as almas de todos os gêneros e espécies de seres vivos foram infundidas nela. E quando o terceiro éon, ou Logos, percebeu que Suas ideias e impressões e tipos ou selos (xapar/oe?) — as almas — foram apoderados pela escuridão, Ele separou a luz da escuridão, e colocou um firmamento entre elas; mas isso só foi feito depois que todas as infinitas espécies do terceiro éon foram interceptadas na escuridão.

E, por último, a semelhança do próprio terceiro éon foi impressa no universo inferior, e essa semelhança é um "fogo vivificante, gerado da luz". Ora, esse fogo é o deus criador que molda o mundo, como no relato mosaico.

Essa divindade fabricadora, não tendo substância própria, usa a escuridão (matéria grosseira) como sua substância, da qual faz corpos, e assim trata perpetuamente com desprezo os eternos atributos da luz que estão aprisionados na escuridão.

Assim, até a vinda do Salvador, houve um vasto engano das almas, pois essas "ideias" são chamadas de almas (ψυχαί) porque foram exaladas (ἀποψυχεῖσαι) dos (éons) superiores.

Essas almas passam suas vidas na escuridão, passando de um para outro dos corpos que estão sob a guarda do poder criativo ou artífice do mundo.


Em apoio a isso, o autor gnóstico refere-se ao ditado: "E, se quereis recebê-lo, este é Elias que havia de vir; quem tem ouvidos para ouvir, ouça"; e também a Jó ii. 9: "E sou um errante, mudando de lugar após lugar e de casa após casa." Esta última passagem é encontrada na versão dos Setenta, mas é omitida na tradução inglesa.

É por meio do Salvador que as almas são O Salvador.

libertas do ciclo de renascimento (metensomatose), e a fé é despertada nos homens para que seus pecados sejam remidos.

Assim, então, o Filho Unigênito, contemplando a tragédia das almas — as "imagens" dos éons superiores mudando perpetuamente de um corpo para outro da escuridão — quis descer para sua libertação.

Ora, os éons individuais acima não eram capazes de suportar toda a plenitude do mundo divino, isto é, o Filho; e, se o tivessem contemplado, teriam sido lançados em confusão por sua grandeza e pela glória de seu poder, e teriam temido por sua existência.

Assim, o Salvador recolheu Sua glória dentro de Si mesmo, como se fosse o mais vasto dos relâmpagos no mais minúsculo dos corpos, ou como a súbita cessação da luz quando as pálpebras se fecham, e assim desceu à abóbada celeste; e alcançando ali o cinturão de estrelas, novamente recolheu Sua glória, pois mesmo o aparentemente mais minúsculo doador de luz da esfera estelar é um sol que ilumina todo o espaço; e assim o Salvador retirou Sua glória novamente e entrou no domínio da terceira esfera da terceira éon.

E assim Ele entrou até mesmo nas trevas; isto é, foi encarnado em um corpo.

O DOCETA.

E Seu batismo foi desta maneira: Ele se lavou no Jordão (a corrente do Logos), e após esta purificação na água tornou-Se possuidor de um corpo espiritual, uma cópia ou impressão de Seu corpo físico feito de virgem; de modo que quando o governante do mundo (o deus da geração) condenou sua própria plasmagem (o corpo físico) à morte, i.e., a cruz, o corpo espiritual, nutrido no corpo físico virginal, pudesse despir o corpo físico e pregá-lo na "árvore", e assim o Cristo triunfaria sobre os poderes e autoridades do governante do mundo, e não fosse encontrado nu; pois Ele vestiria Seu novo corpo espiritual de perfeição em vez de outro corpo de carne.

Assim o dito: "Aquele que não nascer da água e do espírito não pode entrar no reino dos céus; o que é nascido da carne é carne."

Quanto a Jesus Cristo, o escritor gnóstico sabiamente observa que esse ideal pode ser visto de muitos lados; que cada escola tem sua própria visão, algumas uma visão baixa, algumas uma visão elevada; e que isso está na natureza das coisas.

Finalmente, ninguém exceto os verdadeiros gnósticos, isto é, aqueles que passaram por iniciações semelhantes às de Jesus, pode compreender o mistério face a face.

Pareceria quase desnecessário apontar ao estudante do Gnosticismo a notável semelhança entre os contornos gerais deste sistema e as ideias principais do conteúdo dos Códices de Bruce e Askew; e, no entanto, ninguém as observou anteriormente.


MONOIMUS.

HIPÓLITO dedica sua próxima seção a um certo Monoimus, que é mencionado apenas por um outro heresiólogo, a saber, Teodoreto, em um breve parágrafo.

Monoimus era árabe e viveu em algum lugar na segunda metade do século II.

Seu sistema baseia-se na ideia do Homem Celestial, o universo, e o Filho deste Homem, o homem perfeito, sendo todos os outros homens apenas reflexos imperfeitos do único tipo ideal.

Suas ideias gerais vinculam-se ao ciclo da literatura gnóstica numérica da qual tratamos, e são

teorias.

elaboradas por muitas considerações matemáticas e geométricas das tradições pitagórica e platônica.

A teoria dos números e a composição geométrica do universo a partir de elementos que são simbolizados pelos cinco sólidos platônicos — a saber, o tetraedro, o cubo, o octaedro, o dodecaedro e o icosaedro — são desenvolvidas.

Todos esses símbolos geométricos são produzidos pela mônada, que ele chama de iota, o yod, e o "chifre único". É nosso velho amigo, a força serpentina, a cornucópia, a vara de Moisés e de Hermes; em outras palavras, é o átomo que os videntes dizem ser um redemoinho "cônico" de forças.

Esta mônada é, nos números, a década, o número perfeito e a completude da primeira série de números, após a qual todo o processo recomeça.

Ora, foi a vara de Moisés que trouxe à realização as pragas do Egito, segundo o mito.

Estas

MONOIMUS.

"pragas" nada mais são do que transmutações da matéria do corpo físico, por exemplo, água em sangue, etc., tudo o que é curiosamente elaborado pelo escritor.

Todo este sistema, de fato, abre uma série de considerações importantes que nos levariam muito além do escopo do presente ensaio.

Monoimus foi, sem dúvida, um contemporâneo da escola valentiniana, se não um discípulo de Valentim, e a versão deturpada de seu sistema, preservada por Hipólito, pode ser feita para render muitos pontos importantes que lançarão luz sobre a "aritmética teológica" dos doutores gnósticos.

Isto pode, um dia, ainda provar conservar uma semente que possa crescer em uma árvore de verdadeiro conhecimento matemático.

Concluiremos nosso esboço das doutrinas de Monoimus citando sua opinião sobre a maneira de buscar a Deus.

Em uma carta a um certo Teofrasto, ele escreve: "Cessa de buscar a Deus (como se estivesse fora de ti), e o universo, e coisas semelhantes a estas; busca-O a partir de ti mesmo, e aprende quem é aquele que, de uma vez por todas, apropria-se de tudo em ti para Si mesmo, e diz: 'Meu Deus, minha mente, minha razão, minha alma, meu corpo.' E aprende de onde vêm a tristeza e a alegria, e o amor e o ódio, e o despertar ainda que não se queira, e o dormir ainda que não se queira, e o irar-se ainda que não se queira, e o apaixonar-se ainda que não se queira.

E se investigares estas coisas de perto, encontrarás a Ele em ti mesmo, uno e múltiplo, assim como o átomo; encontrando assim, a partir de ti mesmo, um caminho para fora de ti mesmo."

Tudo isto ecoa muito distintamente o ensinamento da literatura trismegística anterior.


OS CHAMADOS CAINITAS.

ANTES de retornar novamente em direção ao tempo da Obscuridade das origens ao longo de outra linha de tradição, da qual um ou dois indícios obscuros ainda permanecem — o traço Carpocrates-Cerinthus — referir-nos-emos brevemente ao obscuro caos de tendências agrupadas sob o termo "Cainita" e suas variantes.

Nossas fontes de informação são escassas, e (se excluirmos a mera menção do nome) limitam-se a Ireneu e Epifânio; este último, além disso, copia de Ireneu, e, com exceção de suas próprias reflexões e elucubrações, tem apenas um fragmento ou dois de informação nova a acrescentar.

Esta linha de tradição é novamente geralmente classificada como "Ofita", e, como de costume, descobrimos que seus adeptos chamavam a si mesmos simplesmente de Gnósticos.

Eram distinguidos pela honra que prestavam a Caim e a Judas; fato que, por si só, era suficiente para cobri-los com as execrações dos ortodoxos, que lhes atribuíam a perpetração de toda iniquidade.

Assim, descobrimos que Epifânio, que escreveu duzentos anos depois de Irineu, embeleza consideravelmente o relato do Bispo de Lyon, mesmo quando em outros aspectos está simplesmente copiando seu predecessor.

Passaremos agora a ver a razão pela qual esses gnósticos nutriam uma crença aparentemente tão estranha.

Se o leitor tiver em mente os sistemas de Justino e dos setianos, estará em melhor posição para compreender o que se segue.

O principal

OS CHAMADOS CAINITAS.

As principais características do sistema desses gnósticos, então, são as seguintes.

O criador do mundo não era o Deus sobre todos; o poder absoluto do alto era mais forte do que o poder mais fraco (hystera) de geração, que era simbolizado como o poder do útero mundial impuro, contendo céu e terra dentro de si — o mundo sensível.

Mas este mundo sensível era, por assim dizer, um pós-parto (hystera), comparado com o verdadeiro nascimento do útero espiritual virgem, o mundo ideal dos éons acima.

Epifânio fez uma grande confusão desta parte do sistema; é evidentemente consanguíneo com a "deficiência" valentiniana (hysterema), ou "aborto", o mundo sensível, sem ou externo à plenitude ou perfeição ideal (pleroma), ou mundo dos éons.

O poder inferior, portanto, era o Deus da geração, o superior o Deus do esclarecimento e da sabedoria.

A ideia de Deus do Antigo Testamento não foi além da obediência aos mandamentos do poder inferior.

Aqueles que haviam obedecido às suas ordens eram considerados os dignitários de outrora pelos seguidores da Lei Externa, que, não vendo além, haviam em suas tradições difamado todos os que se recusavam a seguir esta lei, os mandamentos do poder inferior de geração.

Assim, Abel, Jacó, Ló e Moisés foram elogiados pelos seguidores da lei da geração; enquanto na realidade eram os oponentes destes que deveriam ser elogiados, como seguidores da Lei Superior que desprezavam as leis dos poderes de geração, e eram assim protegidos pela Sabedoria e levados para si mesma, para o éon acima.

Q Eles, portanto, afirmavam que Caim e Esaú, e os habitantes das Cidades da Planície, e Corá, Datã e Abirão, eram tipos daqueles indivíduos ou nações que haviam seguido uma lei superior, e que, aparentemente, eram caluniados pelos seguidores de Yahweh.


Podemos aqui ver muito claramente os traços das mesmas antíteses que as elaboradas por Justino; a influência dos poderes psíquicos ou anjos sendo rastreável ao longo da linha de descendência de Abel, e a dos poderes espirituais ao longo da linha de Caim.

Abel era o ofertante de sacrifícios de sangue, enquanto Caim oferecia os frutos do campo.

Este artifício antitético, de uma forma ou de outra, era bastante comum — como, por exemplo, as antíteses ebionitas posteriores de homens superiores e inferiores (Isaac-Ismael, Jacó-Esaú, Moisés-Aarão), ou as antíteses marcionitas do Deus da liberdade e o Deus da lei, o Deus do Cristo e o Yahweh do Antigo Testamento — mas a escola cujas doutrinas estamos descrevendo parece, em seu desprezo por Yahweh, ter levado suas teorias à conclusão mais extravagante de todas.

Isto é especialmente evidenciado em suas ideias sobre a história do Novo Testamento, que, apesar de sua estranheza, podem, no entanto, conter um pequeno traço da verdadeira tradição sobre a causa da morte de Jesus.

Este círculo gnóstico tinha uma série de escritos,

Judas.

entre os quais os principais eram dois pequenos resumos

de instrução, um chamado O Evangelho de Judas,

e o outro A Ascensão de Paulo.

Para tomar

este último primeiro; A Ascensão de Paulo pretendia

OS CHAMADOS CAINITAS.

conter o registro das coisas inefáveis que Paulo é relatado ter visto quando ascendeu ao terceiro céu.

Se este era o mesmo que O Apocalipse de Paulo referido por Agostinho é incerto; em qualquer caso, está perdido.

Uma versão mais ortodoxa de um dos documentos do mesmo ciclo chegou até nós em *A Visão de Paulo*, cuja tradução pode ser lida no último volume da *Biblioteca Cristã Ante-Nicena* (1897). Se pudermos confiar nesse título, pelo qual somente Epifânio é responsável, a escola dos cainitas é, consequentemente, pós-paulina.

Mas o desenvolvimento mais estranho e, de certo ponto de vista, mais interessante de sua teoria foi a visão que tinham de Judas.

A tradição dos "Pobres" (ebionita) havia consistentemente entregue Judas à execração universal; havia, no entanto, aparentemente outra tradição, presumivelmente essênia em primeiro lugar, que via a questão de maneira diferente.

Traços obscuros disso parecem ser preservados no relato pouco inteligente de Irineu-Epifânio sobre as doutrinas cainitas.

Esse círculo de estudiosos considerava Judas um homem muito avançado na disciplina da Gnose, e alguém que tinha uma ideia muito clara do Deus verdadeiro, em distinção ao Deus da geração; ele consequentemente ensinava uma completa separação das coisas do mundo e, assim, do poder inferior, que havia feito o céu, o mundo e a carne.

O homem deveria ascender à região mais alta através da crucificação do Cristo.

O Cristo era o espírito que desceu do alto, para que o poder mais forte do mundo espiritual fosse aperfeiçoado no homem; e assim Jesus triunfou sobre o poder mais fraco da geração às custas de seu corpo, que ele entregou à morte, uma das manifestações do Deus da geração.


Essa era a doutrina cristológica da escola, e aparentemente, a julgar pelo "ele diz" de Epifânio, foi tirada do *Evangelho de Judas*.

Mas, além desse ensinamento místico geral, havia Um Fragmento de também uma tradição histórica: que Jesus, depois de

História.

tornar-se o Cristo e ensinar a doutrina superior, decaiu, na opinião deles, e procurou subverter a lei e corromper a santa doutrina, e portanto Judas o entregou às autoridades.

Ou seja, aqueles a quem Jesus originalmente ensinou a doutrina superior consideravam que sua pregação demasiado aberta ao povo era uma divulgação dos Mistérios, e assim finalmente ocasionou sua condenação por blasfêmia pelas autoridades judaicas ortodoxas.

Contudo, outra tradição mais mística, preservada em um de seus livros, declarava que, ao contrário, o Cristo não havia cometido um erro, mas que tudo fora feito segundo a sabedoria celestial.

Pois os governantes do mundo sabiam que, se o Cristo fosse traído para a cruz, isto é, fosse encarnado, o poder inferior seria drenado deles e eles ascenderiam ao éon espiritual.

Ora, Judas sabia disso e, em sua grande fé, usou todos os meios para efetuar Sua traição, e assim a salvação do mundo.

Esses gnósticos, consequentemente, louvavam Judas como um dos principais

OS CARPOCRATIANOS.

fatores no esquema da salvação; sem ele, a mística "salvação da cruz" não teria sido consumada, nem a consequente revelação dos reinos superiores.

O círculo cainita, portanto, a julgar por suas doutrinas, parece ter sido de rígidos ascetas.

Mas, diz Epifânio, bordando sobre Irineu, eles eram pessoas muito terríveis e, como Carpócrates, ensinavam que um homem não poderia ser salvo sem passar por todo tipo de experiência.

Passaremos agora, portanto, a uma breve análise das visões dos Carpocratianos.

OS CARPOCRATIANOS.

Nossa principal fonte de informação é Irineu; Tertuliano, Hipólito e Epifânio simplesmente copiam seu predecessor.

Carpócrates, ou Carpocras, foi (segundo Eusébio) um filósofo platônico que ensinou em Alexandria no reinado de Adriano (d.C. 117-138); ele também era o chefe de um círculo gnóstico, a quem os pais da Igreja chamam de carpocratianos, mas que se autodenominavam simplesmente gnósticos.

No que diz respeito à acusação que Epifânio lhes faz duzentos e cinquenta anos depois, ela está evidentemente fundada em um completo mal-entendido do relato confuso de Ireneu, senão em má-fé premeditada; pois o Bispo de Lião declara distintamente que de modo algum acredita que eles tenham feito as coisas que ele pensa que deveriam ter feito, se tivessem consistentemente levado a cabo os seus ensinamentos! De fato, toda a confusão surge da incapacidade do último Padre da Igreja de compreender os elementos da doutrina do renascimento.


Os principais princípios da escola eram os seguintes:

O mundo sensível foi feito pelos poderes fabricadores, ou construtores, muito inferiores ao poder inefável do desconhecido Pai ingenerável.

JESUS era filho de José e Maria, e nasceu como todos os outros homens; ele diferia dos demais em que a sua alma, sendo forte e pura, lembrava-se do que vira na sua órbita ao redor do Pai inefável.

Esta é também a ideia subjacente às tradições pitagórica, platônica e hermética do curso ordenado da alma em circuito harmonioso ao redor do Sol Espiritual.

na Planície da Verdade, quando está em sua própria natureza.

Em consequência dessa reminiscência, que é a fonte de toda sabedoria e virtude, o Pai o revestiu de poderes, pelos quais ele poderia escapar do domínio dos governantes do mundo.

e, passando através de todas as suas esferas, e sendo libertado de cada uma, finalmente ascender ao Pai.

Da mesma maneira, todas as almas de natureza semelhante que empreendem esforços similares ascenderão ao Pai.

Embora a alma de Jesus tenha sido criada nas concepções judaicas comuns, ele se elevou acima delas, e assim, pelos poderes que recebeu do alto, triunfou sobre as paixões humanas.

Acreditando, então, que todas as almas que se elevam acima das restrições dos governantes construtores do mundo receberão poderes semelhantes e realizarão feitos análogos, esses gnósticos ainda mais afirmavam que alguns do seu número haviam realmente alcançado o mesmo grau de perfeição que Jesus, senão um mais elevado.

OS CARPOCRACIANOS.

grau, e eram mais fortes do que Pedro e Paulo, e os outros Apóstolos que haviam alcançado poderes semelhantes.

Na verdade, ensinavam ousadamente que os homens poderiam alcançar graus mais elevados de iluminação do que Jesus; não está claro, porém, se faziam a distinção usual entre Jesus e o Cristo.

Esses poderes eram de natureza "mágica", e o próximo parágrafo de Irineu nos lembra fortemente os princípios da escola "simoniana".

Tais ideias parecem ter sido muito prevalentes, tanto que Irineu se queixa de que os de fora eram induzidos a pensar que tais visões eram a crença comum do Cristianismo.

O próximo parágrafo trata da doutrina

de que não há mal essencial no universo, mas que as coisas são más e boas apenas na opinião do homem.

Vejamos, portanto, como Irineu, a partir de seu resumo da doutrina do renascimento, chega a essa generalização.

A alma tem de passar por toda espécie de existência e atividade em seu ciclo de renascimento.

Irineu aparentemente extrai sua informação de um manuscrito que afirmava que isso poderia ser feito em uma única vida; isto é, aparentemente, que algumas almas então existentes no mundo poderiam pagar sua dívida cármica em uma vida.

Pois o manuscrito cita o ditado: "Concorda depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e sejas lançado na prisão.

Em verdade te digo que de lá não sairás até que pagues o último ceitil." Ora, o adversário é o acusador (diabolus), isto é, o registro cármico na própria natureza do homem; o juiz é o chefe dos poderes construtores do mundo; o oficial é o construtor do novo corpo; a prisão é o corpo.


Assim, o manuscrito explica o texto — precisamente a mesma exegese que lhe é dada no tratado Pistis Sophia, que explica tudo da maneira mais completa nas linhas da reencarnação e do que os filósofos indianos chamam de karma.

Mas não será assim que Ireneu o entenderá. Ele afirma que a doutrina significa que a alma deve passar por toda a experiência, boa e má, e até que toda experiência tenha sido aprendida, ninguém pode ser libertado.

Que algumas almas possam fazer tudo isso em uma só vida! Que os carpocracianos, portanto, devem ter-se entregado aos crimes mais indizíveis, porque desejavam completar a soma de toda a experiência, boa e má, e assim chegar ao fim da necessidade da experiência.

Ireneu, no entanto, imediatamente depois acrescenta que não acredita que os carpocracianos realmente pratiquem tais coisas, embora seja forçado a deduzir tal consequência lógica de seus livros.

É, porém, evidente que toda a conclusão absurda se deve inteiramente à estupidez do Bispo de Lyon, que, devido à sua incapacidade de compreender os fatos mais elementares da doutrina da reencarnação, partiu de premissas inteiramente errôneas, embora a questão fosse clara como a luz do dia para um iniciante no gnosticismo.

Diz-se que o círculo dos carpocracianos estabeleceu uma filial em Roma, por volta de 150, sob uma

"EPIFÂNIO."

certa Marcellina.

Eles tinham imagens e estátuas de muitos grandes mestres que eram honrados por sua escola, tais como Pitágoras, Platão e Aristóteles, e também um retrato de Jesus.

É curioso notar que Celso, citado por Orígenes (c. 62), ao referir-se a esses marcelianos, menciona também os harpocracianos, que derivavam seus ensinamentos de Salomé.

Será possível que esta seja a forma correta do nome, e não carpocracianos? Harpócrates era a forma helenizada de Hórus, o Deus dos Mistérios dos egípcios; e Salomé, sabemos, era uma figura proeminente no Evangelho perdido segundo os Egípcios.

"EPIFÂNIO."

PASSAMOS agora às lendas contraditórias e manifestamente absurdas que os escritores patrísticos teceram em torno do segundo nome mais conhecido do círculo carpocraciano.

Já nos referimos ao extraordinário erro de Epifânio, que atribuiu a este Epifanes todo um sistema da Gnose, que encontrou em Irineu designado simplesmente a um "distinto mestre" (provavelmente o valentiniano Marco); pois o grego para "distinto" também é "epifanes".

Isso é desculpável em certa medida, visto que Epifânio escreveu no final do século IV (pelo menos 250 anos após a época do verdadeiro Epifanes), quando quaisquer meios de desacreditar um herege eram considerados justificáveis; mas o que diremos de Clemente de Alexandria, que é geralmente justo, e que viveu no mesmo século que Epifanes? Seu erro é ainda mais extraordinário.


Esta é a sua lenda.

Epifanes era filho de Carpócrates e Alexandria, uma senhora de Cefalônia.

Morreu na tenra idade de dezessete anos, e foi adorado como um deus com os ritos mais elaborados e lascivos pelos cefalônios, no grande templo de Same, no dia da lua nova.

Uma lenda tão extraordinária não poderia escapar por muito tempo à crítica penetrante da erudição moderna, e já em Mosheim foi encontrada a chave do mistério.

Volkmar desenvolveu isso em detalhe, mostrando que o festival em Same era em honra do deus-lua, e acompanhado de ritos licenciosos.

Era chamado de Epifania (ra 'Eiriajua) em honra de Epifanes (6 'ETnawj?), o "recém-aparecido", a lua nova.

Essa lua durava cerca de dezessete dias.

Assim, Clemente de Alexandria, enganado pela semelhança dos nomes e também pela história dos ritos licenciosos, legou à posteridade um libelo escandaloso.

É quase de se duvidar se algum Epifanes existiu.

Clemente afirma ainda que entre os carpocracianos um de seus livros mais circulados era um tratado Sobre a Justiça, do qual ele vira uma cópia.

Ele atribui isso a Epifanes, mas é quase impossível acreditar que um menino de dezessete anos ou menos pudesse ter composto uma dissertação abstrata sobre a justiça.

Chegamos assim à conclusão de que os

Comunismo.

carpocracianos, ou harpocracianos, eram um gnóstico

círculo em Alexandria no início do
segundo século, e que algumas de suas ideias foram
"EPÍFANES."
expostas em um livro sobre a justiça, uma cópia do qual havia chegado
às mãos de Clemente.

Essa comunidade gnóstica estava muito preocupada com a ideia de comunismo
como praticado pelos primeiros círculos cristãos; sendo também estudiosos de Platão,
desejavam reduzir a ideia à forma de um princípio filosófico
e levá-la à sua conclusão lógica.

As falsas ideias de "meu" e "teu" não deveriam mais existir; a propriedade privada
era a origem de todas as misérias humanas e o afastamento dos dias felizes
da liberdade primitiva.

Haveria, portanto, comunidade de tudo,
esposas e maridos incluídos — levando assim, de alguma forma, à prática
aquela curiosíssima ideia de Platão, conforme exposta em A República.

Não temos, contudo, evidência confiável de que nossos
gnósticos tenham colocado essas ideias em prática; também é altamente
improvável que homens de educação e refinamento, como os gnósticos
geralmente eram, que chegaram a tais visões através da disciplina pitagórica
e platônica, e através dos ensinamentos de Jesus — a condição
sine qua non de tais comunidades ideais sendo que elas deveriam consistir de
"gnósticos" e ser governadas por "filósofos" — tenham transformado
suas reuniões em orgias de lascívia.

Tal, contudo, é a acusação trazida contra eles por Clemente.

Isso já foi em parte refutado pelo que foi dito acima;
mas não é improvável que houvesse comunidades em Alexandria e em outros lugares,
chamando-se cristãs, que de fato confundissem as Ágapes ou Festas do Amor
dos primeiros tempos com as orgias e festas da população ignorante.

Os pagãos traziam tais acusações contra os cristãos indiscriminadamente,
e as seitas cristãs umas contra as outras; e é bastante crível
que tais abusos tenham se infiltrado entre os ignorantes e viciosos.

A escola carpocraciana tem sido às vezes
reivindicada, embora eu pense que impropriamente, como a origem
da chamada Gnose Mônada.


Esta ideia foi desenvolvida em muitos detalhes por Neander. O seguinte resumo de Salmon será, no entanto, suficiente para o leitor comum formar uma ideia da teoria.

"De uma Mônada eterna fluiu toda a existência, e para ela esta se esforça por retornar. Mas os espíritos finitos que governam várias porções do mundo contrariam esse esforço universal em direção à unidade. Deles procederam as diferentes religiões populares, e em particular a judaica. A perfeição é alcançada por aquelas almas que, guiadas por reminiscências de suas condições anteriores, elevam-se acima de toda limitação e diversidade para a contemplação da unidade superior. Elas desprezam a restrição imposta pelos espíritos mundanos; consideram os aspectos externos como sem importância, e a fé e o amor como os únicos essenciais; entendendo por fé, a meditação mística da mente absorta na unidade original. Dessa maneira, escapam ao domínio dos espíritos mundanos finitos; suas almas são libertadas do aprisionamento na matéria, e obtêm um estado de perfeito repouso (correspondente ao Nirvana budista) quando ascendem completamente acima do mundo da aparência."

CERINTO.

CERINTO.

CONTINUANDO a abrir caminho de volta ao longo desse rastro em direção aos tempos das origens, chegamos em seguida ao círculo dos cerintianos (ou merintianos, segundo a variante de Epifânio). Diz-se que derivam seu nome de um certo Cerinto, situado nos "tempos apostólicos", isto é, na segunda metade do primeiro século.

Epifânio ocupou-se excessivamente com Cerinto e, habilmente, fez dele um bode expiatório para a antagonismo dos "apóstolos-colunas" a Paulo. A maioria dos escritores seguiu sua liderança e explicou uma série de declarações comprometedoras nos Atos e nas Cartas Paulinas por meio desse artifício. A crítica imparcial, no entanto, deve rejeitar as elucubrações do tardio Epifânio e retornar ao breve relato de Ireneu, do qual todos os escritores posteriores copiaram. Ireneu, que viveu um século inteiro após Cerinto, tem apenas um breve parágrafo sobre o assunto.

Cerinthus é o traço mais forte entre o Ebionismo, ou a tradição externa original não-paulina, e o início do segundo século.

Supõe-se que ele tenha tido contato pessoal com João, o suposto escritor do quarto Evangelho; mas a mesma história é contada sobre o mítico Ebion, e deve, portanto, ser descartada como destituída de todo valor histórico.

Diz-se que Cerinthus foi instruído na "disciplina egípcia" e que ensinou na Ásia Menor.

A disciplina egípcia supõe-se que signifique a escola filônica, mas isso é mera suposição.


Em todo caso, a importância de Cerinthus, a quem alguns

Escritor do Apocalipse.

gnósticos afirmavam ter sido o escritor do Apocalipse ortodoxamente atribuído a João, é que seu nome preservou uma das formas mais antigas da tradição cristã.

Sua cosmogonia declarava a estupenda excelência do Deus sobre todos, além do poder subordinado, o Arquitetor do Mundo.

Sua cristologia declarava que Jesus era filho de José e Maria; que no seu "batismo" o Cristo, o "Pai em forma de pomba", desceu sobre ele, e somente então ele começou a profetizar e a realizar obras poderosas, e a pregar o até então desconhecido Pai (desconhecido para os judeus), o Deus sobre todos.

Que o Cristo então o deixou; e então Jesus sofreu e ressuscitou (isto é, apareceu aos seus seguidores após a morte).

Tal é o relato de Ireneu, que parece ser direto e confiável o suficiente até onde vai.

A escritura dos cerintianos não era a recensão dos Ditos atribuídos a "Mateus", mas uma coleção ainda mais antiga em hebraico.

Todas as outras coleções e recensões eram rejeitadas como totalmente apócrifas.

Diz-se que o escritor grego do quarto Evangelho canônico compôs seu relato em oposição à escola de Cerinthus, mas essa hipótese não é corroborada por nenhuma evidência.

NICOLAUS.

NICOLAUS.

Chegamos agora a tempos tão remotos que até o mais tênue lampejo de luz histórica nos falta; estamos "as coisas que odeio.

profundamente na sombria região da lenda e da especulação.

Não mergulharemos, portanto, mais fundo nas profundezas escuras da caverna das origens, mas refaremos nossos passos até a boca da caverna, onde ao menos alguns clarões intermitentes de luz do dia lutam para atravessar.

Mas antes de fazê-lo, devemos chamar a atenção do leitor para uma sombra apenas perceptível do Gnosticismo primitivo: o círculo dos Nicolaitas.

Esses Gnósticos são de especial interesse para os ortodoxos, porque o autor do Apocalipse saiu duas vezes de seu caminho para nos dizer que odeia suas obras.

Encorajado por essa frase, Irineu inclui os Nicolaitas na condenação que o escritor faz de alguns membros da igreja de Pérgamo, que aparentemente "comiam coisas sacrificadas aos ídolos e cometiam fornicação". Os heresiólogos subsequentes, por sua vez encorajados por Irineu, acrescentaram mais adornos, até que finalmente Epifânio faz de Nicolau o pai de toda enormidade que ele havia coletado ou inventado contra os Gnósticos.

E então, com toda essa "evidência" de sua iniquidade diante de si, Epifânio prossegue retoricamente a se dirigir à sombra do infeliz Gnóstico: "O que, então, hei de dizer-te, ó Nicolau?" Quanto a nós, ficamos surpresos que um gênio tão inventivo quanto o Bispo de Salamina tenha sequer respirado para fazer uma pergunta tão retórica.


A tradição reivindica Nicolau como um asceta e relata um exemplo exagerado de sua liberdade da paixão.

Mesmo que se conceda que ele ensinasse que comer víveres sacrificiais não era um pecado mortal, não parece haver razão para que hoje sigamos esses Padres da Igreja em sua condenação de tudo, exceto de sua própria visão particular da doutrina do Cristo.

CERDO.

Voltemos agora ao crepúsculo histórico do segundo século, e dirijamos nossa atenção aos grandes desenvolvimentos basilidianos e valentinianos.

Mas antes de fazê-lo, será conveniente dar um breve esboço do grande e contemporâneo movimento marcionita, que em um tempo ameaçou absorver toda a Cristandade.

O método desta escola foi o protótipo direto do método da crítica moderna.

Suas conclusões, no entanto, eram muito mais abrangentes; pois não apenas rejeitava inteiramente o Antigo Testamento, mas também todos os documentos da escola de compilação dos Evangelhos "para que se cumprisse".

Diz-se que o predecessor de Marcião foi um certo Cerdão, de origem síria, que floresceu em Roma por volta de 135 d.C. Mas a fama de Marcião eclipsou de tal forma o nome de seu preceptor, que os escritores patrísticos frequentemente confundem não apenas seus ensinamentos, mas até os próprios homens.

É interessante notar que, embora a relação de Cerdão com a Igreja de Roma fosse instável, nenhuma sentença distinta de

MARCIÃO.

excomunhão é registrada contra ele; pareceria, portanto, que a ideia de um cânon rígido de ortodoxia ainda não estava desenvolvida nem mesmo na mente exclusivista do presbitério romano.

Foi sem dúvida o sucesso de Marcião que precipitou a formulação da ideia do cânon na mente da igreja romana, pioneira da ortodoxia subsequente.

MARCIÃO.

MARCIÃO era um rico armador de Sinope, o principal porto do Ponto,

na costa sul do Mar Negro; era também bispo e filho de um bispo.

Sua principal atividade em Roma pode ser situada entre os anos 150 e 160. A princípio, estava em comunhão com a igreja em Roma e contribuiu generosamente para seus fundos; como, no entanto, os presbíteros não conseguiam explicar suas dificuldades e se recusavam a enfrentar as importantes questões que ele lhes apresentava, diz-se que ele ameaçou fazer um cisma na igreja; e aparentemente foi finalmente excomungado.

Mas, na verdade, a origem do marcionismo está inteiramente envolta em obscuridade, e nada sabemos de natureza confiável sobre as vidas de Cerdão ou Marcião.

Os escritores da Igreja do final do segundo século, que são nossas melhores autoridades, não podem contar

A história do início do movimento

O marcionismo.

com qualquer certeza.

Por tudo o que sabemos, Marcião pode ter desenvolvido suas teorias muito antes de veio a Roma, e pode tê-las baseado em informações que colheu e opiniões que ouviu em suas longas viagens.


Isto sabemos: que as visões de Marcião se espalharam rapidamente por "todo o mundo", para usar a frase patrística usual para os domínios greco-romanos; e ainda no século V ouvimos falar de Teodoreto convertendo mais de mil marcionitas.

Na Itália, Egito, Palestina, Arábia, Síria, Ásia Menor e Pérsia, surgiram igrejas marcionitas, esplendidamente organizadas, com seus próprios bispos e o restante da disciplina eclesiástica, com um culto e serviço da mesma natureza que os daquilo que posteriormente se tornou a Igreja Católica.

A ortodoxia ainda não havia declarado favor a nenhum partido, e a visão marcionita tinha então tantas chances quanto qualquer outra de se tornar a universal.

Qual era, então, o segredo do sucesso de Marcião? Como já foi apontado, era o mesmo do sucesso da crítica moderna aplicada ao problema do Antigo Testamento.

A visão de Marcião era, em alguns aspectos, ainda mais A "Crítica moderada do que o julgamento de alguns de nossos pensadores modernos; ele estava disposto a admitir que o Yahweh do Antigo Testamento era justo.

Com grande perspicácia, ele dispôs os ditos e feitos atribuídos a Yahweh pelos escritores, compiladores e editores dos livros heterogêneos da coleção do Antigo Testamento, em colunas paralelas, por assim dizer, com os ditos e ensinamentos do Cristo — em uma série de antíteses que evidenciavam de maneira impressionante o fato de que, embora o melhor dos primeiros pudesse ser atribuído à ideia de um

MARCIÃO.

Deus Justo, eles eram estranhos ao ideal do Deus Bom pregado pelo Cristo.

Sabemos como, nestes últimos dias, as melhores mentes da Igreja rejeitaram os horríveis ditos e feitos atribuídos a Deus em alguns dos documentos do Antigo Testamento, e assim vemos como Marcião formulou um protesto que já devia ter se declarado nos corações de milhares dos mais esclarecidos entre os que levavam o nome cristão.

Quanto ao Novo Testamento, na época de Marcião, a ideia de um cânon ainda não existia, ou estava apenas começando a ser concebida. Marcião também tinha uma ideia de cânon, mas era o antípoda das visões que posteriormente se tornaram a base do cânon ortodoxo.

O Cristo havia pregado uma doutrina universal, uma nova revelação do Deus Bom, o Pai sobre todos.

Aqueles que tentaram enxertar isso no judaísmo, o credo imperfeito de uma pequena nação, estavam em grave erro e haviam compreendido totalmente mal o ensinamento do Cristo.

O Cristo não era o Messias prometido aos judeus.

Esse Messias deveria ser um rei terreno, destinado apenas aos judeus, e ainda não havia chegado.

Portanto, a escola pseudo-histórica do "para que se cumprisse" havia adulterado e deturpado os Ditos originais do Senhor, as boas novas universais, com as glosas ineptas e errôneas que haviam tecido em suas coleções dos ensinamentos.

Foi a mais terrível acusação contra o ciclo da "história" do Novo Testamento que já foi formulada.

Os homens estavam cansados de todas as contradições e obscuridades das inúmeras e mutuamente destrutivas variantes das tradições concernentes à pessoa de Jesus.


Ninguém podia dizer qual era a verdade, agora que a "história" havia sido tão alterada para se adequar à nova teoria messiânica dos convertidos judeus.

Quanto à história real, então, Marcião partiu do

O Evangelho — pois ele foi o primeiro que realmente compreendeu a missão de Paulo.

do Cristo, e havia resgatado o ensinamento do obscurantismo do sectarismo judaico.

Das múltiplas versões do Evangelho, ele queria apenas a paulina.

Ele rejeitou todas as outras recensões, incluindo as agora atribuídas a Mateus, Marcos e João.

O Evangelho segundo Lucas, o "seguidor de Paulo", ele também rejeitou, considerando-o uma recensão para adequar-se às visões do partido judaizante.

Seu Evangelho era, presumivelmente, a coleção de Ditos em uso entre as igrejas paulinas de sua época.

Naturalmente, os escritores patrísticos dizem que Marcião mutilou a versão de Lucas; mas é quase impossível acreditar que, se ele o fez, um crítico tão perspicaz quanto Marcião tivesse retido certos versículos que militavam contra suas fortes visões antijudaicas.

Os marcionitas, ao contrário, sustentavam que seu Evangelho fora escrito por Paulo a partir da tradição direta, e que Lucas não tivera nada a ver com ele. Mas isso também é uma dificuldade, pois é altamente improvável que Paulo tenha escrito qualquer Evangelho.

Tantos apologistas ortodoxos escreveram contra Marcião após sua morte, que é possível reconstruir quase todo o seu Evangelho.

Ele começa com a pregação pública do Cristo em Cafarnaum; é mais curto que o atual documento de Lucas, e alguns escritores de grande habilidade sustentaram que era o original da versão de Lucas, mas isso não é muito crível.

MARCIÃO.

Quanto ao restante dos documentos incluídos na atual coleção do Novo Testamento, Marcião não queria nada com nenhum deles, exceto dez das Cartas de Paulo, partes das quais ele também rejeitou como interpolações feitas pelos reconciliadores da controvérsia petro-paulina.

Essas dez Cartas foram chamadas de O Apóstolo.

A mais longa crítica às visões de Marcião encontra-se na invectiva de Tertuliano, *Contra Marcião*, escrita em 207 e nos anos seguintes.

Isso sempre foi considerado pelos ortodoxos como uma obra brilhantíssima; mas à luz das conclusões a que chegou a diligência da crítica moderna, e também ao senso comum ordinário, parece apenas uma triste peça de retórica irada.

Tertuliano tenta mostrar que Marcião ensinava dois Deuses, o Justo e o Bom.

Marcião, no entanto, ensinava que a ideia que os judeus tinham de Deus, conforme exposta no Antigo Testamento, era inferior e antagônica ao ideal do Deus Bom revelado pelo Cristo.

Isso ele expôs na costumeira moda gnóstica.

Mas dificilmente podemos esperar um tratamento imparcial de um grave problema, que só nos últimos anos alcançou uma solução satisfatória na Cristandade, da parte do violento Tertuliano, cujo temperamento pode ser depreendido de sua irada alocução aos marcionitas: "Agora, então, vós, cães, a quem o apóstolo põe para fora, e que ladrais contra o Deus da verdade, venhamos às vossas várias questões! Estes são os ossos de discórdia que roeis perpetuamente!" Basta o que foi dito para dar ao leitor uma ideia geral da posição marcionita — uma posição muito forte, deve-se admitir, tanto por sua simplicidade quanto porque formulou o protesto de um descontentamento há muito adormecido entre as comunidades externas.


É, contudo, difícil deduzir algo como um sistema claro de cosmogonia ou cristologia a partir dos ataques dos mais conhecidos heresiólogos às doutrinas marcionitas.

Chegou mesmo a ser duvidado se Marcião deveria ser classificado como gnóstico, mas essa questão é resolvida pela obra de Eznik (Eznig ou Esnig), um bispo armênio, que floresceu por volta de 450 d.C. Em seu tratado *A Destruição das Falsas Doutrinas*, ele dedica o quarto e último livro aos marcionitas, que parecem ter sido, mesmo nessa data tardia, um corpo florescente.

Embora se duvide se as ideias ali descritas são precisamente as mesmas do sistema original de Marcião, é evidente que a tradição marcionita era de tendência distintamente gnóstica, e que Marcião devia mais a seus predecessores no gnosticismo do que geralmente se supunha antes da primeira tradução do tratado de Eznik (para o francês) em 1833.

Será suficiente aqui resumir o resumo de Salmon desse curioso mito marcionita, chamando a atenção do leitor para a semelhança de partes de sua estrutura com o sistema de Justino.

Havia três Céus; no mais alto estava o Deus Bom; no intermediário, o Deus da Lei; no mais baixo, seus Anjos.

Abaixo jazia Hyle, ou matéria-prima.

O mundo era o produto conjunto do Deus da Lei e de Hyle.

O Criativo A Marcionit...

O Poder, percebendo que o mundo era muito bom, desejou fazer o homem para habitá-lo. Assim, Hyle deu-lhe o seu corpo, e o Poder Criativo o sopro da vida, o seu espírito.

E Adão e Eva viveram em inocência no Paraíso, e não geraram filhos.

E o Deus da Lei desejou tomar Adão de Hyle e fazê-lo servi-lo somente a ele.

Então, tomando-o à parte, disse: "Adão, eu sou Deus e fora de mim não há outro; se adorares qualquer outro Deus, morrerás a morte." E Adão, ao ouvir falar da morte, teve medo e se afastou de Hyle.

Ora, Hyle costumava servir a Adão; mas quando ela percebeu que ele se afastava dela, em vingança encheu o mundo de idolatria, de modo que os homens cessaram de adorar o Senhor da Criação.

Então o Criador se irou, e à medida que os homens morriam, lançava-os no Inferno (Hades — o Mundo Invisível), desde Adão em diante.

Mas por fim o Deus Bom olhou do Céu e viu as misérias que o homem sofria por meio de Hyle e do Criador.

E Ele teve compaixão deles, e enviou-lhes o Seu Filho para libertá-los, dizendo: "Desce, assume a forma de um servo [? um corpo], e faze-te semelhante aos filhos da Lei.

Cura as suas feridas, dá vista aos seus cegos, traz os seus mortos à vida, realiza sem recompensa os maiores milagres de cura; então o Deus da Lei terá ciúmes e instigará os seus servos a crucificar-te.

Então desce ao Inferno, que abrirá a sua boca para receber-Te, supondo que Tu és um dos mortos.


Então liberta os cativos que ali encontrares, e traze-os a Mim."

E assim as almas foram libertadas do Inferno e levadas ao Pai.

Com isso, o Deus da Lei se enfureceu, e rasgou as suas vestes, e rasgou o véu do seu palácio, e escureceu o sol e envolveu o mundo em trevas.

Então o Cristo desceu uma segunda vez, mas agora na glória da Sua divindade, para pleitear com o Deus da Lei.

E o Deus da Lei foi compelido a reconhecer que havia errado ao pensar que não havia poder mais elevado do que ele mesmo.

E o Cristo disse-lhe: "Tenho uma contenda contigo, mas não tomarei outro juiz entre nós senão a tua própria lei.

Não está escrito na tua lei que quem matar a outro será ele mesmo morto; que quem derramar sangue inocente terá o seu próprio sangue derramado? Deixa-me, então, matar-te e derramar o teu sangue, pois sou inocente e tu derramaste o Meu sangue."

E então Ele passou a enumerar os benefícios que havia concedido aos filhos do Criador, e como em troca fora crucificado; e o Deus da Lei não pôde encontrar defesa, e confessou e disse: "Eu estava ignorante; pensei que Tu eras apenas um homem, e não Te reconheci como um deus; toma a vingança que Te é devida."

E o Cristo, então, deixou-o, e dirigiu-se a Paulo, e revelou o caminho da verdade.

Os marcionitas eram os mais rígidos dos ascetas, abstendo-se do casamento, da carne e do vinho, sendo este último excluído da sua Eucaristia.

Eles também

MARCION.

regozijavam-se acima de todas as outras seitas no número dos seus mártires.

Os marcionitas também nos deram o Título mais antigo de inscrição cristã datada.

Foi descoberta sobre o portal de uma casa numa aldeia síria, e antigamente marcava o local de uma casa de reunião ou igreja marcionita, que curiosamente era chamada de sinagoga.

A data é 1º de outubro de 318 d.C., e o ponto mais notável sobre ela é que a igreja era dedicada a "O Senhor e Salvador Jesus, o Bom" — Chrestos, não Christos.

Nos tempos primitivos, parece ter havido muita confusão entre os dois títulos.

Christos é o grego para o hebraico Messias, Ungido, e era o título usado por aqueles que acreditavam que Jesus era o Messias judeu.

Isso foi negado, não apenas pelos marcionitas, mas também por muitos dos seus predecessores e sucessores gnósticos.

O título Chrestos era usado para designar alguém aperfeiçoado, o santo, o sagrado; sem dúvida, em dias posteriores, os ortodoxos, que subsequentemente tiveram a edição exclusiva dos textos, por pura ignorância mudaram Chrestos para Christos onde quer que ocorresse; de modo que, em vez de encontrar a promessa de perfeição na história religiosa de todas as nações, eles a limitaram apenas à tradição judaica, e desferiram um golpe fatal na universalidade da história e da doutrina.

Havia naturalmente várias sub-escolas da escola de Marcião, e em suas fileiras estavam vários professores distintos, dos quais, no entanto, só temos espaço para mencionar Apeles.


Sua Ampla Tolerância.

APELES.

Devemos nossas informações mais confiáveis sobre esse gnóstico a um certo Rodon, que se opôs às suas visões em algum momento durante o reinado de Cômodo (180-193 d.C.); um excerto dessa "refutação" perdida foi felizmente preservado para nós por Eusébio.

Nessa época, Apeles era um homem muito velho e recusou a controvérsia, dizendo que todos os crentes sinceros seriam finalmente salvos, qualquer que fosse sua teologia — uma doutrina muito esclarecida e digna do melhor do gnosticismo.

Como Hort diz: "A imagem que Rodon, sem querer, fornece de sua [de Apeles] velhice é agradável de se contemplar. Vemos um homem incansável na busca da verdade, modesto e tolerante, descansando em crenças que não conseguia conciliar, mas estudioso em manter o caráter moral da teologia."

Apeles parece ter assumido uma posição menos exclusiva do que Marcião, embora seu livro de Raciocínios, dirigido contra a teologia mosaica, pareça ter sido drástico o suficiente; e diz-se ainda, por Eusébio, que ele escreveu uma "multidão de livros" da mesma natureza.

Ele foi, no entanto, especialmente repreendido por sua crença na faculdade clarividente de uma certa Filomena, que ele encontrou em sua velhice. Suas visões foram registradas em um livro chamado The Manifestations, ao qual Apeles dava grande valor.

Estranhamente, o homem que derrama sobre sua cabeça o maior abuso por isso, acompanhado

APELES.

com as habituais acusações de imoralidade, é Tertuliano, que, em seu próprio tratado Sobre a Alma, seguindo suas convicções montanistas, confessa sua plena crença no poder profético de certa vidente de sua própria congregação, de maneira bastante divertida e ingênua! Rodon, ao contrário, que conheceu Apeles pessoalmente em Alexandria, diz que o velho senhor se considerava protegido de tais insinuações caluniosas por sua idade e caráter bem conhecido.

Filumena parece ter gozado de certas faculdades psíquicas e também ter sido um "medium" para fenômenos físicos, como diria um espiritualista moderno.

Ela pertencia à classe das santas mulheres ou "virgens", que eram numerosas o suficiente na Igreja primitiva, embora seja extremamente duvidoso se alguma delas fosse vidente treinada, exceto nos círculos gnósticos mais avançados.

Há um relato divertido de Filumena em um curioso fragmento de um autor anônimo, que foi impresso nas primeiras edições da obra de Agostinho Sobre as Heresias, na seção dedicada aos severianos.

O seguinte é a versão de Hort da passagem:

"Ele [Apeles] além disso costumava dizer que uma certa moça chamada Filumena era divinamente inspirada para predizer eventos futuros.

Ele costumava referir a ela seus sonhos e as perturbações de sua mente, e a prevenir-se secretamente por meio de suas adivinhações ou presságios." [Aqui algumas palavras parecem estar faltando.] "O mesmo fantasma, dizia ele, mostrava-se à mesma Filumena na forma de um menino.

Esse aparente menino às vezes declarava ser Cristo, às vezes Paulo.

Ao interrogar esse fantasma, ela costumava fornecer as respostas que pronunciava aos seus ouvintes.

Ele acrescentava que ela estava acostumada a realizar algumas maravilhas, das quais a seguinte era a principal: ela costumava fazer um grande pão entrar em um vaso de vidro com uma boca muito pequena, e retirá-lo ileso com as pontas dos dedos; e contentava-se com esse alimento apenas, como se lhe tivesse sido dado do alto."

Tudo o que é muito monástico e muito espiritualista, e bastante condizente com os registros do fenomenalismo.

Devemos, no entanto, lembrar que este relato não provém do lado dos gnósticos, mas de uma fonte hostil.

Talvez nunca venhamos a saber se Apeles tinha conhecimento das fontes dos fenômenos que testemunhou; ou se, como a vasta maioria daquela época, e de fato de todas as épocas, assumiu ignorantemente que o fato dos poderes psíquicos provava a verdade das doutrinas teológicas.

A GNOSE BASILIDIANA.


Voltemos agora aos primeiros anos do segundo século, e dediquemos nossa atenção a Basílides e seus seguidores ("os de Basílides"), que elaboraram um dos sistemas mais abstrusos e coerentes da Gnose, cujos contornos são claramente recuperáveis dos fragmentos deturpados que as polêmicas patrísticas nos deixaram.

Da vida deste grande doutor da Gnose nada sabemos além do fato de que ensinou em Alexandria.

Sua data é inteiramente conjectural; supõe-se, no entanto, que tenha sido imediatamente anterior a Valentino.

Se, portanto, dissermos que ele floresceu por volta de 120-180 d.C., deve-se entender que uma margem de dez anos ou mais, para um lado ou para o outro, deve ser permitida.

De sua nacionalidade, novamente, nada sabemos.

Mas fosse ele grego, egípcio ou sírio, estava imerso na cultura helênica e erudito na sabedoria dos egípcios.

Era também versado nas Escrituras Hebraicas conforme apresentadas na versão grega dos Setenta.

O ensino evangélico era seu deleite, e escreveu nada menos que vinte e quatro livros de comentários sobre o mesmo, embora não pareça ter usado as versões posteriormente canônicas.

Ele também cita várias das Cartas Paulinas.

Dos escritos de Basílides, os mais importantes foram os comentários já referidos; foram os primeiros comentários sobre os ensinamentos evangélicos escritos por um filósofo cristão; e nisto, como em todos os outros departamentos da teologia, os gnósticos abriram caminho.


Diz-se ainda que Basilides escreveu ele próprio um Evangelho e que afirmava ser discípulo de certo Glaucias, que era um "intérprete de Pedro". Há também menção a certas Tradições de Matias, tidas em grande honra pela escola.

Estas pretendiam ser ensinamentos dados a Matias em segredo por Jesus após a "ressurreição". Pode-se, portanto, supor que o Evangelho de Basilides não era uma nova ambientação histórica dos Ditos do Senhor, mas uma exposição daquele "conhecimento das coisas supramundanas", que era a definição que ele dava ao Evangelho.

Presumivelmente, Basilides escreveu um comentário sobre os Ditos e Feitos do Senhor, que circulavam amplamente em muitas tradições, com ou sem as diversas ambientações históricas; e também a sua própria elaboração de certas instruções internas que haviam sido transmitidas por uma tradição secreta.

Se este Evangelho interno fazia ou não parte dos vinte e quatro livros de suas Exegéticas é duvidoso; a maioria dos críticos, contudo, favorece esta opinião.

Em todo caso, deve-se supor que seus comentários visavam explicar os Ditos e Parábolas públicos à luz deste Evangelho secreto.

Mas há outra hipótese que, se verdadeira, seria de intenso interesse.

Sugere-se que foi Matias, um dos chefes das escolas internas, quem escreveu o esboço original dos Ditos e Feitos subjacente aos nossos relatos sinóticos, e que estes relatos foram expansões feitas por vários presbíteros das igrejas externas no Egito.

O rascunho original era presumivelmente uma Vida destinada à circulação pública, e concebida para ser capaz de uma interpretação segundo os princípios internos da Gnose.

Diz-se também que Basilides escreveu certas Odes, mas destas nenhum fragmento chegou até nós.

Nossas principais fontes de informação para recuperar um esboço da Gnose Basilidiana são três em número, e consistem nas citações muito fragmentárias: (i.) de Hipólito em sua obra posterior, os Filosofúmenos; (ii.) de Clemente de Alexandria em suas Miscelâneas; e (iii.) presumivelmente no primeiro

lugar (ou do perdido Syntagma de Justino, ou) do

perdido trabalho de Agrippa Castor, que é dito por

Eusébio ter escrito uma refutação das opiniões

de Basilides no reinado de Adriano (c. 133 d.C.),

e cujos dados muito insatisfatórios e imprecisos

foram copiados por Ireneu, e pelos epitomadores da

obra anterior, menor, e agora perdida, de Hipólito.

Voltando-nos para a grande obra de Hipólito, deparamo-nos com a mais valiosa informação existente para a reconstrução deste sistema altamente metafísico.

O Pai da Igreja evidentemente tinha diante de si um tratado de Basilides, mas se era o Exegetica ou não, de modo algum é claro; o que é certo, contudo, é que ele expunha o Evangelho, ou "conhecimento das coisas supramundanas", como Basilides o entendia; e só podemos lamentar que não tenhamos o texto original do próprio doutor gnóstico diante de nós, em vez de uma cópia muito defeituosa do texto da Refutação do Pai da Igreja, cujo método é dos mais provocantes.

Hipólito confunde os seus próprios comentários e críticas com citações mutiladas, resume imperfeitamente passagens importantes, que tratam de concepções que exigem a maior sutileza e precisão de linguagem; e em outros aspectos faz escassa justiça a um pensador cuja fé no Cristianismo era tão grande que, longe de confiná-la aos estreitos limites de uma teologia dogmática, ele queria que o Evangelho fosse também uma filosofia universal explicativa de todo o drama mundial.


Elevemos então nossos pensamentos àquelas alturas sublimes às quais o gênio de Basilides alçou voo há tantos séculos, quando a fé nas possibilidades universais das Boas Novas era realmente viva.

E primeiro devemos ascender àquela estupenda intuição da Divindade, que transcende até mesmo o Ser, e que para as mentes estreitas da terra parece puro nada, em vez de ser aquilo que excede toda plenitude.

Além do tempo, além do espaço, além da consciência, além do próprio Ser —

"Houve um tempo em que o nada existia; não, nem mesmo esse 'nada' era algo das coisas que são [mesmo o Benôgd no mundo da realidade]. Mas, nuamente, à parte conjecturas e sofismas mentais, não havia absolutamente nem mesmo o Uno [o Logos do mundo da realidade]. E quando uso o termo 'houve', não quero dizer que existia [isto é, em qualquer estado de ser]; mas meramente para dar alguma sugestão do que desejo indicar, uso a expressão 'absolutamente nada havia'. Pois esse 'nada' não é simplesmente o assim chamado Inefável; está além disso.

Pois aquilo que é realmente inefável não é nomeado Inefável, mas é superior a todo nome que se use.


"Os nomes [que usamos] não são suficientes nem mesmo para o universo [manifestado] [que está fora do mundo do ser real], tão diversificado é ele; eles ficam aquém,"

Muito menos, então, continua ele a argumentar, podemos encontrar nomes apropriados para os seres do mundo da realidade e suas operações; e muito mais impossível, portanto, é dar nomes Àquilo que transcende até mesmo a realidade.

Assim vemos que Basilides elevou-se além até mesmo do mundo ideal de Platão, e ascendeu à intuição intranscendível do Oriente — o Aquilo que não pode ser nomeado, a ser adorado somente em silêncio.

Chegamos agora ao início da Semente da Universalidade, neste estado além do ser, uma Universalidade em estágio discreto, por assim dizer, além até mesmo do mundo não-manifestado ou noumênico.

Hipólito resume esta condição de não-ser, que transcende todo ser, do tratado original, como segue.

"Nada havia, nem matéria, nem substância, nem vacuidade de substância, nem simplicidade, nem impossibilidade-de-composição, nem inconceptibilidade, nem imperceptibilidade, nem homem, nem anjo, nem deus; em suma, nem qualquer coisa alguma para a qual o homem jamais encontrou um nome, nem qualquer operação que caia no âmbito de sua percepção ou concepção."

Tal, ou antes, muito mais afastado do poder de compreensão do homem, era o estado de não-ser, quando [se é que podemos falar de "quando" num estado além do tempo e do espaço] a Divindade além do ser, sem pensar, ou sentir, ou determinar, ou escolher, ou ser compelida, ou desejar, quis criar a universalidade.

"Quando uso o termo 'vontade'," escreve Basilides, "faço-o meramente para sugerir a ideia de uma operação que transcende toda volição, pensamento ou ação sensível.

E essa universalidade também não era [nosso] universo dimensional e diferenciado, que subsequentemente veio a existir e foi separado [de outros universos], mas a Semente de todos os universos."

Este é evidentemente o mesmo conceito do Mulaprakriti da filosofia indiana, e a mais admirável exposição do dogma da "criação a partir do nada" que já foi apresentada por qualquer filósofo cristão.

"Esta Semente universal continha tudo em si mesma, potencialmente, de alguma maneira semelhante à qual o grão de mostarda contém a planta inteira simultaneamente no ponto mais diminuto — raízes, caule, ramos, folhas e os inúmeros germes que provêm das sementes da planta, e que por sua vez produzem ainda outras e outras plantas em séries múltiplas.

"Assim, a Divindade além do ser criou a universalidade além do ser a partir de elementos além do ser, postulando e fazendo subsistir uma única coisa" — que a pobreza da linguagem nos obriga a chamar de Semente, mas que era na realidade a potencialidade das potencialidades, visto que continha "em si mesma toda a potência-semente do universo." De tal "Semente," que está em toda parte e em lugar nenhum, e que guarda em seu seio tudo o que foi, é ou será, todas as coisas devem vir à manifestação em suas "naturezas próprias e ciclos" e tempos, à vontade da Divindade além de tudo.

Como isso se realiza não é de modo algum claro.

Basílides parece ter tido alguma ideia de um "desenvolvimento suplementar" (κατὰ προστιθεῖσαν αὔξησιν), que, no entanto, está além de toda definição; uma coisa é clara: que ele repudiou inteiramente toda ideia de emanação, projeção ou pululação (προβολή).

"Pois de que sorte de emanação há necessidade, ou de que sorte de matéria devemos supor, Ex Nihilo, para que Deus faça o universo, como uma aranha tece sua teia [a partir de si mesma], ou o homem mortal toma bronze ou madeira ou outra matéria da qual fazer algo? Mas 'Ele falou, e assim foi', e este é o significado do dito de Moisés: 'Haja luz, e houve luz.' Donde, então, veio a luz? Do nada.

Pois não está escrito donde, mas somente da voz daquele que fala a palavra.

E Aquele que falou a palavra não era; e aquilo que foi, não era.

Pois a Semente do universo, a palavra que foi falada, 'Haja luz', veio do estado além do ser.

E isto foi o que foi dito no Evangelho: 'Era a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem ao mundo.' O homem tanto deriva seus princípios dessa Semente como também é por ela iluminado." Esta Luz e Vida primordial é a fonte de todas as coisas.

O próximo estágio trata do resultado, primícias, produto mais elevado, ou consumação mais sublime, da potencialidade universal, que Basílides chama de Filialidade.


"Na Semente absoluta havia uma tríplice A Filialidade. Filialidade em todos os aspectos consubstancial com o Deus além do ser, vindo a ser a partir do estado além do ser.

Desta Filiação triplamente dividida, um aspecto era o mais sutil dos sutis, outro menos sutil, e um terceiro ainda necessitava de purificação — A natureza mais sutil da Filiação, instantânea e imediatamente, juntamente com o depósito da Semente da universalidade pelo Deus além do ser, irrompeu, elevou-se e apressou-se de baixo para cima, "como asa ou pensamento", como canta Homero, e esteve com Ele além do ser [πρὸς τὸν οὐκ ὄντα — "com", a mesma palavra misteriosa do Proêmio agora prefixado ao quarto Evangelho canônico]. Pois toda natureza anseia por Ele por causa de Sua transcendência de toda beleza e amabilidade, mas algumas de um modo e outras de outro.

"A natureza menos sutil da Filiação, por outro lado, permaneceu ainda dentro da Semente universal; pois embora quisesse imitar a superior e ascender, não podia, visto que ficava aquém do grau de sutileza da primeira Filiação, que havia ascendido através dela [a segunda], e assim permaneceu para trás.

A Filiação menos sutil, portanto, teve de encontrar para si, por assim dizer, asas sobre as quais planar, . . . e essas asas são o Espírito Santo."

Assim como uma ave não pode voar sem asas, e as asas não podem planar sem a ave, assim a segunda Filiação e o Espírito Santo são complementares um ao outro, e conferem benefícios mútuos entre si.


Vemos aqui que Basilides está lidando com o segundo aspecto do Logos, o estado positivo-negativo; percebemos também a antecipação do fundamento das grandes controvérsias que subsequentemente surgiram gerações mais tarde, tais como a ariana e a do "Filioque". Mas se indagarmos de onde provinha o Espírito Santo, Basilides nos dirá: da Semente universal, da qual todas as coisas saíram sob a vontade da Divindade.

A segunda Filialidade, então, erguida pelo Espírito, como por uma asa, eleva a asa, isto é, o Espírito Santo; mas, ao aproximar-se da primeira Filialidade e do Deus além do ser, que cria a partir do estado além do ser, já não pôde manter o Espírito consigo, pois este [o Espírito] não era da mesma substância que ela, nem tinha uma natureza semelhante à da Filialidade.

Mas, assim como uma atmosfera pura e seca é antinatural e nociva aos peixes, assim o era para o Espírito Santo aquele estado da Filialidade juntamente com o Deus além do ser — estado mais inefável do que todo inefável e transcendendo todo nome.

A Filialidade, portanto, deixou-o [o Espírito] para trás, perto daquele Espaço Abençoado, que não pode ser concebido nem caracterizado por palavra alguma, embora não inteiramente abandonado nem ainda divorciado da Filialidade.

Mas, assim como o mais suave unguento derramado num vaso, ainda que o vaso seja esvaziado com o máximo cuidado possível, permanece contudo algum perfume do unguento e fica para trás — o vaso retém o perfume do unguento, embora já não contenha o próprio unguento — de tal maneira o Espírito Santo permaneceu esvaziado e divorciado da Filialidade, mas ao mesmo tempo retendo em si, por assim dizer, o poder do unguento, o sabor da Filialidade.

E esta é a palavra: 'Como o unguento sobre a cabeça que descia sobre a barba de Aarão' — o perfume do Espírito Santo permeando de cima e de baixo até mesmo à ausência de forma [matéria bruta] e ao nosso estado de existência, donde a Filialidade [remanescente] recebeu seu primeiro impulso para ascender, erguida como que sobre as asas de uma águia.

Pois todas as coisas se apressam de baixo para cima, do pior para o melhor, nem há nada na condição melhor tão desprovido de inteligência que se precipite para baixo.

Mas esta terceira Filialidade ainda permanece na grande congregação da mistura seminal, conferindo e recebendo benefícios, de um modo que receberá explicação subsequente.


O Espírito Santo, que na realidade permeia tudo, mas fenomenalmente separa o universo sensível do noumênico, constitui o que Basilides denomina Espírito Limitador, a meio caminho entre as coisas cósmicas e supercósmicas.

Este Firmamento está muito além do firmamento visível, cujo lugar é a órbita da lua.

"Após isso, do Germe universal e da conglomeração da mistura de sementes, irrompeu e veio à existência o Grande Governante, a cabeça do universo sensível, uma beleza, magnitude e potência que nada pode destruir." Este é o demiurgo; mas que nenhum mortal pense que pode compreender tão grande ser, "pois ele é mais inefável que os inefáveis, mais potente que as potências, mais sábio que os sábios, superior a toda excelência que se possa nomear."


"Ao vir à existência, ele se elevou, e voou para cima, e foi levado acima em toda a sua totalidade até o Grande Firmamento. Ali permaneceu, porque pensou que não havia ninguém acima dele, e assim se tornou o poder mais potente do universo," exceto a terceira Filialidade que ainda permanecia na mistura de sementes.

Seu limite, portanto, era sua própria ignorância dos espaços supercósmicos, embora sua sabedoria fosse a maior de todas nos reinos cósmicos.

"Assim, pensando-se senhor, e governante, e um sábio mestre-construtor, ele se dedicou à criação das criaturas do universo."

Esta é a criação supercelestial ou etérea, que tem sua correspondência física nos espaços além da lua; abaixo da lua estava nosso mundo e sua "atmosfera". Esta atmosfera (as regiões sublunares) terminava no céu visível, ou firmamento inferior, sua periferia, marcada pelo caminho da lua.

No espaço do sol jaziam os reinos etéreos, que aparentemente nenhum olho mortal viu, mas apenas o reflexo de seus habitantes, as estrelas, na superfície das águas sublunares do espaço.

A criação etérea do Grande Governante procede segundo a teoria da similaridade e analogia.

Primeiro de tudo, o Grande Arconte, achando não ser justo que estivesse sozinho, criou para si mesmo, e trouxe à existência a partir da Semente Universal, uma Criação.

Um Filho muito melhor e mais sábio do que ele próprio.

Pois tudo isto havia sido predeterminado pelo Deus além do ser, quando Ele depositou a Semente Universal.


"E o Grande Arconte, ao contemplar seu Filho, ficou tomado de admiração, amor e assombro diante de sua beleza maravilhosamente grande, e fez com que ele se sentasse à sua direita." E a esse espaço onde está o trono do Grande Arconte chamaram de Ogdoada.

"E o Grande Demiurgo, o sábio, fabricou toda a criação etérea com sua própria mão; mas foi seu Filho, que era ainda mais sábio, quem lhe infundiu energia e lhe sugeriu ideias."

Isto é, que o Grande Arconte fez as criaturas dos espaços etéreos, e estas evoluíram almas, ou antes, foram almas dotadas.

E assim é que o filho é, por assim dizer, maior que o pai, e se assenta à sua direita, ou acima dele; a mão direita no simbolismo gnóstico significando uma condição mais elevada.

Eles também conferem benefícios mutuamente, um dando o corpo e o outro a mente ou alma aos seres etéreos.

Todos os espaços etéreos, então, até a lua, são providos e administrados pelo Filho do Grande Arconte, a consumação ou perfeição de sua evolução ou criação.

"Em seguida, surgiu um segundo Arconte da Semente Universal, muito inferior ao primeiro, mas maior do que todos abaixo dele, exceto a Filialidade que ainda permanecia na Semente." Este era o Arconte dos espaços sublunares, da lua à terra.

Este Arconte é chamado de efável, porque os homens podem falar dele com entendimento, e o espaço sobre o qual ele governa é denominado a Hebdomada.

E o segundo Arconte também "trouxe à existência um Filho muito maior do que ele próprio, a partir da Semente Universal, de maneira semelhante ao primeiro," e a criação inferior foi ordenada da mesma maneira que a superior.

Esta criação inferior é aparentemente ainda uma de matéria sutil.

Quanto à terra, a congregação da mistura de sementes ainda está em nosso próprio estágio ou espaço, e as coisas que acontecem neste estado de existência "acontecem segundo a natureza, como tendo sido primeiramente proferidas por Aquele que planejou o tempo apropriado e a forma e a maneira de proferir as coisas que haviam de ser proferidas.

Das coisas aqui na terra, então, não há chefe especial, nem administrador, nem criador, pois suficiente para elas é aquele plano que o Deus além do ser estabeleceu quando depositou a Semente universal."

Isto é, que o estágio terrestre é o momento entre o passado e o futuro, o ponto de viragem de toda escolha, o campo do novo karma; aqui todas as coisas verdadeiramente estão nas mãos de Deus somente, no mais alto sentido.

Assim, Basilides evita as dificuldades tanto do destino quanto do livre-arbítrio absoluto.

Chegamos agora à soteriologia de Basilides, a redenção e restauração de todas as coisas.

"Quando, então, os planos supercósmicos e todo o universo [etéreo, sublunar e terrestre] Soteriologia.

foram completados, e não havia deficiência," isto é, quando a corrente evolutiva da energia criativa começou a retornar sobre si mesma, "permaneceu ainda para trás na Semente universal a terceira Filialidade, que concede e recebe benefícios."

"Mas era necessário que esta Filialidade também fosse manifestada e restaurada ao seu lugar acima, lá além do mais alto Firmamento, o Espírito Limítrofe do cosmos, com a mais sutil Filialidade, e a segunda que seguiu o exemplo de sua companheira, e o Deus além do ser, assim como está escrito: 'Pois a própria criação geme conjuntamente e está em dores de parto conjuntamente, aguardando a manifestação dos Filhos de Deus'" — a terceira Filialidade.


Os Filhos de Deus são as centelhas divinas, os verdadeiros homens espirituais interiores, que foram deixados para trás aqui na mistura de sementes, "para ordenar e informar e corrigir e aperfeiçoar nossas almas, que têm uma tendência natural para baixo, a permanecer neste estado de existência."

Antes que o Evangelho fosse pregado e a Gnose viesse, o Grande Governante da Ogdoada era considerado, mesmo pelos mais espirituais entre os homens, como o único Deus; no entanto, nenhum nome lhe era dado, porque ele era inefável.

A inspiração de Moisés, porém, veio apenas da Hebdomada, como se pode ver pelas palavras: "Eu sou o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, mas o nome de Deus não lhes dei a conhecer." Esse Deus a quem Moisés e os Profetas deram nomes era da Hebdomada, que é efável, e a inspiração deles veio dessa fonte.

Mas o Evangelho era aquele Mistério que sempre foi desconhecido, não apenas para as nações, mas também para os da Hebdomada e da Ogdoada, e até mesmo para os seus Governantes.

"Quando, portanto, o tempo havia chegado", diz o 21


doutor gnóstico, "para a revelação dos filhos de Deus (que somos nós mesmos), pelos quais toda a criação geme e sofre dores de parto em expectativa, o Evangelho [as Boas Novas, a Gnose] veio ao universo e passou por todo principado, e autoridade, e senhorio, e todo título que o homem possa usar.

Ele 'veio' de verdade, não que algo 'desceu' do alto, ou que a bendita Filialidade tenha partido daquele Deus Bendito além do ser, que transcende todo pensamento.

Não, mas assim como o vapor da nafta pode pegar fogo a partir de uma chama a grande distância da nafta, assim os poderes do espírito dos homens passam de baixo, da falta de forma da conglomerização, para cima, até a Filialidade.

"O Filho do Grande Governante da Ogdoada, incendiando-se por assim dizer, apodera-se e captura as ideias da bendita Filialidade além do Espírito Limítrofe.

Pois o poder da Filialidade que está no meio do Espírito Santo, no Espaço Limítrofe, compartilha os pensamentos fluentes e impetuosos da [suprema] Filialidade com o Filho do Grande Governante."

"Assim, o Evangelho veio primeiramente da Filialidade através do Filho que se assenta junto ao Grande Regente, para esse Regente; e o Regente aprendeu que não era o Deus sobre todos, mas uma divindade gerável, e que acima dele estava posto o Tesouro do Inefável e Inominável Aquilo além do ser e da Filialidade.

E ele se arrependeu e temeu, ao compreender em que ignorância estivera.

Este é o significado das palavras: 'O temor do Senhor é o princípio da sabedoria.' Pois ele começou a tornar-se sábio mediante a instrução do Cristo que se assenta junto a ele, aprendendo o que é Aquilo além do ser, o que é a Filialidade, o que é o Espírito Santo, o que é o aparato do universo, qual a maneira de sua restauração.


Esta é a 'sabedoria, declarada em mistério', acerca da qual a Escritura usa as palavras: 'Não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas nas ensinadas pelo Espírito.'

"O grande Regente, então, sendo instruído e ensinado e tomado de temor, confessou o pecado que cometera ao vangloriar-se.

Este é o dito: 'Reconheci o meu pecado, e conheço a minha transgressão, e o confessarei pela eternidade.'

"Após a instrução do Grande Regente, todo o espaço da Ogdôada foi instruído e ensinado, e o Mistério tornou-se conhecido aos poderes acima dos céus.

"Então foi que o Evangelho deveria vir à Hebdômada, para que seu Regente fosse instruído e evangelizado de igual maneira.

Em seguida, o Filho do Grande Regente acendeu no Filho do Regente do espaço inferior a Luz que ele próprio recebera acesa em si desde o alto, da Filialidade; e assim o Filho do Regente da Hebdômada foi iluminado, e pregou o Evangelho ao Regente, que, por sua vez, tal como o Grande Regente antes dele, temeu e confessou [o seu pecado]. E então todas as coisas nos espaços sublunares foram iluminadas e receberam o Evangelho pregado.

"Portanto, o tempo estava maduro para a iluminação

Os Filhos da informidade do nosso próprio mundo, e para

o Mistério ser revelado à Filialidade que

fora deixada na informidade, como era para um nascido fora do tempo (um aborto) — 'o mistério que não foi conhecido pelas gerações anteriores', como está escrito: 'Pela revelação foi-me dado a conhecer o mistério', e 'Ouvi palavras inefáveis, que não é lícito ao homem proferir.'


"Assim, a partir da Hebdomada, a Luz — que já havia descido do alto, da Ogdoada, até o Filho da Hebdomada — desceu sobre Jesus, filho de Maria, e ele foi iluminado, sendo incendiado em harmonia com a Luz que nele jorrava.

Este é o significado do dito: 'O Espírito Santo virá sobre ti' — isto é, aquilo que veio da Filiação através do Espírito Limitante até a Ogdoada e a Hebdomada, descendo até Maria [o corpo] — e 'O Poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra' — isto é, o poder criativo divino que vem das alturas [etéreas] acima, através do Demiurgo, poder esse que pertence ao Filho."

O texto de Hipólito é aqui extremamente intrincado, e ele evidentemente não apreendeu o pensamento de Basílides.

O "Filho" aparentemente significa a alma.

O poder pertence à alma e não a Maria — o corpo; o poder criativo divino fazendo do homem um deus, enquanto o corpo só pode exercer o poder da procriação física.

Além disso, Jesus parece representar um tipo de cada membro da Filiação, de cada Filho de Deus.

"Pois o mundo se manterá coeso e não será dissolvido até que toda a Filiação — que foi deixada para trás para beneficiar as almas no estado de ausência de forma, e para receber benefícios, evoluindo formas para elas [o espírito necessitando de um veículo psíquico para contato consciente com este plano] — siga após e imite Jesus, e apresse-se para o alto e surja purificada.


[Pois pela purificação] torna-se sutilíssima, de modo que é capaz de acelerar para o alto através de seu próprio poder, assim como a primeira Filiação; pois tem todo o seu poder naturalmente consubstancial com a Luz que brilhou do alto.

Quando, então, toda a Filiação tiver ascendido e ultrapassado o Grande Limite, o Espírito, então toda a criação se tornará objeto da Grande Misericórdia; pois ela geme até agora e sofre dor e aguarda a manifestação dos Filhos de Deus, a saber, que todos os homens da Filiação possam ascender além dela [da criação]. E quando isso for efetuado, Deus trará sobre todo o universo a Grande Ignorância [Maha-pralaya], a fim de que todas as coisas permaneçam em sua condição natural, e nada anseie por algo contrário à sua natureza.

"Assim, todas as almas deste estado de existência, cuja natureza é permanecer imortais somente neste estado de existência, permanecem sem conhecimento de algo diferente ou melhor do que este estado; nem haverá rumor ou conhecimento de coisas superiores em estados mais elevados, a fim de que as almas inferiores não sofram dor ao almejar objetos impossíveis, como se fossem peixes desejando alimentar-se nas montanhas com ovelhas, pois tal desejo terminaria em sua destruição.


Todas as coisas são indestrutíveis se permanecerem em sua condição adequada, mas sujeitas à destruição se desejarem saltar e transgredir seus limites naturais.

"Assim, o Governante da Hebdomada não terá conhecimento das coisas acima dele, pois a Grande Ignorância também se apoderará dele, para que a tristeza, a dor e a lamentação se afastem dele.

Ele não desejará nada que lhe seja impossível alcançar, e assim não sofrerá pesar.

"E de igual modo, a Grande Ignorância se apoderará do Grande Governante da Ogdoada, e também de todas as criações [etéreas] que lhe estão sujeitas de maneira semelhante, para que nada anseie por algo contrário à natureza e assim sofra dor.

"E assim será a restauração de todas as coisas, que tiveram seus fundamentos estabelecidos segundo a natureza na Semente do universo no princípio, e que todas serão restauradas [à sua natureza original] em seus ciclos designados.

"E que tudo tem seu ciclo e tempo próprios, o Salvador é testemunha suficiente na afirmação: 'Minha hora ainda não chegou', e também os Magos na observação de Sua estrela.

Pois Ele também foi pré-ordenado na Semente a estar sujeito ao nascimento das estrelas e ao retorno dos períodos de tempo aos seus pontos de partida."

Ora, o Salvador, segundo a Gnose Basilidiana, era o "homem" espiritual aperfeiçoado, dentro do homem psíquico e animal, ou alma.


E quando um homem atinge esse estágio de perfeição, a Filialidade nele deixa a alma para trás, aqui, "a alma não sendo mais mortal, mas permanecendo em seu estado natural [isto é, tendo se tornado imortal], assim como a primeira Filialidade [deixou para trás] o Espírito Santo, o Grande Limite, em seu espaço ou região próprios"; pois é somente então, ao atingir a perfeição, que o verdadeiro "homem" é "vestido com uma alma própria [e verdadeiramente imortal]."

Cada parte da criação sobe um estágio, e Jesus.

todo o esquema de salvação é efetuado pela

separação, de seu estado de conglomerado, dos vários princípios em seus estados próprios; e Jesus foi as primícias, ou grande exemplar, desse processo.

"Assim, sua parte física aqui embaixo — que pertence à matéria informe — sofreu sozinha, e foi restaurada ao estado informe.

Sua vestimenta ou veículo psíquico — que pertence à Hebdomada — ressurgiu e foi restaurado à Hebdomada.

Aquele veículo nele que era da natureza da altura do Grande Regente, ele elevou ao alto, e permaneceu com o Grande Regente.

Além disso, ele elevou ainda mais alto aquilo que era da natureza do Grande Limite, e permaneceu no Espírito Limitante.

E foi assim, através dele, que a terceira Filialidade foi purificada, a Filialidade deixada para trás no estado de mistura [ou impureza] com o propósito de ajudar e ser ajudada, e ela passou para cima através de todos esses princípios purificados até a bendita Filialidade acima." A ideia principal por trás deste sistema é a separação, classificação ou restauração dos vários elementos ou princípios confundidos na semente original do mundo, ou plasma universal, em suas naturezas próprias, por um processo de purificação que trouxe aos homens a Gnose ou perfeição da consciência.


O homem era a coroa do processo mundial, e o homem aperfeiçoado, o Cristo, o Salvador, era a coroa da humanidade, e portanto a manifestação da Divindade, a Filialidade.

Até aqui Hipólito, que com toda probabilidade nos dá o esboço do verdadeiro sistema basilidiano.

Foi somente em 1851 que os *Philosophumena* foram publicados ao mundo, após a descoberta do manuscrito em uma das bibliotecas do Monte Atos em 1842; antes disso, nada além dos breves e deturpados esboços de Ireneu e dos Epitomadores era conhecido das sublimes especulações deste grande gnóstico.

O relato dos *Philosophumena* revolucionou todas as visões anteriores e mudou toda a investigação, de modo que as deturpações de Ireneu, ou as de sua autoridade anterior, são agora referidas como "o sistema basilidiano espúrio". A isso nos referiremos mais adiante. Enquanto isso, voltemo-nos para Clemente de Alexandria, que trata puramente do lado ético da Gnose basilidiana e, portanto, não toca na parte "metafísica" — usando o termo "metafísica" no sentido aristotélico, ou seja, das coisas além da Hebdomad, sendo as coisas da Hebdomad ou espaço sublunar chamadas de "físicas" ou no domínio da *physis* ou natureza.

Quanto ao casamento, Basílides e seu filho Isidoro ensinavam que era natural, mas não necessário, e parecem ter assumido uma posição moderada entre o ascetismo compulsório de algumas escolas e a glorificação da procriação pelos judeus, que ensinavam que "aquele que está sem esposa não é homem".


Quanto aos sofrimentos aparentemente imerecidos dos mártires, Basílides, baseando-se nas doutrinas da reencarnação e do carma, escreve o seguinte no Livro XXIII

de seus *Exegetica*:

Afirmo que todos aqueles que caem nessas chamadas tribulações do Karman são pessoas que, somente após transgredirem a Reencarnação em outros assuntos sem serem descobertas, são trazidas a este bom fim [martírio] pela bondade da Providência, para que, sendo as ofensas de que são acusadas bastante diferentes daquelas que cometeram sem descoberta, não sofram como criminosos por ofensas comprovadas, vituperados como adúlteros ou assassinos, mas sofram meramente por serem cristãos; fato que lhes é tão consolador que nem sequer parecem sofrer.

E ainda que aconteça que alguém venha a sofrer sem ter previamente cometido qualquer transgressão exterior — caso muito raro — não sofrerá de modo algum por qualquer trama de qualquer poder [maligno], mas exatamente da mesma maneira que o infante que aparentemente não fez mal algum.

"Pois assim como o infante, embora não tenha feito mal anteriormente, ou praticamente cometido qualquer pecado, e ainda assim tenha a capacidade de pecar em si [de suas vidas passadas], quando sofre, é beneficiado e colhe muitos benefícios que de outra forma são difíceis de obter; exatamente da mesma maneira se dá com o homem perfeitamente virtuoso que nunca pecou em ato, pois ele ainda tem a tendência ao pecado em si; não cometeu pecado real [nesta vida], porque ainda não foi colocado nas circunstâncias necessárias.


Mesmo no caso de tal homem, não estaríamos certos em supor total liberdade do pecado.

Pois assim como é a vontade de cometer adultério que constitui o adúltero, ainda que ele não encontre a oportunidade de realmente cometer adultério, e a vontade de cometer assassinato constitui o assassino, embora ele possa não ser realmente capaz de efetuar seu propósito; por essa mesma razão, se vejo tal homem 'sem pecado' sofrendo [as dores do martírio], mesmo que ele não tenha realmente cometido pecado algum, direi que ele é mau na medida em que ainda tem a vontade de transgredir.

Pois direi qualquer coisa antes que a Providência seja má."

Além disso, mesmo que o exemplo de Jesus fosse lançado em seu rosto por aqueles que preferiam o milagre à lei, o robusto defensor da Gnose diz que ele deveria responder: "Se me permitis, direi: Ele não pecou; mas era como uma criança que sofre." E se fosse pressionado ainda mais de perto, diria: "O homem que nomeais é homem, mas Deus [somente] é justo; pois 'ninguém está puro da poluição'," como disse Jó.

Os homens sofrem, diz Basílides, por causa de suas ações em vidas anteriores; a alma "eleita" sofre "honrosamente" através do martírio, mas almas de outra natureza sofrem por outras punições apropriadas.

A alma "eleita" é evidentemente aquela que sofrerá por um ideal; em outras palavras, é possuída de fé, que é o "assentimento da alma a qualquer das coisas que não excitam a sensação"; tal alma, então, "descobre doutrinas sem demonstração por uma apreensão intelectiva."


A superstição vulgar da transmigração, a passagem de uma alma humana para o corpo de um animal — tão frequentemente confundida pelos não instruídos com a doutrina da reencarnação, que nega tal possibilidade — recebeu uma explicação racional das mãos da escola basilidiana.

Surgiu de uma consideração da natureza animal no homem, a alma animal, ou corpo de desejo, o terreno no qual as paixões inerem; sendo a doutrina assim resumida por Clemente:

"Os basilidianos costumam dar o nome de apêndices [ou acrescidos] às paixões.

Essas essências, dizem eles, têm uma certa existência substancial e estão ligadas à alma racional, devido a uma certa turbulência e confusão primitiva." A palavra traduzida como essências é literalmente "espíritos"; curiosamente, toda a alma animal é chamada de "espírito contrafacto" no tratado Pistis Sophia, e no Timeu de Platão a mesma ideia é chamada de "turbulência", como se pode ver no comentário de Proclo.

A confusão primitiva é, naturalmente, a conglomerização caótica da mistura universal de sementes, e a diferenciação da "essência elemental" de alguns escritores modernos sobre teosofia.

Sobre este núcleo crescem outras naturezas bastardas e alienígenas da essência, tais como as do lobo, macaco, leão, bode, etc.

E quando as qualidades peculiares de tais naturezas aparecem ao redor da alma, elas fazem com que os desejos da alma se tornem semelhantes às naturezas especiais desses animais, pois imitam as ações daqueles cujas características carregam.


E não somente as almas humanas assim se associam intimamente aos impulsos e impressões dos animais irracionais, mas chegam até a imitar os movimentos e as belezas das plantas, porque igualmente carregam as características das plantas a elas apensas.

Mais ainda, há também certas características [dos minerais] manifestadas por hábitos, tais como a dureza do adamante."

Mas não devemos supor que o homem seja composto de várias almas, e que seja próprio do homem ceder à sua natureza animal e buscar desculpa para seus delitos dizendo que os elementos estranhos a ele agregados o compelaram a pecar; longe disso, a escolha é sua, a responsabilidade é sua, da alma racional. Assim, em seu livro, Sobre uma Alma Apensa, Isidoro, filho de Basilides, escreve:

"Se eu persuadisse alguém de que a alma real não é una, mas que as paixões do ímpio são ocasionadas pela compulsão das naturezas apensas, nenhuma desculpa comum teriam então os indignos da humanidade para dizer: 'Fui compelido, fui arrastado, fiz isso sem querer, agi contra minha vontade'; ao passo que foi o próprio homem quem conduziu seu desejo para o mal e recusou lutar contra as coerções dos apêndices.

Nosso dever é mostrarmo-nos senhores sobre a criação inferior dentro de nós, obtendo o domínio por meio de nosso princípio racional."

Em outras palavras, o homem é o mesmo homem, não importa em que corpo ou vestimenta esteja; as vestimentas não são o homem.


Uma das maiores festividades da escola era a celebração do Batismo de Jesus no décimo quinto dia do mês egípcio Tobe ou Tybi.

"Os de Basilides", diz Clemente, "celebram o Seu Batismo com um serviço noturno preliminar de leituras; e dizem que 'o décimo quinto ano de Tibério César' significa o décimo quinto dia do mês de Tybi." Foi então que o Pai "em semelhança de pomba" — que eles explicavam como significando o Ministro ou Espírito Santo — veio sobre Ele.

No "décimo quinto [ano] de Tib[ério]" temos, então, talvez um vislumbre interessante da oficina dos "historicizadores".

É evidente, portanto, que os basilidianos não aceitavam literalmente os relatos dos evangelhos canônicos, como alega Hipólito; ao contrário, explicavam tais incidentes como lendas historicizadas de iniciação, cujo processo é magnificamente elaborado no tratado Pistis Sophia, ao qual devo remeter o leitor para maiores informações.

Aprendemos com Agripa Castor, conforme preservado por Eusébio, que Basilides impunha um silêncio de cinco anos a seus discípulos, como era o costume na escola pitagórica, e que ele e sua escola davam grande valor aos escritos de um certo Barcabbas e Barcoph, e a outros livros de orientais.

Os estudiosos são de opinião que Barcabbas e Barcoph, e suas variantes, apontam para o ciclo da literatura zoroastriana que agora está perdido, mas que gozava de grande favor entre muitas comunidades gnósticas.

Deve ter sido que, entre os judeus eruditos e os essênios, após o retorno da Babilônia, e também entre os de mentalidade teosófica da época, as tradições dos Magos e da grande fé iraniana eram uma parte importante da religião eclética e sincretista.

A literatura avéstica que chegou até nós é considerada uma recuperação da memória de uma porção muito pequena da grande biblioteca de Persépolis, destruída pelo "amaldiçoado Alexandre", como afirma a tradição parsi. E parece extremamente provável, como Cumont demonstrou em sua obra monumental recém-publicada sobre o assunto, que a tradição de mistérios mitríaca contém uma tradição tão autêntica quanto a linhagem parsi, e lança uma luz brilhante sobre o zoroastrismo com o qual o gnosticismo esteve em contato.

Tal é, então, tudo o que se pode deduzir do verdadeiro sistema basilidiano a partir dos escritos de Hipólito e Clemente de Alexandria, que respectivamente selecionaram apenas os pontos que julgavam capazes de refutar; isto é, as características do sistema que consideravam mais errôneas.

Para o estudante de religião comparada, é evidente que ambos os Padres da Igreja interpretaram mal os princípios que citaram, visto que mesmo tais passagens selecionadas hostilmente se enquadram facilmente no esquema geral da teosofia universal, uma vez retiradas do contexto da refutação patrística e deixadas a valer por seus próprios méritos.

É, portanto, motivo de profundo pesar que os escritos da escola tenham sido perdidos ou destruídos; eles teriam, sem dúvida, lançado muita luz não apenas sobre a teosofia cristã, mas também sobre a obscura história das origens.


Resta-nos agora referir brevemente ao sistema basilidiano "espúrio".

Os seguintes pontos são extraídos de Irineu e dos epitomadores, e são outra prova da falta de confiabilidade de Irineu, a âncora principal da heresiologia ortodoxa.

A série de escritores e copistas a que nos referimos evidentemente não tinha informação de primeira mão sobre o ensinamento de Basílides, e meramente repassava quaisquer noções fantásticas que o rumor popular e os boatos atribuíam à escola.

As principais características da confecção assim preparada são as seguintes.

O Deus dos Basilidianos, diziam eles, era um certo Abraxas ou Abrasax, que era o regente de seu primeiro céu, dos quais céus não havia menos que 365. Esse poder era assim denominado porque a soma dos valores numéricos das letras gregas no nome Abrasax totalizava 365, o número de dias do ano.

Aprendemos, contudo, com Hipólito (II.) que essa parte do sistema tinha a ver com um estágio de criação muito mais inferior do que o Deus além de tudo.

Não está claro, porém, se a ideia de Abrasax deve ser identificada com o Grande Regente da Ogdóada, ou com o Regente da Hébdomada e da região dos "proasteioi até o éter". Em todo caso, os 365 "céus" pertenciam às considerações astrológicas e genetíacas da ciência oculta egípcia e caldaica, e representavam, de um ponto de vista, os 365 "aspectos" dos corpos celestes (durante o ano), refletidos na superfície da

GNOSE BASILIDIANA.

atmosfera ou envoltório da terra, que se estendia até a lua.

Ora, é curioso notar que no tratado Pistis Sophia os mistérios da embriologia são consumados por uma hierarquia de poderes elementais, ou construtores, em número de 365, que seguem os ditames da lei cármica e moldam o novo corpo de acordo com as ações passadas.

Tudo é exposto com grande detalhe, e também o esquema astrológico do único regente dos quatro, que, por sua vez, cada um rege sobre noventa, perfazendo ao todo 365 poderes.

Somente quando Schwartze traduziu este tratado do copta, em 1853, é que alguma luz certa foi lançada sobre a ideia de Abrasax, e isso apenas dois anos depois de Miller, em 1851, publicar sua edição dos Philosophumena, fornecendo assim o material para provar que a opinião até então universal de que o "Abrasax" era o nome basilidiano para o Deus sobre todos era um erro grosseiro baseado em ignorância ou deturpação.

Deve-se notar também que o antigo tratado anônimo que preenche o MS. superior do Codex Brucianus faz grande uso do número 365 entre suas infinitas hierarquias, mas em nenhum lugar menciona o nome Abrasax.

As forças elementais que moldam o corpo são os mais baixos servidores da lei cármica.

Foi presumivelmente esses poderes inferiores que constituíram o Abrasax da população.

O Deus acima de tudo é o soberano supremo de uma galáxia infinita de governantes, deuses, arcanjos, autoridades e potestades, todos eles superiores aos 365.

Na verdade, os mistérios do mundo invisível eram tão intrincados em detalhe, que mesmo aqueles que dedicavam suas vidas a eles com constância incansável dificilmente poderiam compreender alguns dos processos inferiores, embora a ideia geral fosse simples o bastante; e assim Basílides impôs um silêncio de cinco anos sobre seus discípulos, e declarou que "apenas um em 1.000, e dois em 10.000," poderiam realmente receber a Gnose, que era a consumação de muitas vidas de esforço.


Curiosamente, essa mesma frase também é encontrada no tratado Pistis Sophia.

O termo Abrasax é bem conhecido dos estudiosos do Gnosticismo, por causa do número de gemas nas quais é encontrado, e que são atribuídas aos seguidores de Basílides; além dos grandes estudiosos continentais que trataram do assunto, neste país King dedicou grande parte de seu tratado ao tema.

As melhores e mais recentes autoridades, no entanto, são de opinião "que não há evidência tangível para atribuir quaisquer gemas conhecidas ao basilidianismo ou a qualquer outra forma de Gnosticismo."

Na verdade, na questão de Abrasax, como em todas as outras coisas, o Gnosticismo seguiu sua tendência natural de ir "um passo além," para usar um coloquialismo, em cada forma de crença, ou mesmo superstição.


Sem dúvida, a população ignorante há muito acreditava em Abrasax como o grande poder que governava o nascimento e os assuntos cotidianos, de acordo com noções astrológicas; talismãs, invocações e o restante do aparato que a mente vulgar sempre clama de uma forma ou de outra, eram todos inscritos com esse potente "nome de poder." Por trás da superstição, no entanto, jaziam certos fatos ocultos, da natureza real dos quais, é claro, os astrólogos vulgares e fabricantes de talismãs eram naturalmente ignorantes.

Esses fatos, no entanto, parecem ter sido conhecidos pelos doutores da Gnose, e eles, consequentemente, encontraram o lugar apropriado para eles em seus sistemas universais.

Assim, Abrasax, o Grande Deus dos ignorantes, foi colocado entre as hierarquias inferiores da Gnose, e a ideia popular a seu respeito foi atribuída às mais baixas potências construtoras do corpo físico.

Quanto ao resto do "sistema espúrio", não há nada de interesse a registrar; não podemos, contudo, omitir a mais tola história contada contra os basilidianos, que era a seguinte.

Diz-se que eles acreditavam que, na crucificação, Jesus trocou de corpo com Simão de Cirene, e então, enquanto seu substituto pendia em agonia, ficou de pé e zombou daqueles que havia enganado! — com essa história absurda podemos sair do "depósito de gnosticismo" de Ireneu para respirar um pouco.

Da história da escola, nada sabemos além do fato de que Epifânio, no final do quarto século, ainda encontrava estudantes da Gnose basilidiana nos nomos a oeste do Delta, de Mênfis ao mar.

Parece mais provável, no entanto, que a escola tenha continuado na corrente principal do gnosticismo da segunda metade do segundo século, e estivesse por trás do grande movimento valentiniano, do qual temos de tratar a seguir.

De fato, é muito provável que os seguidores desta, a corrente principal da Gnose, tivessem protestado veementemente por serem classificados como "os de Basilides" ou "os de Valentino"; eles sem dúvida consideravam esses mestres como transmissores de uma tradição viva, cada um à sua maneira, e não como reveladores individualmente inspirados de novas doutrinas.


O MOVIMENTO VALENTINIANO.

POR trás de todo o movimento valentiniano está a figura O "Grande imponente e misteriosa do próprio Valentino, universalmente Desconhecido" da reconhecido como tendo sido o maior dos gnósticos.

Gnose.

Sua erudição e eloquência são admitidas, mesmo por seus mais amargos oponentes, como sendo de natureza mais extraordinária, e nenhuma palavra jamais foi proferida contra seu caráter moral.

E, no entanto, quando nos dispomos a analisar o caos de "informações" que os escritores patrísticos nos legaram sobre o chamado valentinianismo, descobrimos que o caráter misterioso do grande mestre da Gnose sempre recua diante de nossa curiosidade respeitosa; aquele a quem se fez dar seu nome à remodelação de toda a estrutura permanece ainda o "grande desconhecido" do gnosticismo.

Não sabemos nada de certo sobre ele como homem, nada de definitivo sobre ele como escritor, exceto os poucos fragmentos mutilados que as polêmicas heresiológicas nos concederam.

(Deixo de lado, naturalmente, por completo, a questão controvertida — não direi da autoria, mas da compilação — dos tratados dos Códices Askew e Bruce.

Minha opinião pessoal é que devemos grande parte dessas elaborações a Valentinus; não que eu pense que isso possa ser provado de qualquer maneira satisfatória

O MOVIMENTO VALENTINIANO.

com as escassas fontes de informação atualmente disponíveis. Ao contrário, porém, não vejo como isso possa ser refutado.

É muito estranho que, apesar da transcendência universalmente admitida de Valentinus, nenhuma de suas obras tenha sido preservada para nós. Diz-se que eram excessivamente intrincadas e difíceis; diz-se ainda que eram sínteses e sinfonias, por assim dizer, de formulações anteriores da Gnose.

Ora, distintamente, não é esse o caso com o esboço do sistema mais conhecido atribuído aos "valentinianos" pelos Padres da Igreja.

Ao passo que é patentemente o caso com os tratados em traduções coptas; eles não poderiam ter sido elaborados por ninguém senão o mais sólido dos gnósticos — e a melhor cabeça de todos eles diz-se ter estado sobre os ombros de Valentinus.)

Apesar dessa ignorância apavorante sobre o homem e seus ensinamentos, a chamada Gnose valentiniana é o prato principal de quase todo tratado heresiológico.

Teremos, portanto, de abusar da paciência do leitor por um breve espaço, enquanto erguemos algumas placas indicativas no labirinto do valentinianismo, tal como visto através dos olhos de seus opositores patrísticos.

Devemos, além disso, lembrar sempre que o "valentinianismo", longe de ser uma formulação separada e única da Gnose, foi a principal corrente do gnosticismo, simplesmente rebatizada com o nome de seu maior líder.

Com exceção dos poucos fragmentos aos quais nos referimos, tudo o que foi escrito pelos Padres da Igreja sobre "eles de Valentim" refere-se aos ensinamentos de "eles de Valentim", e mesmo assim é muito raro termos uma citação não mutilada de qualquer obra escrita deles; na maior parte, tudo consiste em fragmentos arrancados de seus contextos, ou meros boatos.

Ora, os seguidores de Valentim não eram discípulos servis que nada mais podiam fazer senão repetir como papagaios as "palavras do mestre"; o espírito do *ipse dixit* estava longe de seu gênio independente.

Cada um deles pensou os detalhes do esquema da filosofia universal à sua própria maneira.

É verdade que, nessa época, a apresentação da Gnose, de natureza antes extremamente diversa, tornara-se mais estabelecida em suas características principais, e talvez Valentim tenha iniciado essa tendência sintetizadora, embora seja muito mais provável que ele a tenha desenvolvido e aperfeiçoado; no entanto, ela ainda era enormemente livre e independente em inúmeros detalhes de caráter muito abrangente, e seus adeptos estavam imbuídos daquele espírito de pesquisa, descoberta e adaptação que sempre marca um período de vida espiritual e intelectual.

Assim compreendemos a queixa de Irineu, que lamenta nunca ter conseguido encontrar dois valentinianos que concordassem entre si.

E se assim é, que proveito há em continuar falando do "sistema valentiniano"? Sabemos quase nada, pelos Padres da Igreja, do "sistema" do próprio Valentim; quanto a seus seguidores, cada um introduziu novas modificações, que não podemos mais acompanhar nas representações confusas dos Padres da Igreja, que os fazem contradizer-se frontalmente não apenas uns aos outros, mas também a si mesmos.

O MOVIMENTO VALENTINIANO.

Pelo *Philosophumena*, publicado em 1851, ouvimos falar pela primeira vez de uma escola oriental e ocidental (anatólica). Os assim chamados

e itálica) divisão da escola de Valentim, Escolas Ocidentais.

explicando assim o título sobrescrito aos Extratos de Teódoto, anexados, no único manuscrito que possuímos deles, às Miscelâneas de Clemente de Alexandria.

Muito se tem feito disso; as escassas diferenças doutrinárias das escolas anatólica e itálica do valentinianismo, indicadas por Hipólito (II), foram agarradas pela crítica e tiveram suas costas quebradas pelo peso do argumento que sobre elas foi acumulado.

Mas quando Lipsius demonstra que os Extratos de Teódoto, que reivindicam em seu sobrescrito pertencer à escola oriental, são, seguindo as indicações de Hipólito, metade orientais e metade ocidentais, o estudante comum tem que segurar firmemente a cabeça nos ombros e abandonar toda esperança de luz a partir da divisão do valentinianismo em escolas anatólica e itálica, no estado atual de nossa ignorância; — a menos que simplesmente assumamos que eram originalmente designações puramente geográficas, às quais em tempos posteriores se tentou dar, sem sucesso, uma significação doutrinária.

Embora não tenhamos indicação segura da data do próprio Valentim, pode-se conjecturar que se estende de cerca de 100 d.C. a 180 d.C., como se verá mais adiante.

Dos outros líderes do movimento, os primeiros cujos nomes conhecemos são Secundo, os Líderes e Marcos.

Ora, o próprio Marcos teve um grande Movimento.


seguindo já em 150; seus seguidores não eram chamados valentinianos, mas marcosianos, ou marcianos, e o que sabemos de seu sistema difere enormemente dos demais "daqueles de Valentim". Marcos às vezes é suposto ter sido contemporâneo de Ireneu, mas isso é apenas na suposição de que Ireneu, ao usar a segunda pessoa em suas passagens exortativas e admoestatórias, está se dirigindo a uma pessoa viva, e não empregando o "tu" como mero efeito retórico, como Tertuliano com Marcião.

Em seguida, anos depois, chegamos a Ptolomeu, que novamente é suposto ter sido contemporâneo de Ireneu por volta de 180 d.C.

Ireneu certamente não tinha conhecimento pessoal de Ptolomeu, e lidou em sua maior parte com seus seguidores, que se diz terem diferido grandemente de seu mestre.

Ainda mais tardio é Heracleão, a quem Clemente (c. 193) chama o mais distinto dos discípulos de Valentino.

Tanto Heracleão quanto Ptolomeu, no entanto, são conhecidos não tanto pela exposição de um sistema quanto pelo tratamento exegético das escrituras do ponto de vista da Gnose de seu tempo.

Ainda mais tarde, e tão tarde quanto, digamos, cerca de 220, floresceram Axionico e Bardesanes, o primeiro dos quais ensinou em Antioquia, e o último ainda mais a leste.

Eles são, portanto, chamados por alguns de cabeças da escola anatólica ou oriental.

Teódoto, de quem foram extraídos os Excertos anexados às Miscelâneas de Clemente, era, naturalmente, de data muito anterior, mas dele nada sabemos.

O MOVIMENTO VALENTINIANO.

Ouvimos também falar de um certo Teótimo e Alexandre, que são anteriores a 220.

Em suma, a influência de Valentino espalhou-se por toda parte, do Egito para leste até a Síria, Ásia Menor e Mesopotâmia, e para oeste até Roma, Gália, e mesmo Espanha.

Uma breve revisão dos ensinamentos atribuídos a esses doutores da Gnose encerrará nossa tarefa, a sintetização da Gnose, no que diz respeito às fontes indiretas do Gnosticismo dos primeiros dois séculos.

Mas o fato sobre o qual insistimos novamente é que estamos diante de um grande movimento e não de um sistema único.

Por um lado, tais formas mais antigas da Gnose que haviam sido extremamente antagônicas ao Judaísmo encontraram um desfecho lógico no grande movimento marcionita, que separou completamente o Cristianismo do Judaísmo; por outro, uma base de reconciliação foi buscada pelas visões mais moderadas e místicas do movimento agora chefiado por Valentino, que encontrou espaço para toda visão em sua universalidade abrangente, e explicou as contradições por meio daquele ensinamento secreto interior que se afirmava ter vindo do próprio Salvador.

O contorno principal do movimento de conciliação, que presumivelmente sempre fora a atitude dos círculos mais íntimos, talvez seja visto com maior clareza hoje no sistema de Basilides, mas aqueles espaços infinitos, que ou o próprio Basilides deixou por preencher, ou Hipólito (II.) omitiu mencionar em suas citações, foram também povoados com uma infinitude de criações e criaturas pelo gênio dos Gnósticos, que não podiam tolerar deficiência alguma na exposição de sua ciência universal.


Nesse contorno geral, ou em um que se lhe assemelha de perto, eles encaixaram os vários aspectos da Gnose antiga e os postulados das velhas religiões e filosofias, adotando essas ideias imemoriais, e adaptando-as à luz da nova revelação, retendo às vezes os nomes antigos, mais frequentemente inventando novos.

Essa sintetização da Gnose deveu-se principalmente à iniciativa do gênio de Valentino.

Suas obras técnicas, como observamos acima, dizem ter sido das mais abstrusas e difíceis de compreender, como bem poderiam ser pela natureza da tarefa que ele empreendeu.

Que foi feito desses escritos? Nenhum Padre da Igreja parece ter conhecido um único de seus tratados técnicos; na melhor das hipóteses, temos apenas alguns fragmentos éticos de cartas e homilias.

Mas que dizer de seus próprios seguidores, a quem os Padres da Igreja e críticos tornam responsáveis por um certo sistema valentiniano de natureza caótica? Estariam eles de posse de manuscritos

O MOVIMENTO VALENTINIANO.

de Valentino; ou dependiam de noções gerais derivadas de suas palestras? Terá Valentino elaborado um esquema consistente da Gnose; ou terá apresentado várias alternativas, devido à dificuldade da matéria e aos inúmeros pontos de vista sob os quais ela podia ser contemplada? Se o documento Pistis Sophia e os outros dois Códices puderem lançar alguma luz sobre a questão, será uma aquisição preciosa para nosso conhecimento dessa época tão importante; se não, devemos nos

contentar em permanecer nas trevas até que algum documento novo seja descoberto.

Entretanto, devemos limitar nossa atenção aos vestígios certos de Valentim e às Fontes Gerais de Informação.

movimento; mas antes de fazê-lo, devemos revisar brevemente nossas autoridades entre os Padres.

Nesta revisão, seguirei principalmente Lipsius, que não é apenas uma das melhores autoridades sobre o assunto (Art. in S. and W.'s Diet. of Christ. Biog., 1887), mas que há muito tempo inaugurou as admiráveis investigações críticas sobre nossas fontes gnósticas de informação, por sua análise do Panarion de Epifânio.

Tertuliano nos informa que antes dele, nada menos que quatro campeões ortodoxos haviam empreendido a refutação dos valentinianos: a saber, Justino Mártir, Milcíades, Irineu e o montanista Próculo.

Com exceção dos cinco livros de Irineu, o restante desses escritos polêmicos está perdido.

Irineu escreveu seu tratado por volta de 185-195 d.C. Ele dedica a maior parte de seu primeiro livro exclusivamente aos valentinianos, e avisos isolados são encontrados nos quatro livros restantes.

Irineu afirma ter encontrado certos Memoranda dos valentinianos e ter tido conversas com alguns de seu número.

Mas essas Notas pertenciam apenas aos seguidores de Ptolomeu, e apenas um pequeno fragmento é atribuído a um escrito do próprio Ptolomeu.

As conversas pessoais também foram realizadas com seguidores do mesmo mestre, presumivelmente no distrito do Ródano — não exatamente um solo fértil para implantar os abstrusos princípios da Gnose, deveríamos pensar, apesar dos "mártires de Lyon".


Ao lidar com Marco, Irineu obteve suas informações em sua maior parte das mesmas comunicações orais não confiáveis, mas parece também ter estado de posse de uma Memória de um marcosiano; o próprio Marco vivendo e trabalhando longe, na Ásia Menor, anos antes.

No capítulo xi, Irineu professa dar o ensinamento do próprio Valentim; mas aqui ele está simplesmente copiando da obra de um refutador anterior.

Lipsius também aponta que Irineu extraiu algumas de suas declarações iniciais da mesma fonte que Clemente nos Excertos de Teódoto.

De tudo isso se segue que estamos diante de uma colcha de retalhos das mais provocantes, e que o sistema do próprio Valentino não se encontra na *Refutação* do Bispo de Lião.

Nossa próxima fonte de informação encontra-se nos *Excertos* do até então desconhecido Teódoto, que, segundo Lipsius, provavelmente fizeram parte do primeiro livro da obra perdida de Clemente, *Os Esboços*.

Esses excertos "foram deslocados e sua coerência original rompida" de maneira tão violenta, e tão entremeados de "observações contrárias e discussões independentes" do próprio Clemente, que é extremamente difícil formar um juízo sobre eles.

Quando, além disso, Lipsius atribui parte desses extratos à escola oriental e parte à escola ocidental, ele praticamente nos manda apagar a inscrição que

O MOVIMENTO VALENTINIANO.

sempre esteve associada a eles — a saber, *Extratos dos (Livros) de Teódoto e da chamada Escola Anatólica*.

Em qualquer caso, estamos novamente diante de outra colcha de retalhos.

Hipólito (I), em sua perdida *Syntagma*, recuperável a partir dos epitomadores Pseudo-Tertuliano e Filastro, e Epifânio, parece ter combinado os primeiros sete capítulos de Irineu com algum outro relato, e o caos fica ainda mais confuso.

Hipólito (II), naquele que é o mais precioso de todos os documentos heresiológicos, as *Philosophumena*, apresenta um relato inteiramente independente; na verdade, a representação mais uniforme e sinóptica de qualquer fase da Gnose do ciclo valentiniano que nos chegou através dos Padres.

Tertuliano simplesmente copia de Irineu, e assim também, em sua maior parte, faz Epifânio.

Este último, no entanto, preservou a famosa *Carta de Ptolomeu a Flora*, e também uma lista de "nomes bárbaros" dos éons não encontrada em nenhum outro lugar.

Teodoreto, é claro, simplesmente copia Irineu e Epifânio.

Tais são, portanto, e de tal natureza, as nossas fontes indiretas de informação para a compreensão do movimento valentiniano — uma triste tropa de guias cegos, é preciso confessar, onde tudo exige o maior cuidado e discernimento.

Voltemos agora ao próprio Valentinus, e esforcemo-nos por reunir, a partir dos fragmentos que restam, alguma silhueta obscura de um caráter que foi universalmente reconhecido como o maior entre os gnósticos.


VALENTINUS.

Quanto à sua biografia, sabemos quase nada.

Valentinus era um egípcio, educado em Alexandria em tudo o que o Egito e a Grécia tinham a lhe ensinar.

O misterioso saber do antigo Khem, a "mathesis" de Pitágoras, a sabedoria de Platão, tudo ajudou a moldar seu caráter.

Mas a maior inspiração de todas ele encontrou na última efusão da mesma fonte da qual provém a sabedoria de todo verdadeiro filósofo — a corrente do Cristianismo que fluía em maré cheia.

Mas que tipo de Cristianismo Valentinus encontrou em Alexandria? Não havia Escola Catequética quando ele era menino.

Panteno e Clemente ainda não existiam.

Havia os Logoi, os Ditos do Senhor, e muitas tradições contraditórias; também uma comunidade paulina, sem dúvida fundada por algum missionário da Ásia Menor; e numerosas lendas da misteriosa Gnose que Jesus havia secretamente ensinado àqueles que podiam compreender.

Mas, acima de tudo, ao fundo estavam as escolas e comunidades internas das tradições de sabedoria e da Gnose.

Valentinus deve ter tido a mais estreita intimidade com Basilides, embora se diga que ele afirmou que um certo Teodas, um "homem apostólico", era sua testemunha da tradição direta da Gnose.

Nada se sabe sobre esse Teodas ou Teudas, e Ussher chegou mesmo a supor que fosse uma contração de Teódoto, conjectura na qual foi seguido por Zahn.

Essa teoria

VALENTINUS.

faria assim do Teódoto dos Excertos em Clemente uma autoridade mais antiga que o próprio Valentinus, o que complicaria ainda mais a questão das escolas Oriental e Ocidental e, de fato, mudaria todo o problema das origens valentinianas.

Tudo o que podemos dizer aqui é que a visão não é inteiramente improvável e esclareceria o terreno em certos pontos importantes.

Além disso, havia em Alexandria, na grande biblioteca e nas bibliotecas particulares dos místicos, todas aquelas diversas fontes de informação, e na atmosfera intelectual e religiosa do lugar, todas aquelas tendências sintéticas e teosóficas que concorrem para a formulação de um sistema universal de religião.

E isto sabemos que foi a tarefa que Valentino se propôs como meta.

Ele determinou sintetizar a Gnose, cada fase da qual já era, de certo modo, uma síntese.

Mas, ao fazê-lo, Valentino não pretendia atacar ou abandonar a fé geral, nem afastar a evolução popular do Cristianismo que desde então foi chamada de Igreja Católica.

Ele muito provavelmente permaneceu um cristão católico até o fim de sua vida.

É verdade que lemos sobre sua excomunhão em Tertuliano, acompanhada da acusação favorita levantada contra hereges proeminentes, de que ele apostatou da Igreja porque sua candidatura ao cargo episcopal foi rejeitada.

Tertuliano imaginou que isso ocorreu em Roma; mas, mesmo que assim fosse, falava Roma em nome da Igreja Católica naqueles primeiros dias? Reconheceria Alexandria, a filosófica, o veredito da Roma disciplinadora? Ou excomungou Roma a Valentino após sua morte, uma maneira favorita dela, em tempos posteriores, de encerrar uma controvérsia? Ou não estaria Tertuliano romanceando aqui, como não raramente é o caso? Epifânio declara distintamente que Valentino era considerado ortodoxo enquanto esteve em Roma, e o próprio Tertuliano, em outro lugar, acrescenta quinze anos de ortodoxia à data de sua partida de Roma.


Valentino parece ter passado a maior parte

Data.

de sua vida no Egito; esteve, no entanto, se podemos confiar em nossas autoridades, por algum tempo considerável em Roma, entre 138 e 160. Uma autoridade também diz que ele esteve em Chipre.

A data de sua morte é absolutamente desconhecida; os críticos, em sua maioria, a calculam por volta de 161, mas, para chegar a essa conclusão, rejeitam a declaração distinta de Tertuliano de que Valentinus ainda era um membro ortodoxo da Igreja até a época de Eleutério (c. 175); e a declaração igualmente distinta de Orígenes, de que ele conheceu pessoalmente Valentinus.

Isso faria recuar a própria data de nascimento de Orígenes e avançar a data da morte de Valentinus; mas, como ambas são problemáticas, não temos nada a temer do retrocesso de uma e do avanço da outra em cerca de dez anos.

No geral, inclino-me a atribuir a data de Valentinus aos primeiros oitenta anos do segundo século.

Em apoio adicional a essa longevidade, convidaria o leitor a refletir sobre o fato extraordinário de que, embora o nome de Valentinus esteja na boca de todos da época, e embora sua fama eclipse inteiramente a de qualquer outro nome

VALENTINUS.

deste importantíssimo ciclo gnóstico, as palavras e feitos do grande corifeu do Gnosticismo são quase inteiramente sem registro e, mais estranho que tudo, ele é considerado, pelo menos durante a maior parte de sua vida, como ortodoxo.

Esse fato estranho requer explicação, e ousaria sugerir que a explicação se encontra, em grande medida, na extraordinária reserva e sigilo do homem.

Ele era um enigma não apenas para a generalidade, mas até mesmo para aqueles que o consideravam um mestre.

A Gnose em suas mãos tenta antecipar a "ortodoxia", abraçar tudo, até mesmo a formulação mais dogmática das tradições do Mestre.

O grande movimento popular e suas incompreensibilidades foram reconhecidos por Valentinus como parte integrante da poderosa efusão; ele se esforçou para tecer tudo junto, externo e interno, numa só peça, dedicou sua vida à tarefa e, sem dúvida, apenas em sua morte percebeu que, para aquela época, tentava o impossível.

Ninguém, exceto os pouquíssimos, poderia jamais apreciar o ideal do homem, muito menos compreendê-lo.

Nenhum de seus tratados técnicos foi jamais publicado; apenas suas cartas e homilias circularam.

Após deixar Roma, ele praticamente desaparece da vista dos heresiólogos ocidentais.

Para onde foi, o que fez e quanto tempo viveu depois disso é quase inteiramente conjectural.

Mas se algum dia for demonstrado ser verdade que documentos como a Pistis Sophia são espécimes da oficina à qual ele pertencia, podemos ao menos responder conjecturalmente que ele retornou a Alexandria, onde terminou sua vida no retiro que tais labores literários abstrusos exigiam.


De seus escritos, além do fato de que eram numerosos e de que seus tratados técnicos eram excessivamente difíceis e abstrusos, sabemos muito pouco.

Ele compôs numerosas Cartas, Homilias e Salmos.

Também nos é dito que ele compôs um Evangelho, mas supõe-se que isso seja uma suposição falsa — falsa, isto é, se por Evangelho se entende um Evangelho contendo os Ditos do Senhor.

Mas não poderia "Evangelho" aqui ser usado no sentido basilidiano de uma exposição da Gnose, ou conhecimento das coisas além do mundo fenomênico?

Tertuliano também nos informa que Valentino compôs um tratado intitulado Sophia, ou Sabedoria. Alguns críticos afirmaram que as palavras de Tertuliano não se referem a um livro, mas à Sabedoria que Valentino alegava ensinar; mas se assim fosse, a antítese que Tertuliano estabelece entre a Sabedoria de Valentino e a Sabedoria de Salomão perderia todo o seu sentido.

A Sabedoria de Salomão é um livro; a Sabedoria de Valentino deveria também ser um livro; se a intenção fosse significar simplesmente a Gnose que Valentino ensinava, então sua antítese apropriada teria sido a Sabedoria de Deus e não a de Salomão.

Temos agora de tratar dos poucos fragmentos das obras deste escritor prolífico que chegaram até nós nos escritos dos Padres da Igreja.

A mais recente coleção deles é a de Hilgenfeld (1884), cujas "emendas", contudo, nem sempre seguiremos.

Os fragmentos consistem em alguns restos de cartas e homilias preservados por

VALENTINO.

Clemente de Alexandria, e duas passagens em *Philosophumena* — a narrativa de uma visão e o fragmento de um salmo.

i. De uma Carta.

"E assim como o terror daquela criatura [literalmente, *plasm*] apoderou-se dos anjos [os poderes fabricadores], quando ela deu voz a coisas maiores do que as que haviam sido usadas de início em sua modelagem, devido à presença nele d’Aquele [o Logos] que, invisível para eles [os poderes], lhe havia concedido a semente da essência superna [o ego], e que falava das realidades face a face; de igual modo também entre as raças da humanidade, as obras dos homens tornam-se um terror para aqueles que as fazem — tais como estátuas e imagens, e todas as coisas que as mãos [dos homens] moldam para levar o nome de Deus.

Pois Adão, sendo moldado para levar o nome do [Celestial] Homem [o Logos], espalhou o terror daquele Homem pré-existente, pois em verdade ele tinha o Seu ser nele.

E eles [os poderes] foram tomados de terror, e [em seu terror] rapidamente desfiguraram a obra [de suas mãos]."

Aqui temos o mito gnóstico da gênese do homem, que já nos é familiar na tradição geral da Gnose.

O *plasm*, ou forma primitiva do homem, que não podia nem ficar de pé nem andar — a esfera embrionária do *Timeu* de Platão — é evoluído pelos poderes da natureza, como resultado da evolução; nele a Divindade insufla a mente, e o homem é imediatamente elevado acima do restante da criação e de seus poderes.


No entanto, seu corpo ainda é frágil, e os poderes da natureza, com medo da mente interior — o "nome" do Homem Celestial — guerreiam contra ele, e somente por lentos graus a mente do homem aprende a superá-los.

O Homem Celestial é o tipo perfeito de todas as Humanidades, e o "nome" não é um nome, mas aquilo algo misterioso que decide a natureza, a classe e o ser de toda criatura.

Somente o homem, aqui embaixo, tem o divino "nome" ou natureza vivo dentro de si.

O mundo "pré-histórico", com o qual o Egito estava em contato tradicional direto, dava grande importância a esse "nome"; estátuas, talismãs e amuletos, se feitos de certa maneira, supunham-se uma aproximação mais próxima do tipo perfeito, seja da humanidade ou do organismo natural, e sobre essas fabricações das mãos humanas acreditava-se que o "nome" deste ou daquele poder superno fosse outorgado por "Aquele que fala face a face". Aqui temos uma indicação da explicação dada para a "adoração de ídolos" pelos sacerdotes iniciados da antiguidade, ideia essa que foi assim tecida no esquema da Gnose universal por Valentino.

ii. De uma Carta.

"Um [só] é Bom, cuja livre expressão é a Sua Pura manifestação através de Seu Filho; é somente por Ele que o coração pode tornar-se puro, [e isso também apenas] quando toda essência maligna tiver sido expulsa dele. Ora, a sua pureza é impedida pelas muitas essências que nele se instalam, pois cada uma delas realiza suas próprias obras, ultrajando-o de diversas maneiras com desejos indecorosos.

Até onde posso ver, o coração parece receber tratamento semelhante ao de uma estalagem [ou caravançarai], que tem buracos e fendas feitos em suas paredes, e é frequentemente enchida de esterco, vivendo os homens nela de modo imundo e não cuidando do lugar por ser propriedade de outrem.

Assim é com o coração enquanto não se cuida dele, sempre impuro e morada de muitos daemons [essências elementais]. Mas quando o único Bom Pai lança Seu olhar sobre ele, ele é santificado e brilha com luz; e aquele que possui tal coração é tão abençoado que 'verá a Deus'."

Aqui temos a mesma doutrina enunciada por Basilides e Isidoro com respeito aos "apêndices" da alma, como de fato é apontado por Clemente.

A doutrina era extremamente antiga no Egito.

No assim chamado Livro dos Mortos lemos que o "coração" é uma personalidade distinta dentro do homem (o "purusha [ou homem] no éter do coração" dos Upanishads); e não apenas isso, mas a fórmula referida e seus textos explicativos nos ensinam que "não é o coração que peca, mas somente seu envoltório carnal". (Cf. Relig. dos Antigos Egípcios de Wiedemann, p. 287; 1897.) Isidoro, como já vimos, precaveu-se contra fazer dos "apêndices" o bode expiatório, e fixou a responsabilidade no "coração" propriamente dito, o "coração ancestral" — "guardião de minhas carnes" — a entidade reencarnante.

É, no entanto, bem verdade que as paixões estão ligadas ao sangue, e assim ao "envoltório carnal", ou coração físico, no qual se diz que o verdadeiro "coração" está consagrado.


iii.

Da Carta a Agatopo.

A "livre expressão", ou perfeita manifestação, do Concernente ao Bem Único só pode ser manifestada pelo

Um dos Poderes do homem aperfeiçoado.

Tal homem foi Jesus. Assim

Homem Perfeito.

encontramos Valentino escrevendo a Agatopo da seguinte forma: "Foi por sua incessante abnegação em todas as coisas que Jesus alcançou [literalmente, ganhou por meio do trabalho] a divindade; ele comia e bebia de maneira peculiar, sem qualquer desperdício.

O poder da continência era tão grande nele, que seu alimento não se decompunha nele, pois ele próprio era sem decadência."

Diz-se que o corpo físico pode ser gradualmente acostumado a cada vez menos nutrição, e inúmeros casos estão registrados no Oriente de santos ascetas que conseguiram sustentar a vida com quantidades incrivelmente pequenas de alimento.

O "poder" descrito acima por Valentinus é um dos siddhis mencionados em todos os tratados sobre yoga na Índia, e nos Upanishads lemos que "muito pouco desperdício" é um dos primeiros sinais de "sucesso no yoga". Também nos é dito que nos estágios mais elevados, após as partículas do corpo terem sido inteiramente refinadas e feitas para obedecer à vontade superior do asceta, um corpo de um grau ainda mais elevado de matéria pode ser gradualmente substituído; e aparentemente algumas ideias como essas (juntamente com outras noções) estavam por trás da doutrina do docetismo, que era parte integrante da Gnose.

VALENTINUS.

O próprio Clemente também compartilhava opiniões semelhantes, e assim também alguns outros Padres.

iv. De uma Homilia.

"Desde o princípio fostes imortais e filhos da vida — tal vida como os aeons desfrutam; vós sois os Filhos de Deus.

contudo, quisestes que a morte fosse repartida entre vós, para gastá-la e dissipá-la, para que a morte morresse em vós e por vossas mãos; pois na medida em que dissolvês o mundo e não sois dissolvidos vós mesmos, sois senhores de toda criação e destruição."

Aqui temos o cerne do ensinamento em um dos tratados do Codex Brucianus — crucificar o mundo e não deixar que o mundo nos crucifique — e do tratado Pistis Sophia: "Não sabeis que sois todos deuses e senhores?" O Self dentro do coração, a semente do divino, a centelha de luz pneumática, o morador na luz, o homem interior, era o peregrino eterno encarnado na matéria; aqueles que tinham isso vivo e consciente dentro de si eram os espirituais ou pneumáticos.

É a esses que Valentinus fala.

v. Algumas Sentenças preservadas na Matéria Controversa de Clemente após a Citação acima, e provavelmente retiradas de um Escrito de Valentinus.

A "raça eleita", a terceira Filiação de Basilides, encarnou aqui para a abolição da "morte", o domínio do Governante do mundo fenomênico, o samsara dos filósofos budistas e indianos, o reino do "eterno devir" de Platão.

Este Governante é o Deus do Antigo Testamento.

"Não "O homem verá a face de Deus e viverá." Esta é a face da morte, mas há também uma face da vida, sobre a qual Valentino escreve:


"Tão distante quanto está a [imagem morta] do rosto vivo, tão distante está o mundo [fenomênico] do éon vivo [o nôumeno]. Qual é, então, a causa da imagem? A majestade do [vivo] rosto, [ou pessoa,] que exibe o tipo [do universo] ao pintor, e para que ele [o universo] seja honrado por seu nome [— o nome ou ser real da majestade da divindade]. Pois não é a natureza autêntica [ou absoluta] que se encontra na forma; é o nome que completa a deficiência na confecção.

A natureza invisível da divindade coopera de modo a induzir fé naquilo que foi moldado."

Aqui temos a mesma ideia do Fragmento i., e presumivelmente foi extraída da mesma Carta.

O "pintor" é, naturalmente, o usuário das forças criativas do mundo fenomênico, que copia dos tipos ou ideias no mundo nôumeno da realidade.

Aquele a quem os judeus chamavam Deus e Pai, era dito por Valentino ser a "imagem e profeta do Deus verdadeiro", a palavra profeta significando aquele que fala por e interpreta.

A "imagem" é a obra de Sophia ou Sabedoria, que é a "pintora" que transfere os tipos dos espaços nôumenos para a tela do mundo fenomênico, e o "Deus verdadeiro" ou o "Deus da verdade" é o criador do mundo nôumeno, que contém os tipos de todas as coisas.

Ele é o deus da vida; a "imagem" é o deus da morte.

VALENTINO.

"Todas as coisas que provêm de um par [ou sizígia] são plenitudes (pleromas), mas todas as que procedem de um único [éon] são imagens."

Isto será explicado mais adiante; refere-se à "queda" de Sophia do mundo dos éons, pela qual o universo fenomênico veio a existir.

As observações de Clemente que se seguem imediatamente são quase ininteligíveis; tratam da vinda do espírito "excelente", a infusão da centelha de luz no homem.

vi. Da Carta sobre a Comunidade de Amigos.

"Muitas dessas coisas que estão escritas nos volumes públicos encontram-se escritas na Igreja Concernente ao Povo de Deus.

Pois esses ensinamentos que são comuns, o Amado.

são as palavras que procedem do coração, a lei escrita no coração.

Este é o Povo do Amado que é amado por Ele e O ama."

Clemente supõe que Valentino entende por "volumes públicos" os escritos judaicos e os livros dos filósofos.

Os "volumes públicos", contudo, para Valentino incluíam não apenas as obras dos filósofos e as escrituras dos judeus, mas também as escrituras de todas as outras religiões, e também os documentos cristãos em circulação geral.

Ele meramente afirma que as únicas verdades "comuns" ou gerais são aquelas pertencentes à Comunidade de Amigos, ou Santos, que formam a Igreja de Deus, o Povo do Amado.

Essas verdades vêm do coração; ele protesta contra a visão estreita que pode encontrar a verdade em apenas um conjunto de escrituras; e declara que ela está em todas as escrituras e filosofias, se alguém olhar para o espírito e não para a letra.


vii.

Um Fragmento muito duvidoso de Eulógio de Alexandria, escrevendo no final do Sexto Século.

Se este fragmento puder ser aceito como genuíno, nós Os aprendemos que os primeiros cristãos, a quem Valentino

Galileus.

chama "os Galileus do tempo de Cristo", acreditavam na doutrina das duas naturezas, enquanto os valentinianos afirmavam que havia apenas uma.

Isso é bastante crível, seguindo as linhas de argumentação de Isidoro sobre a consciência unitária da alma e sua responsabilidade, e o ensinamento de Valentino de que Jesus "desenvolveu" sua própria divindade.

viii.

O Mito que Valentino criou.

Hipólito (II.) insere o seguinte fragmento de informação no meio da longa descrição do sistema de Marcos, que copiou de Ireneu:

Valentino diz que certa vez viu uma criança que A Sabedoria acabara de nascer, e que ele procedeu a

"Pequenino." questioná-la para descobrir quem ela era.

E o bebê

respondeu e disse que era o Logos." A isso, diz

Hipólito, Valentino acrescentou um "mito trágico",

que formou a base de seu ensinamento.

Teríamos aqui

um incidente do prólogo de um dos tratados de Valentino;

e seria o "mito trágico" a modificação de Valentino

do grande mito de Sophia, que era

o *deus ex machina* de parte de sua cosmogonia?

VALENTINO.

ix. De um Salmo.

Finalmente, da mesma fonte, as *Philosophumena*,

recuperamos as seguintes linhas; é provável

que Hipólito as tenha tirado do mesmo tratado

do qual derivou a informação acima, e que o Salmo

se esforçasse para explicar por que o recém-nascido

era o Logos, por que "isto" é "Aquilo",

como dizem os Upanixades, e tudo é um.

"Todas as coisas dependentes no espírito eu vejo;
Todas as coisas sustentadas no espírito eu contemplo;
Carne da alma dependente; Alma pelo ar sustentada;
Ar do éter pendente — Frutos nascidos do abismo —
Bebê nascido do ventre."

Se este Salmo extremamente místico foi ou não
tomado no sentido que sugerimos acima é meramente
problemático.

Tais enunciados místicos poderiam, naturalmente, ser
interpretados tanto do ponto de vista microcósmico quanto
macrocósmico; e Hipólito nos dá o que ele afirma ser
uma interpretação valentiniana deste último ponto de vista.

A "carne" é a Hyle (a Hébdomada de Basilides);
a "alma" é a do Demiurgo (a força "material"
dos espaços etéricos, a Ogdóada de Basilides);
o Demiurgo pende do Espírito, que de um ponto de vista
é o Grande Limite ou Fronteira, separando o Pleroma,
ou mundo da realidade, do Kenoma, ou universo fenomenal, e de outro é Sophia ou Sabedoria, no Reino do Meio.


Assim, o Demiurgo pende de Sophia; Sophia do Grande
Limite ou Horos (uma diferenciação adicional da simples
ideia basilidiana do Grande Firmamento); Horos do
Pleroma, o Bendito Tesouro dos eões; e este mundo
de ideias, ou Eão Vivo, do Abismo ou Grande Profundeza,
o Pai, o Deus além do ser.

Esta é a cadeia do ser valentiniana, cujos detalhes subordinados são tão abstrusos e tão complicados, que ninguém até agora foi capaz de extrair qualquer esquema coerente de suas representações caóticas e contraditórias nos escritos dos Padres.

No manuscrito de *The Philosophumena*, o fragmento acima é precedido pela palavra desconexa "Colheita". Hilgenfeld, portanto, fala de Valentino "cantando hinos à Grande Colheita", o que é uma concepção muito grandiosa, mas uma ideia difícil de conectar com os versos citados.

Tal é o pobre total de nossa informação sobre o que Valentino realmente ensinou — nove, ou melhor, oito, fragmentos dispersos ao todo.

Contudo, que palavras fortes e jubilosas, transbordantes de vida, em meio à monotonia da retórica dos refutadores.

A esses fragmentos pareceria apropriado anexar o relato que Irineu (cap. 11) copiou de um escritor heresiológico anterior.

Geralmente se assume que essa autoridade mais antiga foi Justino Mártir; mas quem quer que tenha sido, era um mero resumidor, e mesmo nessa data primitiva da heresiologia (c. 150), já lutava com os relatos

VALENTINO.

contraditórios que ouvira sobre a Gnose "valentiniana".

Portanto, considero essa fonte como não mais digna de atenção especial do que os outros resumos da chamada doutrina valentiniana geral encontrados nos escritos dos Padres.

Nada temos de certo a aprender nela sobre o ensinamento do próprio Valentino, e essa é a única busca em que estamos atualmente empenhados.

Assim, nos despedimos do "grande desconhecido" do Gnosticismo, cujo nome, no entanto, era o mais conhecido de todos, cuja influência foi a mais abrangente, e cujas doutrinas, em vez de serem um sistema pronto e acabado de vocábulos mortos, eram tão animadas de vida que as representações caleidoscópicas delas por seus seguidores, em primeiro lugar, e os resumos perplexos e perplexantes dos Padres dessas representações proteicas, em segundo lugar, provaram ser o desespero da erudição.

A razão disso, na maioria das vezes, é que, ao se tentar trazer ordem a esse caos, palavras e termos foram seguidos como pistas, em vez de ideias.

Não apenas no caso do ciclo valentiniano de ideias, mas também em todas as outras fases da Gnose, esses guias ilusórios foram geralmente seguidos como condutores para fora do labirinto.

Mas o fio de Ariadne que nos tira do dédalo é tecido de ideias, não de nomes.

Os gnósticos estavam sempre mudando sua nomenclatura; o deus de um sistema podia até ser o diabo de outro! Aquele que faz apenas uma concordância de nomes, no gnosticismo, pode considerar-se sortudo por escapar de um asilo de lunáticos; aquele, ao contrário, que busca a ideia por trás do nome, frequentemente se encontrará em um reino de grande beleza e harmonia de pensamento.


Homens como os gnósticos sempre tiveram intuições de um estado real de ser, de reinos de consciência definidos e precisos; contudo, cada um captou apenas um vislumbre da realidade, como todos os homens devem, enquanto estiverem aprisionados em um corpo.

Se os gnósticos esgotaram a filosofia e a religião de seu tempo em um esforço para encontrar uma vestimenta decente para a verdade nua, como pensavam vê-la, quem os culpará? Embora se contradigam uns aos outros, na visão do caçador de palavras, não se contradizem para o seguidor de ideias.

A ideia é a chave que abre os mistérios da Gnose, e aqueles que se recusam a usar essa chave viva devem contentar-se em ter o tesouro fechado contra eles.

Agora, antes de tratar dos seguidores de Valentino, tentaremos, a partir do caos de resumos, peneirar algumas das ideias principais do ciclo valentiniano da Gnose.

Se fôssemos reunir todos esses relatos contraditórios e submetê-los a uma análise crítica, é de temer que o leitor comum, para quem estes esboços são escritos, ou fechasse nossas páginas em desespero; ou, se tentasse acompanhar os detalhes e a ponderação das probabilidades, fosse reduzido a tal estado de perturbação mental que esqueceria tudo o que veio antes, e se tornaria totalmente incapaz de compreender o que se segue.

Tal trabalho técnico deve ser reservado para tratamento em outro lugar; entretanto, tentaremos, não apresentar uma exposição do sistema de "eles de

ALGUNS ESBOÇOS DE EONOLOGIA.

Valentino" — se é que alguma vez tiveram um único sistema definido — mas apenas esboçar alguns contornos de suas ideias sobre eonologia.

ALGUNS ESBOÇOS DE EONOLOGIA.

PARA elevar nosso pensamento à contemplação dos problemas transcendentes para os quais a mente desses gnósticos era conduzida, devemos refrescar nossa memória com o esboço do sistema basilidiano que foi dado acima.

Do mundo dos homens, nossa terra, devemos passar em pensamento através dos espaços sublunares, visíveis e invisíveis; dali devemos passar além do firmamento lunar, o céu, para os espaços etéreos — os mundos estelares, e seus infinitos habitantes, espaços e regiões, ordens e hierarquias — limitados nos extremos limites do espaço e do tempo, pelo Grande Firmamento, o Anel "Não Passarás", que separa o universo fenomênico do universo da realidade fora do espaço e do tempo.

É uma Fronteira em toda parte e — em "lugar" nenhum.

Aqui nos despedimos do tempo e do espaço, e alcançamos a região do paradoxo, pois o homem mortal ainda precisa falar dela em termos de coisas fenomênicas — chamando-a de região, embora não seja uma região; falando dela como o Eon Vivo, embora transcenda toda vida; celebrando-a como o Mundo de Luz, embora sua luz seja trevas para os olhos mortais, por causa da superabundância de seu brilho.

Este é o Pleroma, o mundo da perfeição, de tipos perfeitos e harmonia perfeita.


A mente recua diante disso, incapaz de compreender, e, no entanto, o espírito interior clama ao homem com uma voz que não admite negação: "Ainda adiante; ainda além, e além!" Então há Silêncio; nenhuma palavra, nenhum símbolo, nenhum pensamento pode mais valer.

A mente está muda, o espírito está em paz, em repouso no Silêncio Supremo da contemplação, da união com o Divino, o Grande Abismo — Profundidade, o interior das coisas, aquilo que permeia tudo, atravessa tudo.

Diz-se que nossos Gnósticos "começaram" com a Profundidade, essa concepção de Bythus, ou o Abismo do Além do Ser.

Profundidade; mas isso é um erro.

Basílides já havia mostrado como era impossível nomear o Deus além de tudo; devemos pensar que os Valentinianos ficaram aquém de uma verdade tão óbvia? De modo algum; alguns deles ensinaram sobre o Além do Abismo, uma hierarquia de Abismos; e curiosamente, no Codex Brucianus encontramos tais hierarquias, e também as encontramos pressupostas no tratado Pistis Sophia.

Que absurdo, então, buscar um "começo" na infinitude! Tal concepção de começo estava baixa na escala do ser; podemos falar do "começo" de algum universo fenomênico especial, mas há uma infinitude de tais universos, e a infinitude não tem começo.

Além do Pleroma, ou tipo ideal de todos os universos, havia — o quê? Silêncios mais inefáveis que o Silêncio, e Abismos mais profundos que o Abismo! Como os Valentinianos teriam rido da noção de atribuir uma teoria monista ou dualista à sua intuição do que jazia além do Ser, e de fazer

ALGUNS ESBOÇOS DE EONOLOGIA.

disso a base para dividi-los em uma escola Oriental e Ocidental! No entanto, é isso que Hipólito (II) e muitos críticos modernos fizeram.

Deixemos então o mistério no Silêncio dessa Profundidade além do Ser — um Silêncio que, por assim dizer, isolava o Pleroma da Profundidade além do Ser por uma Fronteira ainda mais elevada do que o Grande Firmamento.

Este Limite Supremo estava nas profundezas mais íntimas do próprio Pleroma, o mundo interior, assim como o Grande Limite estava além das profundezas do mundo externo fenomênico.

A ideia conotada pelo termo "profundidade" afasta o pensamento de todas as ideias de matéria tridimensional, como a conhecemos, e o introduz à noção de "através" em todas as direções ao mesmo tempo, tanto para dentro quanto para fora.

Em seguida, temos que tratar do "ser" do Pleroma dos Aeons.

Todo "ser" neste mundo "Plenitude do Ser" (Pleroma) era também, por sua vez, uma "plenitude" ou perfeição, e a natureza da vida desses "seres" era manifestada em seus nomes.

Eles eram chamados de Aeons, ou "eternidades", pois estavam fora do tempo e do espaço.

Tudo fora do Pleroma, isto é, tudo no universo fenomênico, ao contrário, era uma "imagem" ou deficiência.

O mundo fenomênico era, portanto, chamado por nomes como Kenoma ou "Vazio", a Imagem, etc.

É, no entanto, evidente que, até alcançarmos o mundo fenomênico, nenhuma linguagem humana possível pode nos servir para expressar modos de ser que transcendem as operações cosmogônicas.

E, no entanto, a ousadia do gênio gnóstico teve que encontrar algum método pelo qual pudesse esboçar o modo de ser dos Aeons, que eram, *ex hypothesi*, fora do tempo e do espaço.

Voltemos então nossa atenção para um dos métodos pelos quais isso foi tentado.

Não que os gnósticos trabalhassem de baixo para cima; eles recebiam de cima e o traziam para a matéria; em suma, suas exposições eram tentativas de descrever um símbolo vivo, que se diz ter-lhes sido mostrado em visão.

Ora, Pitágoras e Platão, e os instrutores nos Mistérios, declararam que a matéria física era, em última análise, de natureza geométrica; que em todas as coisas "Deus geometriza".

Assim, os cinco sólidos regulares formavam o ápice do conhecimento geométrico da escola platônica.

Foi por causa da atenção dispensada a esses sólidos por essa escola que a posteridade chamou os cinco de Sólidos Platônicos.

"Todo o conjunto dos Elementos de Euclides", diz Proclo, "não passava de uma introdução a esta ciência dos sólidos perfeitos."

Acreditava-se que esses poliedros estavam na base não apenas da formação da Terra, mas de todo gênero, espécie e indivíduo no universo material.

É estranho que nenhum assunto em matemática tenha sido tão negligenciado quanto o dos sólidos regulares; mas assim é, e os modernos zombam de tais "puerilidades" dos antigos.

Para a redescoberta e elaboração de uma parte dessa ciência nos últimos seis anos, devo remeter o "doulx lecteur" às obras de um jovem cientista espanhol, Senhor Soria y Mata.

Ninguém, é claro, que seja totalmente ignorante do

ALGUNS ESBOÇOS DE ONTOLOGIA.

assunto, será capaz de compreender plenamente as seguintes indicações gerais; mas a natureza dos indicadores de caminho é apontar certas direções, não acompanhar o viajante ao longo da estrada; e o "gentil leitor" que requer tal condução pessoal deve buscá-la nos admiráveis ensaios do Senhor Soria.

Por ora, nosso trabalho é simplesmente erguer placas de sinalização; e assim retornamos à nossa tarefa.

Mas mesmo supondo, alguém poderá dizer, que os cinco sólidos (que são todas variações de um só em várias combinações consigo mesmo) tenham alguma conexão com os elementos típicos que constroem a estrutura molecular invisível da matéria física, o que isso tem a ver com os gnósticos valentinianos? Muito, podemos responder.

Marco, um dos primeiros seguidores de Valentino, tem algum sistema de numeração cabalística atribuído a ele, e em conexão com isso Hipólito (II.) declara que todo o valentinianismo era baseado nos números e na geometria de Pitágoras e Platão.

Nenhuma prova adicional, no entanto, é apresentada para essa generalidade abrangente, e nenhum estudioso até agora forneceu o elo perdido.

É, no entanto, inteiramente crível que a eonologia da Escola Valentiniana fosse baseada parcialmente em tais considerações.

Façamos então algumas sugestões sobre o assunto, não a partir da numeração atribuída a Marcos, mas do lado vivo da matemática pitagórica e platônica, a "mathesis" que era o mesmo que a "gnosis" e que se diz ter sido chamada até pelo próprio Pitágoras de "a gnosis das coisas que são".

Foi então talvez ao longo dessa linha de pensamento que alguns dos pensadores gnósticos buscaram um simbolismo vivo, que devesse esboçar de alguma maneira o modo de ser dos éons.


Da região da matéria poliédrica definida, cuja ordenação, embora invisível ao olho, pudesse ainda ser imaginada na mente, o simbolismo poderia ser recuado mais uma etapa — do molecular ao atômico, como diríamos hoje em dia.

Os sólidos regulares eram assim a efetivação, na matéria física, de certos sistemas de perfeito equilíbrio de "pontos" no espaço.

Esses pontos não eram puras abstrações matemáticas, mas centros reais de força, mantendo certas relações entre si, equilibrados por uma lei de polaridade ou sízigia.

Esta era a região do átomo.

O átomo era pensado como uma coisa viva de força, uma esfera, dita por alguns ser um redemoinho esférico ("cônico"), a figura mais perfeita, sempre se contraindo e se expandindo, geradora de todos os movimentos, enquanto é em si mesma automotiva, e ainda, de outro ponto de vista, "imóvel", por pertencer aos "fundamentos da terra". É menor que o pequeno como matéria, porém maior que o grande como energia.

Eram o átomo e suas combinações, então, como diríamos hoje, que a Gnose Valentiniana contemplava em sua eonologia.

Não sugiro, contudo, por um momento, que qualquer filósofo gnóstico pensasse no átomo da mesma maneira que um físico moderno; creio, ao contrário, que os mais avançados dos gnósticos viram esse símbolo vivo da formação do mundo em visão, e os vários sistemas foram esforços para explicar tais visões.

É claro, qualquer símbolo é imensidões

ALGUNS ESBOÇOS DE ONTOLOGIA.

Removido da realidade, mas o esforço de imaginar, ou o privilégio de ser mostrado, o tipo vivo que jaz além dos tipos mais simples — de formação da matéria física — está, de qualquer modo, mais próximo da realidade do que qualquer forma física morta.

Assim, o átomo e seus modos mais simples de ser diferenciado podem ser tomados como símbolos do mundo eônico, o Pleroma, o mundo de vida e luz, além do tempo e do espaço, o coração incorruptível das eternidades.

A seguinte visão pode então ser de interesse para estudantes de simbolismo, que, via de regra, confinam sua atenção unicamente a figuras planas e, assim, lidam, por assim dizer, com as "sombras dos mortos". Pois uma figura plana é, por assim dizer, apenas uma sombra de um sólido morto; é o sistema vivo de forças por trás ou dentro deste que é a primeira centelha de vida na série.

Para ver isso mais claramente, tomemos um símbolo familiar, os triângulos entrelaçados ou o "Selo de Salomão". Em sólidos, esse símbolo é representado por dois tetraedros mutuamente interpenetrados; dessa união surgem o cubo e o octaedro.

O dodecaedro e o icosaedro provêm do congresso mútuo de cinco tetraedros, uma quintuplicação.

Assim, temos nossos cinco sólidos regulares.

O tipo fundamental é o tetraedro, e o sistema de forças por trás dele consiste em dois pares de átomos, ou uma dupla sizígia ou par em perfeito equilíbrio.

A natureza da relação desses átomos ou esferas entre si, e da interação de seus movimentos, é o modo de vida ou de ser do símbolo; e quando isso é aprendido, então o símbolo se torna vivo e, assim, as forças que a "sombra" do sólido "morto" simboliza estão nas mãos do solucionador do "mistério". Uma forma de magia antiga, especialmente praticada no Egito, consistia em uma extensão altamente complicada dessa ideia, que vagava muito além dos limites dos símbolos geométricos.


Desnecessário dizer que a vasta maioria dos que praticavam a arte não tinha a menor ideia das "razões" para suas performances.

A magia, para o público em geral, nunca foi uma coisa racional.

Consistia em um número infinito de "regras práticas", e este aspecto é, consequentemente, e com toda razão, considerado pela presente era de investigação inteligente como uma superstição.

O estudante inteligente do simbolismo esforçar-se-á, portanto, por libertar sua mente das limitações do espaço tridimensional e pensar no estado da chamada "quarta dimensão". Pois é somente ao longo desta linha de pensamento que há alguma esperança de se conceber, ainda que vagamente, o ser seônico.

Como a questão é de primeira importância para um estudante do Gnosticismo e, ao mesmo tempo, de grande dificuldade, a seguinte linha de pensamento pode ser sugerida como exercício preliminar.

Pense em um átomo, ou mônada, como uma esfera que se gera a si mesma, ou se expande, a partir de um ponto e novamente se recolhe naquele ponto.

Isso dá a ideia simples de posição.

Tome duas dessas esferas no mesmo momento de expansão, isto é, duas esferas iguais, e coloque-as em contato mútuo.

Isso pode ser feito de um número infinito de maneiras, de modo que elas possam estar em qualquer direção uma em relação à outra.

Reduza essas esferas, em pensamento, a pontos matemáticos, e temos a ideia mais simples de extensão — uma dimensão.

Os dois pontos são as extremidades ou limites de uma linha.

Em seguida, tome três esferas semelhantes e coloque-as em contato mútuo.

Elas podem ser dispostas em qualquer direção uma em relação à outra.

Reduza-as, em pensamento, a pontos, e temos três pontos não em linha reta, situados em uma superfície plana, ou superfície de duas dimensões.

Então, tome quatro dessas esferas e coloque-as em contato mútuo.

Reduza-as, por sua vez, a pontos, e suas posições exigem espaço de três dimensões.

Finalmente, tome cinco dessas esferas e tente imaginar como elas podem ser colocadas em contato mútuo, isto é, como cada uma pode tocar todas as demais.

ALGUNS ESBOÇOS DE ONOLOGIA.

Isto não pode ser imaginado em três dimensões, e requer a concepção de outra "dimensão" — algo relacionado ao conteúdo das esferas — a ideia de "através". Isto não parece ser tanto uma "quarta dimensão" quanto uma involução da percepção, refazendo o caminho que até agora seguimos.

Por exemplo, o espaço tridimensional é, para a visão normal, limitado por superfícies; aqueles que possuem visão interior (visão "quadridimensional") dizem que os conteúdos de um objeto — e.g., um relógio — aparecem, de alguma forma incompreensível, espalhados diante deles como sobre uma superfície.

Se assim é, então o espaço tridimensional, o quarto elo de nossa cadeia, é o ponto de virada, e portanto a consciência volta-se para dentro, mais uma vez, em direção ao ponto, que, quando alcançado, tornar-se-á a circunferência ilimitada, ou pleroma da consciência — o "átomo" nirvânico, por assim dizer.


Tentemos agora imaginar como a Gnose simbolizava o universo ideal, o tipo de todos os universos — o átomo primal ou mônada, seus movimentos e modos de autodiferenciação e autoemanação dentro de si mesmo.

O objeto de sua contemplação era idêntico ao mundo das ideias, ou mundo noético, de Platão; o mundo de luz do antigo Irã; o "ovo eterno", ou tipo, do qual todos os universos emanam, do antigo Khem; o "germe resplandecente", ou hiranya-garbha, dos Upanishads — tudo o que foi intuitivamente exposto em termos filosóficos por Leibnitz em sua Monadologia.

Primeiro, então, temos a concepção de uma esfera infinita de Luz eterna, Luz que transcende a glória do mais brilhante sol, assim como a glória desse sol transcende a chama de uma vela de estopa; Luz além do pensamento.

Ainda não há nada além de Luz infinita; contudo, através dela há sempre algo que vai, por assim dizer, de e para o seu centro, que está em toda parte e em lugar nenhum, um sopro sempre expirando e inspirando, uma energia sem fim que nada de humano pode perceber ou conhecer.

É o sopro vital do universo no ponto zero do ser, para usar termos familiares a alguns estudantes de teosofia.

Prosseguimos agora ao que devemos chamar de uma mudança de estado; mas devemos lembrar que todos os estados que tentamos assim simbolizar, na realidade existem simultaneamente; e embora em pensamento devamos seguir uma espécie de emanação ou evolução, é na realidade um estado infinito de consciência sempre existente, fora do tempo e do espaço.

Neste campo sempre pulsante de energia universal

ALGUNS ESBOÇOS DE ONOLOGIA

(que está em toda parte e em lugar nenhum), algo

surge ligeiramente menos brilhante do que o transcendente A Lei da

Syzygy.

Luz, outro modo de movimento, por assim dizer, que podemos simbolizar como um redemoinho oval ou em forma de ovo, sempre se expandindo e se contraindo.

Dentro disso, dois "focos" são gradualmente desenvolvidos, conforme ele pulsa e se expande.

A periferia interna do invólucro do ovo se contrai no meio através da ação dos dois focos, os símbolos do equilíbrio, do positivo e do negativo, a lei da syzygy ou do pareamento.

Os dois se separam.

Bythus e Ennoea, Profundeza e Pensamento, são a primeira syzygy dos éons, agora simbolizados como duas esferas.

Estando separados, de alguma maneira misteriosa são afetados de forma diferente pela grande expiração e inspiração, contudo cada um manifesta as qualidades do outro.

Um é positivo, o outro é negativo, por assim dizer, e essas qualidades são imediatamente comunicadas a toda a grande Esfera de Luz, pois estão em toda parte e em lugar nenhum ao mesmo tempo.

A polaridade é assim declarada como um modo de ser do Pleroma; a lei da syzygy é afirmada.

Mas surgindo a dualidade, a multiplicidade deve seguir; e não apenas a multiplicidade, mas a universalidade.

Pois o Pleroma deve ser simultaneamente o tipo do Uno, do Muitos e do Todo, e o monoteísmo, o politeísmo e o panteísmo devem cada um encontrar sua fonte nele.

Ao seguir nossa imagética simbólica, contudo, não podemos pensar o todo de uma vez.

Tentamos conceber que qualquer processo do qual obtemos uma intuição por meio de nossos símbolos ocorre em toda parte, sempre, e simultaneamente com todo outro processo e modo de ser; mas disso não podemos obter nenhuma imagem mental.


Só podemos passar de um processo a outro seguindo o comportamento de um único par de nossos símbolos vivos.

Prosseguindo, então.

Assim, temos esferas evoluindo, cada uma positiva-negativa em si mesma, mas positiva ou negativa em sua relação com a outra.

Em pensamento, trataremos uma como positiva, a outra como negativa, e assim tentaremos imaginar as mudanças de modo.

À medida que as esferas gêmeas, por sua vez, se expandem e contraem, quando se tocam, da negativa um "véu" ou "névoa" é derramado e, por assim dizer, "reveste" a grande Esfera de Luz.

A lei da densificação e da diferenciação perpétua é declarada.

A cada contração, a esfera negativa torna-se menos luminosa e mais passiva, por assim dizer, embora na realidade o éon "mais baixo" transcenda em muito o mais brilhante fulgor do universo.

A esfera de luz negativa desenvolve-se em progênie, diferencia sua substância, impregnada pela esfera de luz positiva.

Isto é, o Mundo de Luz é diferenciado em "planos" de ser; há "véus" e "firmamentos". Mas quantos e de que espécie?

Devo remeter o leitor novamente aos ensaios de Sefior Soria sobre a origem poliédrica das espécies para a única série possível de sistemas físicos de perfeito equilíbrio de esferas de igual diâmetro, de duas para cima, se ele quiser acompanhar este problema tão interessante em maior detalhe e elaborar a questão por si mesmo.

Por ora, basta afirmar que a primeira hierarquia eônica do Pleroma valentiniano teria sido uma ogdoada, ou grupo de oito, que às vezes era considerada como uma tétrade dupla — em símbolos vivos, o sistema de equilíbrio por trás de dois tetraedros igualmente interpenetrados.

Um ponto de interesse que não deve ser negligenciado, contudo, é notado como decorrente da consideração do modo ogdoadico do Pleroma.

O Bythus e a Ennoea não são mais considerados como um par único; Ennoea, a esfera negativa, produziu descendência.

Ela é agora o tipo da Natureza "de sete vestes", Ísis; enquanto Bythus é o Grande Abismo ou "Redemoinho de Águas", Osíris, o éter.

ALGUNS ESBOÇOS DE ONOLOGIA.

A esfera negativa é agora sete esferas (ela mesma, e seis semelhantes a ela e à esfera positiva) — isto é, três pares de eons.

Aqui temos o tipo da esfera única da mesmidade, e as sete esferas da diferença, da Alma do Mundo pitagórica e platônica.

A Ogdóada e a Hebdômada de Basilides têm também aqui seus tipos.

Assim, tendo declarado a lei da dualidade, ou sizígia, encontramos em seguida a lei da triplicidade afirmada na tríade de sizígias nas quais a esfera negativa é diferenciada.

Estes são os três grandes estágios ou espaços do Pleroma, e as sizígias, ou modos de polaridade, dessas fases foram chamadas Mente-Verdade, Verbo-Vida e Homem-Igreja, por razões que são um tanto obscuras, e às quais retornaremos mais adiante.

Somos então informados de uma dodecada e uma década de eons que devem sua existência a uma ou outra das sizígias da ogdóada.

Os relatos de sua gênese são inteiramente contraditórios; às vezes também a década é colocada antes da dodecada, e, visto que naturalmente dez vem antes de doze, os críticos

Os Três e os Sete.

Os Doze e os Dez, têm, sem exceção, preferido esta ordem.


A questão é, na melhor das hipóteses, puramente conjectural em tal caos, mas a experiência nos leva a escolher o menos provável como sendo o relato mais correto.

O que, na terra, deveria ter induzido alguns dos valentinianos a colocar os doze antes dos dez, se seu simbolismo não tivesse necessitado tal ordem?

Tomaremos, portanto, as principais fases do Pleroma como sendo aquelas simbolizadas pela ogdóada, a dodecada e a década, por sua vez; não que uma tenha vindo da outra na realidade (todas existiram juntas eternamente), mas porque os símbolos vivos são descritos em um mito dramático, uma das variantes do qual apresentaremos brevemente ao leitor.

A ogdóada é um termo que conota as operações dos processos vivos por trás do símbolo de dois tetraedros interpenetrados e, portanto, inclui todas as permutações de sua progênie complementar (o cubo e o octaedro). Assim, a ogdóada foi dividida em uma tétrade superior e uma inferior, e de várias outras maneiras, incluindo o um e o sete, como descrito acima; o um e o sete podem ser representados pelo curioso fato geométrico de que, se sete círculos iguais forem tomados e seis forem agrupados ao redor do central, cada circunferência, respectivamente, tocará exatamente dois círculos adjacentes e o do meio, enquanto o círculo maior pode ser descrito ao redor de todos os sete.

Isto é, naturalmente, apenas a sombra de um símbolo, e destina-se somente a servir como um mnemônico; mas o fato é curioso, e tais fatos naturais não eram tão levianamente considerados pelos platônicos como o são pelos modernos, especialmente quando tinham a ver com as

ALGUNS ESBOÇOS DE POMOLOGIA,

figuras mais perfeitas — círculos e esferas, os símbolos naturais das perfeições ou pleromas.

Chegamos agora a um estágio em que a diferenciação da simplicidade primordial deve ser representada por grupos de doze; o modo de ser do Pleroma é agora a dodecada.

É um fato curioso que, se imaginássemos o espaço preenchido com esferas de diâmetro igual e em contato mútuo, descobriríamos que cada esfera é cercada por exatamente doze outras esferas; além disso, se imaginássemos as esferas como elásticas e que pressão fosse aplicada sobre um de tais sistemas de doze, de todos os lados ao mesmo tempo, a esfera central, ou décima terceira, assumiria uma forma dodecagonal — na verdade, um dodecaedro rômbico.

Se nos lembrarmos ainda de que há frequente menção a um "décimo terceiro éon", que até agora tem confundido todos os comentadores; que os pitagóricos, platônicos e filósofos indianos afirmaram que o dodecaedro era o símbolo do universo material; que somos assegurados por alguns que têm visão psíquica ou clarividente hoje em dia de que o campo de atividade do átomo é contido por um dodecaedro rômbico; e que os "doze" signos do zodíaco permaneceram até agora uma mera hipótese irracional — então podemos ser inclinados a pensar que havia boa razão para insistir na dodecada como uma fase importante do ser seoniano.

Além disso, cada fase do Pleroma é suposta ser positiva em relação à fase sucessiva.

Assim, o Pleroma como um todo é positivo em relação ao estágio diádico; no estágio diádico, Bythus é positivo em relação a Ennoea, que se torna variada e setenária.


O setenário é positivo em relação ao estágio da dodecada, que consiste em treze esferas.

Se pensarmos na dodecada como o dodecaedro, estaremos lidando com o universo fenomenal, e assim estaremos fora do Pleroma; aqui estamos lidando com o tipo vivo por trás, no mundo dos éons, isto é, o sistema de treze esferas que efetivam o dodecaedro no mundo físico.

Cada uma dessas treze contém em si os sete modos de ser da fase precedente, e assim, em todo sistema de treze, há na realidade uma progênie numerosa.

Estes são os filhos daquela fase de ser que podemos chamar de multiplicidade da mesmidade, isto é, o oceano atômico de esferas contíguas semelhantes; e eles, por sua vez, sofrem uma mudança que efetivará um arranjo harmonioso ou perfeição, a ser finalmente denotado pelo número perfeito dez, a década.

Como, então, chegamos da dodecada à A Década.

década, da matéria atômica à forma perfeita? Talvez de algum modo assim.

Cada esfera é viva, movendo-se em todas as direções ao mesmo tempo, por assim dizer, e ainda, em outro sentido, imóvel.

Os tipos de movimento externo são: para cima, para baixo, para a direita, para a esquerda, para trás, para frente e circular — sete ao todo; a estes temos de acrescentar para dentro e para fora, e um movimento que não é movimento, que podemos imaginar.

E assim alcançamos uma nova fase do ser através da década ou dez, que começa, por assim dizer, outra série de movimentos num plano superior (1, 2, 3, etc., e depois 11, 12, 13, etc.).

Os sete movimentos, ou modos de vida, em todo

ALGUNS ESBOÇOS DE EONOLOGIA.

sistema de treze esferas, são simples na grande esfera que envolve as treze — a décima quarta, ou limite do sistema; mas nas treze esferas subordinadas os modos de movimento agem e reagem uns sobre os outros (pois cada esfera subordinada contacta tantas outras) e produzem um número de outros modos de natureza subordinada, a saber, (7 x 13, ou) 91. Se a estes acrescentarmos como regentes as sete taxas simples de movimento, ao todo temos 98 (91 + 7) modos diferentes.

A estes acrescentamos os dois modos superiores, a inspiração e a expiração, e ao todo temos 100. O cem é a perfeição (10 x 10) do número perfeito (10). Veremos mais adiante como os Gnósticos, num dos seus sistemas, ao aperfeiçoarem o Pleroma, se viram compelidos a acrescentar dois eões, e assim introduziram Cristo e o Espírito Santo no mito do drama do Pleroma.

Assim, o cem obtido ao longo da linha de desenvolvimento da ogdóada e da dodecada, pela adição de dois novos fatores, ou pela operação de uma nova syzygy, conduziu por outro caminho de simplificação ao dez, o número da consumação.

Agora, o número de eões-raiz no Pleroma foi dito ser trinta (8 + 12 + 10), ao qual podemos acrescentar Cristo e o Espírito Santo — os representantes do Bythos e da Sige (Silêncio) para além do Pleroma — e finalmente o Isso para além de tudo, obtendo assim trinta e três, o número do panteão védico de trinta e três divindades, os 8 Vasus, 12 Adityas e 10 Rudras, com um Rudra supremo à sua cabeça, e o Céu e a Terra.

O número 100 também dá uma sugestão pela qual explique a ordenação das fases subordinadas do Pleroma, como encontrada no sistema atribuído por Hipólito (II.) aos Docetas, onde se faz menção da "trinta vezes, sessenta vezes e cem vezes."


Não sugiro por um momento que essas especulações fossem a base da eonologia gnóstica; acredito que os gnósticos "viram" seu conhecimento dos éons em visão, e que encontraram analogias ao que lhes foi mostrado, na natureza e na ciência da época.

Pitágoras também, acredito, viu as mesmas verdades e as elaborou em símbolos matemáticos.

Os gnósticos conheciam o sistema de seus seguidores — um sistema do qual, infelizmente, apenas fragmentos mínimos chegaram até nós — e sem dúvida o utilizaram em seu serviço, com sua aritmética e geometria teológicas, para auxiliar em suas exposições; mas isso foi apenas um meio entre vários que empregaram para o mesmo propósito.

Mas continuemos com nossa eonologia.

Mas como, a partir da perfeição do Pleroma (pois cada um dos éons era uma perfeição ou pleroma por sua vez), viria a imperfeição, ou deficiência, da matéria cósmica, que deveria servir como substância a partir da qual as "imagens" ou "criaturas" do universo seriam formadas? Até agora, o símbolo vivo do Pleroma produziu esferas perfeitas, todas em pares, um globo de luz e um de menos luz ou "mais escuro"; pois os doze e os dez, assim como os oito, consistem em pares.

As várias fases foram produzidas pelos globos de luz agindo sobre os "mais escuros".

Mas agora uma nova mudança

ALGUNS ESBOÇOS DE POMOLOGIA.

ocorre.

Há uma interação de globos "escuros"; e o resultado não é mais uma esfera perfeita inata com movimento, mas uma massa amorfa, em certo sentido fora do Pleroma, por ser inferior a ele, ou não de sua natureza.

Quando isso ocorre, todo o sistema se esforça, por assim dizer, para se corrigir, assim como os órgãos e corpúsculos do corpo humano fazem quando algo dá errado, pois o Pleroma é o corpo espiritual do Homem Celestial.

Mas os vários eões, por si mesmos, não podem efetuar seu propósito; só podem agir sobre a "informidade" quando se combinam.

De cada um dos trinta eões, por assim dizer, projeta-se um raio, e todos os raios, de uma maneira ou de outra, formam um novo eão ou globo de luz, que arredonda a massa amorfa, ou "aborto", queima-a dando-lhe forma, nela penetra e, por fim, a conduz de volta ao repouso.

Este é o símbolo vivo do drama do mundo, e foi elaborado pelos gnósticos com muitos detalhes mitológicos.

Para tudo o que está abaixo do Pleroma, o Pleroma é uno, uma coisa única, contendo os poderes de todos os eões; é o "eão vivo" e atua sobre a matéria cósmica, que é informe, dotando-a assim de forma e criando o universo.

Mas isto é apenas a "conformação segundo a essência"; há também uma "conformação segundo o conhecimento", ou consciência, que pertence à parte soteriológica do drama.

A ideia parece ter sido que o "aborto", ou caos, era destituído do redemoinho de vida ou vórtice.

O vórtice é o dedo de fogo, por assim dizer, ou centelha de luz, projetado pelos eões de luz, em suas fases positivas; as esferas negativas não podem moldar ou modelar o aborto, mas apenas densificá-lo ou materializá-lo; o sopro materno esfria, o sopro paterno aquece o plasma do universo.


Esse plasma é agora, por assim dizer, lançado para fora do mundo ideal no plano cósmico, ou antes, digamos, do plano cósmico para o plano de um sistema estelar; pois a mente humana não pode apreender imensidões como as do mundo ideal, e tudo o que podemos fazer é destacar um exemplo finito das infinitudes do espaço.

Qualquer coisa lançada para fora do grande fluxo cósmico e da vida dos eões é, por assim dizer, "crucificada no espaço"; ou antes, aquilo que nela se encarna deixa o plano da infinitude onde é uno com o Pai e é "crucificado". O Logos assume um corpo, e Seu corpo é o cosmos.

O Homem Celeste é crucificado no espaço.

Mas essa crucificação não é vergonha, nem desgraça; a cruz é o corpo do Homem Celestial, o universo; e o símbolo que os sábios escolheram para esse mistério é a figura do Homem Celestial de braços abertos derramando Sua vida, Seu amor e Sua luz sobre Suas criaturas.

Ele é a fonte de todo bem para o universo, o perpétuo autossacrifício.

Muito mais abaixo na escala do ser há outra crucificação, quando o espírito é encarnado no plano onde há macho e fêmea, sendo assim separado da grande vida e movimento do Pleroma.

O espírito no homem não está mais conscientemente no grande fluxo da Grande Respiração, o Oceano Nírvanico da Vida.

Mas devemos retornar à substância cósmica e à sua formação.

Essa substância é tão sutil e rara e

ALGUNS ESBOÇOS DE EONOLOGIA.

tão delicada, que transcende toda substância que conhecemos; de fato, a substância-mãe do cosmos é de natureza tão maravilhosa que os gnósticos a chamaram de Sabedoria em pessoa, a mais elevada vestimenta com a qual o espírito poderia ser revestido.

O que dá à Sabedoria sua primeira informação é a potência de todos os aeons, chamada o Fruto Comum do Pleroma.

Chegamos agora ao início da evolução do cosmos, segundo este esquema de

filosofia universal.

Devemos, contudo, se nossa imaginação há de suportar a tensão, ser mais modestos e limitar nossa atenção ao início de um sistema solar, em vez da origem do cosmos.

Os espaços etéricos destinados a ser o lar do futuro sistema são vazios e informes.

Da plenitude da energia potencial, o Pleroma, surge a corrente de poder, o vórtice espiral — a Magna Vorago, ou Vasto Redemoinho, de Orfeu.

É o poder criativo ígneo; há como que a purificação dos espaços pelo fogo.

Ele entra no informe e torna-se aquilo que lhe faltava, a força vital espiral ou átomo primordial; Ele também o molda externamente.

A substância-mãe torna-se uma esfera, irradiada de vida, uma massa giratória de poeira estelar.

O "átomo" torna-se a "serpente voadora", o cometa, que, por assim dizer, primeiro paira sobre a substância-mãe, o sistema recém-nascido.

É a "serpente" e o "ovo" novamente, o espermatozoide e o óvulo do embrião solar.

Chegamos agora a um estágio em que temos de lidar com a diferenciação dessa nebulosa de acordo com os tipos na Mente Divina, em outras palavras, os Pleroma.


É neste ponto que as intuições da antiguidade e as mais recentes descobertas da ciência moderna deveriam se encontrar face a face.

Essa união tão desejável do passado e do presente é, creio eu, um evento não tão distante quanto se poderia supor, mas o presente ensaio não nos dá espaço sequer para sugerir algumas indicações sobre o assunto.

A matéria é extremamente técnica, e não estamos no momento engajados em tal tarefa, mas meramente permitindo ao leitor comum passar uma ou duas horas entre os gnósticos.

Portanto, interromperemos aqui na fronteira entre a genealogia e a cosmogonia do círculo valentiniano do gnosticismo, e antes de prosseguirmos, daremos um espécime de seu tratamento mitológico do processo dos eons.

Como já observamos mais de uma vez, os relatos nos Padres da Igreja são inconsistentes e, em muitos detalhes, contraditórios.

Esperamos, no entanto, que o esboço que apresentamos acima sobre a tendência das ideias lance alguma luz sobre todos os relatos, mas como não temos espaço para dar todos, devemos selecionar um como espécime; e o fato de que Hipólito (II.) parece ter tido um manuscrito gnóstico diante de si (visto que ele invariavelmente adere mais de perto às suas autoridades escritas do que qualquer um de seus predecessores) nos guiará em nossa seleção.

Hipólito, em seus Philosophumena, pode estar citando um escrito tardio comparado, por exemplo, com os Excertos de Teódoto; mas seu relato é mais ou menos um reflexo da maneira pela qual um gnóstico via a questão, enquanto os Excertos estão mais lamentavelmente mutilados e deslocados.

Quanto aos

ALGUNS ESBOÇOS DE ONTOLOGIA.

O resumo de Irineu, na melhor das hipóteses, é uma triste colcha de retalhos.

Note-se, porém, que o relato de Hipólito também não deixa de ser uma colcha de retalhos.

Está manifestamente remendado; no entanto, o padrão principal é extraído de algum tratado da biblioteca circulante privada da escola valentiniana.

Pode, contudo, antes de tratar do relato de Hipólito, ser de interesse dar ao leitor uma ideia geral do importante papel desempenhado pela Sabedoria personificada na mitologia gnóstica.

O Mito de Sophia.

Assim como a Sabedoria era o fim da Gnose, o pivô de todo o drama mitológico gnóstico era o chamado Mito de Sophia.

Pois, quer interpretemos suas alegorias do ponto de vista macrocósmico ou microcósmico, é sempre a evolução da mente que os iniciados de outrora procuraram nos ensinar. A emanação e evolução da mente do mundo na cosmogênese, e da mente humana na antropogênese, é sempre o principal interesse da ciência secreta.

A morada de Sophia, como Alma do Mundo, segundo nossos gnósticos, ficava no Meio, na Ogdóada, entre os mundos superiores ou puramente espirituais e os mundos inferiores psíquicos e materiais.

Abaixo da Ogdóada estava a Hebdômada, ou Sete Esferas de substância psíquica.

Verdadeiramente, "a Sabedoria edificou para si uma Casa e a firmou sobre Sete Colunas" (Prov. ix. 1); e ainda: "Ela está nas alturas elevadas; permanece no Meio dos Caminhos, pois assenta-se junto aos Portões dos Poderosos, demora-se nas Entradas [do Mundo da Luz]" (ibid., viii. 2), diz a Sabedoria em sua tradição judaica.


Além disso, Sophia era a Mediadora entre os espaços superiores e inferiores e, ao mesmo tempo, projetava os Tipos ou Ideias do pleroma no cosmos.

Mas por que a Sabedoria, que era originalmente de essência pneumática ou espiritual, estaria no Espaço do Meio, exilada de sua verdadeira Morada? Tal era o grande mistério que a Gnose se esforçava por resolver.

Vendo novamente que essa "Queda da Alma" (seja cósmica ou individual) de sua pureza original a envolvia em sofrimento e miséria, o objetivo que os filósofos gnósticos sempre tiveram diante de si era idêntico ao problema da "dor" que Gautama Sakyamuni se propôs a resolver.

Além disso, a solução dos dois sistemas era idêntica, pois ambos atribuíam a "causa da dor" à Ignorância e, para sua remoção, apontavam o Caminho do Autoconhecimento.

A Mente deveria instruir a mente; a "reflexão autoanalítica" deveria ser o Caminho.

A mente material deveria ser purificada e, assim, tornar-se una com a mente espiritual.

Na nomenclatura da Gnose, isso foi dramatizado na redenção da Sophia pelo Christos, que a libertou de sua ignorância e sofrimentos.

Não é surpreendente, então, que encontremos a Mãe, a Sophia, em seus vários aspectos, possuidora de muitos nomes.

Entre estes, podem ser mencionados: a Mãe, ou Todo-Mãe; Mãe dos Viventes, ou Mãe Resplandecente; o Poder Supremo; o Espírito Santo; também, Ela da Mão Esquerda, em oposição ao Christos, Ele da Mão Direita; o Homem-Mulher; Prouneikos ou a Lasciva; a Matriz; Paraíso; Éden; Achamoth; a Virgem; Barbelo;

O MITO DA SOPHIA.

Filha da Luz; Mãe Misericordiosa; Consorte do Uno Masculino; Reveladora dos Mistérios Perfeitos; Misericórdia Perfeita; Reveladora dos Mistérios de toda a Magnitude; Mãe Oculta; Aquela que conhece os Mistérios dos Eleitos; a Santa Pomba que deu à luz Gêmeos; Ennoea; Soberana; e a Ovelha Perdida ou Errante, Helena, e muitos outros nomes.

Esses termos referem-se à Sophia ou à "Alma" — usando o termo em seu sentido mais geral — em seus aspectos cósmicos ou individuais, conforme ela esteja acima, em sua pureza perfeita; ou no meio, como intermediária; ou abaixo, como caída na matéria.

Mas voltemos a:

O RELATO DE HIPÓLITO SOBRE UMA DAS VARIANTES DO MITO DA SOPHIA.

VALENTIM, Heracleão e Ptolomeu e toda a escola destes [gnósticos], discípulos de Pitágoras e Platão e seguindo sua orientação, estabeleceram a “ciência aritmética” como princípio fundamental de sua doutrina.

Para eles, o princípio de todas as coisas é a Mônada, ingerada, imperecível, incompreensível, o Pai inconcebível, o criador e causa de todas as coisas que são geradas.

Esta Mônada é por eles chamada o Pai.

Quanto à sua natureza, há diferença de opinião entre eles.

Pois alguns declaram .... que o Pai é desprovido de feminilidade, e sem uma sizígia, e solitário; enquanto outros pensam que é impossível que a criação de todas as coisas proceda de um único princípio masculino, e assim são compelidos a acrescentar ao Pai de todos, para que Ele possa ser um Pai, a sizígia Silêncio.


Mas quanto a saber se o Silêncio é uma sizígia ou não, que resolvam essa disputa entre si.

. . .

Hipólito errou o ponto como de costume; havia Pais para cada plano, as mônadas ou estado mônadico de ser, e também Pais-Mães, as díades ou estado diádico de ser, e assim por diante.

“No princípio”, diz [o gnóstico cujo manuscrito Hipólito tinha diante de si], “nada havia que fosse criado.

O Pai estava sozinho, incriado, sem espaço, ou tempo, ou qualquer um com quem aconselhar-se, ou qualquer natureza substancial capaz de ser concebida por qualquer meio.

Ele estava sozinho, solitário, como dizem, e em repouso, Ele mesmo em Si mesmo, sozinho.

Mas como era criativo, pareceu-Lhe bem, por fim, criar e produzir aquilo que era mais belo e mais perfeito em Si mesmo.

Pois Ele não era mais amante da solidão.

Pois Ele era todo amor”, diz [o escritor do manuscrito], “mas o amor não é amor se não houver nada para ser amado.

Portanto, o Pai, sozinho como estava, emanou e gerou Mente-e-Verdade, isto é, a díade, que é Senhora e Princípio, e Mãe de todos os éons que eles contam no Pleroma.”

E Mente-e-Verdade, tendo sido emanadas do Pai, possuindo o poder da criação como seu progenitor criativo, em imitação do Pai, emanou também a Si mesma Verbo-e-

O MITO DA SOFIA.

Vida.

E Verbo-e-Vida emana Homem-e-Igreja.

E Mente-e-Verdade, quando viu que a Sua própria criação se tornara criadora por sua vez, deu graças ao Pai de todos, e Lhe ofereceu dez éons, o número perfeito.

Pois, diz [o escritor], Mente-e-Verdade não poderia oferecer ao Pai um número mais perfeito do que este.

Porque era necessário que o Pai, que era perfeito, fosse glorificado com um número perfeito; ora, o 'dez' é um número perfeito, pois o primeiro número da série da multiplicidade é perfeito.

[O 10 inicia a série da multiplicidade no sistema de numeração de base 10.] O Pai, contudo, era ainda mais perfeito; pois sendo Ele próprio incriado, sozinho, por meio da primeira sizígia única, Mente-e-Verdade, conseguiu emanar todas as raízes das coisas criadas.

"E quando Verbo-e-Vida também viu que Mente-e-Verdade havia glorificado o Pai de todos em um número perfeito, Verbo-e-Vida também desejou glorificar o seu próprio pai-mãe, Mente-e-Verdade.

Mas como Mente-e-Verdade era criada e não possuía a paternidade perfeita, [ou] a qualidade de ausência de progenitores [ingerabilidade], Verbo-e-Vida não glorifica o seu próprio pai, Mente, com um número perfeito, mas com um número imperfeito.

Assim, Verbo-e-Vida oferece a Mente-e-Verdade doze éons."

O leitor dificilmente precisa ser lembrado de que este resumo da variante do mito confundiu o que supusemos ter sido a ordem original dos Dez e dos Doze, como pode ser visto no parágrafo seguinte, mas um, de Hipólito.


"Assim, então, as primeiras raízes criadas dos éons... Os Nomes são os seguintes: Mente-e-Verdade, Verbo-e-Vida, Homem-e-Igreja, dez de Mente-e-Verdade, e doze de Verbo-e-Vida; vinte e oito ao todo.

[Os dez, consistindo de cinco sizígias,] são chamados pelos seguintes nomes: Profundidade-e-Mistura, Sem-Envelhecimento-e-União, Auto-produtivo-e-Bem-aventurança, Imóvel-e-Fusão, Unigênito-e-Felicidade."

Nesta nomenclatura temos uma tentativa de delinear os aspectos positivo e negativo da paternidade-maternidade (polarização) da mente criativa, andrógina e autogeradora.

Hipólito então continua:

"Estes são os dez eons que alguns derivam de Mente-e-Verdade, e outros de Verbo-e-Vida.

Outros ainda derivam os doze de Homem-e-Igreja, e outros de Verbo-e-Vida; e os nomes que dão a estes [seis sizígias] são: Consolador-e-Fé, Paternal-e-Esperança, Maternal-e-Amor, Eterno-e-Entendimento, Eclesial-e-Felicidade, Desejado-e-Sabedoria."

É evidente que esta lista sofreu danos nas mãos dos copistas; podemos, no entanto, discernir alguma semelhança com a lista dos "frutos do espírito", na Carta de Paulo aos Gálatas (v. 22, 23), "amor, alegria, paz, longanimidade, gentileza, bondade, fé, mansidão, temperança." A palavra traduzida como "Felicidade" é uma forma diferente da "Felicidade" da década, mas ambas vêm da mesma raiz.

É impossível representar a diferença no atual inglês que temos à nossa disposição.

Chamaríamos também a atenção do estudante para o termo do aspecto feminino da primeira e sexta sizígia — Fé-Sabedoria (Pistis-Sophia). Epifânio dá um conjunto totalmente diferente de nomes para os eons — um conjunto de "nomina barbara" que até agora se provou o desespero de todo filólogo, e com o qual, portanto, não precisamos incomodar o leitor geral.

Os termos gregos, no entanto, para os aspectos positivos das seis sizígias são provavelmente em parte reflexos das características da tríade superior de eons, em parte protótipos das características do Espírito Santo.

Mente-e-Verdade, Palavra-e-Vida, Homem-e-Igreja parecem aparecer nos termos Pai-semelhante e Mãe-semelhante, Consolador e Desejado, Eterno e Igreja-semelhante; os aspectos femininos da tríade superior sendo aspectos masculinos na hêxade.

Creio que os nomes dos éons são provavelmente variantes doutrinárias ou tentativas de tradução de termos zoroastrianos originais — de Hormuz e dos Amshaspands e do restante dos Seres de Luz — e que os "barbara nomina" são um relicário desses termos; as ideias e a esquematologia dos éons, contudo, são demonstravelmente egípcias.

Mas continuemos com nosso Hipólito.

"Ora, o décimo segundo desses doze, e o último dos vinte e oito éons, de natureza feminina, e chamado Sabedoria (Sophia), contemplou o número e o poder dos éons criativos; ela ascendeu [ou retornou] à profundidade do Pai, e percebeu que, enquanto todos os demais éons, por serem eles próprios criados, criavam através de uma sizígia, o Pai sozinho criava sem uma sizígia.

Ela, portanto, ansiou imitar o Pai e criar por si mesma, sem seu consorte (sizígia), e assim realizar uma obra em nada inferior à do Pai; na ignorância de que somente o incriado, a causa absoluta, e raiz, e amplitude, e profundidade do universal [das criações], tem o poder de criar por Si mesmo sozinho, enquanto a Sabedoria, sendo criada e vindo a existir após um número de outros, é assim incapaz de possuir o poder do incriado.

Pois no incriado, diz o escritor, todas as coisas estão juntas, enquanto no criado o feminino tem o poder de emanar a essência [ou substância], ao passo que o masculino possui o poder de enformar a essência emanada pelo feminino."

Sabedoria, portanto, emanou a única coisa que podia, a saber, uma essência informe, fácil de esfriar [em forma]. E este é o significado, diz ele, das palavras de Moisés: 'A terra era invisível e não trabalhada' [segundo a tradução dos Setenta]. Esta, diz ele, é a Boa [Terra], a Jerusalém Celestial, para a qual Deus prometeu conduzir os filhos de Israel, dizendo: 'Eu vos conduzirei a uma boa terra, que mana leite e mel.'

"E assim, surgindo a ignorância no Pleroma devido à Sabedoria, e a falta de forma através da criatura da Sabedoria, tumulto surgiu no Pleroma [por medo] de que as criações dos éons se tornassem igualmente informes e imperfeitas, e que a destruição, em pouco tempo, se apoderasse dos [próprios] éons. Por conseguinte, todos se dedicaram a orar ao Pai para que pusesse fim ao luto da Sabedoria, pois ela estava lamentando e gemendo por causa do 'aborto' que havia produzido por si mesma — pois assim o chamam. E assim o Pai, tendo compaixão das lágrimas da Sabedoria e dando ouvidos às orações dos éons, ordena uma emanação adicional.

Pois Ele não emanou a Si mesmo, diz o escritor, mas Mente-e-Verdade emanaram Cristo-e-Espírito-Santo para a formação e eliminação do aborto, e o alívio e apaziguamento das queixas da Sabedoria.

Assim, com Cristo-e-Espírito-Santo, há trinta éons."

Aqui temos o tipo do duplo criador e redentor do mundo — Cristo, o Logos, por quem todas as coisas foram feitas, e o Espírito Santo, o Consolador.

"De qualquer forma, alguns deles pensam que a triacontada de éons é composta dessa maneira, enquanto outros uniriam o Silêncio ao Pai e lhes acrescentariam os [éons do Pleroma].

"Cristo-e-Espírito-Santo, então, sendo adicionalmente emanados por Mente-e-Verdade, eliminam esse aborto informe da Sabedoria, que ela gerou de si mesma e trouxe à existência sem um consorte, de entre os éons universais, para que os éons perfeitos não fossem lançados em confusão à vista de sua falta de forma."

Essas passagens lançam grande luz sobre o termo

O MITO DE SOFIA.

"unigênito" (oi/oyewj?). Ortodoxamente, a frase "O Termo 'filho unigênito'" é tomada para significar que Cristo era o único filho do Pai.

A filologia apologética, além disso, afirmou que significa "o único de sua espécie". Na lista da década de aeons dada acima, o aspecto masculino da última sizígia é chamado por este nome, onde o traduzi como "só-gerado". Na passagem acima, o "aborto" de Sophia é chamado pelo mesmo termo, e o traduzi como "que ela gerou de si mesma", não havendo dúvida de que o termo geralmente traduzido como "unigênito" não significa nada disso, mas "criado sozinho", isto é, criado a partir de um único princípio e não de uma sizígia ou par.


Há muitos exemplos desse significado da palavra, não apenas entre os gnósticos, mas também nas linhagens da tradição órfica e egípcia.

Hipólito então prossegue:

"Além disso, para que a falta de forma do aborto nunca mais se tornasse visível aos aeons perfeitos, o próprio Pai também enviou a emanação adicional de um único aeon, a Cruz [ou estaca], que, sendo criada grande, como [criatura] do grande e perfeito Pai, e emanada para ser a guarda e o muro de proteção [literalmente, estacada ou paliçada] dos aeons, constitui o Limite do Pleroma, mantendo os trinta aeons unidos dentro de si.

Pois estes [trinta] são os que formam a criação [divina]."

A palavra traduzida por "cruz" no N.T. significa geralmente uma estaca ou poste.

Como aprendemos com Gratz, era costume dos judeus, como advertência aos outros, expor em uma estaca os corpos daqueles que eram apedrejados, sendo a cruel dor da pena mosaica, em tempos posteriores, mitigada por uma poção soporífica de hissopo e outros ingredientes.

A frase "pendurado no madeiro" torna-se assim também compreensível.

Mas, como observado anteriormente, para o Pleroma, temos que lidar com símbolos vivos e não mortos, e a ideia da cruz é assim transformada na concepção

O MITO DE SOPHIA.

de  um  grande  muro  (isto  é,  esfera),  pelo  qual  o  Mú  vivo  é  "limitado" — se  um  infinito  pode  ser  limitado  por  um  finito —  o  protótipo  do  Cristo  místico  atado  a  ou  na  árvore  do  corpo.

A  ideia  era  simples,  a  expressão  dela  em  palavras  extremamente  confusa.

Assim,  Hipólito  escreve:

"  Ora,  ele  é  chamado  o  Limite  porque  limita  a  deficiência  (hysterema)  da  perfeição  (pleroma);  novamente,  é  chamado  o  Participante,  porque  participa  da  deficiência;  e  também  a  Cruz  [estaca  ou  tronco],  porque  é  fixado  imóvel  e  imutável  [literalmente,  sem  arrependimento  ou  mudança  de  mente];  de  modo  que  nada  da  deficiência  se  aproxime  dos  éons  dentro  do  Pleroma."

É  difícil  conciliar  as  várias  características  deste  grande  limite  conforme  dadas  por  Hipólito.

É,  naturalmente,  o  Grande  Firmamento  ou  Espírito  Limítrofe  de  Basilides,  e  o  Último  Limite  do  tratado  Pistis  Sophia.

Foi  ali  que  o  glorioso  "manto  de  poder"  havia  sido  deixado  para  trás,  quando  o  Salvador  desceu  para  a  regeneração  do  cosmos  sem  o  Pleroma,  e  com  o  qual  ele  foi  novamente  vestido  em  sua  iniciação  final,  após  aperfeiçoar  sua  tarefa,  como  magnificamente  exposto  nas  páginas  iniciais  do  manuscrito.  Este  é  o  Limite  "contra  o  qual  ninguém  prevalecerá",  até  o  Dia  Conosco,  o  Dia  do  Vinde-a-nós  do  assim  chamado  Livro  dos  Mortos  e  do  Códice  Askew  —  o  dia  da  iniciação  final  ou  aperfeiçoamento  para  os  raros  indivíduos  que  se  tornaram  dignos  de  se  tornarem  deuses  ou  cristos  (e,  assim,  um  dia  que  perpetuamente  é),  mas  para  a

FRAGMENTOS  DE  UMA  FÉ  ESQUECIDA.

massa  média  da  humanidade,  o  fim  do  ciclo  mundial,  quando  todas  as  coisas  passam  para  o  pralaya,  como  a  filosofia  indiana  o  chama  (e,  assim,  a  consumação  final  do  universo  presente).

Este  "manto  de  poder"  é,  presumivelmente,  o  corpo  espiritual  mais  elevado,  ou  principium  individuitatis,  que  participa  das  naturezas  divina  e  humana,  isto  é,  abre  os  reinos  do  mundo  divino  ao  homem  e  o  torna  participante  do  ser  eterno.

Assim, seu símbolo vivo é um O, o reflexo do corpo, ou autolimitação, do Homem Celestial sem sexo, o Logos, pelo qual Ele Se limita e Se crucifica para o bem da humanidade.

Mais abaixo na escala do ser, isso se torna o símbolo morto da cruz ortodoxa (+), o homem do sexo.

Deve-se notar que esse Limite se deve somente ao Pai, e por seu intermédio Ele consuma e aperfeiçoa todo o mundo divino dos éons, que consequentemente se tornam uma entidade, o Éon Vivo, para toda criação fora do Pleroma.

Mas para continuar com o resumo de Hipólito:

"Sem, então, esse Limite, Cruz ou Participante, está o que eles chamam de Ogdóada; esta é a Sabedoria-fora-do-Pleroma, que Cristo-e-Espírito-Santo, quando foram emanados posteriormente por Mente-e-Verdade, moldaram e forjaram em um éon perfeito, para que ela finalmente se tornasse de modo algum inferior a qualquer um daqueles dentro do Pleroma.

Quando, então, a Sabedoria-fora recebeu forma, vendo que era impossível que Cristo-e-Espírito-Santo, por terem sido emanados de Mente-e-Verdade, permanecessem com ela fora do Pleroma, Cristo-e-Espírito-Santo ascenderam a Mente-e-Verdade dentro do Limite, para se juntarem ao restante dos éons em sua glorificação do Pai.

O MITO DA SOFIA.

E como finalmente houve, por assim dizer, a singularidade de paz e harmonia de todos os éons dentro do Pleroma, pareceu-lhes bem não mais glorificar o Pai por meio de suas várias sizígias, mas também celebrar Sua glória com uma [única] oferta de frutos adequados ao Pai.

Os trinta éons, portanto, concordaram em emanar um único éon, o fruto comum do Pleroma, como sinal de sua unidade, unanimidade e paz.

E por ser uma emanação de todos os éons para o Pai, eles o chamam de Fruto Comum do Pleroma.

Assim foram constituídas as coisas dentro do Pleroma.

"E agora o Fruto Comum do Pleroma havia sido emanado — Jesus (pois este é o Seu nome), o grande Sumo Sacerdote; quando a Sabedoria-fora-do-Pleroma, buscando o Cristo que a havia enformado, e o Espírito Santo, foi lançada em grande terror, temendo perecer, agora que Aquele que a havia enformado e estabelecido Se retirara."

Essa operação de enformar a Sabedoria, ou substância cósmica, é aparentemente a criação de um limite para a Ogdoada (o espaço etéreo) por sua vez, seguindo a lei da similitude, e então moldando a substância separada segundo os tipos dos Eons.

Isso é dramaticamente exposto da seguinte forma:

"Ela pranteou e ficou em grande dúvida, ponderando sobre quem era o seu enformador [o Cristo]; quem era o Espírito Santo; para onde haviam partido; quem os impedia de estarem com ela; quem a invejava daquela visão bela e bendita.


Mergulhada em tais sofrimentos, ela se entregou à oração e à súplica Àquele que a havia deixado.

Então o Cristo dentro do Pleroma e o restante dos Eons tiveram compaixão de suas preces, e enviaram para fora do Pleroma o Fruto Comum, para ser Consorte da Sabedoria-exterior, e corretor das paixões que ela sofria ao buscar o Cristo.

"E assim o Fruto Comum, saindo do Pleroma e encontrando-a afligida pelas quatro paixões primordiais — a saber, medo, pesar, dúvida e súplica — corrigiu seus sofrimentos; e ao fazê-lo, Ele percebeu que nem era apropriado [por um lado] que tais paixões, por serem da natureza de um Eon e peculiares à Sabedoria, fossem destruídas, nem [por outro] que a Sabedoria continuasse em tais aflições como medo e pesar, súplica e dúvida."

Assim, porquanto era tão grande éon e filho de todo o Pleroma, Ele fez as paixões se afastarem dela e as transformou em essências substanciais; e o medo Ele fez em essência psíquica, e a tristeza em matéria sutil [essência hílica], e a dúvida em essência elemental [daemônica], e a conversão — oração e súplica — Ele fez em um caminho ascendente, isto é, arrependimento e o poder da essência psíquica que é chamada 'direita'."

Assim como as paixões no homem são consideradas de natureza material, assim também as paixões da alma cósmica são imaginadas como essências substanciais pelos dramaturgos do processo mundial neste esquema de filosofia universal.

O MITO DE SOPHIA.

Chegamos agora ao estágio do drama da Sabedoria que representa a constituição do mundo "sensível", em distinção ao "inteligível", para usar termos platônicos.

Mas antes de prosseguirmos com o resumo de Hipólito, algumas palavras de explicação podem ser acrescentadas para guiar o estudante através do labirinto das tecnicidades gnósticas.

A Sabedoria inferior ou caída é a substância primordial, ou Mãe do Mundo, movida caoticamente por quatro grandes impulsos, suas "aflições" ou "paixões" primais.

De seu estado caótico, ela é resgatada pelo Poder Divino do alto, a síntese dos poderes do universo inteligível ou noético.

O Caos torna-se Cosmos; a desordem, ordem.

As "paixões" (medo, tristeza, dúvida e súplica) são separadas dela, e ela é purificada e permanece acima, enquanto as paixões se contraem em fases mais densas de substância, constituindo o universo sensível.

Acima delas paira o Poder, o representante dos três planos mais elevados (o universo inteligível ou Pleroma) e do Uno além, a Divindade Suprema.

Este Poder Divino é chamado o Fruto Comum.

As quatro "paixões" são separadas de Sophia, e ela permanece como a substância do mais elevado dos planos inferiores.

O medo e a tristeza tornam-se as substâncias dos planos psíquico e hílico (ou físico), respectivamente.

A dúvida é considerada uma tendência descendente, um caminho para baixo, para estados de existência ainda mais densos e grosseiros do que o físico; enquanto a súplica (oração, arrependimento ou aspiração) é considerada um caminho para cima, em direção ao mundo celestial.


Este é o poder da alma que é chamado de "direito", sendo a tendência descendente para a matéria chamada de "esquerdo". Podemos agora retornar à consideração do nosso texto.

"O poder fabricativo [procede] do 'medo'."

Este é o significado da escritura, diz o escritor,

"O temor do Senhor é o princípio da Sabedoria",

Demirgo.

pois foi o princípio dos sofrimentos da Sabedoria.

Ela [primeiro] temeu, depois se entristeceu, depois duvidou, e então buscou refúgio na oração e na súplica.

Além disso, ele diz, a substância psíquica é de natureza ígnea, e eles a chamam de [Espaço] Médio e Hebdomad e Ancião de Dias.

E quaisquer outras afirmações desse tipo que façam sobre este [espaço], elas [na realidade] se referem à substância [cósmica] psíquica, que declaram ser o poder fabricativo do mundo [físico].

E ela é de natureza ígnea.

Moisés também, diz o escritor, declara: 'O Senhor, teu Deus, é fogo ardente e consumidor', pois assim ele teria que fosse escrito."

Diz-se que a ação da emoção do medo contrai e densifica a aura ou envoltório sutil do homem.

O plano psíquico é uma contração ou densificação do mental, e o material, por sua vez, do psíquico.

"Agora o poder do fogo, ele diz, é duplo; pois há um fogo que tudo devora e não pode ser extinto e..."

Uma lacuna ocorre infelizmente aqui; talvez a ser preenchida pelas palavras, "e outro que é extingüível."

O MITO DA SOPHIA.

"De acordo com isso, então, a alma [isto é, a substância psíquica] é em parte mortal [e em parte imortal], sendo como que uma espécie de meio-termo."

(É [tanto] a Hébdoma [o espaço sublunar] quanto [também] o meio de levar a Hébdoma a seu fim.) Pois está abaixo da Ogdóada [a mente ou substância-espírito] — onde está a Sabedoria, o dia das formas perfeitas [isto é, o espaço solar], e o Fruto Comum do Pleroma — mas acima da matéria hílica [o espaço terrestre], da qual é o modelador [ou poder demiúrgico]. Se, então, a alma se torna semelhante às coisas superiores, torna-se imortal e entra na Ogdóada, que é, diz ele, a Jerusalém acima dos céus; ao passo que, se se torna semelhante à matéria, isto é, às paixões materiais, então é destrutível e perece."

A frase seguinte tem uma grande lacuna, que procurei preencher da seguinte forma:

"Assim, portanto, procedendo da substância psíquica, [e não de um eão ou pleroma], o primeiro e maior poder [do Mundo Sensível] era uma imagem, [e não um pleroma, a saber, o Artífice (Demiurgo); enquanto o poder que procede da substância material ou 'dor' era] o Acusador (Diabolus), o governante deste mundo.

"[O poder, ademais, que procede] da substância elemental [ou demoníaca], isto é, 'dúvida', é Beelzeboul.

"[E] a própria Sabedoria energiza do alto, desde a Ogdóada, até a Hébdoma.

[Pois] dizem que o Artífice nada sabe absolutamente, mas é, segundo eles, desprovido de mente e tolo, e não sabe realmente o que faz ou obra.


Devido à sua ignorância, a Sabedoria energizou e fortaleceu para ele tudo o que ele fez; e, embora fosse ela quem o tivesse feito, ele imaginou que era ele mesmo quem, por si só, havia realizado a fabricação do universo, e assim começou a dizer: 'Eu sou Deus, e além de mim não há outro.'

"Aqui temos então nossa Tetraktys segundo Valentino, 'uma fonte de natureza sempre fluente tendo raízes', e nossa Sabedoria a partir da qual toda a criação é agora constituída, tanto psíquica quanto material."

Isso é pretendido por Hipólito como irônico e um escárnio tanto de Pitágoras quanto de Valentino.

As quatro "paixões" estão, é claro, muito longe da Tetraktys propriamente dita; são apenas um reflexo dela nos planos inferiores.

"Chama-se 'Espírito' à Sabedoria, e 'Alma' ao Obreiro; enquanto o Acusador (Diabolus) é o 'Governante deste Mundo' [Corpo], e Belzebu o 'Governante dos Demônios' [Caos]. Tal é o que nos dizem.

"Além disso, baseando todo o seu ensinamento em considerações matemáticas, como já disse antes, declaram que os éons dentro do Pleroma emanam uma nova série de trinta outros éons seguindo a lei da similitude, a fim de que o Pleroma seja finalmente agrupado em um número perfeito.

Pois, assim como os pitagóricos dividiram em doze [? dez] e trinta e sessenta — e têm ainda sutilezas sobre sutilezas, como foi demonstrado — da mesma forma estes (gnósticos) também subdividem as criações dentro do Pleroma.

"Os conteúdos da Ogdoad também são subdivididos; e a Sabedoria (que é a mãe de todos os viventes [a

O MITO DE SOPHIA

Eva cósmica] segundo eles) e o Fruto Comum do Pleroma (o Verbo) emanaram "Palavras" ou outros que são os Anjos celestiais, Cidadãos da Jerusalém Superior, nos céus.

Pois esta Jerusalém é a Sabedoria-exterior, e seu esposo é o Fruto Comum do Pleroma."

Alguns críticos preferiram uma leitura que faria a Sabedoria e o Fruto Comum emanarem "setenta palavras"; mas embora esse fosse o número das nações entre os judeus, em contraposição às doze tribos de Israel, razão pela qual também os "setenta" (representando setenta e dois) apóstolos foram escolhidos após os "doze", segundo as narrativas historicizantes, prefiro seguir a leitura do Códice, como de fato fiz em todos os casos.

"O Obreiro também emanou almas; pois ele é a substância das almas.

Segundo eles, as almas.

o primeiro é Abraão, e o último os filhos de Abraão."

(Uma nomenclatura que explicaria a expressão, de outra forma muito absurda, "o seio de Abraão".)

"Foi, além disso, a partir da substância material e elemental que o Obreiro fez corpos para as almas."

E  este  é  o  significado  do  ditado:  'E  Deus  formou  o  homem,  tomando  barro  da  terra,  e  soprou  em  sua  pessoa  [literalmente,  face]  o  sopro  da  vida;  e  o  homem  tornou-se  uma  alma  vivente.'

"  Esta  [alma]  é,  segundo  eles,  o  'homem  interior',  chamado  psíquico  quando  habita  no  corpo  de  matéria  hílica,  mas  material,  destrutível,  imperfeito,  quando  [seu  veículo  é]  formado  de  substância  elemental."

FRAGMENTOS  DE  UMA  FÉ  ESQUECIDA.

Hipólito  parece  aqui  estar  resumindo  a  cosmogênese  e  exegese  de  outra  forma  muito  elaborada  dos  Valentinianos  em  alguns  breves  parágrafos,  e  o  leitor  nunca  deve  esquecer  que  o  resumo  é  feito  por  uma  mão  hostil.

Contudo,  pensei  ser  bom  deixar  o  estudante  ver  por  si  mesmo  que,  mesmo  assim,  o  Padre  da  Igreja  não  pôde  eliminar  todo  o  significado  do  escritor  gnóstico.

"  E  este  homem  material  é,  segundo  eles,  como  que  uma  estalagem  ou  morada,  ora  da  alma  somente,  ora  da  alma  e  de  existências  demoníacas  [elementais],  ora  da  alma  e  de  'palavras'  [ou  anjos]  que  são  'palavras'  semeadas  do  alto  —  do  Fruto  Comum  do  Pleroma  e  da  Sabedoria  —  neste  mundo,  habitando  no  corpo  de  barro  juntamente  com  a  alma,  quando  os  demônios  cessam  de  coabitar  com  ela.

E  isto  é,  diz  [o  escritor  gnóstico],  o  que  foi  escrito  nas  escrituras  [Carta  de  Paulo  aos  Efésios]:  'Por  esta  causa  dobro  os  meus  joelhos  diante  do  Deus  e  Pai  e  Senhor  de  nosso  Senhor  Jesus  Cristo,  para  que  Deus  vos  conceda  que  Cristo  habite  em  vosso  homem  interior'  —  isto  é,  o  homem  psíquico  e  não  o  corporal  —  'para  que  sejais  fortes  para  conhecer  o  que  é  a  Profundidade'  —  isto  é,  o  Pai  dos  universais  —  'e  o  que  é  a  Largura'  —  isto  é,  a  Cruz,  o  Limite  do  Pleroma  —  'e  o  que  é  a  Grandeza'  —  isto  é,  o  Pleroma  dos  eões.

Portanto,  'o  homem  psíquico',  diz  [Paulo  em  outro  lugar  em  sua  primeira  Carta  aos  Coríntios],  'não  recebe  as  coisas  do  Espírito  de  Deus,  pois  para  ele  são  loucura';  e  louca,  diz  [o  escritor  gnóstico],  é  a  potência  da  Obra-

O   MITO   DA   SOFIA.

homem, [isto é, o poder (ou alma) enviado pelo Obreiro], pois ele próprio era insensato e desprovido de mente, e pensava que estava moldando o mundo sem auxílio, ignorando que era a Sabedoria, a Mãe, a Ogdóada, quem nele infundia energia para a formação do universo sem que ele o soubesse.

"Todos os Profetas e a Lei, portanto, falaram a partir do Obreiro, ignorantes tolos de um Deus tolo, segundo o escritor.

Por essa razão, escreve ele, o Salvador diz: 'Todos os que vieram antes de mim são ladrões e salteadores'; e o Apóstolo: 'O mistério que foi desconhecido às gerações anteriores.' Pois nenhum dos Profetas, diz ele, falou sobre qualquer das coisas de que falamos; elas eram, naquele tempo, desconhecidas.

"Quando, portanto, a formação do mundo foi concluída, a evolução futura consistiria no desvelamento da Nova [revelação] dos Filhos de Deus — isto é, do Obreiro — [a revelação] que [até então] estivera oculta — na qual, diz ele, o homem psíquico estivera oculto, tendo um véu sobre o coração.

Quando, portanto, o véu fosse levantado e esses mistérios revelados, Jesus [como o primeiro exemplo da nova evolução] nasceu através de Maria, a virgem, segundo o dito: 'O Espírito Santo virá sobre ti' — Espírito é a Sabedoria — 'e o Poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra' — Altíssimo é o Obreiro — 'pois o que de ti nascer será chamado santo.' Pois ele não nasceu somente do Altíssimo, como os homens moldados segundo o tipo de Adão devem sua origem somente ao Altíssimo, isto é, ao Obreiro.

Jesus, o novo homem, era do Espírito Santo — isto é, da Sabedoria — mas também do Obreiro, a fim de que o Obreiro fornecesse a modelagem e a constituição de seu corpo, mas o Espírito Santo suprisse sua essência ou [substância], e assim ele pudesse ser uma palavra celestial, nascida da Ogdóada através de Maria."


Isto é, que Jesus era o tipo do homem aperfeiçoado, que transcenderá a necessidade do renascimento, o ciclo da geração.

Ele era a manifestação de um dos Filhos de Deus, que juntos constituem a Filiação Divina.

Estes filhos são todos 'palavras' ou logoi, segundo esta nomenclatura.

Dizia-se que toda a natureza de tal homem estava avançada um estágio.

Assim, seu corpo foi feito pelo poder que fornecia as almas de outros homens; sua alma era da mesma natureza que os espíritos de outros homens; e seu espírito era uma 'palavra', a progênie direta dos aeons, participante do Pleroma.

"Agora, há muita investigação dedicada por eles a este assunto, e é o ponto de partida do cisma e da discordância.

Portanto, sua doutrina está dividida em duas, e um ensinamento é chamado de Anatólico, segundo eles, e o outro de Itálico. Eles [que obtêm seu ensinamento] da Itália, dos quais são Heracleon e Ptolemeu, dizem que o corpo de Jesus era [originalmente] de constituição psíquica e, por causa disso, no seu batismo o Espírito, como uma pomba, desceu sobre ele — isto é, a 'palavra' da Mãe do alto, Sabedoria — e uniu-se ao seu [corpo] psíquico, e o ergueu dentre os mortos.

Isto é, diz o escritor, o ditado: 'Aquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos vivificará também os vossos corpos mortais' — isto é, os [corpos] psíquicos. Pois o barro foi

O MITO DE SOPHIA.

o que caiu sob a maldição.

'Pois terra', diz [Moisés], 'és, e à terra retornarás.' Ao passo que aqueles [que derivam seu ensinamento] do Oriente, dos quais são Axionicus e Ardesianes [? Bardesanes], dizem que o corpo do Salvador era espiritual.

Pois o Espírito Santo — isto é, Sabedoria — veio sobre Maria, e também o poder do Altíssimo, a arte do Artífice, a fim de que aquela [substância] que fora dada a Maria pudesse ser moldada.

"Podemos deixá-los, então, investigar tais assuntos por si mesmos, e [também] qualquer outro que queira levar adiante tais investigações." O escritor, além disso, prossegue dizendo que, assim como as imperfeições no plano dos aeons internos foram corrigidas, também aquelas no plano da Ogdôada, a Sabedoria-exterior, foram reparadas, e ainda aquelas no plano da Hebdômada também foram corrigidas.

"(Pois o Obreiro foi ensinado pela Sabedoria, que ele não era Deus sozinho, como pensava, e que além dele não havia outro, mas através da Sabedoria ele aprendeu a conhecer a Divindade Superior. Ele recebeu, [porém, apenas] instrução elementar dela [tornou-se um catecúmeno], e a primeira iniciação, e foi [assim] ensinado o poderoso mistério do Pai e dos éons; e [assim] ele não pôde revelá-lo a mais ninguém.)"

Os termos usados denotam que o Demiurgo recebeu instrução, mas não lhe foi dado o poder superior ou a iniciação, pela qual ele pudesse se tornar um mestre ou iniciador por sua vez; ele recebeu a "muesis", mas não a "epopteia".


"(Este é o significado, segundo o escritor, de suas palavras a Moisés: 'Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, e o nome de Deus não lhes dei a conhecer' - isto é, não declarei o Mistério, nem expliquei quem é Deus, mas guardei em segredo para mim o Mistério que ouvi da Sabedoria.)

"Desde então, as coisas acima [no Pleroma, Ogdoad e Hebdomad] foram ajustadas, pela mesma lei de sucessão as coisas aqui [na terra] deveriam encontrar sua devida regulação.

Por essa causa Jesus, o Salvador, nasceu através de Maria, para que as coisas aqui fossem corrigidas.

Assim como Cristo foi adicionalmente emanado por Mente-e-Verdade para a correção dos sofrimentos da Sabedoria-exterior, isto é, o 'aborto'; assim também o Salvador, nascido através de Maria, veio para a correção dos sofrimentos da alma."

O acima exposto dará ao leitor uma noção geral do ciclo de ideias no qual esses Gnósticos se moviam.

A exposição do escritor gnóstico sem dúvida sofreu muito no processo de resumo ao qual foi submetida; no entanto, mesmo que tivesse sido dada por completo, teria que ser atribuída a um aluno e não a um mestre da Gnose como Basilides ou Valentinus.

Para obter uma exposição mais consistente e detalhada do ciclo de ideias valentiniano, seria necessário antes de tudo analisar (1) o relato acima, (2) o conteúdo dos Excertos de Teódoto e (3) o resumo das doutrinas dos seguidores de Ptolomeu dado por Ireneu em seus capítulos iniciais, e então reformular o todo.

O MITO DE SOPHIA.

O relato de Hipólito, no entanto, é bastante suficiente para familiarizar o leitor com as linhas gerais, e uma exposição mais detalhada seria inadequada nestes breves esboços.

Daremos agora um breve esboço dos ensinamentos dos líderes mais proeminentes do pensamento gnóstico desse período, e assim retornamos à consideração dos "seguidores de Valentim".

De Teódoto e Alexandre nada sabemos, e de Secundo apenas o fato de que ele dividiu a Ogdoad mais elevada, dentro do Pleroma, em duas Tétrades, uma Direita e uma Esquerda — embora não devamos, é claro, supor que ele tenha originado uma noção tão fundamental.

Portanto, limitaremos nossa atenção a Marco, Ptolomeu, Heracleão e Bardesanes, cujas breves notícias concluirão nossas informações derivadas de fontes indiretas — a saber, os escritos patrísticos.

Voltemo-nos então para os "seguidores de Valentim" e tratemos primeiro de Marco e seu simbolismo numérico.


O SIMBOLISMO NUMÉRICO DE MARCO.

Uma longa seção em Ireneu é nossa fonte quase exclusiva para o conhecimento de Marco e seus seguidores.

Hipólito e Epifânio simplesmente copiam Ireneu e nada acrescentam além de novos termos de condenação, enquanto nossas informações de outras fontes são uma questão de linhas e não de parágrafos.

A falta de confiabilidade de Ireneu como cronista das visões gnósticas já é conhecida de nossos leitores, e no caso de Marco e dos marcosianos é mais dolorosamente evidente do que de costume.

Parece que alguns adeptos da escola podiam ser encontrados até entre a população rude do vale do Ródano, e o digno presbítero de Lyon estava especialmente ansioso para descontar sua influência.

Ele começa o ataque divulgando todas as histórias escandalosas que consegue colher sobre Marcos, um homem que jamais vira, e que não estivera mais perto do redil de Lyon do que a Ásia Menor, ou, na melhor das hipóteses, o Egito!

Irineu professa, antes de tudo, descrever o que ocorria nas cerimônias de iniciação e nos ritos secretos dos marcosianos, e pinta um quadro gráfico de charlatanice e devassidão, para sua própria satisfação.

A todos esses relatos e descrições, porém, os marcosianos deram uma negação enfática, e portanto não incomodaremos por ora o leitor com as declarações do Presbítero sobre o assunto, exceto para observar que ele próprio reconhece depender inteiramente de boatos, e para apontar ao estudante que o relato parece ser uma

O SIMBOLISMO NUMÉRICO DE MARCOS.

caricatura bastante distorcida das cerimônias, cujo ritual nos é parcialmente preservado diretamente no Códice Askew e em um dos MSS.

do Códice Bruciano.

Irineu prossegue então a dar um resumo de um MS. marcosiano que caíra em suas mãos.

Ele aparentemente cita algumas passagens verbatim, mas na maior parte contenta-se com um resumo, de modo que não podemos de forma alguma ter certeza do que o escritor do documento realmente disse.

O original do documento Irineu atribui ao próprio Marcos, a quem ao longo de toda a seção apostrofa como contemporâneo; é, porém, provável que isso seja meramente retórico — como é o caso de Hipólito, que, trinta ou quarenta anos depois, em seu parágrafo de abertura, prediz que o resultado de sua exposição de Marcos será que "ele nunca desistirá [de sua impostura]", embora o corpo do doutor gnóstico há muito estivesse sepultado.

De Marcos propriamente nada sabemos além do fato de que foi um dos primeiros discípulos de Valentim, ou, de qualquer modo, pertenceu ao círculo mais antigo das ideias valentinianas.

Sua data é vagamente situada em algum ponto em meados do século II; diz-se que ensinou na Ásia Menor, e Jerônimo, duzentos anos depois, afirma que ele era egípcio.

Ao estudante do Gnosticismo que considera os doutores gnósticos como homens cultos que fizeram um esforço corajoso para formular o Cristianismo como uma filosofia universal, ou antes como uma ciência divina brotando do solo de uma filosofia da religião, a tentativa de Marcus de adaptar o sistema de letras-numéricas hebraicas, concebido pelos rabinos "cabalísticos", ao alfabeto grego, e assim elaborar um simbolismo numérico para a demasiado abstrusa gênese dos eons e o processo mundial da Gnose, é um ponto de grande interesse.

Pode, no entanto, ser que os hebreus copiaram dos gregos; ou que ambos derivaram esse método do Egito.

Como deve ser evidente para todos, os métodos de simbolismo dos gnósticos eram muito numerosos; muitas tentativas foram feitas para transmitir à consciência física alguma ideia dos modos, não apenas da existência superfísica, mas também do que era definitivamente declarado como ser suprarracional.

Que essas tentativas estivessem todas fadadas ao fracasso, no que diz respeito à compreensão geral, não é razão para ridicularizarmos os esforços feitos; que nem mesmo hoje, com todas as nossas elaboradas fórmulas matemáticas, tenhamos evoluído um simbolismo suficiente, não é razão para negarmos a possibilidade de tal realização dentro de certos limites em eras futuras.

Marcus tentou essa tarefa gigantesca com meios insuficientes, é verdade, com meios que também parecem às nossas mentes prosaicas de hoje fantásticos e até mesmo sem valor; no entanto, ele não estava sem uma tradição que até certo ponto justificava sua tentativa.

A antiga religião dos caldeus era astronômica e matemática; a cosmogênese e a evolução eram elaboradas no simbolismo dos números.

Cada letra da língua sagrada tinha um equivalente numérico certo, e assim palavras e sentenças podiam ser construídas que podiam ser interpretadas numericamente, e finalmente serem feitas explicativas dos fenômenos e processos naturais e celestes.

Como os livros sagrados dos "Matemáticos" são ditos terem sido escritos com este objetivo definido em vista, a chave matemática dada ao iniciado na antiga ciência das estrelas da Caldeia poderia, assim, abrir a porta para a ciência sagrada da natureza e do homem, tal como conhecida pelos videntes daquela antiga civilização.

Os Rabinos dos judeus, ao retornarem do cativeiro, presumivelmente trouxeram consigo algumas noções deste método de letras-numéricas, e mais tarde passaram a utilizá-lo como um meio, tanto para explicar muito do que era desagradável à mente culta em suas antigas tradições, quanto para ler nas antigas fábulas cosmogônicas e patriarcais novos e espirituais significados, derivados em grande parte de seu contato com ideias orientais durante os anos de cativeiro e posteriormente.

Este método de exegese mística por letras-numéricas foi desenvolvido a um grau maravilhoso pelas tendências helenizantes dos Rabinos cultos entre a Diáspora; e o Egito, e especialmente Alexandria, foi um dos principais centros deste aprendizado peculiar.

Um relicário deste sistema numérico chegou aos tempos presentes com a tradição da Cabala.

Deve-se observar, no entanto, que os Rabinos adaptaram o sistema a uma biblioteca heterogênea de obras de várias datas e muitas recensões, que não foram originalmente compostas com este fim em vista.

É verdade que eles acreditavam que cada palavra e letra da Lei havia sido diretamente inspirada por Deus, e assim continha uma maravilhosa potência mágica, mas a lógica implacável da pesquisa bíblica moderna tem, em grande medida, derrubado esta querida hipótese, e seus piedosos processos numéricos devem agora, em sua maior parte, ser considerados como o desenvolvimento do Rabinismo apologético, e como legítimos apenas para as pequenas partes dos documentos que possam ter sido compostas na Babilônia por escribas que já eram versados no método caldaico.


Não há dúvida de que Valentinus e seus discípulos conheciam tudo o que havia para aprender em Alexandria sobre a exegese rabínica, na qual as esperanças dos judeus estavam mais do que nunca centradas após a destruição do segundo templo em 70 d.C. Eles também eram perfeitamente familiarizados com a filosofia numérica pitagórica, cujo simbolismo, sem dúvida, tinha muitas semelhanças com os livros de números dos antigos caldeus.

Não é, portanto, surpreendente que um deles se tenha ocupado em adaptar esse antigo método de simbolismo (se é que ele já não era nativo da tradição grega) ao alfabeto grego, no qual os documentos da nova fé e, como eles firmemente acreditavam, da nova ciência do mundo, eram agora quase exclusivamente escritos.

Escusado será dizer que o alfabeto grego não suportaria a tensão; no entanto, foi um bom exercício para um discípulo da Gnose e ofereceu amplo escopo para o uso de muita engenhosidade.

Esse exercício de correspondências não era, naturalmente, uma contribuição para o conhecimento, mas apenas um meio de transmitir conhecimento adquirido de outra forma.

Será, contudo, de interesse dar ao leitor um breve esboço de algumas das ideias de Marcus, na medida em que for possível

O SIMBOLISMO NUMÉRICO DE MARCUS.

recuperá-las do resumo desdenhoso do MS. Marcosiano por Irineu em sua polêmica.

Elas são também adicionalmente interessantes por mostrarem pontos íntimos de contato com os tratados coptas a que tantas vezes nos referimos.

A fonte da inspiração do documento é atribuída ao Quaternário Superior, a mais alta hierarquia do Pleroma, que, no entanto, só se revela aos mortais em sua forma "feminina", pois o mundo não pode suportar o poder e o esplendor de sua grandeza "masculina".

A mesma ideia é corrente na Índia.

O Deus (Deva) usa seu poder, a Deusa (Shakti, Devi), como seu meio de comunicação com os mortais; sua própria forma nenhum mortal pode contemplar e viver.

Tudo o que se segue baseia-se nos textos gregos de Hipólito (Duncker e Schneidewin) e Epifânio (Dindorf) — que copiaram do texto grego perdido de Irineu — e na versão latina, muitas vezes inepta e bárbara, do original grego de Irineu (Stieren).

O manuscrito aparentemente abria com a seguinte passagem descritiva da emissão do Verbo do Pai Supremo.

"Quando primeiro o Pai, que nem sequer é o Uno, para além de toda possibilidade de pensamento e ser, que não é nem masculino nem feminino, quis que Sua inefabilidade viesse a ser, e que Sua invisibilidade tomasse forma, Ele abriu Sua boca e proferiu um Verbo, semelhante a Si mesmo; que, aparecendo diante d'Ele, tornou-se o meio de Ele ver o que Ele próprio era — isto é, a Si mesmo aparecendo na forma de Sua própria invisibilidade." Ora, a pronúncia do Grande Nome era desta maneira.


O Pai proferiu o Verbo; a primeira nota de Seu Nome foi um som de quatro elementos; o segundo som foi também de quatro elementos; o terceiro, de dez; o quarto e último, de doze.

Assim, a pronúncia de todo o Nome era de trinta elementos e quatro sons ou agrupamentos.

Após as palavras "a primeira nota de Seu Nome foi um som de quatro elementos", Irineu arrastou para dentro de seu resumo uma sugestão própria, provavelmente derivada de alguma exegese numérica do Prólogo ao quarto Evangelho, que ele encontrara em outra parte em sua caça às heresias.

Assim, ele evidentemente interrompe o fio do resumo com a nota intercalada, "a saber, apxn", o "Princípio" do Prólogo.

Além disso, cada elemento individual dos trinta tem sua própria pronúncia peculiar, caráter, letras, configurações e imagens.

Mas nenhum elemento conhece a forma do som do qual é um elemento; na verdade, longe de conhecer seu som-pai, ele não presta atenção nem mesmo à pronúncia de seus elementos associados em sua própria hierarquia sonora, mas apenas à sua própria pronúncia.

Assim, pronunciando tudo o que conhece, pensa estar soando o Nome inteiro.

Para cada um dos elementos, sendo uma parte do Nome inteiro, enuncia seu próprio som peculiar como a Palavra inteira, e não cessa de soar até chegar à última letra do último subelemento em sua própria língua peculiar.

Agora, a consumação ou restituição de todas as coisas

O SIMBOLISMO NUMÉRICO DE MARCOS.

ocorre quando todos esses elementos originais, chegando a uma mesma letra ou nota, emitem uma única e mesma elocução, cujo símbolo foi o entoar da palavra sagrada "Amém" em uníssono.

Foram essas notas da escala da Harmonia Primordial que serviram de meio para dar forma ao Eon Vivo, que transcendia toda ideia de substância e geração.

A tais formas o Senhor se referia ao falar "dos anjos que contemplam continuamente a face do Pai".

Os nomes falados comuns para esses elementos são: eons, palavras, raízes, sementes, plenitudes (pleromas), frutos.

Os nomes "falados" distinguem-se dos nomes "autênticos", ou *mysticae voces*, muitos exemplos dos equivalentes cifrados dos quais serão encontrados nos Códices Coptas.

Agora, todo elemento divino, com todos os seus subsons, notas ou letras, estava contido na fase do Ser Divino à qual o nome simbólico de Igreja havia sido dado.

O termo "Igreja" (Ecclesia) significa o "Chamado", a Herança dos Eleitos, um substituto para um nome "autêntico", que só era revelado aos membros iniciados da escola.

A Igreja era o aspecto feminino da quarta e última sízigia, ou par, da Tétrade, ou Quatro Sagrados, os Senhores do Pleroma.

Quando a última nota do último subelemento desses elementos supernos havia emitido seu próprio O Eco do

. p i i o Nome.

som peculiar, o eco dele saiu, à imagem de todos esses elementos e subelementos, e deu origem a outra série; e é essa série que é a causa não apenas dos elementos do mundo que conhecemos, mas também daqueles elementos que têm uma existência anterior aos do nosso mundo.


A própria última nota divina, cujo eco ressoava de eco em eco para baixo, foi elevada para cima pelo seu som-pai para completar e consumar o Nome inteiro; enquanto o eco desceu às partes inferiores e permaneceu como que lançado para fora do Pleroma.

Esse som-pai ou elemento, do qual a última nota, contendo potencialmente a emissão do som-pai, desceu para baixo, consistia de trinta letras ou elementos, e cada um destes contém outras letras ou elementos, por meio dos quais o nome de cada elemento-raiz é soletrado, e assim por diante, infinitamente.

Isto é, os subelementos, por assim dizer, soletram o nome, ou manifestam o poder, do elemento principal; e o poder ou nome de cada subelemento, por sua vez, é manifestado ou soletrado por outros subelementos menores, e assim por diante, infinitamente.

Marcus transmitiu essa grande ideia às mentes de seus discípulos apontando uma analogia no alfabeto grego.

Assim, tome qualquer letra isolada, digamos A, delta; assim que você a nomeia, você tem cinco letras, a saber: A delta, E épsilon, A lambda, T tau, A alfa.

Novamente, E, épsilon, é resolvido em E épsilon, Ψ psi, I iota, A lambda, O ômicron, N nu; e assim por diante, infinitamente.

A ilustração é certamente bastante vívida.

O MS. gnóstico então prosseguia para descrever um método de simbolizar o Grande Corpo do Homem Celestial, pelo qual as vinte e quatro letras do alfabeto grego eram atribuídas em pares aos doze "membros". O Corpo do Homem Celestial era o símbolo gráfico da economia ideal, dispensação ou ordenação do universo, suas regiões, planos, hierarquias e poderes.

Essa representação simbólica era chamada de esquema ou configuração do elemento uno (τὸ σχῆμα τοῦ στοιχείου), e também o glifo (ou caráter) da figura (ou diagrama) do Homem da Verdade, presumivelmente o Deus da Verdade do Códice Bruciano, um dos tratados do qual contém toda uma série de diagramas dos vários momentos de emanação da divindade criativa sob essa designação.

Na frase "glifo da figura" (6 apaKTvjp TOV y/DayUguaro?), a palavra ypdjuL/ma significa ou (i.) uma letra do alfabeto, ou (ii.) uma nota musical, ou (iii.) uma figura ou diagrama matemático.

O caráter, glifo ou configuração seria, portanto, o símbolo ou reflexo do Pleroma superespiritual, considerado (i.) como a última letra do Grande Nome de quatro letras, ou (ii.) como a última nota da Harmonia Divina que é entoada pelo Logos ou Verbo Superno.

Para evitar complicações e símbolos de símbolos, tomamos a palavra ypa/ma em seu terceiro sentido, no qual ela declara sua consanguinidade com a grande arte de sistematizar os elementos e poderes da natureza, conhecida na Índia como tantra ("sistematizar", "ordenar"). O tântrico é hoje uma arte de duas faces, branca e negra, e sua principal característica é o desenho de diagramas mágicos (yantras), para representar a configuração dos elementos e poderes que o operador deseja utilizar.

Omito aqui toda menção ao diagrama de Marcos do corpo do Homem Celeste, pois sua consideração ocuparia espaço demais nestes breves esboços.


Agora, o Verbo, a energia masculina do par intermediário ou sizígia da trindade (Mente-Verdade, Verbo-Vida, Homem-Igreja) e a soma dos seis, emanou da boca da Verdade.

Este Verbo é o Logos ou Razão Suprema de todas as coisas, o autogerador do universo, que confere paternidade (TrarpoSoTopa Ao'yoi') a todas as coisas.

Na terra, este Verbo torna-se o nome comumente conhecido de todos os cristãos, a saber, Cristo Jesus.

Mas Jesus é apenas o som do nome aqui embaixo, e não o poder do nome.

Jesus é, na realidade, um substituto para um nome muito antigo, e seu poder é conhecido apenas pelos "eleitos" entre os cristãos.

É o nome de seis letras.

Mas mesmo isso é apenas um símbolo; entre os éons do Pleroma ele é múltiplo, e de outra forma e tipo, e isso é conhecido somente por aqueles que são afins ao Logos em seus corações, aqueles cujos anjos ou grandezas estão com Ele por todo o tempo.

Agora, as vinte e quatro letras do alfabeto, ligadas aos vários membros do Corpo do Homem Celestial no diagrama, são os símbolos, ou imagens, das emanações dos três poderes que contêm a soma total, ou Pleroma, dos elementos eônicos acima.

E há uma analogia adicional à sua natureza no alfabeto.

Pois há nove consoantes (ou letras sem som), oito líquidas (ou semissonoras) e sete vogais (ou sonoras).

As consoantes simbolizam os elementos inefáveis, ou sem som, de Mente-e-Verdade; as líquidas, a meio caminho entre as letras sem som e os sons, tipificam os elementos de Verbo-e-Vida, que recebem a emanação do não-manifestado acima, e recebem de volta a ascensão do manifestado abaixo; e as vogais representam os elementos de Homem-e-Igreja, pois o som, ao emanar através do Homem, deu forma a todas as coisas.

Pois o eco da Sua voz as revestiu de forma.

Isto nos lembra a divisão elaborada do mundo platônico das ideias em três espaços: (1) noético; (2) tanto noético quanto noérico; e (3) noérico.

(Veja meu ensaio sobre Orfeu).

Assim, temos a série 9, 8, 7; e se tirarmos 1 de 9 e o adicionarmos a 7, obtemos 8, 8, 8 — ou Jesus, o

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Números.

nome de seis letras (itiarovs), cujos valores numéricos das letras somam 888. Isto é, Aquele que tinha Seu assento com o Pai (Mente), deixou Seu assento e desceu, enviado àquele de quem Ele foi separado (a Igreja), para restaurar a criação divina a um estado de equilíbrio, a fim de que, sendo as unidades dos Pleromas (ou as três fases do Pleroma, ou cosmos ideal) reduzidas a uma igualdade, pudesse haver um produto comum de um único poder de todos eles em todos eles.

Assim, o 7 obteve o poder do 8, e os três espaços tornaram-se iguais em seus números, a saber, 3 oitos, e estes, somados, são 24.

Agora, estes três espaços ou elementos são cada um duplo (positivo e negativo), 6 no total, e estes, novamente, quádruplos, 24 no total, o reflexo dos elementos do Inominável, em díades, tríades e tétrades.

Além disso, se quiserdes encontrar o 6 entre as letras do alfabeto, que são apenas imagens dos elementos reais, encontrá-lo-eis oculto nas letras duplas B (?), ¥ (-Try), Z ((5?). Somai esse 6 aos 24 e teremos novamente um símbolo dos 30 aeons do Pleroma.


Com muita engenhosidade, nossos gnósticos encontraram esses números e processos evangélicos no prólogo do Gênesis, e

em outros lugares na biblioteca do Antigo Pacto; não precisamos, contudo, segui-los nesse campo da numeração das letras.

Mas quando descobrimos que eles tratavam as lendas evangélicas também não como história, mas como alegoria, e não apenas como alegoria, mas como símbolo do drama da iniciação, o assunto torna-se de profundo interesse para o estudante teosófico.

Assim, diziam eles que a narrativa da transfiguração era simbólica (ev OfJLOttofJMTt etVoYo?) da economia divina tal como manifestada no homem que busca a perfeição; em outras palavras, de um certo estágio de iniciação.

Para tornar isso mais evidente, usaremos termos já familiares a alguns de nossos leitores.

Após "seis dias", isto é, no sétimo estágio desde que o discípulo pôs pela primeira vez os pés no caminho, ele ascendeu à "montanha" — um símbolo gráfico para os estados superiores de consciência.

C

Ele ascendeu o quarto e tornou-se o sexto.

Isto é, ele ascendeu com três e foi acompanhado por dois: o Pedro, Tiago e João, e Moisés e Elias da familiar narrativa evangélica.

Os "três" são os poderes que ele já havia conquistado sobre os planos grosseiro, sutil e mental — presumivelmente os graus de srotdapanna, sakaddgamin e andgamin na tradição budista.

Os "dois"

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são os representantes dos poderes espiritual e divino que o acolhem e o sustentam, e assim ele se torna o sexto, ou possuidor da consciência espiritual, ainda no corpo — o estágio de arahat.

Foi este "seis", diziam os marcosianos, que descera e fora detido na Hebdomad, ou região das sete esferas da diferença; sendo o "seis" na realidade da mesma essência que a Mãe do Mundo, a oitava esfera circundante da igualdade, que está acima ou além destas sete.

O seis (o arahat), sendo assim da mesma essência que a Mãe do Mundo (Sabedoria), contém essencialmente em si mesmo o número total de todos os elementos ou potências — fato já tipificado no estágio simbolizado no mito do batismo pela descida da pomba.

A pomba é o Alfa e o Ômega (1 e 800) do diagrama, o primeiro e o último dos números, representando a cabeça.

Além disso, a palavra para "pomba" em grego é Περιστερά, e 80 (Π) + 5 (ε) + 100 (ρ) + 10 (ι) + 200 (σ) + 300 (τ) + 5 (ε) + 100 (ρ) + 1 (α) = 801.

Novamente, foi no "sexto dia", a "preparação", que a economia divina, ou ordem das coisas, manifestou o "último homem", o "homem do céu", para o novo nascimento ou regeneração do "primeiro homem" ou "homem da terra"; e além disso, a paixão começou na sexta hora e terminou na sexta hora, quando o iniciado foi pregado na cruz.

Tudo o que foi designado para indicar o poder da criação (início) e regeneração ou renascimento (consumação), tipificado no número 6, àqueles que eram admitidos aos mistérios da iniciação, chamados pelo escritor marcosiano de "Filhos da Luz", ou "Filhos do Homem", pois o grego comporta ambos os significados.


Pois a criação ou descida é representada pelo número 2, isto é, por díades, e a regeneração ou ascensão pelo número 3, isto é, por tríades, e 2x3 = 6.

Agora, quanto à criação do universo sensível: O Logos, como criador, usa como seu ministro, ou servo,

Criação do Universo Sensível.

a "grandeza" setenária (isto é, a hierarquia septenária do universo ideal, o Pleroma ou Mente do Logos, simbolizada pelas sete vogais), a fim de que o fruto de Sua meditação auto-meditada possa ser manifestado.

A criação do nosso universo particular (ou sistema solar), no entanto, é considerada uma fabricação, ou construção, segundo um tipo na Mente Divina.

O fabricante ou construtor criativo é, por assim dizer, um reflexo do Logos universal, por Ele informado, mas, por assim dizer, separado ou cortado, permanecendo assim à parte ou fora do Pleroma.

É pelo poder e propósito do Logos Divino que o poder demiúrgico, por meio de sua própria emanação ou vida (o reflexo da Vida do Pleroma), animou o cosmos de sete poderes, segundo a similitude do poder septenário superior, e assim foi constituída a alma do todo visível, o nosso cosmos.

O demiurgo utiliza esta obra como se ela tivesse vindo à existência por sua própria vontade apenas; mas as sete esferas da alma-mundo (a vida cósmica) — cópias das esferas eônicas que nenhuma esfera cósmica pode realmente representar — são, na realidade, servas da vontade da Vida Divina, a Mãe superna.

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Agora, a primeira dessas sete esferas, ou céus, emite o som ou vogal A, a segunda o E, a terceira o H, a quarta e mediana o I, a quinta o O, a sexta o Y, e a sétima e quarta a partir do meio o Q. E todas, unindo-se em harmonia, emitem um som e glorificam aquele por quem foram emanadas (o sistema-logos ou construtor do mundo); e a glória do som é levada ao Pai primordial do Pleroma (o Logos Divino), enquanto o eco de seu hino de glória é levado à terra, e se torna o modelador e gerador deles sobre a terra, isto é, as almas dos homens.

Ireneu agora parece ter chegado ao fim do manuscrito, e assim procede a dar ao amigo a quem escreve tantos outros detalhes das ideias marcosianas quanto colheu de fragmentos de citações ou de ouvir dizer — "quae ad nos pervenerunt ex iis" (c. xv.). Ele retorna mais uma vez à consideração da economia eterna do Pleroma, e a uma exposição da qual já citou um fragmento em outra conexão (c. xi. 3), como se segue:

Antes de todos os universos há uma fonte (ou começo) antes da fonte primordial, anterior mesmo àquele estado que é inconcebível, inefável, inominável, que eu enumero como Nulidade.

Com este Não-número consubsiste um poder ao qual dou o nome de Unidade.

Esta Nulidade e Unidade, que são na realidade uma, emanaram, embora não tenham realmente emanado, a fonte inteligível (ou ideal) de tudo, ingenerável e invisível, à qual a fala dá o nome de Mônada (ou Nada).


Com esta Mônada consubsiste um poder de igual substância (6ooJT(o?) com ela, que chamo de Um.

Estes poderes, Nulidade, Unidade, Nada e Um, enviam o restante das emanações dos éons.

"Nulidade" (literalmente, "monadidade") é a raiz da mônada, o O ou círculo contendo todos os números — o não-número.

Esta passagem mostra a distinta influência de Basilides; mas entre os melhores críticos as opiniões estão divididas quanto a se deve ser atribuída a Marcos ou Heracleão.

Os nomes desta mais alta tétrade ou tetraktys, no entanto, são realmente incapazes de representação na fala humana; eles são o "santo dos santos", nomes conhecidos somente pelo Filho, enquanto mesmo Ele não sabe o que os Quatro realmente são, este conhecimento final da única realidade sendo referido somente ao Pai.

Estes nomes pertencem à "língua sagrada", espécimes da qual são dados nos fragmentos dos Livros do Salvador anexados ao documento Pisti Sophia e em dois dos tratados do Codex Brucianus.

Os substitutos para estes nomes são: Inefável (afipyros) e Silêncio (ere-/?/), Pai (-jrarp) e Verdade (aXyOeia); as palavras gregas para as quais consistem respectivamente de 7 e 5, e 5 e 7 letras, ou duas vezes 7 e duas vezes 5, os 24 elementos do Pleroma.

Assim também com os substitutos para os nomes da segunda tétrade: Verbo (Ao'yo?) e Vida (fan}), Homem (avOpcoTTos) e Igreja (e/c/cXcr/a); os nomes gregos consistindo respectivamente de 5 e 3, e 8 e 8 letras — no total 24.

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Novamente, o nome falado ou efável do Salvador, Jesus (irja-ovs), consiste em 6 letras, enquanto Seu nome inefável consiste em 24. Como afirmado acima, o nome = 888, e assim, por outra permutação, = 24.

Permutações numéricas semelhantes também são encontradas nas letras da palavra Cristo.

Mas basta desse aparente forçar de um alfabeto relutante nos braços de um simbolismo numérico — talvez dirá o leitor.

Os marcosianos, no entanto, poderiam em primeiro lugar alegar em sua defesa o exemplo de Filo e do judaísmo alexandrino, que acreditava não apenas na inspiração literal do texto hebraico da Antiga Aliança, mas também que a versão grega dos chamados Setenta foi escrita pelo dedo de Deus; e em segundo lugar, poderiam talvez ter dito: Os nomes gregos para os eões são apenas substitutos para outros nomes que possuem esses equivalentes numéricos e pertencem aos segredos de nossa iniciação.

A parte verdadeiramente científica do sistema é o processo numérico como um simbolismo natural da evolução primordial; não basta rotular isso de pitagorismo e assim descartá-lo com um sorriso de desdém, pois toda a nossa ciência física moderna baseia-se exatamente nas mesmas considerações de medida e número.

Agora, o Uno contém em si mesmo implicitamente os três incompreensíveis: Nulidade, Unidade e Nada.

Teologicamente, assim, o Uno é o representante da tétrade superior.

E como todos os números vêm do Uno, essa tétrade é chamada de Toda-Mãe, ou Sabedoria Acima.

Dela procede, como filha, a tétrade inferior, os números compreensíveis, o 1, o 2, e o 4, a Sabedoria Abaixo, que deve ser considerada como 8 potencialmente, visto que o 1 manifesta o Uno inmanifestável, o representante da tétrade inmanifestável.


A Sabedoria abaixo é assim calculada como 8, ou a ogdóade.

Mas esta ogdóada contém a década, pois 1 + 2 + 3 + 4 = 10. E esta década, por conjunção com o 8, faz 80, e por conjunção com o 8 e consigo mesma faz 800; de modo que o 8, ou mãe-do-mundo, é separado em três espaços, 8, 80 e 800, totalizando 888, que é o número de seu poder formador ou consorte Jesus, o Logos criativo do alto, o 1 + 2 + 3, ou 6, o consorte do 4, ou último número da tétrada inferior.

Esta enformação da substância-mundo por meio da década — por meio do criativo 888, ou "Jesus" — era a "enformação segundo a substância"; mas havia outra enformação de ordem superior, por meio do "Cristo", a "enformação segundo o conhecimento". Esta era a regeneração por meio da dodecáda.

Ora, 6 x 2 = 12; (1 + 2 + 3) x 2 = 12; 10 + 2 = 12; 8 + 4 = 12.

O 8 + 4 é a ogdóada com a primeira tétrada a ela acrescentada; o 10 + 2 é a década com os poderes gêmeos das tétradas superior e inferior a ela acrescentados; o (1 + 2 + 3) x 2, ou 6 x 2, é a duplicação do poder formador, ou sua ascensão para dentro de si mesmo.

Esses tipos e processos eternos deviam ser vistos na natureza e na história.

Assim, no caso do grande Mestre, assim como a alma-do-mundo estava em ignorância antes de ser formada e regenerada, assim também os homens estavam em ignorância e erro antes da vinda do Grande, Jesus.

Ele tomou carne como Jesus, a fim de que pudesse descer à percepção dos homens na terra.

E aqueles que O reconheceram cessaram da Ignorância e ascenderam da Morte para a Vida, sendo o Seu "Nome", ou Poder, que os conduzia ao Pai da Verdade.

Pois era a vontade do Todo-Pai pôr fim à Ignorância e destruir a Morte.

E o fim da Ignorância é o Conhecimento (γνῶσις) d'Ele (o Cristo). Por essa razão, um homem foi escolhido por Sua vontade, cuja constituição era segundo a imagem do poder acima (a tétrada inferior), isto é, suficientemente desenvolvido para atuar como veículo adequado.

Ora, a tétrada inferior é referida como Palavra e Vida, Homem e Igreja.

E poderes emanados desses quatro Santos velam pelo nascimento e moldam os veículos inferiores do Jesus na terra.

E isto, foi dito, foi mostrado claramente na escritura alegórica.

"Gabriel" ocupa o lugar do Verbo (Razão ou Logos), o "Espírito Santo" o da Vida, a "Força do Altíssimo" o do Homem, e a "Virgem" o da Igreja.

Novamente, no batismo desceu sobre o Jesus, assim perfeitamente constituído (ou enformado segundo a substância), a pomba, que sobe novamente ao céu, seu curso ascendente completando o Jesus (ou 6) e fazendo dele o Cristo (ou 12), a enformação segundo o conhecimento, ou perfeita iluminação.

E no Cristo subsiste a semente daqueles que descem e sobem com Ele.

E o poder do Cristo que desce é a semente do Pleroma, contendo em si mesmo tanto o Pai quanto o Filho, e o inominável poder do Silêncio, a Mãe, (que só é conhecida através deles), e o restante dos eões.


Ora, este poder do Silêncio, esta Paz e Consolo, é o Espírito Santo.

Foi este Espírito que falou pela boca de Jesus nas narrativas evangélicas, e proclamou-se como Filho do Homem, e revelou o Pai, descendo sobre Jesus e tornando-se um com Ele.

Foi este Salvador que pôs fim à morte, pela remoção da ignorância, e Jesus O fez conhecido como seu Pai, o Cristo.

Jesus é realmente o nome do homem que foi aperfeiçoado em sua natureza inferior (isto é, o iniciado); mas por causa de sua adaptabilidade e formação, o nome foi dado ao Homem que deveria descer nele (em outras palavras, o Mestre). E aquele que era o veículo deste Grande Ser, tinha assim nele tanto o Homem quanto o Verbo e o Pai e o Inefável, e o Silêncio e a Verdade e a Vida e a Igreja (pois o Mestre é alguém que está em unidade com estes).

Após três seções de abuso, Irineu retoma o assunto das correspondências numéricas marcosianas no cap.

xvi.

; mas a leitura da passagem-chave que trata das imperfeições da dodecada e da consequente "paixão" da alma cósmica e das almas individuais é tão defeituosa que, até agora, não consegui extrair nada dela.

Com o cap. xvii., contudo, os tipos eônicos são traçados na economia do cosmos. As duas tétrades são mostradas nos quatro elementos — fogo, água, terra e ar — e em suas quatro características: quente, frio, seco e úmido. A década é mostrada nas sete esferas, e na oitava que as abrange, e, além disso, no sol e na lua. Isso mostra claramente que as "sete esferas" não são os "planetas" da astrologia ou da astronomia. Finalmente, a dodecada é mostrada no chamado círculo zodiacal.

Ora, o movimento dessas sete esferas é excessivamente rápido, enquanto a oitava esfera, ou céu, é muito mais lenta do que o movimento das sete esferas mutuamente interpenetrantes, e, por assim dizer, equilibra ou refreia seu movimento, de outra forma demasiado rápido, pela pressão sobre sua periferia; o resultado é que toda a massa leva cerca de 30 anos para atravessar um signo, ou uma décima segunda parte, do cinturão zodiacal. Essa esfera retardadora era assim considerada uma imagem do Grande Limite que circunda a "Mãe de trinta nomes" ou Pleroma.

Novamente, a lua circunda seu "céu", o limite inferior, em 30 dias; e o sol completa seu retorno cíclico em 12 meses. Há, além disso, 12 horas em cada dia, e cada hora é dividida em trinta partes, de acordo com as 12 grandes divisões do zodíaco, cada uma das quais tem novamente 30 subdivisões, 360 ao todo; a terra, por sua vez, tem 12 climas. Tudo o que, sem dúvida, deve ser referido à tradição da fonte comum das antigas religiões caldaica e egípcia.

Pois o fabricante do mundo, ou espírito do tempo, quando desejou copiar a natureza infinita, eônica, invisível e atemporal da Eternidade, não foi capaz de fazer um modelo de sua natureza permanente e eterna, visto que ele mesmo era o resultado de uma deficiência nessa natureza eterna; então ele representou a Eternidade em tempos e estações, e números de muitos anos, pensando por uma multiplicidade de tempos imitar sua infinitude.

Assim foi que a verdade o abandonou e ele seguiu após uma mentira; e portanto, quando os tempos se cumprirem, sua obra chegará ao fim.


Irineu dedica seus próximos três capítulos (caps. xviii.-xx.) ao que ouviu sobre a interpretação escriturística ritual marcosiana.

Isso é de pouco interesse; mas no capítulo xxi.

o Bispo de Lião nos dá algumas das fórmulas usadas pela escola, e estas são de maior interesse, embora os marcosianos negassem sua exatidão.

Assim, ele diz que as palavras da consagração batismal são as seguintes:

"[Eu te batizo] em o Nome do Pai desconhecido dos universais, em a Verdade, a Mãe de todos, em Aquele que desceu sobre Jesus, em a união, redenção e comunhão de [teus] poderes."

Em seguida, temos o que pretende ser a tradução de uma invocação hebraica ao Cristo; Irineu dá o hebraico original, mas de forma tão lamentavelmente corrupta que tem desafiado a engenhosidade dos melhores estudiosos.

"Eu te invoco, ó Luz, que estás acima de todo poder do Pai, Tu que és chamado Luz e Espírito e Vida; pois Tu reinaste no corpo."

A fórmula do rito da redenção angélica (a "redenção angélica" era o meio pelo qual o candidato se tornava uno com seu "anjo" acima), um dos graus superiores da iniciação gnóstica, é então dada:

"[Eu invoco] o Nome oculto de toda divindade e senhorio, o Nome da Verdade, no qual Jesus, o Nazareno, vestiu-se nas zonas (ou cinturões) de Luz, [o Nome] do Cristo, Cristo o Vivente, através do Espírito Santo, para redenção angélica."

Em seguida, segue a fórmula da restauração ou

O SIMBOLISMO NUMÉRICO DE MARCUS.

restituição, a consagração final.

Aqueles que solemnizam o rito declaram o seguinte:

"Não há separação entre meu espírito, meu coração e o Poder Supercelestial.

Que eu desfrute do teu Nome, ó Salvador da Verdade!"

E então o candidato responde:

"Eu sou confirmado e redimido; eu redimo minha alma deste éon (mundo) e de tudo o que dele provém, em nome de IAO, que redimiu sua alma, para redenção em Cristo, o Vivente."

Então os assistentes respondem:

"Paz a todos sobre os quais este Nome repousa!"

Havia também orações pelos mortos, e também fórmulas para a alma ao passar pelos sete portões das sete esferas purgatoriais, das quais as seguintes são dadas por Ireneu como exemplos:

"Eu sou o filho do Pai, do Pai que está além de toda existência [isto é, geração, ou saṃsāra, a esfera do renascimento], enquanto eu, Seu filho, estou em existência.

Eu vim [à existência] para ver o que é meu e o que não é meu, mas não inteiramente não meu, pois são da Sabedoria, que é [minha] contraparte feminina e os fez para si mesma.

Mas eu derivo meu nascimento Daquele que está além da existência, e retorno novamente ao meu próprio lugar de onde vim."

E então eles passam através dos vários planos dos reinos purgatoriais, e os poderes das regiões abrem caminho diante deles.

A "apologia" final é feita aos poderes que cercam o fabricante do mundo, ou demiurgo, e é assim:

"Eu sou um vaso mais precioso do que o poder feminino [Sabedoria inferior] que vos fez.

Vossa mãe não conhece a raiz de onde veio; mas eu conheço a mim mesmo e sei de onde sou, e invoco a Sabedoria incorruptível [superior], que está no Pai.


Ela é a Mãe de vossa mãe, a Mãe que não tem mãe, nem consorte masculino.

Mas foi uma fêmea nascida de uma fêmea que vos fez, uma que não conhece sua Mãe, mas se julga sozinha [autogerada]. Mas eu invoco sua Mãe em meu auxílio."

E assim ele passa adiante para o seu próprio lugar, lançando fora suas cadeias, isto é, a alma, ou natureza inferior.

É evidente que temos acima uma indicação da mesma gama de ideias que encontramos desenvolvidas com tamanha elaboração nos tratados da Pistis Sophia e do Codex Brucianus: a veste de luz do Mestre, o Vivente, as invocações, apologias, orações pelos mortos, batismo e crisma, tudo claramente distinguível; tudo o que fazia parte do grande ciclo de iniciações gnósticas nos conhecidos círculos valentinianos.

Os graus dessa iniciação eram cada vez mais secretos à medida que se tornavam mais reais.

Irineu pode ter ouvido falar de algumas das fórmulas dos graus inferiores, mas os graus superiores só podiam ser compreendidos pelos discípulos escolhidos dessas escolas altamente místicas e intelectuais.

Os documentos relativos aos "graus superiores" parecem nunca ter chegado às mãos dos Padres da Igreja.

PTOLEMEU.

PTOLEMEU.

Da vida de Ptolomeu, um dos mais antigos discípulos de Valentim, não sabemos absolutamente nada.

Foi principalmente através de alguns dos discípulos de Ptolomeu que Irineu (I. i.-viii.) tomou conhecimento de um esboço grosseiro de algumas das ideias do gnosticismo desenvolvido dessa linha de tradição; mas se Ptolomeu estava ou não vivo quando o Presbítero de Lião escreveu os capítulos iniciais de sua Refutação, por volta de 185-195 d.C., é impossível dizer.

Dos escritos de Ptolomeu, apenas dois fragmentos foram preservados: uma interpretação do magnífico Proêmio dos Princípios, ainda existente no Prólogo do quarto Evangelho canônico (Irineu, I. viii. 5), e uma carta a uma senhora chamada Flora, citada por Epifânio (Her., xxxiii.).

Se o ensinamento de Ptolomeu apresentava ou não diferenças essenciais em relação ao de seu mestre Valentim, é atualmente impossível decidir; e a declaração copiada de Tertuliano (Adv. Valent., 4) — de que com Ptolomeu os nomes e números dos éons eram separados em substâncias pessoais externas à Divindade, enquanto com Valentim essas substâncias estavam incluídas na soma da Divindade, como sensações, afetos e emoções — é perfeitamente ininteligível para o estudante do gnosticismo.

Consideraremos primeiro a Carta a Flora, e depois a interpretação do Proêmio da doutrina do Logos.

A Carta a Flora expõe a visão que a tradição valentiniana sustentava acerca do processo cósmico, da antiga teologia da Aliança e dos documentos da lei judaica.

As opiniões, diz Ptolomeu, estão divididas; alguns sustentam um extremo e contendem que a Lei dos judeus veio diretamente de Deus e do Pai (o Logos); outros mantêm o contrário absoluto e declaram que ela emanou do poder oposto, o destruidor, o deus deste mundo (o Acusador ou Diabolos). Ambas essas visões extremas são insensatas.

Por um lado, a Lei é evidentemente imperfeita, como se pode ver pelas ideias grosseiras atribuídas a Deus em alguns dos documentos, ideias estranhas à natureza e aos juízos do Deus do Cristo; e por outro, o processo cósmico não pode ser obra de um poder injusto, pois o próprio Salvador declarou que uma casa dividida contra si mesma não pode permanecer; e o "Apóstolo" há muito tempo despojou de seu aguilhão a "sabedoria infundada" (ἀνυποστάτον σοφίαν) de tais mentirosos, nas palavras: "todas as coisas foram feitas por Ele", o Logos, e não por um deus de destruição.

Ptolomeu, como o restante dos valentinianos, condena tão veementemente essa falsa gnose quanto mais tarde os agora chamados Pais "ortodoxos", chefiados por Irineu, condenaram toda gnose.

Mas nessa época a frase "conhecimento falsamente chamado" não era uma condenação de toda gnose, pois ainda havia uma gnose cristã "ortodoxa", como Clemente de Alexandria e outros tão bem demonstraram.

Tais visões, então, são sustentadas apenas por aqueles que ignoram a lei causal; um corpo de extremistas sendo ignorante do Deus de Justiça (o arquiteto da lei cármica), o outro do Todo-Pai, a quem o Salvador foi o primeiro a conhecer e proclamar aos judeus.

Os gnósticos sustentavam uma posição intermediária entre esses extremos, a única possível.

Ptolomeu assim procede a responder às dúvidas de Flora inteiramente em sua Crítica.

o espírito do que hoje se chama "Alta Crítica"; ele estabelece uma posição imediatamente evidente para o gênio gnóstico culto, e diz-se baseada nas palavras de Jesus, mas somente recuperada pela erudição moderna após muitos longos séculos de obscurantismo.

A lei, conforme exposta nos Cinco Livros atribuídos a Moisés, não provém de uma única fonte, isto é, não provém somente de Deus.

De fato, três fontes podem ser distinguidas: (1) leis dadas por Moisés sob inspiração; (2) leis promulgadas pelo próprio Moisés; (3) leis acrescentadas pelos anciãos.

Esta divisão é corroborada pelas "Palavras do Salvador"; pois com relação ao divórcio Ele ensinou que foi permitido por Moisés apenas por causa da dureza de coração dos judeus, ao passo que a Lei de Deus desde o princípio estabeleceu que marido e mulher não deveriam ser separados.

A lei de Moisés era simplesmente um decreto de conveniência, não era a Lei.

Além disso, as tradições dos anciãos igualmente não eram a Lei.

Pois a Lei inspirada ensinava que honra era devida ao pai e à mãe; e Jesus havia oposto esta antiga verdade do dever cármico à tradição ignorante dos anciãos, que ensinava que qualquer coisa dada ao pai ou à mãe pelo filho era um dom — uma frase que Ptolomeu cita de modo diferente das leituras de qualquer um dos documentos sinóticos que ainda a preservam; a saber, "qualquer benefício que recebes de mim, é um dom a Deus."


Assim, três fontes distintas devem ser distinguidas, apenas uma das quais pode ser referida ao que pode, em qualquer sentido, ser chamado de revelação.

Novamente, quanto à primeira divisão, esta, por sua vez, é resolúvel em três elementos: (1) um elemento bom (o Decálogo), endossado e completado pelo ensinamento de Cristo; (2) um elemento mau, que Ele rejeitou, a lei de "olho por olho" da retaliação; e (3) os ritos típicos e simbólicos, tais como a circuncisão, o sábado e o jejum, que o Cristo traduziu de suas formas sensíveis e fenomênicas para seu significado espiritual e invisível.

Isto é comprovado de maneira notável por um dos ditos recentemente descobertos: "Jesus disse: A menos que jejueis para o mundo, de modo algum encontrareis o Reino de Deus; e a menos que guardeis o sábado como sábado, não vereis o Pai." (Ver *Sayings of Our Lord*, Grenfell e Hunt; Londres, 1897).

Assim, com relação ao terceiro elemento, o Cristo ensinou que as "oferendas" a Deus não consistiriam em incenso e no abate de animais irracionais, mas em ação de graças espiritual, boa vontade e boas obras para com nossos próximos; que a circuncisão não era de algo físico, mas do coração espiritual; que guardar o sábado era descansar das obras más; e da mesma forma jejuar era das coisas mais vis, e não do alimento físico.

De que fonte, então, veio a "inspiração" de Moisés ao estabelecer tais observâncias? De uma

PTOLEMY.

fonte intermediária entre o mundo dos homens e o Deus acima de tudo; isto é, dos reinos intermediários, ou alma do mundo, o poder fabricativo

A Fonte da

deste mundo físico.

Inspiração.

A fonte da inspiração de Moisés não era a Divindade Perfeita do Cristo, mas uma fonte inferior, não boa (pois só Deus é verdadeiramente bom), nem má (o poder que se opõe ao bem é que é mau), mas imperfeita; o poder do ajustador ou árbitro.

Esta fonte é inferior à Divindade Perfeita; é apenas condicionalmente justa ou justa, e assim inferior à perfeita retidão e justiça de Deus.

O fazedor ou alma do nosso mundo é gerável; o criador da criação divina é ingênito.

Mas o fazedor do mundo é superior ao opositor, o mundo, cuja substância é destruição e trevas, e cuja matéria é material e multiplamente dividida.

Mas a substância dos espaços cósmicos do Pai ingênito (os espaços cósmicos, ou "universais", em oposição ao "mundo", ou nossa terra; os planos cósmicos, em distinção dos terrestres) é incorruptibilidade e Luz auto-existente, simples e una.

A substância desses espaços cósmicos é diferenciada de maneira incompreensível em dois poderes ou aspectos, a alma informando o corpo; isto é, a "alma planetária" informando a "terra". Essa alma é uma imagem do cosmos ideal, e é de um de seus poderes que Moisés recebeu sua inspiração.

Até aqui a carta sensível de Ptolomeu a Flora; na qual o médico gnóstico, por seu conhecimento do mundo invisível e compreensão do ensinamento do O Prólogo do


Quarto Evangelho.

Cristo, aplica intuitivamente um cânon de crítica ao conteúdo do Pentateuco, que a melhor erudição de nosso próprio século levou cem anos para estabelecer intelectualmente.

Passaremos agora a considerar a interpretação que Ptolomeu deu ao glorioso Prólogo que hoje se encontra no início do quarto Evangelho.

O Princípio é o primeiro princípio trazido à existência por Deus, e nele o Pai emanou todas as coisas em germe, ou potencialmente.

Esse Princípio é chamado Mente, Filho e Unigênito (isto é, gerado somente pelo Pai).

A próxima fase do ser foi a emanação do Logos (Razão ou Verbo) no primeiro princípio, o Princípio ou Mente.

Esse Logos, por sua vez, continha em Si mesmo toda a substância dos Eons, substância essa que o Logos informou.

Segundo o Léxico do alexandrino Hesíquio, o significado filosófico do termo Logos é "a causa da ação" (ἡ τοῦ δράματος).

As palavras iniciais, portanto, tratam das hipóstases divinas.

"No Princípio era o Logos, e o Logos era (um) com Deus, e o Logos era Deus.

Ele estava no Princípio (um) com Deus." Traduzo a frase πρὸς τὸν Θεὸν pelas palavras "um com Deus", e não pelo simples e familiar "com Deus", com base na autoridade de Ptolomeu (πρὸς ἀλλήλοις ἅμα καὶ πρὸς τὸν Πατέρα εἶναι), visto que a simples preposição inglesa "with" não transmite o sentido do grego.

PTOLEMEU.

Primeiramente, há uma distinção feita entre os três: Deus, Princípio e Logos, e então eles são unificados, ou identificados; a fim de que, primeiro, a emanação dos dois a partir do Um possa ser mostrada — do Filho (ou Princípio ou Mente) e do Logos a partir do Pai — e, em seguida, a identificação ou unificação dos dois entre si e com o Pai possa ser indicada.

Pois no Pai e a partir do Pai está o Princípio; e no Princípio e a partir do Princípio está o Logos.

Bem dito é, então: "No Princípio era o Logos", pois Ele estava no Filho (ou Mente).

"E o Logos era (um) com Deus." Pois o Princípio é um com Deus e, consequentemente, o Logos é um.

Pois o que é de Deus é Deus.

"Tudo veio a ser por meio d'Ele, e sem Ele nada teve existência." Isto é, o Logos foi a causa da criação divina ou eônica.

Mas "aquilo que tem seu ser n'Ele é Vida" — a sízigia ou consorte do Logos.

Os Éons vieram a ser por meio d'Ele, mas a Vida estava n'Ele.

E ela que está n'Ele é mais afim a Ele do que aqueles que vieram a ser por meio d'Ele.

Pois ela está unida a Ele e dá fruto por meio d'Ele.

"E a Vida era a Luz dos homens" — "homens" significando primeiramente o Homem superno e sua esposa, a Igreja, pois eles foram iluminados, ou trazidos à luz por meio da Vida.

Até aqui, a respeito do Pleroma ou mundo divino.

O versículo seguinte, "A Luz resplandece nas Trevas, e as Trevas não a compreenderam", refere-se ao universo sensível.


Pois embora o caos do universo sensível tenha sido feito em cosmos pela paixão do Éon Divino, o mundo sensível não O conheceu.

E este Éon é assim Verdade e Vida, e "Verbo feito carne", no processo cósmico.

Somente os iluminados é que "contemplaram a Sua glória", a glória do Filho Unigênito, o Éon Divino ou Pleroma, dada a Ele pelo Pai, cheio de Graça (outro nome para Silêncio e Paz) e Verdade.

E assim, disse Ptolomeu, a referência distinta às duas tétrades — Pai e Silêncio, Mente e Verdade, Verbo e Vida, Homem e Igreja — está contida no Prólogo.

Tal era a natureza da exegese de Ptolomeu com relação ao Prólogo da doutrina do Logos, e aqui devemos, relutantemente, deixá-lo, pois não temos mais informações.

O resumo de Irineu, em seus capítulos iniciais, do que ele havia colhido acerca dos princípios de "os de Ptolomeu", difere apenas ligeiramente dos contornos do processo dos eões e do drama do mito de Sofia, já familiares aos nossos leitores pelo relato de Hipólito.

HERACLEON.

HERACLEON.

Da vida de Heracleon, a quem Clemente de Alexandria (Strom., iv. 9) chama o "mais estimado da escola de Valentim", nada sabemos novamente, exceto que ele escreveu certas Memórias (ὑπομνήματα), contendo um comentário sobre o quarto Evangelho.

A data deste comentário, o primeiro sobre qualquer livro do cânon do Novo Testamento, é geralmente atribuída à década de 170-180 d.C. O gnóstico Heracleon é, portanto, o primeiro comentarista do cristianismo canônico, e consideráveis fragmentos de sua obra foram preservados por Orígenes em seu próprio Comentário sobre o assim chamado Evangelho Joanino.

Esses fragmentos foram primeiramente coletados por Grabe em seu Spicilegium, reimpressos por Massuet e Stieren em suas edições de Irineu, e por Hilgenfeld em sua Ketzergeschichte (1884), e finalmente em 1891 reeditados a partir de uma nova colação de todos os oito manuscritos conhecidos (apenas três tendo sido previamente colacionados) por Brooke em Texts and Studies, i. 4.

Nesses fragmentos, Heracleon assume o sistema "valentiniano" como base; mas ele é mantido em segundo plano, e sua exegese é frequentemente endossada por Orígenes.

Os gnósticos ainda estavam nas fileiras cristãs, ainda eram membros do corpo cristão geral, e desejavam permanecer membros; mas o fanatismo finalmente os expulsou, porque ousaram dizer que o ensinamento do Cristo continha uma sabedoria que transcendia a compreensão da maioria.


O comentário de Heracleon, no entanto, não precisa nos deter, pois está, por assim dizer, fora do círculo da exegese gnóstica distinta; situa-se a meio caminho entre esta e o Cristianismo geral, e em quase a mesma posição que as opiniões de Clemente e Orígenes.

BARDESANES.

Trataremos agora de Bardesanes, "o último dos Gnósticos", como o chama Hilgenfeld, e assim daremos fim a estes esboços grosseiros dos teosofistas cristãos, que nos esforçamos por reconstruir a partir dos fragmentos desfigurados dos originais preservados na literatura patrística.

Bardesanes foi o "último dos Gnósticos", no sentido de ser o último que tentou fazer qualquer propaganda da fase da Gnose com que lidamos, entre as fileiras do Cristianismo comum; pois a Gnose ainda foi estudada em segredo por séculos, e frequentemente reapareceu nas páginas da história sob outros disfarces, por exemplo, o chamado movimento maniqueísta; pois "Podeis expulsar a natureza com um forcado, ainda assim ela encontrará um caminho de volta para casa."

Bardesanes, ou Bar-daisan (assim chamado pelo rio Daisan (o Saltador), em cujas margens nasceu), nasceu em Edessa, em 11 de julho de 155 d.C., e morreu, muito provavelmente na mesma cidade, em 233, aos 78 anos. Seus pais, Nuhama e Nahashirama,

BARDESANES.

eram ricos e nobres; e o jovem Bardaisan não apenas recebeu a melhor educação em maneiras e aprendizado que era possível obter, mas foi criado com um príncipe que depois sucedeu ao trono como um dos Abgaros; ele não apenas compartilhou os exercícios marciais do jovem príncipe, mas em sua juventude ganhou grande fama por sua habilidade no arco e flecha.

Casou-se e teve um filho, Harmônio.

Em que idade abraçou o Cristianismo gnóstico é incerto; mas seu espírito ávido não apenas rapidamente converteu seu amigo e patrono real, mas induziu o Abgaro a torná-lo a religião do estado, e assim (diz-se) Bardesanes deve ter o crédito de indiretamente estabelecer o primeiro estado cristão.

Quando Caracala destronou Abgar Bar-Manu em 216, Bardesanes fez uma defesa viril da fé cristã diante do representante do Imperador Romano, de modo que até Epifânio é obrigado a chamá-lo de "quase um confessor".

Posteriormente, ele foi por um tempo à Armênia, onde compôs uma história baseada nas Escrituras do templo, crônicas que encontrou na fortaleza de Ani, e a traduziu para o siríaco.

Essa história armênia de Bardesanes foi a base da história subsequente de Moisés de Corene.

Bardesanes também foi um grande estudioso da religião indiana e escreveu um livro sobre o assunto, do qual o platônico Porfírio citou posteriormente.

Mas foi como poeta e escritor sobre teologia cristã e teosofia que Bardesanes ganhou tão ampla reputação; ele escreveu muitos livros em siríaco e também em grego, dos quais se dizia ser mestre, mas até mesmo os títulos da maioria deles estão agora perdidos.


Sua obra mais famosa foi uma coleção de 150 Hinos ou Salmos, no modelo da coleção de Salmos do segundo templo, como ainda preservada nos documentos da Antiga Aliança.

Ele foi o primeiro a adaptar a língua siríaca a formas métricas e a musicar as palavras; esses hinos tornaram-se imensamente populares, não apenas no reino de Edessa, mas onde quer que a língua siríaca fosse falada.

Do restante de suas obras, ouvimos títulos como Diálogos contra os Marci onitas, A Luz e as Trevas, A Natureza Espiritual da Verdade, O Estável e o Instável, e Sobre o Destino.

Nada disso chegou até nós, exceto um tratado siríaco, que foi trazido ao Museu Britânico em 1843, entre os manuscritos nitrianos.

Este manuscrito é intitulado Livro das Leis dos Países e pretende ser um resumo das visões de Bardesanes sobre o destino ou karma, conforme exposto por um de seus discípulos.

O texto siríaco e uma tradução inglesa foram publicados por Cureton em 1855; e mais uma vez (como no caso da descoberta do manuscrito dos Philosophumena e de Basilides) a posse de uma fonte aproximadamente de primeira mão revolucionou a antiga visão, baseada nos boatos dos Padres em geral, e na polêmica de Efraim em particular.

Na verdade, a visão mais recente (a de Hort) tenta tirar Bardesanes do Gnosticismo e levá-lo para o seio da ortodoxia.

À medida que se conhece e compreende mais sobre os gnósticos, a mesma política será sem dúvida adotada em outros casos; mas certamente, já que a Ortodoxia amaldiçoou Bardesanes ao longo dos tempos, poderia ao menos deixar-lhe o nome derivado daqueles de quem seu

BARDESANES.

mestre Valentino aprendeu sua sabedoria, e deixá-lo ser gnóstico ainda.

Mas antes de considerar as visões de Bardaisan sobre o "fado", vejamos se podemos extrair algo

Fonte Indireta.

de valor das fontes indiretas.

Somos devedores do que sabemos principalmente a Efraim de Edessa, que escreveu uns 120 anos depois do nosso gnóstico.

Do temperamento deste santo ao combater um homem morto que não lhe fizera mal algum, e que fora tão amado e admirado por todos que o conheciam, podemos julgar pelos epítetos que aplicou a Bardesanes, que (afirma ele) morreu "com o Senhor na boca e demônios no coração". Assim, ele apostrofa Bardaisan como um sofista tagarela; de mente tortuosa e dúbia; exteriormente ortodoxo, herege em segredo; um cão pastor ganancioso em aliança com os lobos; um servo infiel; um dissimulador astuto que praticava o engano com seus cânticos.

Em seu zelo furioso, no entanto, Efraim confunde bardesanitas, marcionitas e maniqueístas, embora Bardesanes se opusesse fortemente às visões dos primeiros, e a religião dos últimos ainda não tivesse nascido quando o doutor gnóstico escreveu.

Os cinquenta e seis Hinos contra as Heresias de Efraim, por exemplo, cujo metro e música ele apropriou de nosso poeta gnóstico, são uma polêmica indiscriminada não apenas contra Marcião, Bardesanes e Mani, mas também contra seus discípulos, sendo as visões muito diferentes de mestres e alunos irremediavelmente misturadas.

Os únicos traços claros de Bardesanes são quatro fragmentos de seus Hinos, citados nos dois últimos Hinos de Efraim.


Os três primeiros são os seguintes, na tradução de Hort:

De seus Hinos.

(1) "Tu, fonte de alegria,

Cujo portão por mandamento

Se abre amplamente para a Mãe;

Que Seres divinos

Mediram e fundaram,

Que Pai e Mãe

Em sua união semearam,

Com seus passos tornaram fecundo."

(2) "Que aquela que vem após ti

Seja para mim uma filha,

Uma irmã para ti."

(3) "Quando, por fim, será nosso

Contemplar teu banquete,

Ver a jovem donzela,

A filha que assentas

Sobre teu joelho e acaricias?"

O primeiro fragmento é geralmente referido à ideia do Paraíso, que é usualmente colocado acima do terceiro dos sete céus, ou no meio das sete esferas; parece, contudo, referir-se antes à Ogdóada ou espaço acima das sete fases da substância psíquica, a Jerusalém Superior dos valentinianos.

O segundo fragmento parece ser uma address da Mãe Divina à mais velha de suas duas filhas, a Sabedoria acima no Pleroma e a Sabedoria

BARDESANES.

abaixo na Ogdóada, onde está o mundo espiritual dos Céus.

O terceiro fragmento é muito provavelmente uma address à Mãe Divina de todos, o Espírito Santo, e refere-se à consumação do processo do mundo, quando as almas espirituais serão tiradas da Ogdóada para o Pleroma, e feitas uma com seus esposos divinos na Grande Festa de Casamento, no Espaço da Donzela de Luz, a Sabedoria acima.

O fragmento restante consiste em apenas duas linhas, e é o seguinte:

(4) "Meu Deus e minha Cabeça,

Deixaste-me sozinho?"

Este clamor foi atribuído à Sabedoria inferior pela escola valentiniana, tanto no drama cósmico, quando a substância do mundo invoca o auxílio de seu consorte, o conformador eônico do mundo, quanto na tragédia da alma do espírito caído na matéria, a Sophia sofredora, como no tratado Pistis Sophia.

Nada mais de natureza certa pode ser deduzido dos escritos polêmicos de Efraim, e o único fragmento de interesse que podemos colher de outros escritores é uma bela frase preservada pelo escritor sírio Filoxeno de Mabug (cerca de 500 d.C.): "O Ancião da Eternidade é um menino" — isto é, é sempre jovem.

Voltemo-nos agora para as opiniões de Bardaisan sobre "astrologia" e "destino", ou, em outras palavras, sua concepção de karman, e citemos algumas passagens da tradução algo ininteligível de Cureton do Livro das Leis dos Países (em seu Spicilegium Syriacum, pp. 11, segs.).


Este diálogo foi escrito por um discípulo de nosso O Livro das Gnóstico, e Bardaisan é apresentado como o principal

Leis dos Países, orador; na verdade, os discípulos apenas intervêm aqui e ali com uma breve pergunta para efeito literário.

Podemos, portanto, estar razoavelmente confiantes de que temos neste tratado uma reprodução fiel das opiniões, não apenas de Bardaisan sobre o destino ou karman, mas também dos gnósticos de sua escola.

Os seguintes extratos dos discursos de Bardaisan lançarão muita luz também sobre as ideias astrológicas na Pistis Sophia.

"Eu, igualmente... sei que há homens que são chamados caldeus, e outros que amam este conhecimento da arte, como eu também outrora o amei [antes de encontrar o ensinamento de Valentim], pois foi dito por mim, em outro lugar, que a alma do homem é capaz de conhecer aquilo que muitos não conhecem, e os mesmos homens [sic] meditam em fazer; e tudo o que fazem de errado, e tudo o que fazem de bom, e todas as coisas que lhes acontecem em riqueza e em pobreza, e em doença e em saúde, e em defeitos do corpo, é pela influência daquelas Estrelas, que são chamadas as Sete, que lhes sobrevêm, e por elas são governados.

Mas há outros que dizem o oposto dessas coisas — que esta arte é uma mentira dos caldeus, ou que a Fortuna não existe de modo algum, mas é um nome vazio; e todas as coisas estão nas mãos do homem, grandes e pequenas; e defeitos e faltas corporais acontecem e lhe sobrevêm por acaso.

Mas outros dizem que tudo o que o homem faz,

BARDESANES.

ele o faz por sua própria vontade, pelo Livre-arbítrio que lhe foi dado, e as faltas e defeitos e Karman.

coisas más que lhe acontecem, ele as recebe como punição de Deus.

Mas quanto a mim, em minha humilde opinião, parece-me que estas três seitas são em parte verdadeiras e em parte falsas.

São verdadeiras, porque os homens falam conforme o modo que veem, e porque, também, os homens veem como as coisas lhes acontecem, e se enganam; porque a sabedoria de Deus é mais rica do que eles, a qual estabeleceu os mundos e criou o homem, e ordenou os Governadores, e deu a todas as coisas o poder que é adequado para cada uma delas.

Mas eu digo que Deus, e os Anjos, e os Poderes, e os Governadores, e os Elementos, e os homens e os animais têm esse poder; mas todas essas ordens das quais falei não têm poder dado a elas em tudo."

Pois aquele que é poderoso em tudo é Um; mas eles têm poder em algumas coisas, e em algumas coisas não têm poder, como já disse: para que a bondade de Deus seja vista naquilo em que têm poder, e naquilo em que não têm poder possam saber que têm um Senhor.

Há, portanto, a Fortuna, como dizem os caldeus."

E que tudo não está em nosso próprio Livre-arbítrio, isto é, que o Livre-arbítrio não é absoluto, é claramente visível na experiência cotidiana.

A Fortuna também desempenha o seu papel, mas não é absoluta, e a Natureza também.

Assim, "nós, homens, verificamos ser governados igualmente pela Natureza, diferentemente pela Fortuna, e pelo nosso Livre-arbítrio cada um como deseja." "Aquilo que se chama Fortuna é uma ordem de processão da Fortuna que é dada por Deus aos Poderes e aos Elementos da Natureza; e de acordo com esta processão e ordem, as inteligências [mentes, egos] são alteradas ao descerem para estar com a alma, e as almas são alteradas ao descerem para estar com o corpo; e esta própria alteração é chamada a Fortuna e a Natividade desta assembleia, que está sendo peneirada e purificada, para o auxílio daquilo que, pelo favor de Deus e pela graça, foi auxiliado, e está sendo auxiliado, até a consumação de tudo.


[Compare no sistema de Basilides o 'beneficiar e ser beneficiado por sua vez.'] O corpo, portanto, é governado pela Natureza, sofrendo também a alma com ele e percebendo; e o corpo não é constrangido nem auxiliado pela Fortuna em todas as coisas que faz individualmente; pois um homem não se torna pai antes dos quinze anos, nem uma mulher se torna mãe antes dos treze anos.

E da mesma maneira, também, há uma lei para a velhice; porque as mulheres se tornam estéreis pelo parto e são privadas do poder natural de gerar; enquanto outros animais, que também são governados pela sua própria Natureza antes daquelas idades que especifiquei, não apenas procriam, mas também se tornam velhos demais para procriar, da mesma maneira que também os corpos dos homens, quando envelhecidos, não procriam; nem a Fortuna é capaz de lhes dar filhos naquele tempo em que o corpo não tem a Natureza para os dar.

Nem, novamente, é a Fortuna capaz de preservar o corpo do homem em vida, sem comer e sem beber; nem mesmo quando tem carne e bebida, de impedi-lo

BARDESANES.

de morrer, pois estas e muitas outras coisas pertencem à própria Natureza; mas quando os tempos e os modos da Natureza se cumprem, então vem a Fortuna aparente entre estas, e efetua coisas que são distintas umas das outras; e num tempo assiste à Natureza e a aumenta, e noutro a impede e a fere; e da Natureza vem o crescimento e a perfeição do corpo; mas à parte da Natureza e pela Fortuna vêm as doenças e os defeitos no corpo.

Pois a Natureza é a união de machos e fêmeas, e o prazer de ambas as cabeças [sic]; mas da Fortuna vem a abominação e um modo diferente de união e toda a imundície e indecência que os homens praticam por causa da união através da sua luxúria.

Pois a Natureza é o nascimento e os filhos; e da Fortuna, às vezes, os filhos nascem deformados; e às vezes são abandonados, e às vezes morrem prematuramente.

Da Natureza há uma suficiência na moderação para todos os corpos; e da Fortuna vem a falta de alimento e a aflição dos corpos; e assim, novamente, da mesma Fortuna vem a glutonaria e a extravagância que não é necessária.

A Natureza ordena que os velhos sejam juízes para os jovens, e sábios para os tolos; e que os valentes sejam chefes sobre os fracos, e os bravos sobre os tímidos.

Mas a Fortuna faz com que os jovens sejam chefes sobre os idosos, e os tolos sobre os sábios; e que em tempo de guerra os fracos governem os valentes, e os tímidos os bravos.

E sabei distintamente que, sempre que a Natureza é perturbada em seu curso correto, sua perturbação provém da causa da Fortuna, porque aquelas Cabeças e Governadores, sobre os quais recai aquela alternância que é chamada de Nascimento, estão em oposição uns aos outros.

E aqueles deles que são chamados Destros, eles auxiliam a Natureza e acrescentam à sua excelência sempre que a processão os ajuda, e eles permanecem nos lugares elevados, que estão na esfera, em suas próprias porções; e aqueles que são chamados Sinistros são maus, e sempre que eles também ocupam os lugares de altura, eles se opõem à Natureza, e não apenas prejudicam os homens, mas, em diferentes épocas, também os animais, e as árvores e os frutos, e a produção do ano, e as fontes de água, e tudo o que está na Natureza que está sob seu controle.

E por causa dessas divisões e seitas que existem entre os Poderes, alguns homens supuseram que o mundo é governado sem qualquer superintendência, porque não sabem que essas seitas e divisões e justificação e condenação procedem daquela influência que é dada no Livre-Arbítrio por Deus, para que aquelas ações também, pelo poder de si mesmas, possam ser justificadas ou condenadas; assim como vemos que a Fortuna esmaga a Natureza, podemos também ver o Livre-Arbítrio do homem repelindo e esmagando a própria Fortuna; mas não em tudo, como também a própria Fortuna não repele a Natureza em tudo; pois é próprio que as três coisas, Natureza e Fortuna e Livre-Arbítrio, sejam mantidas em suas vidas até que a processão seja cumprida, e a medida e o número sejam preenchidos, como pareceu bem diante d'Aquele que ordenou como deveria ser a vida e a perfeição de todas as criaturas, e o estado de todos os Seres e Naturezas."

Bardesanes assim faz do Livre-Arbítrio, do Destino e da Natureza os três grandes fatores da lei cármica, todos

BARDESANES.

os três estando, em última instância, nas mãos de Deus.

Cada um reage sobre o outro, nenhum é absoluto.

A Natureza tem a ver com o corpo, o Destino ou a Fortuna com a alma, e o Livre-arbítrio com o espírito.

Nenhum deles é absoluto, o absoluto estando somente em Deus.

Por um estranho acaso, no entanto, um dos hinos do grande poeta do Gnosticismo foi preservado para nós — o Hino da Alma — por inteiro; é agora geralmente admitido que o belo "Hino da Alma", como tem sido chamado, embutido na forma siríaca dos apócrifos Atos de Judas Tomé, preservado no códice do Museu Britânico, é quase indubitavelmente do estilete de Bardaisan.

Nöldeke e Macke foram os primeiros estudiosos a chamar atenção para o fato.

(Veja Lipsius' Die apokryphen Apostelgeschichten, i. 299, sqq., 1885). É uma bela lenda de iniciação, e foi primeiramente traduzida por Wright (Apochryphal Acts of the Apostles, ii. 238–245; 1871); foi agora recentemente (1898) retraduzida por Bevan, usando a versão de Wright como base.

Desde o tempo de Wright, tanto trabalho foi feito sobre esta "obra-prima da poesia religiosa", como o Leitor de Árabe de Cambridge justamente a chama, que a tradução do pupilo é preferível à do mestre, e o trabalho do Professor Bevan deve agora ser considerado não apenas como tendo superado o de Wright, mas como o melhor sobre o assunto.

A alta probabilidade da origem bardesanista do poema é baseada nas seguintes considerações: As três principais acusações do Padre ortodoxo Efraim contra Bardaisan, que, ele diz, ensinava que havia Sete Essências (Ithye), são: "(1) Que ele negava a ressurreição e considerava a separação da alma do corpo como uma bênção; (2) que ele sustentava a teoria de uma 'Mãe' divina que, em conjunção com 'o Pai da Vida', dava à luz um ser chamado 'o Filho do Vivente'; (3) que ele acreditava em um número de 'deuses' menores, isto é, seres eternos subordinados ao Deus supremo."


"Agora, é notável", diz o Professor Bevan, "que estas três 'heresias' apareçam todas distintamente no Poema diante de nós. Não pode haver dúvida de que a vestimenta egípcia, que o príncipe veste como disfarce e lança fora assim que sua missão é cumprida, representa o corpo humano.

A declaração enfática de que a 'vestimenta imunda e impura' é 'deixada em seu país' transmite um significado inequívoco; seria difícil, em uma peça alegórica, negar uma ressurreição material de modo mais absoluto."

Uma vez que Bardesanes, como todos os grandes gnósticos, acreditava na reencarnação, tal concepção como a ressurreição do mesmo corpo físico deve ter sido por ele considerada uma grosseira superstição dos ignorantes.

Tal "prova" de identidade de doutrina como aqui é apresentada dificilmente poderia ocorrer a alguém que tenha compreendido o significado da doutrina do renascimento.

"A verdadeira vestimenta da alma, segundo o poeta, é a forma ideal que ela deixou para trás no céu e que reassumirá após a morte.

[Somente após a 'morte para o pecado'; a Veste de Luz não é para todos.] Quanto ao Pai da Vida, à Mãe e ao Filho do Vivente, eles aqui figuram como o Pai — 'o Rei dos

BARDESANES.

reis' —, a Mãe — 'a Rainha do Oriente' —, e o Irmão — 'o próximo em hierarquia.' Finalmente, os 'deuses menores' aparecem como 'os reis', que obedecem ao comando do Rei dos reis."

Se o estudante, ao ler esta obra-prima da poesia gnóstica, tiver em mente a bela Parábola do Filho Pródigo, como preservada no terceiro Sinótico, ele será capaz de traçar a similaridade básica de ideias nas tradições externa e interna, e notar como a interna expande e explica a externa.

Não sei com que autoridade este belo poema tem sido chamado de Hino da Alma; não há autoridade no texto para o título, e o poeta gnóstico tinha em mente um tema muito mais definido.

Ele cantou sobre a consumação da vida gnóstica, a coroa da vitória ao final do Caminho; não de vagas generalidades, mas de um objetivo muito definido em direção ao qual corria.

Ele cantou sobre a "veste nupcial", o "manto da iniciação", tão belamente descrito nas páginas iniciais da Pistis Sophia.

Assim, então, na mais recente tradução, segue o que ousarei chamar: O HINO DO MANTO DE GLÓRIA.


Quando eu era uma pequena criança,

E habitava em meu reino, na casa de meu Pai,

E na riqueza e nas glórias de meus criadores tinha meu prazer,

Do Oriente,¹ nossa morada,

Meus pais, tendo-me equipado, enviaram-me adiante.

E da riqueza de nosso tesouro²

Eles haviam atado para mim uma carga.

Grande era ela, porém leve,

Para que eu pudesse carregá-la sem ajuda —

Ouro de ...³

E prata de Gazzak, o grande,

E rubis da Índia,

E ágata (?) da terra de Kushan (?),

E cingiram-me com adamante,⁴

Que pode esmagar o ferro.

E tiraram de mim o manto brilhante,

Seja o Pleroma ou a Ogdóade, os reinos espirituais.

As seguintes notas são todas minhas.

Um termo técnico gnóstico.

Beth-'Ellaye (Wright). É altamente provável que todos os nomes de países e cidades, alguns dos quais Bevan omitiu por serem duvidosos demais, sejam substitutos para estados ou regiões dos planos superiores; a identificação de alguns deles tem inteiramente desafiado os estudiosos, e a identificação do restante é, em sua maioria, insatisfatória.

Sem dúvida, Bardesanes, ou seu filho Hannonius, ou qualquer bardesanista que tenha escrito o poema, estava familiarizado com a grande rota de caravanas da Índia ao Egito, e usou esse conhecimento como subestrutura, mas o todo é alegórico.

(Desde que escrevi esta nota, alguns excelentes trabalhos de interpretação nessas linhas foram feitos por estudiosos alemães. Ver Bibliografia).

Um símbolo, presumivelmente, para o corpo-mente, ou vestimenta.

O HINO DO MANTO DE GLÓRIA.

Que em seu amor haviam tecido para mim,

E minha toga púrpura,

Que foi medida (e) tecida à minha estatura.

E fizeram um pacto comigo,

E o escreveram em meu coração para que não fosse esquecido:

Se desceres ao Egito¹
E trouxeres a pérola única,²
Que está no meio do mar,³
Junto à serpente de respiração ruidosa,⁴
Então vestirás tua túnica brilhante
E tua toga,⁵ que sobre ela está posta,
E com teu Irmão,⁶ nosso próximo em hierarquia,⁷
Serás herdeiro em nosso reino.

Deixei o Oriente e desci,
Tendo comigo dois mensageiros,⁸
Pois o caminho era perigoso e difícil,
E eu era jovem para trilhá-lo.
Atravessei as fronteiras de Maishan,
O ponto de encontro dos mercadores do Oriente,
E cheguei à terra de Babel,
E entrei nos muros de . . .

O corpo, termo técnico comum a muitas escolas gnósticas.

A Gnose.

Da matéria, grosseira e sutil.

Talvez a essência elementar ou animal na matéria.

Duas das vestes superiores do Self, das quais havia três.

O ego superior, presumivelmente.

Próximo em hierarquia à Mãe e ao Pai.

Os poderes que compelam ao renascimento, presumivelmente, os representantes do Pai e da Mãe.

Sarbug (Wright). Estes são aparentemente vários planos ou estados.


Desci ao Egito,
E meus companheiros se separaram de mim.
Dirigi-me diretamente à serpente,
Perto de sua morada permaneci,
(Aguardando) até que ela pudesse adormecer e dormir,
E eu pudesse tomar minha pérola dela.
E quando eu estava só e solitário,
Estranho àqueles com quem habitava,
Um de minha raça, um homem livre,
Dentre os orientais, avistei ali —
Um jovem belo e bem-apessoado.
E ele veio e se uniu a mim.
E o fiz meu íntimo,
Um companheiro com quem compartilhei minha mercadoria.
Adverti-o contra os egípcios
E contra o convívio com os impuros;
E vesti uma garba como a deles,
Para que não me insultassem (?) por eu ter vindo de longe,
Para tomar a pérola,
E (para que) não despertassem a serpente contra mim.
Mas de algum modo,
Perceberam que eu não era de seu país;
Então agiram comigo traiçoeiramente.
Além disso, deram-me seu alimento para comer.
Esqueci que era filho de reis,
E servi a seu rei;

A serpente é presumivelmente as paixões, que são inerentes à essência elemental.

O HINO DA TÚNICA DE GLÓRIA.

E esqueci a pérola,

Para a qual meus pais me haviam enviado,

E por causa do peso de suas . . .

Eu jazia em profundo sono.

Mas todas essas coisas que me aconteceram,

Meus pais perceberam e se entristeceram por mim;

E uma proclamação foi feita em nosso reino,

Que todos se apressassem ao nosso portão,

Reis e príncipes da Pártia

E todos os nobres do Oriente.

Assim, eles teceram um plano em meu favor,

Para que eu não fosse deixado no Egito,

E escreveram-me uma carta,

E cada nobre assinou seu nome nela:

"De teu Pai, o Rei dos reis,

E de tua Mãe, a Senhora do Oriente,

E de teu Irmão, nosso próximo em hierarquia,

A ti, nosso filho, que estás no Egito, saudação!

Levanta-te e desperta do teu sono,

E ouve as palavras de nossa carta!

É possível que no acima também tenha sido tecida uma peça real de biografia no poema? — Inclino-me a pensar que sim. Pode até ser uma página perdida da vida oculta do próprio Bardaisan.

Cheio de anseio por penetrar os mistérios da Gnose, ele se junta a uma caravana para o Egito e chega a Alexandria.

Lá ele encontra um amigo na mesma busca que a sua.

Bardaisan, antes de tudo, tem o infortúnio de cair nas mãos de alguma escola de magia sensual e egoísta, e esquece por um tempo sua verdadeira busca.

Somente após essa amarga experiência ele obtém a instrução que buscava na iniciação da escola valentiniana.

É claro que essa especulação é apresentada com toda hesitação, mas não é nem uma impossibilidade nem uma improbabilidade.

Nomes são poderes.

Compare as belas passagens "Vinde a nós" no Cântico dos Poderes da Pistis Sophia, págs. segs.


Lembra-te de que és um filho de reis!

Vê a escravidão — a quem serves!

Lembra-te da pérola

Para a qual te apressaste ao Egito!

Pensa na tua túnica brilhante,

E lembra-te da tua toga gloriosa,

Que vestirás como teu adorno,

Quando teu nome for lido na lista dos valentes,

E com teu Irmão, nosso [? próximo em hierarquia], Tu serás [? rei] em nosso reino." E minha carta (era) uma carta Que o Rei selou com sua mão direita, (Para guardá-la) dos ímpios, os filhos de Babel,

E dos demônios selvagens de . . . ¹ Ela voou à semelhança de uma águia, O rei de todas as aves;² Voou e pousou ao meu lado, E tornou-se toda fala.

À sua voz e ao som do seu sussurro, Sobressaltei-me e despertei do meu sono.

Tomei-a e beijei-a, E soltei o seu selo (?), (e) li; E conforme o que estava traçado em meu coração Foram as palavras da minha carta escritas.

Lembrei-me de que era filho de reis, E minha alma livre ansiou por seu estado natural.

Lembrei-me da pérola,

Sarbug (Wright),

A descida do Espírito Santo ou consciência espiritual.

O HINO DA TÚNICA DE GLÓRIA.

Pela qual fora enviado ao Egito,

E comecei a encantá-lo,

O terrível serpente de sopro ruidoso.

Adormeci-o e embalei-o em sono;

Pois o nome de meu Pai pronunciei sobre ele, E o nome do nosso próximo em hierarquia, E de minha Mãe, a Rainha do Oriente;¹ E arrebatei a pérola, E voltei-me para regressar à casa de meu Pai.

E sua veste imunda e impura despi, e deixei-a em sua terra,² E tomei meu caminho direto para chegar À luz do nosso lar, o Oriente.

E minha carta, meu despertador, encontrei diante de mim no caminho, E assim como com sua voz me despertara, (Assim) também com sua luz me guiava.

Brilhou diante de mim com sua forma, E com sua voz e sua orientação,

Também me encorajou a apressar-me,

E com seu (?) amor me atraía. Saí, passei por . . . Deixei Babel à minha esquerda,³ E alcancei Maishan, a grande,

Os nomes de Pai, Filho e Espírito Santo, isto é, os poderes dos princípios imortais no homem.

Ele deixou seu corpo para trás em transe, durante a iniciação.

Ele vai para "a direita" como todos os iniciados nos Mistérios Órficos e outros.


O porto dos mercadores, Que se assenta na margem do mar.

E minha túnica resplandecente, que eu havia despido,

E a toga em que estava envolta,

Das alturas da Hircânia (?)

Meus pais enviaram para lá,

Pelas mãos de seus tesoureiros,

Que em sua fidelidade podiam ser ali confiados.

E porque eu não me lembrava de sua feição —

Pois na minha infância a deixara na casa de meu Pai —

De súbito, ao fitá-la,

A vestimenta pareceu-me como um espelho de mim mesmo.

Vi-a toda em meu eu inteiro; além disso, fitei meu eu inteiro ao (fitar) ela. Pois éramos dois em distinção, E ainda assim um em uma só semelhança.

E os tesoureiros também, Que a trouxeram a mim, vi de igual modo, Que eram dois (mas) uma só semelhança.

Pois um sinal régio estava gravado neles, Das suas mãos que me restituíram (?) Meu tesouro e minha riqueza por meio deles.

Minha túnica resplandecente bordada,

Compare o logos: "Assim como qualquer de vós se vê num espelho, vede-Me, em vós mesmos." — Eesch, Agrapha (Texte u. Untersuchungen, Bd. v., Heft 4), 36 I, e As Others Saw Him, p. 88.

O mistério da sizígia; compare a história da infância na Pistis Sophia.

O HINO DA TÚNICA DE GLÓRIA.

Que com cores gloriosas;

Com ouro e com berilos,

E rubis e ágatas (?)

E sardônicas variegadas em cor,

Também foi preparada em sua morada no alto (?)

E com pedras de adamante

Todas as suas costuras foram fixadas;

E a imagem do Rei dos reis estava representada por completo sobre toda ela,

E como a pedra safira também eram suas matizes múltiplas.

Novamente vi que sobre toda ela

Os movimentos do conhecimento¹ estavam se agitando

E como se fosse para falar

Vi-a também preparando-se a si mesma.

Ouvi o som de seus tons,

Que emitia àqueles que a trouxeram (?)

Dizendo: "Eu . . .

A quem criaram para ele (?) na presença de meus pais,

E eu também percebi em mim mesmo

Que minha estatura crescia segundo os seus labores.

E em seus movimentos régios

Ela se estendia para mim,

E nas mãos de seus doadores

¹Gnose; a túnica na Pistis Sophia contém todas as "gnoses" (γνώσεις).

"Eu sou o ativo nas obras" (Wright).

O corpo "causal" ou vestidura que constitui o ego superior.

"Ele se derramou inteiramente sobre mim" (Wright) — a mesma símile usada várias vezes no Códice Askew.


Apressou-se para que eu o tomasse.

E a mim também meu amor impelia

Para que eu corresse ao seu encontro e o recebesse;

E estendi a mão e o recebi,

Com a beleza de suas cores me adornei

E minha toga de cores brilhantes

Lancei ao redor de mim, em toda a sua largura.

Com ela me vesti e ascendi

Ao portal de saudação e homenagem;

Inclinei a cabeça e prestei homenagem

À Majestade de meu Pai que o enviara

a mim,

Pois eu cumprira seus mandamentos,

E ele também cumprira o que prometera,

E no portal de seus príncipes me misturei com seus nobres;

Pois ele se alegrou em mim e me recebeu,

E eu estava com ele em seu reino.

E com a voz . . . Todos os seus servos o glorificam.

E ele prometeu que também ao portal

Do Rei dos reis eu me apressaria com ele,

E trazendo meu dom e minha pérola

Eu apareceria com ele diante de nosso Rei.

Bem pode o Professor Bevan chamar este glorioso hino de "obra-prima da poesia religiosa"; não é apenas magnífico como poesia, mas inestimável como registro de fato oculto.

Que não teremos nós perdido com a bárbara destruição dos Hinos de Bardesanes?

Este parece ser Um diferente do próprio Pai, e o assunto das terceira e quarta linhas a partir do fim.

ALGUNS TRAÇOS DA GNOSE NOS ATOS NÃO CANÔNICOS.

PREFÁCIO.

ASSIM como existiram, antes e ao lado dos Evangelhos canônicos, muitos outros arranjos dos Ditos e Feitos do Senhor, assim também existiram, antes e ao lado dos Atos selecionados ou canônicos, muitas outras narrativas que professavam registrar os feitos e ditos dos Apóstolos e Discípulos do Senhor.

A maioria delas originou-se no que hoje se chama círculos heréticos, mas foram subsequentemente trabalhadas por editores ortodoxos para adequar-se a preconceitos doutrinários, e avidamente abraçadas pela Igreja Católica.

Como Lipsius, a maior autoridade no assunto, diz: "Quase todo novo editor de tais narrativas, usando aquela liberdade que toda a antiguidade costumava permitir-se ao lidar com monumentos literários, reformularia os materiais que tinha diante de si, excluindo o que quer que não se adequasse ao seu ponto de vista teológico — declarações dogmáticas, por exemplo, discursos, orações, etc., para os quais substituiria outras fórmulas de sua própria composição, e ainda expandindo e abreviando a seu bel-prazer, ou conforme o objetivo imediato que tinha em vista pudesse ditar." (Art.


"Atos Apócrifos dos Apóstolos," no Dicionário de Smith e Wace, incorporado à sua exaustiva *Die apokryphen Apostelgeschichte*, 1883, etc.)

O principal ponto de interesse para nós é que alguns desses documentos editados e reeditados ainda preservam traços de sua origem gnóstica; e Lipsius demonstrou que seu gnosticismo não deve ser atribuído ao maniqueísmo do terceiro século, como foi assumido por alguns, mas à Gnose geral do segundo século.

Houve uma circulação muito ampla de tais romances religiosos no segundo século, pois estes formavam o principal meio de propaganda pública gnóstica.

Os ensinamentos internos técnicos do Gnosticismo, os Padres da Igreja, como vimos, atacaram com deturpação e sobrecarregaram com ridículo; a esses ataques os gnósticos não responderam, muito provavelmente porque estavam vinculados por seus juramentos de sigilo, por um lado, e por outro sabiam bem que as doutrinas da vida interior não poderiam ser decididas por debate vulgar.

Os ensinamentos internos de seu Evangelho eram para aqueles de dentro; para o restante, eram loucura.

Mas os romances dos Atos, sem dúvida muitas vezes baseados em ocorrências reais da vida interior, não eram de caráter tão difícil.

Podem parecer vastamente fantásticos à crítica moderna, mas para toda matiz do Cristianismo naqueles primeiros anos eram inteiramente críveis.

Estes formavam o elo intermediário entre a Igreja Geral e os ensinamentos internos do Gnosticismo, e não podiam ser descartados pelo ridículo.

PREFÁCIO.

Outro método teve de ser usado.

Como diz Lipsius: "Os bispos e mestres católicos não sabiam melhor maneira de conter essa enchente de escritos gnósticos e sua influência entre os fiéis do que adotar corajosamente as narrativas mais populares dos livros heréticos e, após eliminar cuidadosamente o veneno da falsa doutrina, devolvê-las, nessa forma purificada, às mãos do povo."

Felizmente, a "purificação" não foi completa, e alguns vestígios do "veneno" ainda podem ser encontrados, como esperamos mostrar aos nossos leitores na sequência.

Seria inadequado nestes breves esboços tentar uma descrição desses Atos, ou entrar em um tratamento crítico de suas fontes; nosso único objetivo é resgatar dessa massa de literatura alguns fragmentos que ainda preservam vestígios dos antigos ensinamentos gnósticos.

As obras originais nas quais esses ensinamentos foram formulados pela primeira vez desapareceram; a tradição foi muito mutilada por muitos editores e escribas.

Será que os recém-descobertos Atos coptas de Pedro podem nos dar a tradução de um texto original não adulterado?

Diz-se que a mais antiga coleção desses Atos gnósticos foi feita por um certo Leucius (há não menos que dezoito variantes do nome), ou Leucius Charinus, que teria sido discípulo de João; mas, naturalmente, não se pode confiar nessa última afirmação, a menos que "João" seja considerado o autor do Quarto Evangelho, e não um dos Doze originais.

De qualquer forma, os chamados Atos leucinianos eram antigos; na opinião de Zahn, essa coleção foi feita numa época em que os gnósticos ainda não eram considerados heréticos, ou seja, antes de 150 d.C.

Seja como for, os Atos leucinianos eram uma coleção do segundo século, pois Clemente de Alexandria os conhecia; provavelmente também foram coletados em Alexandria.

Outro coletor antigo de Atos gnósticos foi um certo Lino, de quem nada de certo se sabe.

Ele provavelmente viveu em Roma.

A coleção de Abdias é tardia demais para ser considerada nesse contexto.

Para uma discussão completa de todos esses pontos, e uma análise de todos os fragmentos gnósticos e referências preservados nos Atos Apócrifos, devo remeter o estudante à grande obra de Lipsius sobre o assunto.

Apresentaremos agora ao leitor os mais importantes desses fragmentos, para que ele possa julgar sua natureza.

Alguns desses Atos não estão traduzidos para o inglês; utilizo os textos mais recentes de Zahn, Bonnet e Lipsius.

DOS ATOS DE TOMÉ.

DOS ATOS DE TOMÉ.

Já fornecemos ao leitor o fragmento mais importante preservado nos Atos de Tomé, ou Judas, um Hino a Tomé; é o belo Hino da Alma, composto com toda probabilidade por Bardesanes.

Se os Atos de Tomé não nos tivessem dado nada além deste grandioso Hino Gnóstico da Veste de Glória, sua existência não teria sido preservada em vão.

Felizmente, porém, há mais a ser colhido deles.

O que se segue é uma tradução da bela Ode a Sophia, como é chamada.

"A Donzela é filha da Luz; nela se guarda o esplendor do Rei.

Majestoso é seu olhar, e deleitoso; em radiante beleza ela brilha.

"Como flores de primavera são suas vestes; delas emana o perfume de doces odores.

Entronizado sobre sua cabeça, o Rei se assenta, com alimento livre da morte, alimentando-os à Sua mesa.

"A Verdade coroa sua cabeça; a Alegria brinca a seus pés.

Ela abre sua boca como lhe convém; todas as canções de louvor ela deixa fluir.

"Dois e trinta são os que entoam louvores; ... Sua língua é como o véu de entrada, movido apenas por aqueles que entram.

"Seu pescoço se eleva em degraus; o primeiro construtor do mundo o edificou. Suas mãos sugerem a banda dos benditos Eons, proclamando-os (?); seus dedos apontam para os Portões da Cidade.

"Sua câmara nupcial (?) irradia luz e verte o perfume de bálsamo e ervas doces, deliciosos aromas de mirra e plantas saborosas; com grinaldas de murta e massas de flores doces está espalhada por dentro.


Seu leito nupcial está adornado com juncos (?).

"Seus padrinhos estão agrupados ao redor dela; sete são em número; ela mesma os escolheu."

Sete, também, são suas damas de honra dançando diante dela.

"Doze são os que a servem e a atendem; seus olhos sempre buscam o Noivo, para que Ele os encha de luz.

"Pois para sempre estarão com Ele em alegria eterna; e tomarão seus lugares naquela festa onde os Grandes se reúnem, e permanecerão naquele banquete do qual somente os Eternos (aiwvioi) são considerados dignos.

"Em vestes reais serão vestidos, e vestirão mantos de luz, e ambos se alegrarão em êxtase e exultação, cantando louvores ao Pai.

"Pois de Sua radiância gloriosa receberam; e à vista d'Ele, seu Senhor, foram cheios de luz.

"Receberam d'Ele alimento imortal que não conhece desperdício.

"Beberam do vinho que não faz mais os homens ter sede, nem sofrer a concupiscência da carne.

"Assim, com o Espírito Vivo, glorificam o Pai da Verdade, e cantam seus louvores à Mãe da Sabedoria."

Quem dera tivéssemos o original deste belo hino, pois mesmo a versão falha e distorcida que resta é bela.

Será que temos aqui outro dos Hinos de Bardaisan? De qualquer forma, o hino remete ao sagrado casamento da Sophia com seu Noivo, o Cristo, ao qual já foi feita referência em nosso esboço da Gnose Basilidiana.

Neste casamento, a Sophia cósmica foi recebida de volta no Mundo de Luz, e unida ao seu esposo celestial.

Isso deveria ocorrer na Grande Consumação; mas, misticamente, estava sempre ocorrendo para aqueles que se uniam aos seus Eus Superiores.

Assim como na consumação do universo a Alma do Mundo foi reunida à Mente do Mundo, assim no aperfeiçoamento do indivíduo a alma se tornou uma com o Self interior.

A Donzela é a filha do Pleroma de Luz; ela reflete o esplendor dos Reis, os Senhores do Reino de Luz.

Acima dela, no Reino de Luz, está entronizado o Rei da Glória, o Christos, que dá o alimento da imortalidade às Almas Espirituais (Pneumáticos) que são dignas de ser convidadas para a Festa.

Nesta alta iniciação, todo o Pleroma (os trinta e dois Eons) entoa cânticos de regozijo porque a vitória foi conquistada.

Somente tais almas aperfeiçoadas podem mover a língua da Sabedoria em louvor a Deus; somente elas podem fazer a substância sutil de tão elevadas alturas vibrar em cânticos de louvor.

O versículo seguinte é difícil de compreender e, sem dúvida, não preserva o original.

A "Cidade" é o Pleroma; a câmara nupcial é o Pastes, o santuário, o lugar santo, onde a iniciação é conferida — a Jerusalém Superior, idêntica talvez à Cidade de que lemos no MS. superior do Codex Brucianus.


Para lá, a alma purificada é conduzida por sete pares ou sizígias de poderes.

Elevando-se às alturas, ela leva consigo os doze, seus servos, não mais seus governantes como no mundo inferior, onde por tanto tempo esteve acorrentada nos laços do desejo.

Os doze são agora os seus próprios poderes purificados, pelos quais a Luz do Christos é refletida.

Na frase "ambos se alegrarão em bem-aventurança e exultação", do terceiro versículo a partir do fim, "ambos" refere-se à alma reunida ao seu "Anjo" — aqueles Anjos que sempre contemplam a Face do Pai.

Isto e muito mais revela o hino àqueles que amam a Gnose, pois muitas páginas não esgotariam o seu pleno significado.

Mas devemos apressar-nos para os fragmentos restantes nos Atos de Tomé, e assim apresentar aos nossos leitores uma tradução de duas interessantes orações sacramentais ou invocações em forma de hino.

A primeira é a seguinte:

"Vem, Tu, Santo Nome de Cristo, Nome acima de todos os nomes; vem, Poder do alto; vem, Perfeita Misericórdia; vem, dom supremo!

"Tu, Mãe da compaixão, vem; vem, Esposa d'Ele, o Homem; vem, Tu, Reveladora dos mistérios ocultos; Tu, Mãe das sete moradas, vem, que na oitava encontraste o Teu descanso!

"Vem, Tu que és muito mais antiga que os cinco santos Membros — Mente, Pensamento, Reflexão, Cogitação, Raciocínio; comunga com aqueles de nascimento posterior!

"Vem, Espírito Santo, purga Tu os seus rins e coração!"

A segunda é assim:

DOS ATOS DE TOMÉ.

"Vem, Dom supremo; Vem, Tu, Perfeita Misericórdia; Tu, que conheces os mistérios dos Eleitos, desce; Tu, que compartilhas de todas as lutas do nobre esforçador, vem!

"Vem, Silêncio, Tu, Revelador das coisas poderosas de toda a Grandeza; vem, Tu, que manifestas o oculto e tornas claro o segredo!

"Vem, Santa Pomba, mãe de dois jovens gêmeos; vem, Mãe Oculta, revelada apenas em feitos!

"Vem, Tu, que dás alegria a todos os que estão em unidade Contigo; vem e comunga conosco nesta ação de graças (eucaristia) que estamos celebrando em Teu nome, neste banquete de amor (ágape) para o qual nos reunimos a Teu chamado!"

Estas invocações sacramentais devem ser referidas ao mesmo círculo de ideias que as fórmulas da Gnose de Marcos, que já apresentamos.

O Nome não é o nome "Christos", mas o Nome ou Poder do Cristo, Sua shakti (para usar um termo da teosofia indiana) ou sizígia.

O "mais antigo que os cinco membros" é o Homem, o esposo da Sophia ou Espírito Santo, o Christos.

Os cinco membros são presumivelmente a Pêntade dos éons referida no recém-descoberto Evangelho Gnóstico de Maria, e os nomes deles são muito semelhantes aos mencionados no sistema "simoniano".

Eles são uma das mais elevadas ordenações dos membros, ou partes, do Homem Celeste, sobre o qual lemos tanto nos Códices de Bruce e Askew.

"Os de nascimento posterior" são os neófitos que aguardam a iniciação do "selo da perfeição". Os "coisas poderosas de toda a Grandeza" são os mistérios do Pleroma.


A Santa Pomba é novamente a Sophia ou Alma do Mundo; segundo a Gnose de Bardaisan, ela tinha duas filhas.

Efraim, o amargo oponente dos bardesanistas, diz que elas eram chamadas Vergonha do Seco e Imagem da Água; fossem esses realmente seus nomes ou não, elas eram presumivelmente a Terra-mundo produtiva e a Água-mundo procriativa, as construtoras do mundo material; em outras palavras, as regiões sublunares e terrestres.

Antes de deixar os Atos de Tomé, pode ser interessante dar ao leitor um exemplo das histórias com que tais romances religiosos eram preenchidos.

O Apóstolo Judas Tomé, ou o Gêmeo de Jesus, é fabulosamente descrito como tendo recebido a Índia por sorte como sua esfera de trabalho apostólico.

Tomé a princípio não deseja ir, mas é vendido por Jesus, seu mestre, a um comerciante do Oriente como escravo "hábil em carpintaria". Tomamos o seguinte resumo da história da Introdução ao Novo Testamento de Salmon (8ª ed., 1897, pp. 337, 338).

"Quando Tomé chega à Índia, é levado perante o Rei, e sendo interrogado sobre seu conhecimento de trabalho de pedreiro ou carpinteiro, professa grande habilidade em qualquer um dos ramos.

O Rei pergunta-lhe se pode construir-lhe um palácio.

Ele responde que pode, e faz um plano que é aprovado. É então encarregado de construir o palácio, e recebe abundantemente dinheiro para o trabalho, o qual, no entanto, ele diz que não pode começar até os meses de inverno.

O Rei acha isso estranho, mas, convencido de sua habilidade, aquiesce.

Mas quando o Rei parte, Tomé, em vez de construir, ocupa-se em pregar o Evangelho, e gasta todo o dinheiro com os pobres.

Após algum tempo, o Rei envia para saber como o trabalho está progredindo. Tomé manda dizer que o palácio está terminado, exceto o telhado, para o qual precisa de mais dinheiro; e isso é fornecido de acordo, e é gasto por Tomé com as viúvas e órfãos como antes.

Por fim, o Rei retorna à cidade, e quando indaga sobre o palácio, fica sabendo que Tomé nunca fez nada além de andar pregando, dando esmolas aos pobres e curando doenças.

Ele parecia ser um mago, mas nunca aceitava dinheiro por suas curas; vivia de pão e água, com sal, e tinha apenas uma vestimenta.

O Rei, em grande ira, mandou chamar Tomé."

'Você me construiu um palácio?' 'Sim.' 'Deixe-me vê-lo.' 'Oh, você não pode vê-lo agora, mas o verá quando sair deste mundo.' Enfurecido por ser assim zombado, o Rei mandou prender Tomé, até que pudesse conceber alguma forma terrível de morte para ele.

Mas naquela mesma noite o irmão do Rei morreu, e sua alma foi elevada pelos anjos para ver todas as moradas celestiais.

Perguntaram-lhe em qual delas gostaria de habitar.

Mas quando viu o palácio que Tomé havia construído, desejou habitar em nenhuma outra senão aquela.

Quando soube que pertencia a seu irmão, implorou e obteve que pudesse retornar à vida, a fim de que pudesse comprá-lo dele.

Assim, enquanto colocavam as vestes mortuárias no corpo, ele retornou à vida.

Ele mandou chamar o Rei, cujo amor por ele ele conhecia, e suplicou-lhe que lhe vendesse o palácio.


Mas quando o Rei soube a verdade sobre isso, recusou-se a vender a mansão que esperava habitar ele mesmo, mas consolou seu irmão com a promessa de que Tomé, que ainda estava vivo, lhe construiria uma melhor. Os dois irmãos então receberam instrução e foram batizados."

DOS ATOS DE JOÃO.

EM um volume recente daquela valiosíssima série Textos e Estudos Recentes (Apocrypha Anecdota II., por M. R. James, 1897), há um longo fragmento dos Atos de João, muito do qual nunca foi publicado anteriormente.

Foi resgatado de um manuscrito do século XIV preservado em Viena.

O original desses Atos é antigo, pertencendo como pertencem à coleção leuciniana.

Visto que Clemente de Alexandria cita deles, devemos atribuir o terceiro quartel do segundo século como o terminus ad quem.

Temos, portanto, diante de nós um documento antigo, cujo interesse é ainda mais aumentado pelo fato de sua natureza distintamente gnóstica.

Quase todo o fragmento consiste em um monólogo posto na boca de João, no qual é preservada para nós uma tradição notabilíssima da vida oculta de Jesus.

Toda a ambientação da cristologia é docética, e o fragmento é, portanto, uma valiosíssima adição ao nosso conhecimento sobre esse interessante ponto da tradição gnóstica.

O docetismo foi o crescimento exuberante das

DOS ATOS DE JOÃO.

lendas de certos poderes ocultos atribuídos ao "homem perfeito", que foram tecidas nas muitas teorias cristológicas e soteriológicas dos filósofos gnósticos; e também, como creio, de um fato histórico verídico, que foi obscurecido a ponto de não ser mais reconhecido pelas muitas narrativas historicizantes das origens.

Após Sua morte, o Cristo de fato retornou e ensinou Seus seguidores nas comunidades internas, e essa foi a origem parcial da proteiforme tradição gnóstica de uma instrução interna.

Ele retornou da única maneira pela qual poderia retornar, ou seja, em um corpo "psíquico" ou "espiritual"; esse corpo podia ser tornado visível à vontade, podia até ser tornado sensível ao tato, mas era, comparado ao corpo físico comum, um corpo "ilusório" — daí o termo "docético".

Mas assim como a tradição externa dos "Pobres Homens" foi gradualmente transmutada e, por fim, exaltou Jesus, de

A Evolução da

posição de profeta ao pleno poder

Tradição.

e glória da própria Divindade, assim também a tradição interna estendeu a noção docética original a todos os departamentos da enorme estrutura soteriológica erguida pelo gênio gnóstico.

Os Atos de João pertencem a este último ciclo de tendências, e "João" é a personificação de uma das linhas de tradição do docetismo proteiforme, que teve sua origem em um fato oculto, e daqueles maravilhosos ensinamentos de iniciação que posteriormente foram historicizados, e que João resume nas palavras: "Mantive firmemente esta única coisa em mim mesmo: que o Senhor arquitetou todas as coisas simbolicamente e por uma dispensação para com os homens, para sua conversão e salvação." Que o Cristo possuísse poderes espirituais de uma ordem muito elevada é fácil de crer para qualquer estudante da natureza oculta.


Que ele pudesse aparecer a outros em um *mayavi-rupa*, como é chamado na Índia, e mudar sua aparência à vontade, é perfeitamente plausível.

Mas que a tradição desses e de outros acontecimentos semelhantes tenha sido transmitida sem exagero e embelezamento fantástico, seria inteiramente contrário à experiência humana em tais assuntos.

Assim, então, somos informados de que, ao chamado do Místico Tiago e João, primeiramente Tiago viu Jesus como uma

Pedras de

Jesus.

criança, enquanto João O viu primeiro como um homem "formoso e agradável e de semblante alegre"; depois O viu como alguém "de cabeça bastante calva, mas com barba espessa e fluente", enquanto Tiago afirmou que Ele apareceu "como um jovem cuja barba acabara de nascer".

Além disso, outra peculiaridade que João observou foi que Seus olhos nunca se fechavam.

Estranhamente, este é um dos sinais de um "deus" dado nas escrituras hindus.

Muitas mudanças de aparência João observou, ora como "um homem pequeno e sem beleza, e então novamente como alguém que alcançava o céu" — um fato bastante crível quando relatado de um discípulo em contato simpático com a poderosa "presença" ou "glória" de um Mestre.

Mas ainda mais estranho, quando João se deitava sobre o peito Dele, "ora o sentia liso e tenro, e ora duro, como pedras." Além disso, quando Jesus estava em oração e contemplação, via-se Nele "uma luz tal que não é possível a um homem que usa de linguagem corruptível dizer como era."

DOS ATOS DE JOÃO.

A seguinte história ingênua trará, ao final, um sorriso ao rosto do leitor, mas ao mesmo tempo dará ao estudante da natureza oculta prova de que a lenda não se baseia inteiramente na imaginação, mas pertence ao domínio do fato oculto, se, de qualquer modo, as muitas lendas semelhantes, correntes na Índia, sobre o toque de yogins quando em certos estados de êxtase, merecem algum crédito.

(As citações são, em sua maioria, da tradução do Dr. James).

"Novamente, de maneira semelhante, ele nos conduz três ao monte, dizendo: 'Vinde a Mim.' E nós novamente fomos; e O contemplamos a uma distância orando.

Agora, portanto, eu, porque Ele me amava, aproximei-me d'Ele suavemente, como se Ele não devesse ver, e fiquei olhando para Suas costas.

E contemplei-O, que Ele não estava de modo algum vestido com vestes, mas foi visto por nós nu delas, e não de modo algum como um homem; e Seus pés mais brancos que qualquer neve, de modo que o chão ali era iluminado por Seus pés; e Sua cabeça alcançando o céu, de modo que tive medo e clamei; e Ele se voltou e apareceu como um homem de pequena estatura, e segurou minha barba e puxou-a e disse-me: 'João, não sejas incrédulo, nem intrometido.' E eu Lhe disse: 'Mas o que fiz, Senhor?' E digo-vos, irmãos, sofri grande dor naquele lugar onde Ele segurou minha barba por trinta dias.

"Mas Pedro e Tiago estavam irados porque eu falara com o Senhor, e fizeram-me sinal para que eu viesse a eles, e deixasse o Senhor sozinho.

E eu fui, e ambos me disseram: 'Aquele que falava com o Senhor quando Ele estava no topo do monte, quem era Ele? Pois ouvimos ambos falando.' E eu, quando considerei Sua grande graça e Sua unidade que tem muitos rostos, e Sua sabedoria que sem cessar olhava para nós, disse: 'Isso aprendereis se O interrogardes.'

"Novamente, uma vez quando todos nós, Seus discípulos, dormíamos numa mesma casa em Genesaré, eu sozinho, tendo-me envolvido, observava de sob minha veste o que Ele fazia; e primeiro ouvi-O dizer: 'João, vai tu dormir,' e então fingi estar dormindo; e vi outro semelhante a Ele descer, a quem também ouvi dizer a meu Senhor: 'Jesus, aqueles que escolheste ainda não creem em Ti?' E meu Senhor Lhe disse: 'Bem dizes, pois são homens.'"

Aqui, em minha opinião, está a tradição direta de um fato interno que levou à subsequente grande distinção doutrinária entre Jesus e o Cristo no Cristianismo Gnóstico.

O Cristo era o Grande Mestre; Jesus era o homem através de quem Ele ensinava durante o tempo do ministério.

Interessante também é a simples história de que quando

Um Primeiro       Jesus e Seus discípulos recebiam cada um um pão de

dos Atos        algum chefe de família abastado, Jesus abençoava o

pão e o dividia entre eles, e cada um ficava bem

satisfeito com sua porção, e assim "nossos pães

eram guardados inteiros" — um incidente suficientemente crível para

qualquer estudante de ocultismo, e fornecendo uma base sobre

a qual a magnífica imaginação oriental poderia facilmente

com o tempo construir a lenda da alimentação dos

DOS ATOS DE JOÃO.

cinco mil.

Tais incidentes eram tudo o que o escritor considerava aconselhável contar aos não iniciados; havia muitos outros de natureza demasiado sagrada ou demasiado distantes da credibilidade para serem revelados aos círculos externos.

"Ora, estas coisas, irmãos, eu vos digo para o encorajamento de vossa fé para com Ele; pois devemos por enquanto guardar silêncio acerca de Suas obras poderosas e maravilhosas, visto que são mistérios e porventura não podem de modo algum ser proferidas ou ouvidas."

Em seguida vem o "Hino" que foi cantado antes de Ele ser levado pelos "judeus sem lei". O Ritual

dos        os discípulos são descritos como segurando as mãos

Mistérios.   uns dos outros de modo a formar um círculo ao redor de Jesus, que permanece no meio, e a cada linha que Ele canta, eles entoam em coro a palavra sagrada "Amém". É evidentemente algum eco dos Mistérios, e a cerimônia é a de uma dança sagrada de iniciação.

O Hino encontra-se atualmente numa forma muito confusa e mutilada, e as rubricas quase desapareceram por completo.

Permiti-me, portanto, algumas conjecturas; em algumas passagens, contudo, a confusão é tão grande que é impossível aventurar uma sugestão.

No que se segue, C. representa o candidato, I. o iniciador (o Cristo), e A. os assistentes.

C. "Eu desejaria ser salvo."

I. "E eu desejaria salvar."

A. "Amém."

C. "Eu desejaria ser libertado."

I. "E eu desejaria libertar." A. "Amém."


C. "Eu desejaria ser traspassado."

I. "E eu desejaria traspassar."

A. "Amém."

C. "Eu desejaria nascer."

I. "E eu desejaria dar à luz."

A. "Amém."

C. "Eu desejaria comer."

I. "E eu desejaria ser comido."

A. "Amém."

C. "Eu desejaria ouvir."

I. "E eu desejaria ser ouvido."

A. "Amém."

"Eu desejaria ser compreendido, sendo toda compreensão (mente)."

A. "Amém."

C. "Eu desejaria ser lavado."

I. "E eu desejaria lavar."

A. "Amém."

"(A Graça [isto é, a Sophia] dança.)"

"Eu desejaria tocar flauta; dançai todos vós."

A. "Amém."

"A Ogdóada toca para a nossa dança. Amém."

"A Década dança acima [de nós]. Amém." [A leitura desta linha é desesperadora.]

"Aquele que não dança, não sabe o que está sendo feito."

C. "Eu desejaria fugir."

I. "Eu desejaria [que tu] ficasses."

A. "Amém."

C. "Eu desejaria ser vestido [com vestes]."

I. "E eu desejaria vestir [te]."

DOS ATOS DE JOÃO.

A. "Amém."

C. "Eu desejaria ser unificado."

I. "E eu desejaria unificar."

A. "Amém."

"Não tenho casa, e tenho casas. Amém."

"Não tenho lugar, e tenho lugares. Amém."

"Não tenho templo, e tenho templos. Amém."

I. "Eu sou uma lâmpada para ti que Me contemplas."

A. "Amém."

I. "Eu sou um espelho para ti que Me percebes."

A. "Amém."

I. "Eu sou uma porta para ti que Me bates."

A. "Amém."

I. "Eu sou um caminho para ti, um viandante."

A. "Amém."

I. "Agora responde tu à minha dança."

"Vê a ti mesmo em Mim que falo; e quando tiveres visto o que Eu faço, guarda silêncio sobre os Meus mistérios."

"(Dançando.) Observa o que Eu faço, pois tua é esta paixão (sofrimento) do Homem que Eu hei de sofrer (realizar)."

[Aqui provavelmente seguia um drama-mistério da crucificação e traspassamento.]

"Tu nunca [sozinho] poderias ter compreendido o que Eu sofro. Eu sou a tua Palavra (Logos — Eu Superior). Fui enviado pelo Pai."

"Quando olhaste para a Minha paixão, viste-Me como sofredor; não permaneceste firme, mas foste completamente abalado."

"Tu Me tens por leito, descansa sobre Mim."

"Quem sou Eu? Isso saberás quando Eu partir." "O que agora sou visto ser, isso não sou; mas o que sou verás quando vieres."


"Se tivesses sabido sofrer, terias tido o poder de não sofrer."

"Conhece então o sofrimento e terás o poder de não sofrer."

"Aquilo que não sabes, Eu mesmo te ensinarei."

"Eu sou o teu Deus, não o do teu traidor."

C. "Eu desejaria ser levado à harmonia com as almas santas."

I. "Em Mim conhece tu o Verbo da sabedoria."

Assim correm os mutilados fragmentos deste mais interessante relicário do ritual gnóstico interior; na versão

Doxologia.

dos Atos de João da qual estamos citando, este assim chamado Hino começa e termina com a seguinte doxologia, a cada linha da qual os discípulos, "girando em círculo", dizem responder "Amém".

"Glória a Ti, Pai.

Amém!

"Glória a Ti, Verbo; glória a Ti, Graça.

Amém!

"Glória a Ti, Espírito; glória a Ti, Santo; glória à Tua glória.

Amém!

"Nós Te louvamos, ó Pai; nós Te damos graças, ó Luz, em quem não habita treva alguma.

Amém!"

Se tivéssemos apenas uma descrição do "drama", das "coisas feitas", bem como das "coisas ditas", nesta cerimônia tão instrutiva, muita luz poderia ser lançada sobre o significado da "paixão" do Cristo como foi originalmente compreendida.

Além disso, quando refletimos que preciosíssimos fragmentos

DOS ATOS DE JOÃO.

desta parte oculta do cristianismo mais primitivo estão sendo descobertos quase anualmente, não é uma esperança demasiado ousada que alguma folha esfarrapada nos dê mais luz.

Que, no entanto, o "mistério da cruz", a crucificação mística, fosse compreendido pelos gnósticos de maneira muito diferente da narrativa histórica literal, é abundantemente provado por estes mesmos Atos Joaninos.

Quando o Senhor foi pendurado no "madeiro da cruz", Ele apareceu a João, que havia fugido para o "Monte das Oliveiras".

"Nosso Senhor permaneceu no meio da caverna e a encheu de luz e disse, 'À multidão, o

Mistério

Abaixo, em Jerusalém [? a Jerusalém de Baixo — do mundo físico], estou sendo crucificado, e trespassado por lanças e caniços, e fel e vinagre Me são dados a beber; a ti agora falo, e escuta as Minhas palavras.

Fui Eu quem colocou em teu coração o subir a este monte, para que ouvisses o que o discípulo deve aprender do Mestre, e o homem de Deus.

" E, tendo assim falado, mostrou-me uma cruz de luz erguida, e ao redor da cruz uma grande multidão, e nela uma só forma e uma só semelhança; e sobre a cruz outra multidão, não tendo uma só forma, e vi o próprio Senhor acima da cruz, não tendo qualquer forma, mas apenas uma voz; e uma voz não tal como nos era familiar, mas uma voz doce e bondosa e verdadeiramente de Deus, dizendo-me: 'João, é necessário que alguém ouça estas coisas de Mim; pois tenho necessidade de alguém que ouça.

Esta cruz de luz é por vezes chamada por Mim de Verbo, por vossa causa, por vezes Mente, por vezes Jesus, por vezes Cristo, por vezes Porta, por vezes Caminho, por vezes Pão, por vezes Semente, por vezes Ressurreição, por vezes Filho, por vezes Pai, por vezes Espírito, por vezes Vida, por vezes Verdade, por vezes Fé, por vezes Graça.


" ' Ora, estas coisas são assim chamadas em relação aos homens; mas quanto ao que é em verdade, concebido em si mesmo e falado a ti — é a demarcação (delimitação) de todas as coisas, a firme necessidade daquelas coisas que eram fixas e estavam instáveis, a harmonia da Sabedoria.

E sendo a Sabedoria em harmonia (ou devidamente ordenada), há à Direita e à Esquerda Potências, Principados, Origens e Demônios, Energias, Ameaças, Ira, Acusadores, Satã, e [Abaixo] a Raiz Inferior da qual procedeu a natureza das coisas em gênese.

" Isto, então, é a cruz que fixou todas as coisas à parte pela Razão, e demarcou as coisas que vêm da gênese, as coisas abaixo dela, e então compactou tudo em um todo único.

" ' Esta não é a cruz de madeira que verás quando tiveres descido; nem sou Eu Aquele que está sobre a cruz, a quem agora não vês, mas apenas ouves uma voz.

"  '  Pelos outros, pelos muitos, fui considerado ser o que não sou, embora não seja o que era.

E eles [ainda] dirão de Mim o que é vil e indigno de Mim.

" '  Assim como, portanto, o Lugar de Descanso não é visto nem mencionado, muito menos Eu, o Senhor desse Lugar, serei visto ou mencionado.

" '  Agora a multidão de; um aspecto que está ao redor

DOS ATOS DE JOÃO.

da cruz é a natureza inferior, e aqueles que vês na cruz, se não têm uma única forma, é porque ainda não foi reunido todo Membro daquele que desceu.

Mas quando a natureza superior for elevada, e a raça que está retornando a Mim, em obediência à Minha voz; então aquilo que [ainda] não Me ouve tornar-se-á como tu és, e não será mais o que agora é, mas acima deles [do mundo], assim como Eu sou agora.

Pois enquanto não te chamares Meu, Eu não sou o que sou. Mas se ouvindo, deres ouvidos a Mim, então serás como Eu sou, e Eu serei o que era, quando te tiver como sou Comigo Mesmo.

Pois disto tu és.

Não dês atenção, então, aos muitos, e aos que estão fora do mistério considera pouco; pois sabe que Eu estou inteiramente com o Pai e o Pai comigo.

"'  Nada, portanto, das coisas que dirão de Mim sofri; não, também esse sofrimento que te mostrei a ti e aos demais na dança, quero que seja chamado um mistério.

Pois o que vês, isso te mostrei; mas o que Eu sou, isso só Eu sei, e nenhum outro.

Permite-me, então, guardar o que é Meu, e o que é teu, contempla-o através de Mim, e contempla-Me em verdade, que Eu sou, não o que disse, mas o que és capaz de conhecer, pois és parente de Mim.

"'  Ouviste que sofri, mas não sofri; que não sofri, mas sofri; que fui traspassado, mas não fui ferido; que fui pendurado, mas não fui pendurado; que sangue fluiu de Mim, mas não fluiu.

Em uma palavra, aquelas coisas que eles dizem de Mim, não as tive, e as coisas que não dizem, essas sofri.


Agora, o que são, eu te insinuarei (enigma), pois sei que compreenderás.

"Vê, portanto, em Mim a morte de uma Palavra (Logos), a perfuração de uma Palavra, o sangue de uma Palavra, o ferimento de uma Palavra, a suspensão de uma Palavra, a paixão de uma Palavra, a cravação [fixação ou união] de uma Palavra, a morte de uma Palavra.

E por Palavra entendo o Homem.

Primeiro, então, compreende a Palavra, depois compreenderás o Senhor, e em terceiro lugar o Homem, e qual é a Sua paixão."

É evidente que temos aqui a tradição das escolas internas quanto ao grande mistério da Iniciação... da iniciação chamada a Cruz.

A Cruz é aparentemente de três braços, tendo um braço direito, um esquerdo e um inferior, como o tau egípcio.

Nela o corpo do candidato presumivelmente era amarrado, e em transe sua alma ascendia a montanha da iniciação, a "altura" interior.

Aqui ele encontra o Mestre, mas apenas ouve Sua voz; ainda não pode vê-Lo como Ele é, pois todos os seus membros ainda não estão reunidos, o Osíris perfeito não está formado nele, mas estará num estágio superior, quando ele estiver unificado com o Cristo.

Quão belos são esses ecos do antigo ensinamento, e que luz lançam sobre coisas de outro modo inteiramente incompreensíveis! Foram essas experiências interiores da alma que constituíram a vida e a força da Gnose, experiências nas quais os sistemas complexos que "a língua de carne" se esforçava por enunciar com tamanho labor recebiam iluminação e luz — "doce, jubilosa luz", como diz o Pastor de Hermes, o Três Vezes Grande. Bem podemos agora imaginar o significado da saudação entre tais estudiosos do caminho oculto, como: "O mistério daquilo que pende entre o céu e a terra esteja convosco."

Da ideia do Homem Pequeno e do Grande Homem, dos eus inferior e superior, em tais círculos de iniciação ouvimos alhures, do Evangelho de Eva (Epif., xxvi. 3), descrevendo uma dessas visões no Monte.

Eu me ergui sobre uma montanha elevada e vi um Homem poderoso, e outro, um anão, e ouvi como que uma voz de trovão, e aproximei-me para ouvir; e ela falou-me e disse: 'Eu sou tu e tu és Eu; e onde quer que estejas, aí estou Eu, e estou semeado (ou disperso) em tudo; de onde quer que queiras, tu Me colhes, e colhendo-Me, colhes a ti mesmo.'

O "anão" presumivelmente corresponde ao "homem do tamanho de um polegar no éter do coração" dos Upanishads; por enquanto ele é menor que o pequeno, mas à medida que a natureza espiritual se desenvolve, ele se tornará maior que o grande, e crescerá até a estatura do Homem Celestial — o Eu Supremo.

Quanto à dispersão e recolhimento dos Membros, há uma passagem citada por Epifânio (ibid., 13) do Evangelho de Filipe, que lança alguma luz adicional sobre o assunto.

É uma apologia ou defesa a ser usada pela alma em sua ascensão ao Mundo Celeste, ao passar pelos espaços intermediários, e diz o seguinte:

"Reconheci a mim mesmo e recolhi-me de todos os lados.

Não semeei filhos para o Governante [o senhor deste mundo], mas arranquei suas raízes; reuni meus membros que estavam dispersos, e sei quem tu és."


Até aqui o que podemos colher do texto de Uma Oração de Louvor a Cristo, o mais recente fragmento publicado destes Atos tão instrutivos; dos textos já conhecidos há vários outros fragmentos de interesse.

O seguinte é uma oração de louvor posta na boca de João no sagrado banquete anterior à sua partida da vida.

É dirigida ao Cristo.

"Que louvor, que oferenda, que ação de graças, nós, ao partir o pão, haveremos de proferir senão a Ti somente? Glorificamos o Teu Nome [isto é, Poder] que foi proferido pelo Pai; glorificamos o Teu Nome que foi proferido através do Filho; glorificamos a Ressurreição que nos foi mostrada através de Ti; glorificamos a Tua Semente, Verbo, Graça, Fé, Sal, Pérola Verdadeira inefável, Tesouro, Arado, Grandeza, Rede, e Diadema, Aquele que foi chamado por amor de nós o Filho do Homem, Verdade, Repouso, e Gnose, Poder, Estatuto, Franqueza, Esperança, Amor, Liberdade, e Refúgio em Ti.

Pois Tu somente és o único Senhor, a Raiz da Imortalidade, e a Fonte da Incorruptibilidade, o Assento dos Éons.

Todos estes nomes Te foram dados por amor de nós, para que, invocando-Te por eles, saibamos que, tais como somos, jamais poderemos abranger a Tua Grandeza, grandeza que só pode ser contemplada pelos Puros, pois ela é imageada somente no Teu homem."

A mesma frase, "Teu homem," encontra-se no belo tratado de Hermes Trismegisto conhecido como O Sermão Secreto no Monte: "Tu és o Deus; o Teu homem assim clama a Ti através do fogo, do ar,

DOS ATOS DE JOÃO.

da terra; através da água, do espírito, através destas Tuas criaturas." Mas, na verdade, toda a chamada coleção Poimandres da literatura trismegística provém da mesma fonte que a Gnose.

O alto ideal da vida gnóstica, e o elevado nível ao qual esses buscadores do estado sem pecado aspiravam, são amplamente demonstrados no discurso de despedida aos seus discípulos, posto na boca de João pelo compositor ou compilador gnóstico dos Atos.

"Irmãos e conservos, co-herdeiros e coparticipantes do reino do Senhor, vós sabeis quantos

Discurso de Despedida

poderes o Senhor vos concedeu através de mim — quantas maravilhas, quantas curas, quantos sinais, que dons [do Espírito], ensinamentos, guias, alívios, serviços, glórias, graças, dádivas, concessões de fé, comunhões — quantas vós vedes com vossos próprios olhos que vos foram dados, quantas que nem estes vossos olhos podem ver, nem estes ouvidos ouvir! Permanecei, portanto, firmes n'Ele, em

cada  ação  lembrando  d'Ele,    sabendo  por que

o    mistério    da    dispensação    para    com    os    homens    está

sendo  realizado.

"  O  Senhor  mesmo  vos  exorta  por  meu  intermédio:  '  Irmãos,  eu  desejaria  estar  livre  da  dor  [por  vosso  bem],  da  violência,  das  conspirações,  dos  castigos.'

"  Pois  Ele  conhece  a  violência  que  vem  de  vós,  Ele  conhece  a  desonra,  Ele  conhece  a  conspiração,  Ele  conhece  o  castigo  que  vem  através  daqueles  que  não  obedecem  aos  Seus  mandamentos.

"  Não  se  entristeça,  então,  o  nosso  Bom  Deus,  Ele,  o  compassivo,  misericordioso  e  santo,  o  puro  e  imaculado,  o  único  e  somente,  imutável,  de

FRAGMENTOS  DE  UMA  FÉ  ESQUECIDA.

pureza  sem  mácula,  que  não  conhece  dolo  nem  ira,  mais  alto  e  mais  sublime  do  que  qualquer  atributo  que  possamos  nomear  ou  pensar,  Jesus,  nosso  Deus.

"  Que  Ele  se  alegre  de  nós  como  cidadãos  de  um  estado  bem  governado;  que  Ele  se  regozije  com  o  nosso  viver  em  pureza;  que  Ele  encontre  descanso  no  nosso  comportamento  reverente;  que  Ele  esteja  livre  de  preocupação  pela  nossa  continência;  que  Ele  se  deleite  com  a  nossa  morada  em  fraternidade;  que  Ele  ria  de  alegria  com  a  nossa  prudência;  que  Ele  se  regozije  com  o  nosso  amor  por  Ele.

"  Estas  coisas  vos  digo,  apressando-me  para  o  fim  da  minha  tarefa  designada,  que  foi  levada  a  termo  para  mim  pelo  Senhor.

Pois  que  mais  posso  eu  vos  dizer?  Tendes  os  penhores  do  nosso  Deus;  tendes  as  garantias  da  Sua  bondade;  tendes  a  Sua  presença  que  jamais  vos  deixará.

Se,  então,  não  pecais  mais,  Ele  vos  perdoa  tudo  o  que  fizestes  por  ignorância;  mas  se,  tendo  uma  vez  O  conhecido  e  tendo  recebido  da  Sua  misericórdia,  voltardes  a  tais  caminhos,  então  os  vossos  pecados  anteriores  serão  postos  à  vossa  conta,  e  não  tereis  nem  parte  nem  misericórdia  diante  d'Ele."

Imediatamente  após  isto,  segue-se  a  última  oração  de  João  ao  Cristo  em  favor  dos  seus  irmãos.

"  Tu  que  teceste  esta  coroa  com  a  Tua  tecelagem,  Jesus,  Tu  que  uniste  estas  muitas  flores  nessa  Tua  doce  flor  cujo  perfume  jamais  se  desvanece,  Tu  que  semeaste  estas  Palavras,  protetor  dos  Teus,  curador  que  curas  gratuitamente,  Tu,  o  único  que  sempre  faz  o  bem,  estranho  à  arrogância,  Tu,  o  único  misericordioso,  o  amigo  do  homem,  Tu,  o  único  salvador,

DOS ATOS DE JOÃO.

"Ó justo, que sempre vês todas as coisas e estás em todas e sempre presente, Deus, Jesus, Cristo, Senhor, que com Teus dons e Tua compaixão proteges [todos] aqueles que em Ti esperam, Tu que conheces perfeitamente todos os que nos fazem mal e que blasfemam Teu santo Nome, único Senhor, vigia sobre Teus servos e protege-os; sim, Senhor, faze isto!"

O restante da oração também tem um forte colorido gnóstico, mas já foi citado o suficiente para dar ao leitor uma ideia dos elevados pensamentos que animavam tais comunidades dos primeiros dias.

Mas antes de deixarmos Os Atos de João, não podemos nos abster de apresentar ao leitor a história mais conhecida que se introduziu em sua compilação.

É estranho que, onde há tanta beleza, esta história em particular tenha sido escolhida para citação mais frequente, e que muitos estudantes de teologia nada saibam do conteúdo desses documentos instrutivos além de "A História de João e os Percevejos". Mas assim é, e nós a apresentamos como um espécime das muitas lendas que circulavam entre o povo, e também porque não é desprovida de humor, uma mercadoria incomum nos círculos dos piedosos.

Tomamos o relato do resumo de Salmon.

(Op. supra cit., p. 350).

Certa vez, João e seus companheiros viajavam para fins apostólicos.

"Em sua jornada, o grupo parou em um caravançará desabitado.

Encontraram ali apenas um leito nu, e tendo colocado roupas sobre ele, fizeram o Apóstolo deitar-se nele, enquanto o restante do grupo se deitava para dormir no chão.


Mas João foi incomodado por uma grande multidão de percevejos; até que, após se revirar sem dormir por metade da noite, disse-lhes na presença de todos: 'Digo-vos, ó percevejos, sede bondosamente considerados; deixai vossa morada por esta noite e ide descansar em um lugar que esteja longe do servo de Deus.' Com isso, os discípulos riram, enquanto o Apóstolo se voltou para dormir, e eles conversaram suavemente, para não perturbá-lo.

De manhã, os primeiros a despertar foram até a porta e viram uma grande multidão de insetos parados.

Os demais se reuniram para ver, e por fim São João despertou e viu igualmente.

Então (lembrando-se mais de sua grata obrigação para com os insetos do que do conforto do próximo viajante que viria) disse: 'Ó vós, insetos, já que fostes bondosos e observastes minha ordem, retornai ao vosso lugar.' Mal havia dito isso, e se levantado do leito, quando os insetos, todos em disparada, correram da porta para o leito, subiram pelas pernas e desapareceram nas junturas.

E João disse: 'Vede como estas criaturas, tendo ouvido a voz de um homem, obedeceram; mas nós, ouvindo a voz de Deus, negligenciamos e desobedecemos; e por quanto tempo?'

DOS ATOS DE ANDRÉ.

DOS ATOS DE ANDRÉ.

DOS Atos de André, a seguinte Invocação à Cruz é de grande interesse, quando comparada com o que já foi citado dos Atos de João e com o restante das ideias gnósticas sobre o assunto.

Pois para os Gnósticos a Cruz era um símbolo dos processos cósmicos, bem como da crucificação da alma na matéria e de sua regeneração, e é de se lamentar que nossa informação seja tão fragmentária.

A seguinte Invocação posta na boca de André foi trabalhada por escribas católicos, mas o material subjacente é claramente derivável do círculo de ideias gnóstico.

"Alegrando-me, venho a ti, ó Cruz, doadora de vida, Cruz que agora sei ser minha; conheço teu mistério, pois foste plantada no mundo para firmar as coisas instáveis.

"Tua cabeça se estende até o céu, para que simbolizes o Logos celestial, a cabeça de todas as coisas.

Tuas partes médias se estendem, por assim dizer, como mãos à direita e à esquerda, para pôr em fuga o poder invejoso e hostil do maligno, a fim de que reunas em um só [a saber, os membros] aqueles que estão dispersos.

Teu pé está fixado na terra, afundado no abismo, para que tragas para cima aqueles que jazem sob a terra e estão retidos nas regiões abaixo dela, e os unas àqueles que estão no céu."

"Ó Cruz, engenho, mui habilmente concebido, de salvação dada aos homens pelo Altíssimo; ó Cruz, troféu invencível da conquista de Cristo sobre Seus inimigos; ó Cruz, árvore vivificante, raízes plantadas na terra, fruto guardado no céu; ó Cruz mui venerável, coisa doce e doce nome; ó Cruz mui adorável, que trazes como uvas o Mestre, a verdadeira videira, que também trazes o Ladrão como teu fruto, fruto da fé mediante a confissão; tu que conduzes os dignos a Deus através da Gnose e convocas os pecadores ao lar mediante o arrependimento!"


DAS VIAGENS DE PEDRO.

Ao acima pode-se acrescentar o discurso final posto na boca de Pedro, no romance de suas Viagens, ou Circuitos (Tours). Encontra-se no fragmento da coleção de Lino, chamado O Martírio de Pedro.

A lenda diz que Pedro insistiu em ser crucificado de cabeça para baixo, e as razões para esse estranho procedimento são dadas como segue na defeituosa tradução latina.

"Justamente foste Tu sozinho estendido na cruz com a cabeça no alto, ó Senhor, que redimiste todo o mundo do pecado.

Desejei imitar-Te também em Tua paixão; contudo, não ousaria tomar sobre mim ser pendurado ereto.

Pois nós, homens puros e pecadores, nascemos de Adão, mas Tu és Deus de Deus, Luz da verdadeira Luz, antes de todos os éons e depois deles; considerado digno de tornar-Te, pelos homens, Homem sem mácula de homem, Tu Te ergueste como o glorioso Salvador do homem.

Tu sempre ereto, sempre elevado

DAS VIAGENS DE PEDRO.

no alto, eternamente acima! Nós, homens segundo a carne, somos filhos do primeiro homem (Adão), que afundou seu ser na terra, cuja queda na geração humana é manifestada.

Pois somos trazidos ao nascimento de tal maneira, que parecemos ser derramados na terra, de modo que o direito se torna esquerdo, o esquerdo se torna direito; visto que nosso estado é mudado naqueles que são os autores desta vida."

Pois este mundo cá embaixo considera direito o que é esquerdo; este mundo em que Tu, Senhor, nos encontraste como os ninevitas, e por Tua santa pregação resgataste aqueles que estavam prestes a morrer."

"Os autores desta vida" referem-se presumivelmente aos poderes que trazem o homem ao nascimento.

O mito de Jonas era um tipo do iniciado, que, após estar três dias e três noites no "ventre do Sheol" ou Hades, pregou àqueles em Nínive, a Jerusalém Inferior, isto é, este mundo.

Mas para os irmãos havia ainda uma instrução adicional sobre o significado da Cruz Mística.

"Mas vós, meus irmãos, que tendes o direito de ouvir, emprestai-me os ouvidos do vosso coração, e compreendei o que o Místico agora deve ser revelado a vós — o mistério oculto de toda natureza e a fonte secreta de toda coisa composta.

Pois o primeiro homem, cuja raça represento pela minha posição, com a cabeça invertida, simboliza o seu nascimento para a destruição; porque o seu nascimento foi morte e carecia da corrente vital.

Mas por Sua própria compaixão, o Poder Superior desceu ao mundo, por meio de substância corporal, para aquele que por um justo decreto fora lançado à terra, e pendurado na Cruz, e por meio desta santíssima vocação [a Cruz], Ele nos restaurou e fez para nós estas coisas presentes (que até então permaneciam inalteradas pelo erro injusto dos homens) tornarem-se a Esquerda, e aquelas que os homens haviam tomado pela Esquerda, em coisas eternas.

Na exaltação do Direito, Ele mudou todos os sinais para sua natureza própria, considerando como bons aqueles que não eram considerados bons, e aqueles que os homens pensavam maléficos, benigníssimos.

Donde, em mistério, o Senhor disse: 'Se não fizerdes o Direito como o Esquerdo, o Esquerdo como o Direito, o Acima como o Abaixo, o Diante como o Atrás, não conhecereis o reino de Deus.' Esta palavra manifestei em mim, meus irmãos; este é o modo pelo qual vossos olhos de carne me veem pendurado.

Isso figura o caminho do primeiro homem."

Mas vós, amados, ouvindo estas palavras e, pela conversão de vossa natureza e mudança de vossa vida, aperfeiçoando-as, assim como vos voltastes daquele caminho de erro onde pisastes, para o estado mais seguro da fé, assim continuai a correr e esforçai-vos rumo à paz daquilo que vos chama do alto, vivendo a vida santa.

Pois o caminho pelo qual viajais é Cristo.

Portanto, com Jesus, Cristo, verdadeiro Deus, subi à Cruz; Ele foi feito para nós o único e exclusivo Verbo.

Donde também o Espírito diz: 'Cristo é o Verbo e a Voz de Deus.' O Verbo, em verdade, é simbolizado por aquela haste reta na qual estou pendurado.

[Quanto à Voz — ] visto que essa voz é algo de carne, com características que não devem ser atribuídas à natureza de Deus, a travessa da cruz é considerada como figurando aquela natureza humana que sofreu a culpa da mudança no primeiro homem, mas, pela

DAS VIAGENS DE PEDRO.

ajuda do Deus-homem, recebeu novamente sua mente real.

Bem no centro, unindo os dois em um, está posto o prego da disciplina, da conversão e do arrependimento."

A tradução latina é muito defeituosa e frequentemente obscurece o original grego, mas o suficiente do significado foi preservado para mostrar a direção geral do pensamento.

A primeira citação é um dos ditos do Evangelho segundo os Egípcios; a fonte da segunda não é conhecida.

Compare também a mudança da Direita e da Esquerda com a conversão das esferas nas páginas iniciais do tratado Pistis Sophia.

Outros discursos e inúmeras frases isoladas, que ainda preservam traços da Gnose, poderiam ser, posteriormente, citados dos restos existentes dos Atos não canônicos, mas o suficiente foi escrito para dar ao leitor uma ideia da extensa literatura popular desse tipo que emanou dos círculos gnósticos nos primeiros anos, e para mostrar-lhe que ideias muito diferentes prevaleciam entre aqueles que estavam em contato com a tradição interna, daquelas da visão exclusivamente histórica que eventualmente ganhou a supremacia.

Se essas ideias lançam ou não luz sobre o ensinamento de Cristo, cada um deve decidir por si mesmo.

Que, no entanto, fossem ideias apresentadas por homens imensamente mais próximos da época das origens do que nós — por homens cujas vidas inteiras foram dedicadas ao Cristo, esforçando-se por todos os meios para se purificarem, e para experimentarem em si mesmos as verdades do mundo invisível e realizarem os ensinamentos do Mestre — é amplamente manifesto.

FF

A GNOSE SEGUNDO SEUS AMIGOS,

Sempiterna Lux! Nec divitias nec honores peto; me modo Divinae Lucis radio illumines!

De Um Ensaio sobre a Transmigração em Defesa de Pitágoras (Londres, 1692).

ALGUMAS OBRAS ORIGINAIS GREGAS EM TRADUÇÃO COPTA.

OS CÓDICES ASKEW E BRUCE.

Até agora, procuramos recuperar alguns fragmentos de destroços e restos do lastimável naufrágio da Gnose, perpetrado pelas mãos de seus mais amargos inimigos, os Padres da Igreja ortodoxa; tentaremos agora dar ao leitor uma ideia aproximada do conteúdo de alguns tratados gnósticos, que nos foram preservados em tradução copta pelas mãos de seus amigos.

Temos de considerar o conteúdo de três documentos preciosos conhecidos como os Códices Askew, Bruce e Akhmim, o último dos quais só foi descoberto em 1896. Reservaremos o Códice Akhmim para consideração posterior, pois pouco se sabe dele até agora, e assim dedicaremos nossa atenção imediata aos Códices Askew e Bruce.

O Códice Askew foi comprado pelo Museu Britânico dos herdeiros do Dr. Askew no final do século passado (presumivelmente um pouco antes de 1785). O manuscrito está escrito em pergaminho, em unciais gregos, no dialeto do Alto Egito, e não está em rolo, mas em forma de livro.

Consiste em 346 páginas em quarto e, em sua maior parte, encontra-se em excelente estado de conservação; apenas algumas folhas estão faltando.

O Códice é uma cópia e não um original; e o original era uma tradução do grego.

O conteúdo geral consiste em um tratado ao qual o costume deu o nome de Pistis Sophia, devido a um título no meio da narrativa geral, acrescentado por outra mão.

O tratado não possui sobrescrito nem subscrição, e embora haja um longo incidente nele que trata da paixão e redenção da Sophia, outras partes de igual extensão poderiam igualmente ser chamadas de As Perguntas de Maria, como Harnack sugeriu, e Matter muito antes dele.

O Códice também contém uma breve inserção e um extenso apêndice intitulado Extratos dos Livros do Salvador.

Para uma descrição mais detalhada, devo remeter o leitor à Introdução da minha tradução.

O Códice Bruce foi trazido para a Inglaterra do Alto Egito em 1769 pelo famoso viajante escocês Bruce, e legado aos cuidados da Biblioteca Bodleiana, em Oxford.

Está escrito em papiro, em caracteres cursivos gregos, no dialeto do Alto Egito, e consiste em setenta e oito folhas, em formato de livro.

Suas folhas estão em um estado terrível de desordem e dilapidação, e muitas estão faltando.

Um exame científico do Códice revela o fato de que ele consiste em dois MSS. distintos, contendo os restos de pelo menos duas obras gnósticas distintas e alguns fragmentos.

O MS. superior, de melhor material e caligrafia mais fina, contém um tratado de grande sublimidade, mas sem título, com a primeira e a última páginas perdidas.

O outro MS. contém fragmentos de pelo menos dois livros separados e preserva o título O Livro do Grande Logos segundo o Mistério.

Este é considerado por Schmidt como o título geral, e compreende duas partes que ele chama respectivamente de Primeiro e Segundo Livro de Ieou.

O conteúdo desses tratados é de natureza tão maravilhosa e complexa que desespero de que a tradução possa dar ao leitor comum qualquer concepção adequada deles.

O estudioso pode, no entanto, formar alguma ideia da tarefa lendo minha tradução do tratado Pistis Sophia e dos Extratos dos Livros do Salvador; mas mesmo isso não lhe dará uma concepção adequada da complexidade do conteúdo do Códice Bruciano, do qual, infelizmente, ainda não existe tradução em inglês.

Em 1891, Amelineau publicou um texto e tradução francesa do Códice Bruce com uma breve introdução; mas seu texto baseava-se na cópia de Woide do Códice, feita um século antes, e o sábio francês não fazia ideia de que estava lidando com dois manuscritos distintos, cujas folhas estavam misturadas em inextricável confusão.

Em 1892, o Dr. Carl Schmidt, tendo com admirável paciência cotejado as cópias do Códice feitas por Schwartze e Woide com o original em Oxford, e com ainda maior perspicácia e diligência separado os dois manuscritos e colocado suas respectivas folhas em ordem, publicou um texto crítico, com uma tradução alemã e um volumoso comentário.

No resumo a seguir, com relação ao Códice Brucianus, seguirei a tradução de Schmidt e não a de Amelineau. Schmidt é de longe a autoridade mais competente no campo, e nenhum elogio é tributo alto demais para pagar a este mais distinto estudioso copta por sua incansável paciência.


Tenho diante de mim uma tradução aproximada de toda a volumosa obra de Schmidt, e não poupei esforços para me familiarizar com seus trabalhos; mas, mesmo com sua ajuda, sinto-me ainda um mero novato no gnosticismo revelado nesses tratados.

Pois, embora Schmidt lance luz sobre muitos pontos, inúmeros problemas ainda permanecem intocados; de fato, com toda a sua admirável erudição e pesquisa infinita, ele fica inteiramente perplexo exatamente naqueles pontos que parecem ter sido de maior interesse para os compositores ou compiladores desses documentos gnósticos.

Quando, em 1896, publiquei uma tradução da Pistis Sophia, tencionava acompanhá-la com um comentário; mas rapidamente descobri que, apesar dos anos de trabalho que já havia dedicado ao gnosticismo, ainda havia muitos anos de labor diante de mim, antes que pudesse me convencer de que era competente para empreender a tarefa de maneira realmente satisfatória; portanto, reservei essa tarefa para o futuro.

Enquanto isso, nos presentes breves esboços, nada mais se tenta além de um resumo bastante provisório, para que o leitor comum possa obter alguma noção do conteúdo de nossos tratados gnósticos coptas; minha única desculpa por quebrar o silêncio sendo que não há absolutamente nada ainda em inglês sobre o conteúdo do Códice Bruce.

OS CÓDICES ASKEW E BRUCE.

Tentaremos, então, em primeiro lugar, um resumo do conteúdo do assim chamado tratado Pistis Sophia; em seguida, um resumo dos Extratos dos Livros do Salvador, inseridos neste tratado e após ele, no Códice Askew.

Isto será seguido por um resumo dos fragmentos contidos no manuscrito inferior do Códice Bruce.

Ousarei, contudo, transpor a ordem principal de Schmidt, e colocar o que ele chama de O Segundo Livro de leou antes do que ele chama de O Primeiro, pois os assuntos gerais de seu primeiro grupo de fragmentos parecem-me seguir os assuntos de seu segundo, e não o contrário.

É bem verdade que o início de sua segunda divisão começa no verso da folha de papiro, cujo reto contém o fim da outra; mas isso apenas nos assegura a posição correta de dois fragmentos adjacentes.

Que os numerosos outros fragmentos estejam sempre dispostos em sua sequência adequada não é de modo algum certo, embora eu confesse francamente que, até agora, não vejo eu mesmo uma ordenação mais satisfatória do caos.

Que tenhamos, entre esses fragmentos, parte do conteúdo original dos Livros de leou mencionados na Pistis Sophia parece altamente provável, mas que possamos atribuir definitivamente nossos fragmentos aos Livros I e II não é tão certo.

O todo, portanto, em nosso resumo, ficará sob o título geral, O Livro do Grande Logos segundo o Mistério, sem distinção adicional, incluindo tanto a matéria introdutória quanto as folhas cercadas por uma borda, que Schmidt acrescenta como apêndice.

Mas deve-se entender que este é um arranjo provisório.


Pode haver vários tratados aos quais os fragmentos do MS. inferior do Códice Bruce devam ser atribuídos, pelo que sabemos em contrário.

Isto será seguido pelos fragmentos do tratado sem título contido no MS. superior.

O propósito que me guiou nesta disposição geral é, na medida do possível, colocar o conteúdo dessas traduções coptas aproximadamente em uma sequência tal que o leitor possa ser conduzido dos graus mais baixos aos mais altos da Gnose.

Estou perfeitamente ciente de que mistérios mais elevados (os três Espaços da Herança) são mencionados e explicados no tratado Pistis Sophia do que no restante do material, mas eles não são revelados.

No Livro do Grande Logos e nos Extratos dos Livros do Salvador, alguns dos mistérios são dados, e os discípulos são levados a ver face a face.

Portanto, coloco o resumo da Pistis em primeiro lugar, embora provavelmente tenha sido composto por último.

RESUMO DO CONTEÚDO DO CHAMADO TRATADO PISTIS SOPHIA.

O tratado começa informando-nos que Jesus, após ressuscitar dos mortos, passara onze anos com Seus discípulos, instruindo-os.

Até então, porém, Ele lhes ensinara os mistérios do mundo interior apenas até certo ponto, aparentemente apenas até os reinos mais exteriores do Mundo de Luz, e ainda assim com omissões de muitos pontos que eles ainda eram incapazes de compreender.

Mas tão maravilhosa fora a instrução transmitida que os discípulos imaginavam que tudo lhes fora revelado, e que o Primeiro Mistério — o Pai na semelhança de uma pomba — era o fim de todos os fins e a gnose de todas as gnoses.

Eles não sabiam que esse Primeiro Mistério era o mais baixo de uma vasta série de mistérios ainda mais elevados.

Aconteceu, portanto, no décimo segundo ano, que os discípulos estavam reunidos com o Mestre no Monte das Oliveiras, regozijando-se por terem, como pensavam, recebido toda a plenitude.

Era o décimo quinto dia do mês de Tybi, o dia da lua cheia.

Jesus estava sentado à parte, quando, ao nascer do sol,

Eles contemplaram uma grande corrente de luz derramando-se sobre Ele,

de modo que Ele se tornou invisível aos olhos na radiância inefável

que se estendia da terra ao céu.

A luz não era uma única radiância, mas seus raios eram

de toda espécie e tipo; e nela o Mestre elevou-se

ao alto, para o céu, deixando os discípulos em grande temor O Mestre retorna aos Seus Discípulos.


Da Encarnação Mística dos Doze.

e confusão, enquanto silenciosamente O contemplavam.

Da terceira hora do décimo quinto dia até a nona hora do dia seguinte (trinta horas) o Mestre esteve ausente; e durante esse tempo houve um abalo de todas as regiões e grande confusão e temor, enquanto cânticos de louvor emanavam do interior dos interiores.

À nona hora do dia seguinte, viram Jesus descendo em luz infinita, muito mais brilhante do que quando ascenderá; a luz agora era de três graus, glória transcendendo glória.

Os discípulos ficaram consternados e em grande temor, mas Jesus, o compassivo e misericordioso, falou-lhes, dizendo: "Tende coragem, sou Eu; não temais." À sua oração, Jesus recolhe Sua grande luz em Si mesmo, e aparece em Sua forma familiar mais uma vez, e os discípulos vêm adorá-Lo, e perguntam-Lhe, dizendo: "Mestre, para onde foste? Ou em que ministério andaste? Ou por que são todas essas confusões e abalos?"

O Mestre, falando agora como o Cristo glorificado, ordena-lhes que se regozijem, pois que agora Ele lhes contará todas as coisas "do começo da verdade até o seu fim", face a face, sem parábola, pois que autoridade Lhe foi agora dada pelo Primeiro Mistério para revelar-lhes essas coisas.

Por essa causa é que Ele foi novamente vestido na veste de luz, o manto de glória, que Ele havia deixado com o Primeiro Mistério, nos espaços mais baixos do supremo Reino de Luz.

Ele a recebeu a fim de que possa falar à humanidade e revelar todos os mistérios, mas

A PISTIS SOPHIA.

antes de tudo aos Doze.

Pois os Doze são a Sua ordem, que Ele escolheu desde o princípio; antes de Ele vir ao mundo.

Ele escolheu doze poderes, recebendo-os das mãos dos doze Salvadores do tesouro da Luz, e quando desceu ao mundo, lançou-os, como centelhas de luz, nos ventres de suas mães, para que por meio deles o mundo inteiro fosse salvo.

É por causa desses poderes que eles não são do mundo, pois o poder neles provém d'Ele, uma parte de Si mesmo.

Assim também outro dos Seus poderes estava em João, o Batizador, com água para a remissão dos pecados; não somente isso, mas a alma de João era a alma de Elias renascida nele.

Essas coisas Ele já havia explicado antes, quando disse: "Se quiserdes receber, João Batista é Elias, que, disse Eu, havia de vir"; mas eles não haviam compreendido.

Em Maria, Sua mãe, também Ele implantara um poder mais elevado do que todos eles, "o corpo que Eu trouxe do alto, da Minha própria substância", e também outro poder em lugar da alma, e assim Jesus nasceu.

Foi Ele mesmo quem vigiou o nascimento de Seus discípulos, para que nenhuma alma dos governantes do mundo fosse encontrada neles, mas uma de natureza mais elevada.

E o Mestre continuou em Sua conversa e disse-lhes: "Eis que vesti Minha veste, e todo poder Me foi dado pelo Primeiro Mistério."

"Ainda um pouco e Eu vos direi o mistério do pleroma e o pleroma do pleroma; nada vos ocultarei desde esta hora, mas em perfeição vos aperfeiçoarei em todo o pleroma, e toda perfeição, e todo mistério; as quais coisas, na verdade, são a perfeição de todas as perfeições, o pleroma de todos os pleromas, e a gnose de todas as gnoses, que estão em Minha veste.

Eu vos direi todos os mistérios, do exterior dos exteriores ao interior dos interiores.

Ouvi, Eu vos contarei todas as coisas que Me aconteceram."

Aconteceu que, quando o sol se elevou nas regiões do oriente, uma grande corrente de luz desceu, na qual estava a Minha veste, a mesma que Eu havia depositado no vigésimo quarto mistério, como vos disse.

E encontrei um mistério em Minha veste, escrito nestas cinco palavras que pertencem à altura: Zama, Zama, Ozza, Rachama, Ozai.

E esta é a sua interpretação:

"O Mistério que está além do mundo, aquilo pelo qual todas as coisas existem: É toda evolução e toda involução; Projetou todas as emanações e todas as coisas nelas contidas.

Por causa Dele todos os mistérios existem e todas as suas regiões."

Em seguida, o Mestre recita o hino de louvor e boas-vindas cantado pelos poderes em Sua investidura no O Hino o Grande Dia "Vinde a nós" — o dia desta Vinde a nós suprema iniciação, quando todos os Seus Membros são reunidos.

"Vinde a nós, pois somos Teus co-membros (ou membros). Somos todos um contigo.

Somos um e o mesmo, e Tu és um e o mesmo.

Este é o Primeiro Mistério, que existiu desde o princípio no Inefável, antes de Ele sair; e o Nome dele é todos nós. Agora, portanto, todos nós vivemos juntos para Ti no último limite, que também é o último mistério desde o interior.

Isso também é parte de nós. Agora, portanto, enviamos-Te a Tua veste, que, na verdade, é Tua desde o princípio, que Tu deixaste no último limite, que também é o último mistério desde os interiores, até que o seu tempo se cumprisse, segundo o mandamento do Primeiro Mistério.


Eis que, cumprido o seu tempo, Eu a dou a Ti.

"Vinde a nós, pois todos nós estamos próximos para Te vestir com o Primeiro Mistério e toda a Sua glória, por mandamento do mesmo, pois o Primeiro Mistério nos deu duas vestes para Te vestir, além daquela que Te enviamos, visto que Tu és digno delas, e és anterior a nós, e vieste a ser antes de nós. Por esta causa, portanto, o Primeiro Mistério enviou por nosso intermédio o mistério da Sua glória, duas vestes."

O hino prossegue explicando como a primeira veste contém em si toda a glória de todos os nomes, os Três, de todos os mistérios, de todas as ordens da Luz, os 168 espaços do Inefável; que a segunda contém toda a glória de todos os nomes, ou poderes, de todos os mistérios, ou emanações, das ordens dos espaços gêmeos do Primeiro Mistério; que a terceira veste contém toda a glória dos poderes das emanações de todos os espaços e subespaços abaixo desses reinos supernos, até a terra.

O hino então continua:

"Eis, portanto, enviamos-Te esta [terceira] veste, sem que nenhum [dos poderes] o soubesse, desde o Primeiro Estatuto para baixo; porque a glória da sua luz estava oculta nele [o Primeiro Estatuto], e as esferas com todas as suas regiões, desde o Primeiro Estatuto para baixo, [não o conheceram]. Apressa-Te, portanto; reveste-Te com esta veste.


Vem até nós; pois para sempre, até que o tempo designado pelo Inefável se cumprisse, temos necessitado de Ti, para Te revestir com as duas [restantes] vestes, por ordem do Primeiro Mistério.

Eis, então, que o tempo está cumprido.

Vem, portanto, a nós rapidamente, a fim de que possamos Te revestir, até que Tenhas cumprido o pleno ministério das perfeições do Primeiro Mistério, o ministério designado para Ti pelo Inefável.

Vem, portanto, a nós rapidamente, a fim de que possamos Te revestir, segundo o mandamento do Primeiro Mistério; pois ainda um pouco, bem pouco, e Tu virás a nós, e deixarás o mundo.

Vem, portanto, rapidamente, para que Recebas toda a glória, a glória do Primeiro Mistério."

Então, ao ouvir o hino dos poderes, A Jornada, o Mestre disse: Ele vestiu a mais baixa veste de glória, Altura, e, transformado em luz pura, elevou-se e chegou ao firmamento inferior.

E todos os poderes daquele firmamento estavam em grande confusão por causa da luz transcendente; e, ao verem o mistério de seus nomes ou poderes inscrito nela, deixando suas fileiras, curvaram-se e adoraram, dizendo: "Como o Senhor do pleroma nos transformou sem que o soubéssemos!" E todos cantaram juntos ao interior dos interiores um hino de louvor em harmonia.

E assim Ele passou para cima e para dentro, até a Primeira Esfera acima do firmamento, brilhando com um esplendor quarenta e nove vezes maior do que antes, e as portas se abriram e Ele entrou nas moradas da Esfera, e os poderes foram transformados e adoraram, e cantaram hinos de regozijo como antes.


Dali, para cima e para dentro, passou à Segunda Esfera, brilhando com uma luz ainda quarenta e nove vezes mais intensificada, e os poderes daquela esfera fizeram como os que estavam abaixo deles, e curvaram-se e adoraram e cantaram hinos ao interior dos interiores.

Continuando ainda Seu voo triunfal, Ele ascendeu ainda mais alto para dentro, até o Espaço dos Doze Eons, brilhando com um esplendor ainda quarenta e nove vezes mais aumentado.

E todas as ordens e governantes do Espaço Eônico ficaram maravilhados.

Aqueles dentre eles chamados os Tiranos, sob seu grande líder Adamas, em ignorância lutaram contra a luz; mas em vão, pois apenas gastaram suas forças uns contra os outros, e caíram e tornaram-se "como os habitantes da terra que estão mortos e que não têm fôlego neles" — isto é, privados da centelha de luz, como os ignorantes entre os homens.

E Ele tirou deles um terço de seu poder, para que não mais prevalecessem em suas más ações; O Mestre para que, se os homens os invocassem para o mal nas práticas mágicas que os Anjos transgressores trouxeram do alto, não pudessem realizar sua vontade como antes.

E assim Ele transformou a Esfera do Destino, sobre a qual eles são senhores.

Pois, por ordem do Primeiro Estatuto e Primeiro Mistério, eles haviam sido postos, por Ieou, o Supervisor da Luz, todos voltados para a Esquerda, cumprindo suas influências.

Mas agora eles foram mudados, de modo que por seis meses enfrentavam a Esquerda e por seis meses a Direita.

GK As


Perguntas de Maria.

Por que os Arcontes foram roubados.

Em seguida, o Mestre, tendo convidado perguntas e interpretações dos mistérios que Ele revelou, Maria Madalena, que é em todo lugar representada como a mais espiritual de todos os discípulos, avança e, tendo recebido permissão para falar, interpreta uma passagem de Isaías à luz do novo ensinamento.

A passagem começa com as palavras: "Onde, então, ó Egito, onde estão teus adivinhadores e ordenadores da hora?" — e, entre outras coisas, diz-se que Egito significa a "matéria ineficaz (hyle)".

Maria é elogiada por sua intuição, e em resposta às suas perguntas adicionais, o Mestre explica que todo o seu poder não foi tirado desses Arcontes do Destino, pela terceira veste de glória, mas apenas um terço dele; de modo que se os ordenadores da hora encontrarem o Destino ou a Esfera girando para a Esquerda, eles dirão o que vai acontecer; mas se a encontrarem girando para a Direita, não poderão profetizar, pois Ele mudou todas as influências.

Mas aqueles que conhecem os mistérios da magia do Décimo Terceiro Éon os realizarão perfeitamente, pois Ele não tirou o poder naquele Espaço, de acordo com o comando do Primeiro Mistério.

Em resposta a uma pergunta de Filipe, explica-se que essa conversão das esferas foi efetuada para auxiliar a salvação das almas; caso contrário, o número de almas aperfeiçoadas teria sido impedido de sua realização, isto é, daquelas que serão contadas na herança da altura, por meio dos mistérios, e habitarão no Tesouro de Luz.

O poder dos Arcontes está na matéria do mundo, que eles transformam em almas.

Pela vitória do Mestre, um terço desse poder foi tirado deles e convertido em uma substância superior.

Em resposta às perguntas adicionais de Maria, explica-se ainda como essa terceira parte do poder deles foi tirada.


Sempre fora assim que o seu poder, à medida que se purificava, era recolhido de volta ao mundo superior por Melquisedeque, o Grande Receptor ou Coletor de Luz, sendo continuamente libertado pelas esferas que eram feitas girar mais rapidamente, isto é, pela aceleração da evolução devido ao influxo de Luz.

A substância dos Governantes é descrita de forma gráfica como "o sopro de suas bocas, as lágrimas de seus olhos e o suor de seus corpos" — a matéria da qual as almas são feitas.

Mas à medida que o seu poder lhes era gradualmente retirado, o seu reino começou a dissolver-se; os Governantes então começaram a devorar a sua própria matéria, para que ela não fosse transformada em almas de homens e assim purificada, e de todas as maneiras se esforçaram por retardar a completação do número de almas perfeitas — a coroa da evolução.

Assim aconteceu que eles lutaram contra a grande alma do Mestre enquanto Ele passava através deles, e assim Ele os transformou, juntamente com as suas configurações e influências, "e desde aquela hora eles não tiveram mais o poder de se voltar para a purgação da sua matéria para devorá-la."

"Tomei uma terça parte do seu poder; mudei a sua revolução; encurtei os seus círculos, e fiz com que o seu caminho fosse aliviado, e eles foram O


Encurtamento dos Tempos.

O

Prosseguimento da jornada celestial.

grandemente apressados, e foram lançados em confusão no seu caminho; e desde aquela hora eles não tiveram mais o poder de devorar a matéria da purgação do brilho da sua luz."

Assim Ele encurtara os seus tempos e apressara a evolução.

"Por esta causa vos disse antes: 'Encurtei os tempos por causa dos meus Eleitos.'" Os "Eleitos" (Pneumáticos) são o número perfeito de almas que receberão os mistérios; na verdade, se os tempos não tivessem sido encurtados, "não teria havido uma única alma material (hílica) salva, mas elas teriam perecido no fogo que está na carne dos Governantes."

Após estas explicações, o Mestre continua a narrativa da sua jornada celestial.

Todas as grandes potências dos Espaços Eônicos, quando viram o que havia acontecido aos seus Tiranos, adoraram e entoaram hinos ao interior dos interiores.

E assim Ele passou para dentro, em direção aos véus do Décimo Terceiro Éon.

Aqui, fora deste Espaço, Ele encontrou Pistis Sophia, sentada sozinha, lamentando-se e sofrendo porque não fora levada ao Décimo Terceiro Éon, sua região própria nas alturas.

Ela sofria por causa dos tormentos que lhe foram infligidos por Arrogante, um dos três Poderes Triplos.

Mas quando ela viu a resplandecente veste de luz do Mestre, contendo toda a glória do seu mistério, o mistério do Décimo Terceiro Éon, ela começou a entoar um cântico à luz que está nas alturas, que ela vira no véu do Tesouro da Luz.

E enquanto ela cantava, os véus do Décimo Terceiro Éon foram apartados, e sua sizígia, e suas vinte e duas emanações companheiras dentro do Éon, perfazendo juntas vinte e quatro emanações que provieram do Grande Antepassado Invisível e dos outros dois grandes Poderes Triplos daquele Espaço, contemplaram a luz da Sua veste.


Segue-se aqui a história mística dos sofrimentos de Pistis Sophia.

No princípio, ela estava no Décimo Terceiro Éon com seus Éons companheiros.

O Mito de Sophia.

Por ordem do Primeiro Mistério, ela contemplou as alturas e viu a luz do véu do Tesouro da Luz, e desejou ascender àquele reino glorioso, mas não pôde.

Ela cessou de realizar o mistério do Décimo Terceiro Éon e sempre entoava hinos à Luz que vira.

Então os Governantes nos Doze Éons inferiores a odiaram, porque ela cessara de realizar o mistério deles — o mistério do intercâmbio ou união sexual — e desejava ir às alturas e estar acima de todos eles.

E Arrogante, o desobediente, aquele dos três Poderes Triplos do Décimo Terceiro Éon que A Inimizade se recusou a dar a pureza de sua luz para o benefício de outros, mas desejou guardá-la para si mesmo e assim ser governante do Décimo Terceiro Éon, liderou o ataque contra ela.

Arrogante é aparentemente o poder conservador da "matéria" deste Espaço.

Ele se juntou ao número dos Doze Eons e lutou contra a Sophia.

Enviou um grande poder de sua luz e outros poderes de sua matéria, os reflexos dos poderes e emanações acima, para o Caos; e fez a Sophia olhar para as regiões inferiores, para que ela visse esse poder e imaginasse que era a Luz real à qual ela aspirava.


E assim, na ignorância, ela desceu à matéria, dizendo: "Irei àquela região, sem meu consorte, para tomar a luz, que os Eons de Luz produziram para mim, para que eu possa ir à Luz das luzes, que está na Altura das alturas."

Assim, ponderando, ela saiu do Décimo Terceiro Eon e desceu aos Doze; A Queda mas eles a perseguiram, e assim ela gradualmente desceu às regiões do Caos, e aproximou-se do poder-luz que Arrogant havia enviado para baixo, para devorá-lo. Mas todas as emanações materiais de Arrogant a cercaram, e o poder-luz de Arrogant pôs-se a devorar todos os poderes-luz na Sophia; "expeliu sua luz e a engoliu, e quanto à sua matéria, lançaram-na no Caos." Este poder-luz de Arrogant é aquele Ialdabaoth "do qual", diz o Mestre, "falei-vos muitas vezes."

E assim Sophia foi grandemente enfraquecida e assediada e "clamou excessivamente, clamou nas alturas àquela Luz das luzes que vira no princípio, na qual confiara [por isso é chamada Pistis (Fé) Sophia], e começou a cantar cânticos de arrependimento," pelos quais pudesse ser convertida ou levada de volta à Luz.

O longo incidente da Pistis Sophia ocupa as pp. 42-181 da tradução copta, e seus treze arrependimentos e cânticos de louvor são uma interpretação mística de vários Salmos da coleção do Segundo Templo e de cinco das Odes de Salomão.

Para alcançar o conhecimento da Luz, o A alma humana (como a alma-mundo antes dela) tem de descer à matéria (hyle). Daí a Sophia, desejando a Luz, desce em direção ao seu reflexo, desde o Décimo Terceiro Éon, através dos Doze, até as profundezas do Caos ou Desordem, onde parece correr o risco de perder inteiramente toda a sua própria luz ou espírito inato, sendo continuamente privada dele pelos poderes da matéria.


Tendo descido às profundezas mais baixas do Caos, ela finalmente alcança o limite, e o caminho de sua peregrinação começa a conduzir novamente para cima, em direção ao espírito.

Assim, ela alcança o ponto médio de equilíbrio e, ainda ansiando pela Luz, contorna o ponto de viragem de seu curso cíclico e, mudando a tendência de seu pensamento, mente ou natureza, recita seus hinos penitenciais ou arrependimentos.

Seu principal inimigo é a falsa luz — presumivelmente o espírito contrafeito de que ouviremos falar mais adiante — a natureza-desejo, que é assistida por vinte e quatro poderes materiais, os reflexos das projeções supernas, poderes ou coparticipantes da Sophia, o todo visto de fora perfazendo uma ordenação em quarenta e nove.

A Sophia profere primeiro sete arrependimentos.

No quarto destes, o ponto de viragem de algum subciclo de sua peregrinação, ela ora para que a imagem da Luz e o Arrependimento não se desviem dela, pois é chegada a hora em que "aqueles que se voltam nas regiões mais baixas" devem ser considerados — "o mistério que é feito o tipo da raça."

No sexto, a Luz remite sua transgressão; isto é, que ela abandonou sua própria região e caiu no Caos.

Isso talvez se refira ao despertar da consciência do ego superior na personalidade inferior.

Mas ainda não veio o comando do Primeiro Mistério para libertá-la inteiramente do Caos.

Isso pode se referir à iluminação superior, quando a consciência da verdadeira alma espiritual é obtida.

Portanto, ao concluir seu sétimo arrependimento, no qual ela suplica ter feito tudo por ignorância, por seu amor à Luz, Jesus, sua sizígia (sem o Primeiro Mistério) eleva-a a uma região um pouco menos confinada no Caos, mas Sophia ainda não sabe por quem isso é feito.

É apenas no nono estágio que o Primeiro Mistério aceita parcialmente seu arrependimento e envia Jesus na forma da Luz para ajudá-la, de modo que ela o reconheça.

Seus quatro hinos seguintes são cantados conscientemente à Luz, e são de natureza de ação de graças e de declaração de que a justiça em breve alcançará seus opressores, ao mesmo tempo em que ela ora para ser inteiramente libertada de sua "transgressão" – a natureza inferior do desejo.

Após o décimo terceiro arrependimento, Jesus novamente, por Si mesmo, sem o Primeiro Mistério, emanou de Si um brilhante poder de luz e o enviou para auxiliar Sophia, para elevá-la ainda mais alto no Caos, até que viesse a ordem de libertá-la inteiramente.

Há, portanto, como parece, três graus de purificação dos elementos caóticos da natureza inferior.

Em seguida, vem uma descrição das potências de luz, que devem ser cuidadosamente comparadas com a descrição das três vestes de glória nas páginas iniciais do Códice.


Então, enquanto Sophia derrama hinos de alegria, o poder torna-se uma "coroa para sua cabeça", e sua hyle (ou propensões materiais) começa a ser inteiramente purificada, enquanto as potências espirituais de luz que ela conseguiu reter durante seu longo combate unem-se à nova veste de luz que desceu sobre ela.

Então a lei é cumprida, e o Primeiro Mistério, por Sua vez, enviou outra grande potência de luz, que se uniu àquela já emanada pela Luz, e tornou-se uma grande corrente de luz.

Essa corrente nada mais era do que o próprio Primeiro Mistério olhando para fora, saindo do Primeiro Mistério que olha para dentro.

Quando tudo isso é realizado, a Sophia é completamente purificada, e seus poderes de luz são restabelecidos e preenchidos com nova luz, por seu próprio co-participante de luz, essa sizígia sem a qual Sophia, no início, pensara alcançar a Luz das luzes, sem auxílio, e assim caiu em erro.

Mas nem tudo está ainda terminado; a vitória final ainda não foi conquistada.

Pois quanto mais alto ela se eleva, mais fortes são os poderes ou projeções enviados contra ela; eles passam a mudar suas formas, de modo que ela agora tem de lutar contra inimigos ainda maiores, que são emanados e dirigidos pelos poderes mais sutis do cosmos.

Em seguida, Sophia não é apenas coroada, mas inteiramente envolvida pela corrente de luz, e ainda mais apoiada de ambos os lados por Miguel e Gabriel, o "sol" e a "lua". As "asas da grande ave" batem, e o "globo alado" desdobra suas rêmiges, preparando-se para o voo.


Assim começa a última grande batalha.

O Primeiro Mistério, olhando para fora, dirige seu ataque contra os "cruéis e astutos poderes, paixões encarnadas", e faz a Sophia pisar sob os pés o basilisco de sete cabeças, destruindo sua hyle, "de modo que nenhuma semente possa dela surgir doravante", e derrubando o restante da hoste adversária.

Então Sophia entoa hinos triunfais de louvor por ser libertada dos laços do Caos.

Assim é ela libertada e se recorda.

Ainda o grande Auto-voluntarioso e Adamas, o Tirano, não estão inteiramente subjugados, pois o comando ainda não veio do Primeiro Mistério que olha para dentro.

Por isso o Primeiro Mistério, olhando para fora, sela suas regiões e as de seus governantes "até que três tempos se cumpram", presumivelmente até o fim dos sete ciclos ou eras, dos quais a presente é dita ser a quarta, quando o número perfeito daqueles da humanidade que alcançam a perfeição passará para o Nirvana interplanetário — para usar um termo budista.

Este Nirvana, porém, é um estado fora do tempo e do espaço, tal como os conhecemos, e portanto pode ser alcançado agora e interiormente por homens muito santos que possam atingir o mais alto grau de contemplação espiritual.

Então se abrirão as Portas do Tesouro da Grande Luz e as alturas serão cruzadas pelo peregrino.

No curso das muitas interpretações de outra forma escriturísticas dadas pelos discípulos e discípulas, Santa Maria, a Mãe de Jesus ("minha mãe segundo a matéria, tu em quem habitei"), que é também uma das discípulas, recebe permissão para falar e conta uma história curiosa da Infância, de outra forma inteiramente desconhecida.

E Maria respondeu e disse: "Meu Mestre, a respeito da palavra que o Teu poder profetizou através de Davi, a saber: 'A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram; a verdade floresceu na terra, e a justiça olhou desde o céu' — Teu poder profetizou esta palavra outrora a Teu respeito.

"Quando Tu eras criança, antes que o Espírito tivesse descido sobre Ti, quando estavas na vinha com José, o Espírito desceu da altura e veio até mim na casa, semelhante a Ti, e eu não O reconheci, mas pensei que fosse Tu.

E Ele me disse: 'Onde está Jesus, meu Irmão, para que eu vá ao Seu encontro?' E quando Ele me disse isso, fiquei em dúvida e pensei que fosse um fantasma a tentar-me. Agarrei-O e amarrei-O ao pé da cama que estava em minha casa, até que eu tivesse ido encontrar-vos no campo — a Ti e a José, e encontrei-vos na vinha; José estava colocando as estacas das videiras.

"Aconteceu, portanto, quando Tu me ouviste dizer isso a José, que Tu compreendeste, e Te alegraste e disseste: 'Onde está Ele, para que eu O veja? Não, antes O espero neste lugar.' E aconteceu que, quando José Te ouviu dizer essas palavras, ficou perturbado.

"Fomos juntos, entramos na casa, Encontramos o Espírito ligado ao leito, e contemplamos a Ti e a Ele, e descobrimos que Tu eras semelhante a Ele.


E Aquele que estava ligado ao leito foi desatado; Ele Te abraçou e Te beijou, e Tu também O beijaste; tornastes-vos um e o mesmo ser."

No final da história da Sophia, Maria pergunta: "Meu Mestre e Salvador, como são os vinte e quatro Invisíveis [os co-poderes de Sophia]; de que tipo, de que qualidade; ou de que qualidade é a sua luz?"

E Jesus respondeu e disse a Maria: "O que há neste mundo que lhes seja comparável?

Glória do

Eles do ou que região neste mundo é semelhante a eles? Agora, portanto, a que os compararei; ou que direi a respeito deles? Pois não há nada neste mundo com que eu possa compará-los; nem há uma única forma à qual eu possa assimilá-los.

Na verdade, não há nada neste mundo que seja da qualidade do céu.

Mas, Amém, eu vos digo, cada um dos Invisíveis é nove vezes maior do que o Céu [o firmamento inferior], e a Esfera acima dele, e os doze Éons todos juntos, como já vos disse em outra ocasião.

"[Novamente] não há luz neste mundo que seja superior à do sol.

Amém, Amém, eu vos digo, os vinte e quatro Invisíveis são mais radiantes do que a luz do sol que está neste mundo, dez mil vezes, como já vos disse antes em outra ocasião; mas a Luz do Sol em sua forma verdadeira, que está no espaço da Virgem da Luz, é mais radiante do que os vinte e quatro, . . . dez mil vezes mais radiante."


O Mestre promete ainda, quando os levar através dos vários espaços do mundo invisível, trazê-los finalmente a todos aos Espaços Gêmeos do Primeiro Mistério, até o espaço supremo do Inefável, "e vereis todas as suas configurações como realmente são, sem similitude."

Quando eu vos trouxer para a região dos governantes da Esfera do Destino, vereis a glória em que eles são a Escala, e, comparada com a sua glória grandemente superior, considerareis este mundo como a escuridão das trevas; e quando olhardes para baixo, para todo o mundo dos homens, ele será para vós como um grão de poeira, por causa da enorme distância pela qual [a Esfera do Destino] estará distante dele, e por causa da enorme superioridade da sua qualidade sobre ele.

E assim será em glória de luz sempre crescente, a cada espaço mais elevado, o inferior aparecendo como um grão de poeira diante da sua sublimidade, à medida que são conduzidos através dos Doze Éons, do Décimo Terceiro Éon (ou o Esquerdo), do Meio, do Direito (a saber, da cruz cósmica), do Mundo de Luz e da Herança de Luz dentro dele.

Então Maria pergunta: "Mestre, os homens deste mundo que receberam os mistérios da luz serão os Perfeitos, mais elevados no Teu Reino do que as emanações do Tesouro de Luz?"

E em resposta, o Mestre explica a ordenação, a natureza e as funções dessas grandes emanações, e como, no tempo final da consumação do éon e da ascensão do pleroma, todas elas terão um lugar mais elevado no Seu Reino; mas esse tempo ainda não chegou.

Mas, bem acima de todas elas, as almas dos homens que receberam os mistérios da luz terão precedência.

E Maria disse: "Mestre, meu habitante interior de luz tem ouvidos, e compreendo cada palavra que Tu falas."

Agora, portanto, ó Mestre, a respeito da palavra que Tu falaste, a saber: 'Todas as almas da espécie humana que receberem os mistérios da luz terão precedência na Herança da Luz sobre todos os Dominadores que se arrependerem, e sobre todos os da região daqueles que estão à Direita, e sobre todo o espaço do Tesouro da Luz'; a respeito desta palavra, meu Mestre, Tu nos disseste anteriormente: 'Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros', isto é, os 'últimos' são toda a raça dos homens que serão os primeiros no Reino da Luz; assim também aqueles que estão [agora] no espaço da altura são os 'primeiros'."

O Mestre então continua em Sua conversa com Os Três e lhes fala dos seres e espaços gloriosos, dos quais tratará em detalhe em Seus ensinamentos posteriores, até o Espaço interno do Primeiro Mistério, mas daqueles dentro desses espaços supernais Ele não tratará na consciência física, pois "não há possibilidade de falar deles neste mundo"; não, "não há qualidade nem luz que se lhes assemelhe, não apenas neste mundo, mas também nenhuma comparação naqueles da Altura da Retidão." Ele, no entanto, em linguagem elevada descreve a grandeza dos cinco Grandes Sustentadores do Espaço externo do Primeiro Mistério, acima ou dentro do qual está o Espaço interno do Primeiro Mistério, e acima de tudo o Espaço do Inefável.


A esses reinos supernais da Herança virão aqueles que receberam os mistérios da luz, e cada um ocupará o espaço de acordo com o mistério que recebeu, um espaço mais alto ou mais baixo conforme o grau dos mistérios que recebeu; cada um terá o poder de ir a todas as regiões da Herança abaixo dele, mas não de ascender mais alto.

"Mas aquele que tiver recebido o mistério completo do Primeiro Mistério do Inefável, isto é, o Mistério, ou seja, os doze mistérios do Primeiro Mistério, um após outro, . . . . . . . . terá

o poder de explorar todas as ordens da Herança da Luz, de explorar de fora para dentro, de dentro para fora, de cima para baixo, e de baixo para cima, da altura à profundidade, e da profundidade à altura, do comprimento à largura, e da largura ao comprimento; em uma palavra, ele terá o poder de explorar todas as regiões das Heranças da Luz, e terá o poder de permanecer na região que escolher na Herança do Reino da Luz.

"Amém, eu vos digo, este homem, na dissolução do mundo, será Rei sobre todas as ordens da Herança da Luz; e aquele que tiver recebido o Mistério do Inefável, esse homem é o Próprio Eu.


Em seguida, segue-se uma magnífica recitação da Gnose perfeita de tal homem, pois:

"Esse Mistério sabe por que há trevas, e por que há luz."

E assim por diante, em grandes frases que descrevem a sabedoria do Mistério supremo, que conhece a razão da existência de todas as coisas: trevas de trevas e luz de luz; caos e o tesouro de luz; julgamento e herança de luz; punição dos pecadores e descanso dos justos; pecado e batismos; fogo de punição e selos de luz; blasfêmias e cânticos à luz; e assim por diante através de muitos pares de opostos, terminando com morte e vida.

Mas a recitação da grandeza da Gnose suprema ainda não terminou, pois o Mestre continua: "Ouvi, portanto, agora ainda mais, ó Meus discípulos, enquanto vos digo toda a Gnose do Mistério do Inefável."

É a Gnose da impiedade e da compaixão; da destruição e do aumento eterno; das bestas e dos répteis, e dos metais, mares, e terra, nuvens e chuva, e assim por diante, descendo do homem para a natureza e subindo através de todos os reinos supernos.

Mas os discípulos ficam maravilhados com as glórias da Gnose deste maior Mistério e perdem a coragem.

E Maria disse: "Ó Mestre, se a Gnose de todas essas coisas está nesse Mistério, quem é o homem neste mundo que poderá compreender esse Mistério e todas as suas gnoses, e a maneira de todas as palavras que tens dito a respeito dele?"

E o Mestre disse: "Não vos aflijais, Meus discípulos, a respeito do Mistério desse Inefável, pensando que não o compreendereis. Em verdade vos digo: esse Mistério é vosso, e de todo aquele que vos der ouvidos, e que renunciar ao mundo inteiro, e a toda a matéria nele contida, que renunciar a todos os maus pensamentos que nele existem, e que renunciar a todos os cuidados deste éon.


"Agora, portanto, vos direi: Quem quer que renuncie ao mundo inteiro e a tudo o que nele há, e se submeta à Divindade, para ele esse Mistério será muito mais fácil do que todos os mistérios do Reino da Luz; é muito mais simples de compreender do que todos os restantes, e é muito mais claro do que todos eles.

Aquele que chegar ao conhecimento desse Mistério renunciou a todo este mundo e a todos os seus cuidados.

Por essa causa vos disse anteriormente: 'Vinde a Mim, todos vós que estais oprimidos de cuidados e trabalhais sob o seu peso, e Eu vos darei descanso, pois o Meu fardo é leve e o Meu jugo é suave.'"

Não se deixem desanimar pela vasta complexidade da emanação do pleroma e do processo do mundo, "pois a emanação do pleroma é a sua Gnose." Apenas deixem o Cristo nascer em seus corações, abandonando os deleites do mundo, e eles crescerão até o ser do pleroma e assim possuirão toda a sua Gnose.

O Mestre então continua a Sua descrição da Gnose do Mistério do Inefável, retomando-a no ponto em que havia parado, e conduzindo-os cada vez mais alto às alturas supernas, através de espaço após espaço, e hierarquia após hierarquia, de estupendo ser e sua emanação, até o próprio Mistério, o Primeiro Mistério que sabe por que Ele emanou do Último Membro do Inefável.


Tudo isto, que Ele agora recita simplesmente, nomeando os grandes espaços e seus habitantes, Ele promete explicar detalhadamente em Seu ensinamento posterior.

"Agora, portanto, é o Mistério do Inefável que sabe por que tudo o que vos falei veio a existir; em verdade, tudo isto existiu por causa Dele.

Ele é o Mistério que está em todos eles; Ele é a emanação de todos eles, a reabsorção de todos eles e o suporte de todos eles.

"Este Mistério do Inefável está em todos aqueles de que falei, e de que falarei ao tratar da emanação do pleroma.

Ele é o Mistério que está em todos eles, e Ele é o Único Mistério do Inefável.

E a Gnose daquilo que vos disse, e do que ainda não vos disse, mas de tudo o que falarei ao tratar da [plena] emanação do pleroma, e a Gnose completa de cada um deles, um após outro, isto é, por que existem — tudo isto é o Único Verbo (Logos) do Inefável."

"O Mistério do Inefável é o Único e Somente Verbo, mas há outro [Verbo] na Língua do Inefável; é a regra da interpretação de todas as palavras que vos falei."

Explica-se então como aquele que recebe este Único e Somente Verbo, quando emerge do corpo da matéria dos Arcontes, torna-se uma grande corrente de luz e sobe às alturas; não necessita de apologia ou símbolo, pois todos os poderes se curvam diante do manto de luz com que está vestido, e entoam hinos de louvor, e assim ele ascende para cima e adiante, através de todas as Heranças de Luz, e ainda mais alto, até se tornar um com os Membros do Inefável.


"Amém, eu vos digo: ele estará em todas as regiões durante o tempo em que um homem pode disparar uma flecha."

Em seguida, segue uma recitação da grandeza de tal alma.

Começando com as palavras: "Ainda que ele seja um homem no mundo, contudo é mais elevado do que todos os anjos, e muito os superará a todos", recita da mesma forma todos os graus das hierarquias supernas dos seres, desde os anjos para cima, e termina como segue:

"Ainda que ele seja um homem no mundo, contudo é mais elevado do que toda a região do Tesouro, e será exaltado acima de toda ela.

"Ainda que ele seja um homem no mundo, contudo reinará comigo em Meu Reino.

Ele é um homem no mundo, mas um Rei na Luz.

"Ainda que ele seja um homem no mundo, contudo é um homem que não é do mundo.

"Em verdade vos digo: esse homem sou Eu mesmo, e Eu sou esse homem."

E na grande consumação, todos esses homens "serão co-reis comigo, assentar-se-ão à Minha direita e à Minha esquerda em Meu Reino.

"Em verdade vos digo: esses homens são Eu mesmo, e Eu sou esses homens." Dos Tronos no Reino da Luz.


Há outros Logoi.

Os Graus dos Mistérios.

Segue-se então, aparentemente, uma interpolação consistindo de uma citação de algum Evangelho hoje desconhecido: "Por que vos disse outrora: 'No lugar onde Eu estiver, ali também estarão meus doze ministros, mas Maria Madalena e João, o virgem, serão mais elevados do que todos os discípulos.'

"E todos os homens que receberem o Mistério naquele Inefável estarão à Minha esquerda e à Minha direita, e Eu sou eles e eles são Eu mesmo.

"Eles serão vossos iguais em todas as coisas, e contudo vossos tronos serão mais excelentes do que os deles, e Meu trono será mais excelente do que os vossos e [do que os] de todos os homens que tiverem encontrado a Palavra daquele Inefável."

E Maria pensa que este deve ser o fim de todas as coisas e a Gnose de todas as gnoses, e assim protesta: "Mestre, certamente não há outra Palavra do Mistério daquele Inefável, nem qualquer outra Palavra de toda a Gnose?"

O Salvador respondeu e disse: "Sim, em verdade; há outro Mistério do Inefável e outra Palavra de toda a Gnose." Não, uma multidão de Palavras, Ele poderia ter acrescentado.

Então Maria pergunta se aqueles que não recebem o Mistério do Inefável antes de morrerem entrarão no Reino da Luz.

O Mestre responde que todo aquele que recebe um mistério de luz, qualquer um deles, após a morte encontrará descanso no Mundo de Luz apropriado ao seu mistério, mas ninguém que não se tenha tornado um Cristo conhecerá a Gnose do pleroma inteiro, pois "em toda abertura eu sou a Gnose do pleroma inteiro." Assim, aquele que recebe o primeiro mistério do Primeiro Mistério será Rei sobre os espaços do Primeiro Salvador no Reino da Luz, e assim por diante até o décimo segundo.


E Maria pergunta: "Mestre, como é que o Primeiro Mistério tem doze mistérios, enquanto o Inefável tem apenas um Mistério?"

A resposta é que eles são realmente um só Mistério; este Mistério é ordenado em doze, e também em cinco, e ainda em três, permanecendo contudo um só; são todos diferentes aspectos ou tipos do mesmo Mistério.

Os dois mistérios superiores dos três não apenas asseguram ao seu possuidor, quando ele deixa o corpo, a sua sorte apropriada na Herança, mas também concedem dons com respeito a outros.

Se um homem "os realizar em todas as suas configurações, isto é, quando ele tiver criado esses mistérios para si mesmo", eles dão o poder de habilitá-lo ainda a proteger alguém que não seja participante das Palavras da Verdade, após a sua morte, para que não seja punido.

Naturalmente, tal homem não pode "ser trazido para a Luz até que tenha realizado toda a política da luz desses mistérios, isto é, a estrita renúncia ao mundo"; mas ele será enviado novamente para "um corpo justo, que encontrará o Deus da Verdade e os mistérios superiores."

Mas quanto ao mais elevado mistério de todos, "quem quer que receba o Mistério que está no Espaço inteiro do Inefável, e também todos os outros doces mistérios inefáveis que estão nos Membros desse Inefável, das quais ainda não vos falei, tanto concernentes à sua emanação, quanto ao modo como são constituídas, e o tipo de cada uma delas como é — não vos disse por que é chamado o Inefável, ou por que jaz estendido com todos os seus Membros, ou quantos Membros há nele, ou quais são todas as suas regulamentações; nem vos direi isso imediatamente, mas somente quando eu vier a falar da emanação do [todo] pleroma; [então] vos direi cada detalhe, um por um, pois ele emanou juntamente com sua própria Palavra, assim como é em si mesmo, juntamente com a soma total de todos os seus Membros, que pertencem à regulamentação do Uno e Único, o imutável Deus da Verdade — na região, portanto, da qual cada um receberá o mistério no Espaço daquele Inefável, ali herdará até a região que tiver recebido, [até] toda a região do Espaço daquele Inefável; nem dará explicação através das regiões, nem apologia nem símbolo, pois [tais almas] são sem símbolo e não têm receptores.


Assim também para o segundo Espaço abaixo deste, o Espaço do Primeiro Mistério que olha para dentro; tais almas não requerem apologia.

Mas para o terceiro Espaço, o Espaço do Primeiro Mistério que olha para fora, cada região tem seu receptor, explicação, apologias e símbolos, de todos os quais o Mestre falará no devido tempo.

"Mas quando o pleroma estiver completo, isto é, quando o número de almas perfeitas for alcançado, e o Mistério for realizado segundo o qual o pleroma é o pleroma, eu passarei mil anos, segundo os anos de Luz, reinando sobre todas as emanações da Luz e todo o número de almas perfeitas que tiverem recebido todos os mistérios."

Agora, "um dia da Luz é mil anos no mundo, de modo que trinta e seis miríades de anos e meia miríade de anos do mundo perfazem um único ano da Luz."

As glórias do Reino da Luz com seus três Reinos e Reis são então descritas.

Agora, os mistérios dessas três Heranças de Luz são excessivamente numerosos.

Vós os encontrareis nos dois grandes Livros de Jeu." As mais elevadas Ele lhes revelará; "mas quanto ao restante dos mistérios inferiores, não tendes necessidade deles, mas os encontrareis nos dois Livros de Jeu, que Enoque escreveu quando Eu falei com ele desde a Árvore do Conhecimento, e desde a Árvore da Vida, que estavam no Paraíso de Adão."

Então André fica em grande espanto, e não pode crer que homens do mundo como eles possam ter um destino tão elevado reservado para eles, e possam alcançar alturas tão sublimes.

"Este assunto, então, é difícil para mim", diz ele.

Quando André disse estas palavras, o espírito do Salvador foi movido Nele, e Ele clamou em alta voz e disse: "Até quando vos suportarei, até quando vos tolerarei? Ainda não sabeis e sois ignorantes? Não sabeis e não compreendeis que sois todos Anjos, todos Arcanjos, Deuses e Senhores, todos Dominadores, todos os grandes Invisíveis, todos aqueles do Meio, aqueles de cada região dos que estão à Direita, todos os Grandes das emanações da Luz com toda a sua glória; que sois todos, de vós mesmos e em vós mesmos, por sua vez, de uma só massa e uma só matéria, e uma só substância; sois todos da mesma mistura.

. . .

"As grandes emanações de Luz não sofreram de modo algum [na realidade] sofrimentos, nem mudanças de região, nem se dilaceraram, nem se derramaram em corpos diferentes, nem estiveram em qualquer aflição.

"Enquanto vós, outros, sois as purgações do Tesouro Inamovível, sois as purgações da região dos que estão à Direita, sois as purgações de todos os invisíveis e de todos os dominadores; em uma palavra, sois a purgação de todos eles.

E tendes estado em grandes aflições e grandes tribulações, em vossos derramamentos em corpos diferentes neste mundo.

E depois de todas essas aflições que vieram de vós mesmos, lutastes e combatestes, renunciando ao mundo inteiro e a toda a matéria que nele há; e não retivestes as mãos na luta, até que encontrastes todos os mistérios do Reino da Luz, que vos purificaram e vos transformaram em luz refinada, puríssima, e vos tornastes a própria luz pura.

. . .

"Amém, eu vos digo, a raça humana é de matéria.

Eu me dilacerei, trouxe-lhes os mistérios da luz, para purificá-los, pois eles são as purgações de toda a matéria de sua matéria.

. . .

"Agora, as Emanações de Luz não têm necessidade de nenhum mistério, pois são puras; mas a raça humana tem necessidade de purificação, pois todos os homens são purgações da matéria.


. . .

"Por esta causa, portanto, pregai vós a toda a A Pregação

dos Mistérios.

raça humana, dizendo: 'Não cesseis de buscar dia e noite, até que tenhais encontrado os mistérios purificadores'; e dizei-lhes: 'Renunciai ao mundo inteiro e a toda a matéria nele contida', pois aquele que compra e vende neste mundo, aquele que come e bebe de sua própria matéria, que vive em seus próprios cuidados e em todas as suas próprias associações, acumula sempre matéria nova de sua matéria, na medida em que o mundo inteiro, e tudo o que nele há, e todas as suas associações, são purgações excessivamente materiais, e eles farão inquirição de cada um conforme a sua pureza."

Isto é seguido por uma longa instrução sobre a natureza da pregação dos discípulos ao mundo quando o Mestre tiver ido para a Luz.

"Dizei-lhes: 'Renunciai ao mundo inteiro e à A

matéria que nele está, a todos os seus cuidados, a todos os seus pecados, em uma palavra, a todas as associações que nele há, para que sejais dignos dos mistérios da luz e sejais salvos de todos os tormentos que estão nos julgamentos.'"

Eles devem renunciar ao luto, à superstição, aos feitiços, à calúnia, ao falso testemunho, à jactância e ao orgulho, à gula, à loquacidade, às carícias malignas, ao desejo de avareza, ao amor do mundo, ao roubo, às palavras más, à maldade, à impiedade, à ira, ao vitupério, à pilhagem, à difamação, à contenda, à ignorância, à vileza, à preguiça, ao adultério, ao assassinato, à dureza de coração e à impiedade, ao ateísmo, às poções mágicas, à blasfêmia, às doutrinas do erro — para que escapem Os


Marcos Divisórios das Sendas dos Mistérios.

O Estado Pós-Morte dos Justos Não Iniciados.

aos tormentos do fogo e do gelo e outros horrores gráficos de um inferno elaborado, coroados pelos tormentos do Grande Dragão das inexoráveis Trevas Exteriores, reservados para os maiores dos pecados, onde tais almas absolutamente impenitentes "serão sem existência até o fim" do éon; elas serão "congeladas" nesse estado.

Até aqui, o lado negativo, as coisas a serem abandonadas; mas quanto ao positivo, as coisas a serem feitas, eles devem: "Dizei aos homens do mundo: 'Sede diligentes, para que recebais os mistérios da luz e entreis na altura do Reino da Luz.'"

Eles devem ser gentis, pacificadores, misericordiosos, compassivos, ministrar aos pobres, enfermos e aflitos, ser amorosos para com Deus, e justos, e viver a vida de absoluta abnegação.

"Estes são todos os marcos divisórios das sendas daqueles que são dignos dos mistérios da luz."

A tais, e somente a tais, os mistérios devem ser dados; a condição absoluta é que façam essa renúncia e se arrependam.

"É por causa dos pecadores que trouxe estes mistérios ao mundo, para a remissão de todos os pecados que cometeram desde o princípio.

Por isso vos disse outrora: 'Não vim chamar os justos.'"

Surge agora a questão sobre os homens bons que não receberam os mistérios: como será com eles após a morte?

"Um homem justo que é perfeito em toda justiça", responde o Mestre, mas que não recebeu os mistérios da luz, ao sair do corpo, são assumidos pelos Receptores da Luz — em distinção dos Receptores da Ira.


"Três dias peregrinarão com essa alma por todas as criaturas do mundo", e a farão passar por todos os elementos dos julgamentos, instruindo-a neles, e então ela será levada à Virgem da Luz e selada com um selo excelente, para que seja conduzida a um corpo justo dos éons, de modo que, em seu próximo nascimento, encontre os sinais dos mistérios da luz e herde o Reino da Luz para sempre.

Assim, com um homem que pecou apenas duas ou três vezes, ele será enviado de volta ao mundo conforme o tipo dos pecados que cometeu; "Eu vos direi esses tipos quando vier a explicar a emanação do pleroma" em detalhe.

"Mas Amém, Amém, eu vos digo: ainda que um homem justo não tenha cometido pecado algum, é impossível levá-lo ao Reino da Luz, porque o sinal do Reino dos Mistérios não está com ele." Ele deve ter gnose tanto quanto retidão.

A questão seguinte surge acerca do pecador que se arrependeu, recebeu os mistérios, e depois caiu, e novamente se arrependeu, desde que não seja um hipócrita; "Queres Tu ou não que remitamos suas transgressões até sete vezes, e lhe demos os mistérios novamente?"

O Salvador respondeu e disse: "Remiti o seu pecado não apenas até sete vezes, mas Amém, eu vos digo, remiti-lho muitas vezes sete vezes, e cada vez dai-lhe os mistérios desde o princípio, os mistérios que estão no primeiro Espaço desde o exterior; talvez ganheis a alma desse irmão, para que ele herde o Reino da Luz.


. . .

"Amém, eu vos digo: aquele que der vida

O Acrescentado a uma única alma, e a salvar, além da

aos Salvadores sua própria luz própria no Reino da Luz, ele

receberá ainda uma glória adicional pela

alma que tiver salvo, de modo que aquele que

"Salvará uma hoste de almas, além da sua própria glória na Glória, receberá uma hoste de glórias adicionais pelas almas que tiver salvo."

Não, eles não darão apenas os mistérios inferiores, mas também os superiores, sempre que o homem sinceramente se arrependa e não seja um hipócrita; todos os mistérios até os três mais elevados mistérios do Primeiro Mistério, "pois o Primeiro Mistério é compassivo e misericordioso."

"Mas se esse homem transgredir novamente, e estiver em qualquer tipo de pecado, não remireis mais o seu pecado, nem aceitareis mais o seu arrependimento; seja ele para vós uma pedra de tropeço e um transgressor.

"Pois, em verdade vos digo, estes três mistérios testemunharão contra o seu último arrependimento, a partir daquela hora.

Em verdade vos digo, a alma desse homem não terá mais provação para o mundo da altura, doravante, a partir daquela hora, mas habitará na habitação do Dragão das Trevas Exteriores."

Em tudo isto, os discípulos não têm escolha; se souberem que um homem é sincero, e não um hipócrita ou meramente

A PISTIS SOPHIA

curioso para saber que tipo de coisas são os ritos dos mistérios, devem dar-lhe esses mistérios e não retê-los, mesmo que ele seja alguém que nunca recebeu nenhum dos mistérios inferiores; pois se os ocultarem dele, estarão sujeitos a um grande julgamento.

Além da concessão desses três mistérios superiores, eles não têm poder, pois não têm conhecimento suficiente.

Mas o caso de um homem que caiu após receber os mais elevados mistérios que podem dar, não é

Do Infinito

totalmente sem esperança; está, no entanto, nas mãos do Compaixão

Primeiro Mistério e do Mistério do Inefável

somente.

Somente estes podem aceitar o arrependimento de tal homem e conceder-lhe a remissão dos seus pecados, pois esses Mistérios são "compassivos e misericordiosos, e concedem remissão de pecados a qualquer momento."

A questão agora é levantada: Supondo que eles dêem os mistérios por engano àqueles que são hipócritas, Daqueles que

, Imitam o

e que os enganaram e depois zombaram dos mistérios, "imitando-nos e fazendo falsificações de nossos mistérios", o que então devem fazer?

Nesse caso, devem apelar ao Primeiro Mistério, dizendo: "O mistério que concedemos a estas almas ímpias e iníquas, elas não o realizaram de maneira digna do Teu mistério, mas apenas copiaram [o que fizemos]; devolve-nos [portanto] esse mistério, e faze-as para sempre estranhas ao Teu Reino."

Naquela hora, os mistérios que tais almas ímpias Podem as Dores do Martírio ser Evitadas.


O

Mistério da

Ressurreição dos Mortos.

receberam, retornarão a eles, e tais pessoas não podem receber perdão de ninguém, exceto somente do Mistério do Inefável.

No caso dos amigos e parentes incrédulos daqueles que receberam os mistérios, estes últimos podem, por suas preces e invocações, obter uma melhor sorte no estado pós-morte para seus parentes e amigos, de modo que possam ser enviados de volta a condições favoráveis para receberem os mistérios em outra vida.

Pergunta-se então se os mistérios salvarão os discípulos das dores do martírio.

"Pois são em número excessivamente grande os que nos perseguem por causa de Ti, e multidões nos perseguem por causa do Teu nome, de modo que, se formos submetidos à tortura, proferiremos o mistério, para que imediatamente partamos do corpo sem sofrer dor."

A resposta não é clara; todo aquele que realizou o primeiro (isto é, o mais elevado) dos três mistérios superiores, em vida, quando chegar o momento de deixar o corpo, elevar-se-á ao Reino da Vida sem necessidade de apologia ou sinal.

Mas não se diz que as dores do martírio podem ser evitadas.

Mas eles poderão ajudar os outros, pois "não somente vós, mas todos os homens que alcançarem o mistério da ressurreição dos mortos, que cura das possessões demoníacas, e dos sofrimentos, e de toda doença, [que também cura] os cegos, os coxos, os paralíticos, os mudos e os surdos, [o mistério] que vos dei outrora — quem quer que receba destes mistérios e os alcance, se pedir qualquer coisa daqui em diante, pobreza ou riqueza, fraqueza ou força, doença ou saúde, ou a completa cura do corpo, e a ressurreição dos mortos, o poder de curar os coxos, os cegos, os surdos e os mudos, de toda doença e de todo sofrimento — em uma palavra, quem quer que alcance este mistério, se pedir qualquer das coisas que acabei de vos dizer, elas lhe serão imediatamente concedidas."


Então os discípulos clamaram juntos em transporte: "Ó Salvador, Tu nos excitas com grande frenesi por causa da altura transcendente que nos revelaste; e Tu exaltas nossas almas, e elas se tornaram caminhos pelos quais viajamos para chegar a Ti, pois elas vieram de Ti.

Agora, portanto, por causa das alturas transcendentes que nos revelaste, nossas almas se tornaram frenéticas, e elas trabalham poderosamente, ansiando por partir de nós para a altura, para a região do Teu Reino."

O Mestre continua Seu ensinamento, dizendo que o restante dos mistérios que lhes foram confiados eles podem dar a outros, mas não o mistério da ressurreição dos mortos e da cura das doenças, "pois esse mistério pertence aos governantes, ele e todas as suas nomeações." Isso eles devem reter como o sinal de sua missão, para que quando realizarem tais feitos maravilhosos, "eles acreditarão em vós, que pregais o Deus da perfeição, e terão fé em todas as vossas palavras."

O próximo ponto de instrução abordado é a questão: "Quem constrange um homem a pecar?" Este abre todo o assunto da constituição do homem e dá origem a uma exposição muito interessante


Constituição do Homem.

da psicologia gnóstica.

Quando a criança nasce, o "poder-luz", a "alma", o "espírito contrafacto" e o "corpo" são todos muito débeis nela. "Nenhum deles tem ainda senso suficiente para qualquer obra, seja boa ou má, por causa do peso excessivamente grande do esquecimento."

O bebê come das delícias do mundo dos Governantes; o poder absorve da porção do poder que está nas delícias, a alma da porção da alma nas delícias, o espírito contrafacto da porção do mal nas delícias, e o corpo da matéria imperceptiva nas delícias.

Há também outro fator chamado "destino", que permanece como veio ao mundo e nada toma das delícias.

Assim, pouco a pouco, todos esses elementos constituintes no homem se desenvolvem, cada um sentindo segundo a sua natureza.

"O poder sente após a luz da altura; a alma sente após a região da justiça mista, que é a região da Mistura (isto é, de Luz e Matéria); e o espírito contrafacto busca todos os vícios, desejos e pecados; mas o corpo não tem poder de sentir, a menos que seja um impulso para ganhar força da matéria."

O poder é evidentemente a mente superior, a alma a mente inferior, e o espírito contrafacto a natureza animal.

"O poder interior impele a alma a buscar a região da luz e toda a Divindade; ao passo que o espírito contrafacto arrasta a alma para baixo e persistentemente a constrange a cometer todo tipo de iniquidade, travessura e pecado, e persiste como algo estranho à alma, e é para o pecado.


seu inimigo, e o faz cometer todos esses pecados e males" — colocando-os em operação contra a alma por causa do que ela fez no passado; além disso, para o futuro, "ele incita os Obreiros da Ira a testemunhar todo o pecado que constrangerá a alma a cometer.

E mesmo quando o homem dorme, de noite ou de dia, ele o atormenta em sonhos com os desejos do mundo, e o faz ansiar por todas as coisas deste mundo.

Em uma palavra, ele liga a alma a todas as ações que os Regentes decretaram para ela, e é o inimigo da alma, fazendo-a fazer o que ela não quereria." É isto que constrange o homem a pecar.

O "destino" é aquilo que conduz o homem à sua morte.

Então vêm os Receptores da Ira para conduzir essa alma para fora do corpo.

"E por três dias os Receptores da Ira

percorrem com essa alma todas as regiões, O Ciclo

da

levando-a através de todos os éons do mundo; e o Estado Pós-Morte

espírito falsificado e o destino acompanham essa alma,

mas o poder se retirou para a Virgem da Luz."

A alma é então trazida para baixo, ao Caos, e o espírito falsificado torna-se o receptor dessa alma, e a assombra, repreendendo-a em cada punição por causa dos pecados que ele a fez cometer; ele está em inimizade excessivamente grande com a alma.

A alma então se eleva mais alto, ainda sempre assombrada pelo espírito falsificado, até chegar ao Regente do Caminho do Meio entre o firmamento inferior e a superfície da terra.


Aqui ela ainda está sujeita às punições do seu espírito falsificado, de acordo com o seu "destino".

É então levado pelo espírito contrafaz à "luz do sol" — sendo o Caminho do Meio aparentemente as regiões sublunares — e conduzido ao Juiz, a Virgem da Luz, segundo o mandamento de Ieou, o Primeiro Homem; e "a Virgem da Luz sela essa alma e a entrega a um de seus receptores, e fará com que seja levada a um corpo, que é o registro dos pecados que ela cometeu."

"Em verdade vos digo: ela não permitirá que essa alma escape das transmigrações em corpos, até que tenha dado sinais de estar em seu último ciclo, segundo seu registro de demérito."

No caso de uma alma justa, porém, e de uma que tenha recebido os mistérios superiores da luz,

E da Justa.

"quando chega o tempo dessa alma para sua passagem do corpo, então o espírito contrafaz segue após essa alma, e também o destino.

Eles seguem após ela no caminho pelo qual ela passará para a altura.

"E antes que ela vá longe na altura, ela profere o mistério da quebra dos selos e de todos os laços do espírito contrafaz, pelos quais os Governantes a prendem à alma"; e assim eles cessam de impedir a alma, e o destino parte para sua própria região, aos Governantes do Caminho do Meio, e o contrafaz do espírito aos Governantes da Esfera do Fado.


E assim ela se torna uma gloriosa corrente de luz e sobe à sua herança, pois "os receptores dessa alma, que pertencem à luz, tornam-se asas de luz para essa alma", e serão uma veste de luz para ela. Tal alma não requer selos ou apologias.

Mas aquela que recebeu apenas os mistérios inferiores requer tais apologias e selos, todos os quais o Mestre promete dar-lhes em Sua exposição detalhada da emanação do Pleroma.

Por ora, Ele simplesmente declara quais espaços devem ser atravessados e quais são os governantes.

Maria compara algumas das afirmações com ditos anteriores, incluindo um que o Mestre proferiu "outrora a nós pela boca de Paulo, nosso irmão". Ela interpreta ainda o dito: "Concorda com o teu adversário enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o teu adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e o oficial te lance na prisão; não sairás dali até que pagues o último ceitil", como referindo-se ao Juiz, à Virgem da Luz, e ao reencarnar da alma em outro corpo, pois nenhuma alma está livre da transmigração até que dê sinais de estar em seu último ciclo.

Maria pergunta em seguida acerca da natureza dos mistérios dos batismos que remitem os pecados, e o Mestre responde:

"O espírito contrafaz testemunha de todo pecado que a alma tenha cometido; não somente testemunha dos pecados das almas, mas sela cada pecado para que seja estampado na alma, de modo que todos os governantes dos castigos dos pecadores possam saber que é a alma de um pecador, e possam ser informados do número de pecados que ela cometeu, pelo número de selos que o espírito contrafaz nela estampou, para que a castiguem segundo o número de pecados que cometeu.

Esta é a maneira como tratam a alma do pecador.

"Agora, portanto, quando um homem recebe os mistérios dos batismos, esses mistérios tornam-se um poderoso fogo, extremamente veemente, sábio, que queima os pecados; eles entram na alma secretamente e devoram todos os pecados que o espírito contrafaz nela implantou.

"E quando o fogo houver purificado todos os pecados que o espírito contrafaz implantou na alma, os mistérios entram no corpo ocultamente, para que o fogo persiga secretamente os perseguidores e os elimine juntamente com o corpo.

Eles perseguem o espírito contrafacto e o destino, para separá-los do poder e da alma, e colocá-los com o corpo, para que o espírito contrafacto, o destino e o corpo sejam separados em um grupo, e a alma e o poder em outro.

E o mistério do batismo permanece entre os dois, e separa um do outro, a fim de purificá-los e torná-los puros, para que a alma e o poder não sejam contaminados na matéria."

É então explicado ainda que todos os doze e outros mistérios do Primeiro Mistério e do Inefável são ainda mais elevados do que os mistérios dos batismos; mas tudo isso será explicado em um ensinamento posterior.


Maria dá interpretações de passagens das escrituras à luz do novo ensinamento, sendo a oportunidade oferecida por uma recapitulação de alguns dos pontos pelo Mestre, com indagação sobre se eles compreenderam bem.

Especialmente é insistida a compaixão sem fim dos mais altos Mistérios.

"Se até um rei de hoje, um homem do mundo, concede benefícios àqueles que são semelhantes a ele, o Infinito, se ele além disso concede perdão a assassinos, e àqueles que são culpados de relações com homens, e outros crimes horríveis e capitais; se, digo, está no poder até de um que é homem do mundo agir assim, muito mais então têm o Inefável e o Primeiro Mistério, que são senhores de todo o pleroma, poder sobre tudo para fazer como quiserem, e conceder remissão de pecado a todo aquele que tiver recebido o Mistério.

"Novamente, se até um rei de hoje investe um soldado com um manto real, e o envia para regiões estrangeiras, e o soldado lá comete assassinatos e outras ofensas graves dignas de morte, e ainda assim elas não são atribuídas a ele, porque ele veste o manto real, quanto mais, então, [é o caso com] aqueles que estão revestidos nos mistérios das vestes do Inefável, e aqueles do Primeiro Mistério que são senhores sobre todos os do alto e todos os do abismo!"

Em seguida, o Mestre põe Pedro à prova, para ver se é compassivo, no caso de uma mulher Mas não demoreis a vos arrepender.


Pois, em certo tempo, as Portas da Luz serão fechadas.

que havia caído após receber o mistério do batismo, e Pedro sai da prova com êxito.

Explica-se então que a sorte de um homem que recebeu os mistérios e caiu, e não se arrependeu, é muito pior do que a do ímpio que nunca os conheceu.

Quanto aos que são indiferentes, pensando que têm muitos nascimentos diante de si e que não precisam se apressar, o Mestre ordena aos discípulos:

"Pregai vós ao mundo inteiro, dizendo aos homens: 'Esforçai-vos juntamente para que recebais os mistérios da luz neste tempo de aflição, e entreis no Reino da Luz.

Não adieis de dia para dia, e de ciclo para ciclo, na crença de que conseguireis obter os mistérios quando retornardes ao mundo em outro ciclo.'"

"Tais homens não sabem quando o número de almas perfeitas [será completado]; pois, quando o número de almas perfeitas for completado, então fecharei as Portas da Luz, e desde esse tempo ninguém mais poderá entrar por elas, nem sairá alguém daí em diante, pois o número de almas perfeitas será [completado], e o mistério do Primeiro Mistério será aperfeiçoado — [o mistério] pelo qual tudo veio a existir, e Eu sou esse mistério."

"Desde essa hora ninguém mais entrará na Luz, e ninguém sairá, pois o tempo do número de almas perfeitas será cumprido, antes que Eu lance fogo ao mundo, para que ele purifique os éons, e véus, os firmamentos e todo o mundo, e também todas as matérias que ainda nele estão, estando ainda sobre ele a raça da humanidade." "Naquele tempo, então, a fé se manifestará cada vez mais, e também os mistérios naqueles dias."


E muitas almas passarão pelos ciclos de transmigrações do corpo e retornarão ao mundo naqueles dias; e entre elas haverá algumas que agora estão vivas e ouvem-Me ensinar acerca da consumação do número de almas perfeitas, [e naqueles dias] elas encontrarão os mistérios da luz, e os receberão.

Elas ascenderão aos Portões da Luz, e descobrirão que o número de almas perfeitas está completo, o que é a Consumação do Primeiro Mistério e a Gnose do Pleroma; descobrirão que Eu fechei os Portões da Luz, e que desde aquela hora ninguém pode entrar ou sair por eles.

"Então aquelas almas clamarão de dentro através dos Portões da Luz, dizendo: 'Mestre, abre-nos.' E Eu sei que lhes responderei, dizendo: 'Não sei de onde sois.' E elas Me dirão: 'Recebemos os mistérios, e cumprimos toda a Tua doutrina; Tu nos ensinaste nos caminhos elevados.' E Eu lhes responderei, dizendo: 'Não sei quem sois, vós que praticastes a iniquidade e o mal até este dia.

Portanto, ide [daqui] para as Trevas Exteriores.' Imediatamente elas partirão para as Trevas Exteriores, onde há choro e ranger de dentes."

Maria então pergunta sobre o tipo das Trevas Exteriores e o número dos espaços e regiões do Dragão de punição; e então segue uma elaborada descrição do espaço-dragão dessas Trevas Exteriores, cuja cauda está em sua boca, e suas doze masmorras, com seus autênticos rostos e nomes dos governantes, das portas e dos anjos que vigiam nelas, e quais almas passam para o Dragão e como; explica-se como os nomes estão todos contidos uns nos outros, e quais são os tormentos e os graus dos fogos.

Em seguida, segue o ensinamento sobre como as almas dos não iniciados podem ser salvas, e como finalmente o Mistério salvará até aqueles que não têm mais chance de renascimento.

Explica-se ainda como os iniciados se tornam chamas de luz e correntes de luz.


Maria intercede por aqueles que negligenciaram os mistérios; e explica-se a eficácia dos nomes dos doze governantes das masmorras, e como as almas que conhecem os nomes escapam do Dragão e são levadas a Ieou, e seu destino subsequente.

Segue-se então nova instrução sobre os Governantes do Destino e o Cálice do Esquecimento — "a semente do Esquecimento, iniquidade, cheia de toda sorte de desejo e de todo esquecimento...; e aquele cálice mortal de esquecimento torna-se um corpo externo à alma, semelhante à alma em todos os aspectos, e sua perfeita réplica, e por isso o chamam de espírito contrafação."

Descreve-se então a maneira de moldar uma nova alma, e como o poder é insuflado nela; isso é exposto de modo geral, e informações mais detalhadas são prometidas para uma ocasião futura.

Explica-se ainda que o dito: "Aquele que não deixar pai e mãe e não me seguir", refere-se aos "pais" ou modeladores da alma e do espírito contrafação, e não aos nossos pais terrenos, muito menos aos pais da luz-poder interior — o Salvador e Seus mistérios.

Informações adicionais também são dadas sobre o espírito contrafação e seus construtores elementais, em número de trezentos e sessenta e cinco; os estágios embrionários da encarnação; a compulsão cármica dos pais — o pai e a mãe do corpo físico; o processo oculto de gestação; o modo de encarnação dos vários elementos constituintes no homem; fisionomia oculta; a natureza do destino e como o homem chega à sua morte; e várias outras questões de natureza semelhante.

E então o Salvador continua:

"Agora, portanto, em favor dos pecadores, eu me dilacerei e vim ao mundo, para salvá-los, e também porque é necessário que os justos, que nunca fizeram o mal e nunca cometeram pecado, encontrem os mistérios que estão nos Livros de Jeou, que fiz Enoque escrever no Paraíso, quando lhe falei desde a Árvore do Conhecimento e desde a Árvore da Vida, e que fiz ele depositar na rocha de Ararad; e estabeleci Kalapatauroth, o Governante que está sobre Skemmut, em cuja cabeça está o pé de Jeou — este último circunda todos os Eons e a Esfera do Destino — estabeleci [então] este Governante para preservar os Livros de Jeou do dilúvio, e [também] para que nenhum dos Governantes, por inimizade, os destruísse.

Estes [livros] eu vos darei, quando tiver terminado de vos contar a emanação do pleroma." Mas poucos apenas compreenderão os mistérios superiores.


"Eu vos digo que se encontrará um em mil e dois em dez mil para a consumação dos mistérios do Primeiro Mistério."

Antes da vinda do Primeiro Mistério, nenhuma alma da humanidade de Cristo havia entrado plenamente na Luz; nenhum dos profetas ou patriarcas havia ainda entrado na Luz, mas serão enviados de volta a corpos justos e assim encontrarão os mistérios e herdarão o Reino.

O tratado encerra-se com os seguintes parágrafos:

"Maria respondeu e disse: 'Bem-aventurados somos nós diante de todos os homens por causa destas grandes [verdades] que Tu nos revelaste.'

"O Salvador respondeu e disse a Maria e a todos os Seus discípulos: 'Eu vos revelarei também todas as grandezas da altura, do interior dos interiores ao exterior dos exteriores, para que sejais perfeitos em toda gnose, e em todo pleroma, e em toda altura das alturas, e em todo abismo dos abismos.'"

E Maria respondeu e disse ao Salvador: "É Ele quem — Agora sabemos, ó Mestre, livremente, com certeza, claramente, que Tu trouxeste as Chaves dos mistérios do Reino da Luz, que remitem os pecados das almas, para que sejam purificadas e transformadas em luz pura, e sejam levadas para a Luz."

EXTRATOS DOS LIVROS DO SALVADOR.

RESUMO DOS EXTRATOS DOS LIVROS DO SALVADOR.

O primeiro extrato ocorre nas pp. 252–254 do Códice Askew, e segue assim:

"E aqueles que são dignos dos mistérios que jazem no Inefável, isto é, aqueles que não emanaram — eles são anteriores aos Primeiros Membros do Mistério. Para usar uma similitude e correspondência de linguagem, para que compreendais, eles são os Membros do Inefável. E cada um é segundo a dignidade de sua glória: a cabeça segundo a dignidade da cabeça, o olho segundo a dignidade do olho, o ouvido segundo a dignidade do ouvido, e o restante dos Membros [de igual modo]; de modo que é manifesto que 'há muitos membros, mas somente um corpo.' Disto vos falo em um paradigma, uma correspondência e uma similitude, mas não na realidade de sua configuração; não revelei a [completa] palavra em verdade.

"Mas o Mistério do Inefável e todo Membro que nele está — isto é, aqueles que habitam no Mistério do Inefável e aqueles que habitam [nesse Inefável] — e também os três Espaços que se seguem após eles, segundo os mistérios, em verdade e veracidade, tudo isso [é Eu Mesmo]. Eu sou o Tesouro de todos eles, fora do qual não há tesouro, fora do qual não há individualidade no mundo; mas há outras palavras [? logoi], outros mistérios e outras regiões.


A Gnose do Cristo.

A Iniciação dos Discípulos no Monte.

"Agora, portanto, Bem-aventurado é aquele [entre os homens] que encontrou os mistérios do Espaço em direção ao exterior."

Ele é um Deus que encontrou as palavras [? logoi] dos mistérios do segundo Espaço no meio.

Ele é um Salvador e livre de todo espaço que encontrou as palavras dos mistérios, as palavras do terceiro Espaço para o interior.

Ele é o próprio Pleroma (ou mais excelente que o universo) — o objeto de desejo de todos os que estão nesse terceiro Espaço — que encontrou o Mistério no qual eles [todos] estão, e no qual eles [todos] são estabelecidos.

Por que é ele igual a [todos eles]. Pois ele encontrou também as palavras [? logoi] dos mistérios, que eu vos registrei em uma similitude, a saber, os Membros do Inefável.

Amém, eu vos digo, aquele que encontrou as palavras destes mistérios na Verdade de Deus [? o Deus da Verdade], esse homem é chefe na Verdade, ele é seu par, por causa destas palavras e mistérios.

O universo verdadeiramente deve o seu ser a estas palavras e mistérios.

Por essa razão, aquele que encontrou as palavras destes mistérios é igual ao Chefe [de todos]. É a gnose da Gnose do Inefável acerca da qual eu vos falo neste dia."

A segunda série de extratos é muito mais longa e vem no final do Códice, ocupando as pp. 357 — 390. Começa com as palavras:

"Aconteceu, portanto, depois de terem crucificado Jesus, nosso Mestre, que Ele ressuscitou dos mortos no terceiro dia.

E os discípulos se reuniram a Ele e suplicaram-Lhe, dizendo: 'Mestre, tende piedade de nós, pois

EXTRA TOS DE LIVROS DO SALVADOR.

nós deixamos pai e mãe, e o mundo inteiro, e Te seguimos.'"

Somos imediatamente introduzidos a uma atmosfera de cerimônias e invocações.

Jesus está junto ao Mar do Oceano, cercado por seus discípulos, homens e mulheres, e faz invocação com solene oração, dizendo: "Ouve-me, ó Pai, Pai de toda paternidade, Luz Ilimitada!" A oração consiste nas vogais místicas e fórmulas intercaladas com nomes "autênticos".

Os discípulos estão agrupados ao redor d'Ele, as discípulas mulheres ficam atrás, todas vestidas com robes de linho branco; Jesus está diante de um altar e, com Seus discípulos, volta-se para os quatro quadrantes, invocando três vezes o nome IAO.

A interpretação do qual é: "Eu, o pleroma saiu; A, eles retornarão para dentro; O, haverá um fim dos fins."

Isto é seguido por uma fórmula mística, que é interpretada como: "Ó Pai de toda paternidade dos [espaços de luz] ilimitados, ouve-Me por causa de Meus discípulos, que trouxe à Tua presença, para que creiam em todas as palavras da Tua verdade; concede-lhes todas as coisas pelas quais clamei a Ti, pois conheço o Nome do Pai do Tesouro da Luz."

Então Jesus, cujo nome místico é Abera-mentho, invoca o Nome do Pai do Tesouro, dizendo: "Que todos os mistérios dos governantes, autoridades, arcanjos, e todas as potências e todas as obras dos Deuses Invisíveis [sendo seus três nomes místicos dados] se retirem e se enrolem para a direita."


Em seguida, todas as regiões inferiores aceleram para o oeste, à esquerda do disco do sol e da lua.

O disco do sol é simbolicamente descrito como um vasto dragão com a cauda na boca, montado sobre sete potências, e puxado por outras quatro figuradas como cavalos.

A carruagem da lua é figurada como um navio, seus lemes, ou remos de direção, sendo dois dragões, macho e fêmea; é puxada por dois bois, e dirigida por um bebê na popa, e na proa está a face de um gato.

E Jesus e Seus discípulos elevam-se ao alto nas regiões aéreas, o Caminho do Meio, e chegam à primeira ordem do Caminho do Meio.

Aqui os discípulos são instruídos sobre a natureza deste espaço e seus governantes.

Eles são informados de que acima deles há Doze Mundos, seis sendo governados por Adamas e seis por labraoth.

Os seis sob Labraoth se arrependeram e praticaram os mistérios da luz, e por isso foram levados por Leou, "o pai de meu Pai", a uma atmosfera pura próxima à luz do sol.

Os seis sob Adamas recusaram os mistérios da luz e persistiram no mistério do intercâmbio, ou união sexual, e procriaram governantes e arcanjos, e anjos, obreiros e decanos.

Foram, portanto, amarrados por Leou na Esfera do Destino.

Há agora trezentos e sessenta dessa prole, e mais mil e oitocentos (1800 = 360x5) em cada éon.

Sobre eles Leou estabeleceu cinco outros Grandes Governantes, chamados no mundo dos humanos por estes nomes: Kronos, Ares,

Eles entram no Caminho do Meio,

A

Ordenação dos

EXCERTOS DOS LIVROS DO SALVADOR.

Hermes, Afrodite e Zeus.

Seus nomes-mistério incorruptíveis e sua gênese também são dados.

Zeus é a cabeça dos quatro, pois Leou refletiu "que eles precisavam de um leme para conduzir o mundo e os éons das esferas". Zeus é bom e passa três meses nas revoluções dos quatro poderes governantes restantes, "de modo que todo governante ao qual ele chega é libertado de sua iniquidade". A peculiaridade de Zeus é que ele tem dois éons para sua habitação.

Tudo isso se refere à ordenação da Esfera do Destino; mas Maria, que também nestes Excertos é representada como a principal interrogadora, deseja ser informada sobre por que os Caminhos aéreos do Meio, nos quais eles estão, e que se situam abaixo da Esfera do Destino, estão "postos sobre grandes tormentos". Ela suplica ao Salvador que tenha misericórdia deles, "para que os receptores não levem nossas almas aos julgamentos dos Caminhos do Meio".

O Mestre, em resposta, promete dar-lhes os mistérios de toda gnose: o mistério dos Doze Todos os Mistérios dos Governantes, seus selos, seus números, e a maneira de invocação para entrar em suas regiões; da mesma forma, o mistério do Décimo Terceiro Éon (o Esquerdo); o mistério do Batismo dos do Meio; o mistério do Batismo dos da Direita; e o grande mistério do Tesouro da Luz.

Eu vos darei todos os mistérios e toda a gnose, para que sejais chamados os Filhos do Pleroma, perfeitos em toda gnose e em todo mistério.

Bem-aventurados, na verdade, sois vós além de todos os homens que estão sobre a terra, pois os Filhos da Luz vieram em vosso tempo."

Nestes Caminhos do Meio estão ainda ligados Os


Castigos .. dos Caminhos estabelecidos do Meio

Os

Duração dos Casti- gos.

por leou, trezentos e sessenta da prole de Adamas, e cinco grandes dominadores são ainda estabelecidos sobre eles, numa espécie de reflexo do espaço superior.

Os nomes autênticos, tipos e sub-hierarquias desses cinco são dados.

Explica-se como tudo é ordenado por leou, que é a providência de todos os dominadores e deuses e poderes que estão na matéria da Luz do Tesouro, e por Zorokothora (Melquisedeque), o legado de todos os poderes da luz que são purificados entre os Dominadores.

Essas duas grandes Luzes descem em estações determinadas, para reunir o resplendor puro da luz daqueles que purificaram entre os Dominadores; isso se faz quando o número e o tempo de sua tarefa se cumprem.

Mas quando as grandes Luzes se retiram novamente, então os Dominadores rebelam-se de novo por causa da "ira de sua iniquidade", e marcham contra os poderes da luz das almas, e "arrebatam todas as almas que podem saquear e raptar, para destruí-las na fumaça de suas trevas e em seu fogo maligno."

Os tempos que as almas devem passar em cada uma dessas regiões de punição das cinco hierarquias demoníacas são dados, e como esses tempos chegam ao fim.

Para tomar o primeiro como exemplo: "Acontece que, após esses anos, quando a esfera do Pequeno Sabaoth (isto é, Zeus) revolve de modo a entrar no primeiro éon da Esfera, que é chamado no mundo o Carneiro de Bubastis (isto é, Afrodite); quando, então, ela [Afrodite] tiver entrado na sétima casa da Esfera, que é a Balança, [acontece que] os véus entre eles da Direita e

EXTRATOS DOS LIVROS DO SALVADOR.

os da Esquerda são postos de lado, e eis que surge do alto, entre os da Direita, o Grande Sabaoth, o Bom, [senhor] de todo o mundo e de toda a Esfera.

Mas antes que ele surja, ele olha para baixo, para as regiões de Paraplex [o regente da primeira hierarquia demoníaca], para que sejam dissolvidas e pereçam, e para que todas as almas que estão em seus tormentos sejam trazidas e novamente conduzidas para a Esfera, pois estão perecendo nos tormentos de Paraplex."

E assim para os outros quatro dos cinco, com as modificações apropriadas.

Parece que Ieou e Melquisedeque são poderes por trás ou simbolizados pelo sol e pela lua.

"Estas são, então, as operações dos Caminhos do Meio, acerca das quais Me haveis interrogado."

E quando os discípulos ouviram isto, prostraram-se e O adoraram, dizendo: "Salva-nos, ó Mestre, tem misericórdia de nós, para que sejamos preservados destes malignos tormentos que estão preparados para os pecadores.

Ai deles! Ai dos filhos dos homens! Pois são como cegos tateando nas trevas, e não veem.

Tem misericórdia de nós, ó Mestre, na grande cegueira em que estamos, e tem misericórdia de toda a raça humana; pois eles espreitam as suas almas, como leões à sua presa, para as despedaçarem e fazerem alimento para os seus tormentos, por causa do esquecimento e da ignorância em que se encontram.

Tem misericórdia, portanto, de nós, ó Mestre, nosso Salvador, tem misericórdia de nós, preserva-nos deste grande estupor!" KK Eles Entram numa Atmosfera de Luz Excessivamente Grande.


A Visão dos Mistérios do Batismo.

Jesus disse aos seus discípulos: "Tende coragem, não temais, pois sois benditos; não, eu vos farei senhores sobre todos estes, e os colocarei em sujeição sob vossos pés.

Vós vos lembrais de que já vos disse antes da Minha crucificação: 'Dar-vos-ei as chaves do reino dos céus.' Agora novamente vos digo: dar-vo-las-ei."

Quando Jesus assim falou, entoou uma invocação no Grande Nome, e as regiões dos Caminhos do Meio foram ocultadas da vista, e Jesus e Seus discípulos permaneceram numa atmosfera de luz excessivamente grande.

Jesus disse aos Seus discípulos: "Vinde a Mim." E eles vieram a Ele.

Ele voltou-se para os quatro ângulos do mundo; pronunciou o Grande Nome sobre suas cabeças, e os abençoou e soprou sobre seus olhos.

Jesus lhes disse: "Olhai para cima e vede o que contemplais!"

E eles ergueram os olhos para o alto e viram uma grande luz, excessivamente brilhante, que nenhum homem no mundo poderia descrever.

Ele lhes disse uma segunda vez: "Olhai para a luz e vede o que contemplais!"

Eles disseram: "Vemos fogo e água, e vinho e sangue."

Jesus, isto é, Aberamentho, disse aos Seus discípulos: "Amém, eu vos digo: nada trouxe ao mundo quando vim, senão este fogo e água, este vinho e sangue.

Eu fiz descer a água e o fogo da região da Luz da luz, do Tesouro da Luz; fiz descer o vinho e o sangue da região de Barbelo.

EXTRATOS DOS LIVROS DO SALVADOR.

E pouco depois Meu Pai enviou-Me o Espírito Santo em forma de pomba.

"O fogo, a água e o vinho são para purificar todos os pecados do mundo; o sangue Eu o tive como sinal do corpo da humanidade, e Eu o recebi na região de Barbelo, o grande poder do Divino Invisível [? o Décimo Terceiro Éon]; enquanto o Espírito atrai todas as almas e as conduz para a região da Luz."

Este é o "fogo" que Ele veio "lançar sobre a terra", segundo um dito anterior; esta é a "água viva" que a mulher samaritana deveria ter pedido; este é o "cálice de vinho" na eucaristia; esta é a "água" que saiu do Seu lado.

"Estes são os mistérios da luz que remitem os pecados" — isto é, apenas os seus nomes.

Após isso, Jesus novamente dá a ordem de que os poderes da Esquerda retornem à sua própria região, e os discípulos se encontram uma vez mais no Monte das Oliveiras, na Terra.

Em seguida, Jesus celebra a eucaristia mística e o primeiro Batismo de Água, com cerimônias e invocações quase idênticas às do Codex Brucianus.

Os discípulos indagam mais acerca da natureza do Batismo de Incenso [Fogo], do Batismo do Espírito Santo e do Crisma Espiritual, e pedem que o "Mistério da Luz de Teu Pai" lhes seja revelado.

Jesus lhes disse: "Quanto a esses mistérios que buscais, não há mistério que seja mais elevado do que eles.

Eles levarão vossas almas à Luz das luzes, às regiões da Verdade Revelada.


Os Castigos dos Pecadores nas Regiões Inferiores e os Corpos Malignos que Recebem ao Renascer.

A Taça da Sabedoria.

e da Retidão, à região do Santo dos Santos, à região onde não há nem feminino nem masculino, nem forma nessa região, mas apenas Luz, incessante, inefável.

"Nenhum mistério é mais elevado do que os mistérios que buscais, exceto apenas o mistério das Sete Vozes e seus Quarenta e Nove Poderes e Números; e o Nome que é mais elevado do que todos eles, o Nome que resume todos os seus nomes, todas as suas luzes e todos os seus poderes."

Segue-se uma lacuna, e o texto é retomado no meio de um assunto totalmente diferente.

Trata do castigo daquele que amaldiçoa, do difamador, do assassino, do ladrão, do desdenhoso, do blasfemo, daquele que tem relações com homens, e de um ato de feitiçaria ainda mais torpe, cuja menção desperta a infinita compaixão do Mestre para a ira e a denúncia.

As poucas páginas restantes do Codex são ocupadas com uma descrição do estado pós-morte do homem justo que não recebeu os mistérios; um homem deve sofrer por cada pecado separado, mas mesmo o maior dos pecadores, se se arrepender, herdará o Reino.

O tempo favorável para o nascimento daqueles que encontrarão os mistérios é descrito.

Quanto ao homem justo que não foi iniciado, em seu próximo nascimento não lhe será dado o trago do esquecimento, mas "vem um receptor do pequeno Sabaoth, o Bom, ele do Meio; ele traz um cálice cheio de intuição e sabedoria, e também prudência, e o dá à alma, e lança a alma em um corpo que não será

EXTRATOS DOS LIVROS DO SALVADOR.

capaz de adormecer e esquecer, por causa do cálice de prudência que lhe foi dado, mas será sempre puro de coração e buscará os mistérios da luz, até que os encontre, por ordem da Virgem da Luz, a fim de que [essa alma] possa herdar a Luz para sempre."

Os Extratos terminam com os discípulos novamente suplicando a Jesus que tenha misericórdia deles; e todo o Codex é encerrado pela nota de um escriba descrevendo a pregação dos apóstolos:

"Saíram três a três para os quatro pontos do céu; pregaram as Boas Novas do Reino em todo o mundo, estando o Cristo ativo com eles nas palavras de confirmação e nos sinais e maravilhas que os acompanhavam.

E assim foi conhecido o Reino de Deus em toda a terra e em todo o mundo de Israel, [e isto] é um testemunho para todas as nações que estão do oriente até o ocidente." RESUMO DOS FRAGMENTOS


DO LIVRO DO GRANDE LOGOS

SEGUNDO O MISTÉRIO.

A primeira página é encabeçada pelas belas palavras: "Eu vos amei e anseiei dar-vos Vida", e é seguida pela declaração: "Este é o Livro das Gnoses (pl.) do Deus Invisível"; é o Livro da Gnose de Jesus, o Vivente, por meio do qual todos os mistérios ocultos são revelados aos eleitos.

Jesus é o Salvador das Almas, o Logos da Vida, enviado pelo Pai do Mundo de Luz à humanidade, que ensinou aos Seus discípulos a única e exclusiva doutrina, dizendo: "Esta é a doutrina na qual habita toda a Gnose."

Isto é evidentemente uma introdução escrita por um editor ou compilador; imediatamente após, começa um diálogo entre Jesus e os discípulos.

Jesus diz: "Bem-aventurado é o homem que crucifica o mundo e não deixa que o mundo o crucifique."

Ele então explica que tal homem é aquele que encontrou a Palavra Oculta e a cumpriu segundo a vontade do Pai.

Os apóstolos suplicam ao Mestre que lhes revele essa Palavra, pois deixaram tudo e O seguiram; desejam ser instruídos na Vida do Pai.

Jesus responde que a Vida de Seu Pai consiste em purificarem suas almas de toda mácula terrena, e fazê-las tornar-se a Raça da Mente, para que sejam preenchidos de entendimento, e por

LIVRO DO GRANDE LOGOS.

Seu ensinamento aperfeiçoarem-se a si mesmos, e serem salvos dos Governantes deste mundo e de suas infinitas armadilhas.

Que se apressem então a receber a Gnose que Ele está para transmitir — Sua Palavra — pois Ele está livre de toda mácula do mundo.

Os discípulos irrompem em louvores ao Mestre — como a Luz que brilha na luz do dia — que iluminou seus corações até receberem a Luz da Vida, por meio da Gnose que ensina a sabedoria oculta do Senhor.

Jesus diz: "Bem-aventurado é o homem que conhece esta [Palavra] e fez descer o Céu, e suportou a terra e a elevou para os céus; e

Explicado.

ela [a Terra] torna-se o meio, pois é um 'nada'."

O Céu é explicado como sendo a Palavra invisível do Pai.

Aqueles que conhecem isto — (que se tornam filhos da verdadeira Mente) — fazem descer o Céu à Terra.

A elevação da Terra ao Céu é o cessar de ser uma inteligência terrena, ao receber a Palavra destas Gnoses (pl.) e tornar-se um Habitante do Céu.

Assim serão eles salvos do Governante deste Mundo, e ele se tornará o meio (isto é, talvez, que eles estarão acima do Governante e não mais sujeitos a ele como antes; ele será um "nada" para eles, isto é, não terá efeito sobre eles). Não, os poderes malignos os invejarão porque eles O conhecem, que Ele não é deste mundo e que nenhum mal provém Dele.

Mas quanto àqueles que nascem na carne da injustiça (e não são filhos da Raça Justa, aqueles do segundo nascimento), eles não têm parte no Reino do Pai.


Então os discípulos ficam em desespero, pois eles A Carne da nasceram "segundo a carne" e O conheceram apenas Ignorância. "segundo a carne". Mas o Mestre explica que não se refere à carne de seus corpos, mas à carne da injustiça e da ignorância.

Os discípulos pedem para serem instruídos sobre a natureza da ignorância (agnoia, o oposto da gnose, gnosis), e o Mestre lhes diz que, para compreender este grande mistério, devem primeiro vestir Sua virgindade e justiça, e Sua veste (de glória), e buscar compreender o ensinamento do Verbo, pelo qual aprenderão a conhecê-Lo na Plenitude (Pleroma) do Pai.

Os apóstolos responderam e disseram: "Senhor Jesus, Tu, o Vivente, ensina-nos a Plenitude, e isso nos basta."

Aqui, infelizmente, o texto se interrompe e páginas se perdem; em nenhum lugar do manuscrito se encontra uma continuação direta.

Tomando primeiro o Segundo Livro de Jeu de Schmidt, somos apresentados à seguinte narrativa.

Jesus ordena aos doze discípulos e também às discípulas mulheres que O cerquem, e promete revelar-lhes os grandes mistérios do Tesouro da Luz, que ninguém no Deus Invisível conhece (isto é, ninguém, mesmo entre os poderes do Décimo Terceiro Eon — o Eon que circunda ou está além ou dentro dos Doze Eons — sobre o qual o Deus Invisível é governante). Se estes mistérios forem consumados, nem os Governantes dos Doze Eons nem os do Deus Invisível poderão suportá-los nem compreendê-los,

LIVRO DO GRANDE LOGOS.

pois são os grandes mistérios do interior dos interiores do Tesouro de Luz.

Quando estes são consumados, os Receptores do Tesouro de Luz vêm e tomam a alma do corpo, e a conduzem através de todos os espaços inferiores até o Tesouro de Luz.

Sim, os pecados dessa alma, sejam conscientes ou inconscientes, são apagados, e a alma torna-se Luz pura.

E não apenas a alma purificada passa através de todos os espaços inferiores, mas também para dentro, até o Reino da Luz, sempre para dentro, através de todos os seus espaços, ordens e poderes, até o espaço dos Incontíveis no espaço mais íntimo do Tesouro de Luz.

Estes mistérios devem ser guardados com o máximo sigilo, e revelados a nenhum dos que são indignos; revelados nem a pai nem a mãe, nem a irmã nem a irmão, nem a digno nem a qualquer parente; nem por carne nem por bebida, nem por mulher nem por ouro nem por prata, nem por qualquer coisa deste mundo.

Acima de tudo, a nenhum feiticeiro, àqueles que praticam certos ritos mais abomináveis, cujo Deus é o filho do Grande Governante, Sabaoth Adamas — o inimigo do Reino dos Céus, o chefe dos seis Regentes impenitentes.

O nome-mistério desse poder é dado e sua forma monstruosa é descrita.

Somente aqueles são dignos dos mistérios do Tesouro de Luz (a emanação do Deus Inacessível) que abandonaram o mundo inteiro e tudo o que lhe pertence, seus deuses e poderes, e centraram toda a sua fé na Luz, dando ouvidos uns aos outros, e submetendo-se uns aos outros, como fazem os filhos da Luz.

Agora, visto que os discípulos deixaram o pai Os Mistérios Menores.


Os Bons Mandamentos.

e  mãe  e  irmãos  e  todas  as  suas  possessões,  e  O  seguiram  e  cumpriram  os  Seus  mandamentos,  Jesus  promete  que  lhes  revelará  os  mistérios  da  seguinte  forma:  O  mistério  dos  Doze  Eons  e  dos  seus  Receptores,  e  o  modo  da  sua  invocação,  para  que  os  discípulos  possam  atravessar  os  seus  espaços;  o  mistério  do  Deus  Invisível  (o  Décimo  Terceiro  Eon)  e  os  seus  Receptores  (os  da  Esquerda),  etc.

;  dos  do  Meio,  etc.

;  dos  da  Direita.

Mas  antes  de  tudo,  Ele  lhes  dará  os  mistérios  dos  três  Batismos —  o  Batismo  de  Água,  o  Batismo  de  Fogo  e  o  Batismo  do  Espírito  Santo.

Além  disso,  Ele  lhes  dará  o  Mistério  de  Retirar  a  Malícia  ou  Maldade  (KCLKIO)  dos  Governantes,  e  depois  o  Mistério  do  Crisma  Espiritual.

Mas  devem  lembrar-se  de  que,  quando  por  sua  vez  derem  esses  mistérios  a  outros,  devem  ordenar-lhes  que  não  jurem  falsamente,  nem  mesmo  que  jurem  de  todo;  que  não  forniquem  nem  cometam  adultério;  que  não  roubem  nem  cobice  os  bens  alheios;  que  não  amem  a  prata  nem  o  ouro,  nem  invoquem  os  nomes  dos  setenta  e  dois  Governantes  malignos  ou  dos  seus  anjos  para  qualquer  fim;  que  não  roubem,  nem  amaldiçoem,  nem  caluniem  falsamente,  nem  injuriem,  mas  que  o  seu  sim  seja  sim  e  o  seu  não  seja  não;  em  uma  palavra,  devem  cumprir  os  bons  mandamentos.

Os  discípulos  lembram  a  Jesus  que  a  Sua  primeira  promessa  fora  a  de  que  lhes  seriam  dados  os  mistérios  do  Tesouro  da  Luz,  os  maiores,  que  estão  acima  desses  mistérios  inferiores  dos  quais  Ele  falou.

Vendo  então  que  os  discípulos  não  apenas

LIVRO   DO   GRANDE   LOGOS.

Abandonaram todas as coisas do mundo e guardaram todos os mandamentos, mas agora, além disso, seguiram a Ele, o Maior, por doze anos; Jesus lhes assegura que lhes dará ainda os mistérios do Tesouro da Luz, a saber: o mistério dos Nove Guardiões dos três Portões do Tesouro da Luz e o modo de sua invocação, para que possam atravessar seus espaços; o mistério da Criança da Criança, etc.; o dos Três Améns; o das Cinco Árvores; o das Sete Vozes; a vontade (? mistério) dos Quarenta e Nove Poderes; o mistério do Grande Nome de todos os nomes, isto é, da Grande Luz que contém, ou está além, do Tesouro da Luz.

Os mestre-mistérios do Tesouro da Luz são os das Cinco Árvores, das Sete Vozes e do Grande Nome.

Há, contudo, ainda outro mistério supremo, que confere a um homem todos os demais — o Mistério do Perdão dos Pecados; este Mistério transmuta a alma em luz pura, de modo que ela possa ser recebida na Luz das luzes.

Tais almas já herdaram o Reino de Deus enquanto ainda na terra; têm sua parte no Poder do Tesouro da Luz e são Deuses imortais; e, na morte, quando deixam o corpo, todos os Éons se dispersam e fogem para o oeste, para a esquerda, até que suas almas cheguem aos Portões do Tesouro da Luz.

E os Portões se lhes abrem, e os Guardiões lhes dão seus selos e seu Grande Nome.

Assim, passam para dentro, sucessivamente, através das diversas Ordens, onde recebem os selos e as palavras-mestras sucessivos — para dentro, até as Cinco Árvores e as Sete Vozes; sim, ainda mais adiante O Rito Místico do Batismo da Água da Vida.


para dentro, até as Ordens dos Sem-Pais, aos espaços de sua herança — a Ordem dos Três-espirituais; até alcançarem o espaço do Ieou, o Senhor sobre todo o Tesouro — o Tesouro do Meio; dali, sempre para dentro, até os Tesouros interiores — os espaços do interior dos interiores, o dentro do dentro, até os Silêncios, até a Paz Eterna, naqueles Espaços Eternos.

Todos esses mistérios Jesus promete dar a Seus discípulos, para que sejam chamados "Filhos da Plenitude (Pleroma) aperfeiçoados em todos os mistérios."

O Mestre então reúne Seus discípulos, homens e mulheres, ao Seu redor com as palavras: "Vinde todos vós e recebei os três Batismos, antes que eu vos revele o mistério dos Arcontes!"

Ele lhes ordena que vão à Galileia e encontrem um homem ou mulher em quem a maior parte do mal (ou o excesso da maldade) esteja morta, isto é, que tenha cessado o intercurso ou a sexualidade (συνουσία), e recebam de tal pessoa duas jarras de vinho e as tragam ao lugar onde Ele está, e também dois ramos de videira.

Eles assim o fazem, e o Mestre prepara um lugar de oferenda (θυσία), colocando uma jarra de vinho à direita e outra à esquerda, e espalha certas bagas e especiarias ao redor dos vasos; Ele então faz os discípulos vestirem-se com vestes de linho branco, coloca uma certa planta em suas bocas, e o número das Sete Vozes, e também outra planta em suas mãos, e os dispõe em ordem ao redor do sacrifício.

Jesus então estende um pano de linho, e sobre ele coloca um cálice, e pão ou pães conforme o número

LIVRO DO GRANDE LOGOS.

dos discípulos; Ele circunda isso com ramos de oliveira, e também coloca coroas de ramos de oliveira sobre as cabeças de Seus discípulos.

Em seguida, Ele sela suas frontes com um certo selo (cujo diagrama, nome autêntico e interpretação — também em cifra secreta — são fornecidos).

O Mestre então se volta com Seus discípulos para os quatro cantos do mundo, e aos discípulos é ordenado que juntem os pés (uma atitude de oração). Ele então oferece uma oração que é precedida por uma invocação na língua dos mistérios, entremeada com tríplices Améns, e continua como se segue:

Ouve-Me, Meu Pai, Pai de toda paternidade, Luz Ilimitada, que estás no Tesouro de Luz! Que venham os Apoiadores [ou Ministros (Trapao-Tarai)], que servem às Sete Virgens de Luz que presidem o Batismo de Vida! [Os nomes-mistério dos Apoiadores são aqui dados.] Que eles venham e batizem Meus discípulos com a Água da Vida das Sete Virgens de Luz, e lavem seus pecados e purifiquem suas iniquidades, e os contem entre os herdeiros do Reino de Luz! Se agora Tu Me ouviste e tiveste piedade de Meus discípulos, e se eles foram contados entre os herdeiros do Reino de Luz, e se Tu perdoaste seus pecados e apagaste suas iniquidades, então que um milagre seja feito, e Zorokothora venha e traga a Água do Batismo de Vida para um destes jarros de vinho!

O milagre acontece, e o vinho no jarro à direita torna-se água; e Jesus os batiza, e lhes dá do sacrifício, e os sela com o selo (? dos Apoiadores), para sua grande alegria.

Este é o Batismo de Água; a seguir temos uma descrição do Batismo de Fogo.

Neste rito, são usados ramos de videira; eles são espalhados com vários materiais de incenso.

A eucaristia é preparada como antes, e o restante dos detalhes é quase idêntico; o número das Sete Vozes é novamente usado, mas o selo é diferente.

A oração é mais longa que a anterior, mas com o mesmo propósito; os batizadores supernos não são mais os Ministros das Sete Virgens, mas a Virgem da Vida, ela mesma, a Juíza; é ela quem dá a Água do Batismo de Fogo.

Um milagre é pedido "no fogo deste incenso fragrante", e é realizado pela agência de Zorokothora, um nome agora interpretado como Melquisedeque.

Qual era a natureza do milagre, não é declarado.

Jesus batiza os discípulos, dá-lhes do sacrifício eucarístico, e sela suas testas com o selo da Virgem da Luz.

Em seguida vem o Batismo do Espírito Santo.

Neste rito, tanto as jarras de vinho quanto os ramos de videira são usados; os detalhes são, de resto, muito semelhantes, sendo novamente empregado o número do Espírito Santo das Sete Vozes.

Os doadores supernos do Batismo não são mencionados, mas como o selamento final após o rito é com o selo das Sete Virgens da Luz, podemos supor que eles são os doadores do Batismo.

Um prodígio novamente ocorre, mas não é mais especificado.

Depois disso, temos o Mistério da Retirada do Mal dos Governantes.

Não há aqui menção à eucaristia, mas em outros aspectos o cerimonial é muito semelhante, e consiste em uma elaborada oferenda de incenso.

O número é o do Primeiro Amém e dos Governantes. O selo é muito elaborado.

A oração pede que Sabaoth Adamas e todos os seus chefes venham e retirem o mal ou a maldade deles (dos Governantes) dos discípulos.

Ao final dela, os discípulos são selados com o selo do Segundo Amém, e os Governantes não têm mais poder sobre eles; eles agora se tornaram imortais e podem seguir Jesus em todos os espaços para onde quiserem ir.

Tendo Jesus agora dado aos discípulos os mistérios dos Batismos, o modo de invocar os poderes, seus números, selos e nomes autênticos, promete dar-lhes as apologias (defesas ou fórmulas), pelas quais eles agora poderão entrar no interior dos espaços ou reinos desses poderes e atravessá-los.

Até onde foram ensinados, eles serão habilitados, quando fora do corpo, a passar pelos reinos aparentemente dos seis Eons que não se arrependeram, os de Sabaoth Adamas; estes, com todos os seus governantes e habitantes, se dispersarão diante deles.

Mas ao alcançar os seis grandes Eons (aqueles aparentemente de labraoth, que se arrependeram e acreditaram na Luz), eles serão detidos até receberem o Mistério do Perdão dos Pecados.

O Mistério do Perdão dos Pecados diz-se ter seu ser no interior do interior dos Tesouros da Luz; é a perfeita salvação da alma.

Aquele que o recebe é mais excelente do que todos os deuses e poderes dos doze Eons. O Mistério do Deus Invisível (o Regente do Décimo Terceiro


Eon). Este Mistério é o Grande Mistério do Deus Inacessível; é a perfeição de todos os mistérios, tornando a alma toda-perfeita.

É este Mistério que permitirá aos discípulos passar para os Eons do Deus Invisível — isto é, os espaços que nenhum olho físico pode ver, além dos elementos da água, do fogo e do ar (ou éter) — os mistérios batismais dos quais já foram dados.

Mas com o auxílio do rito do Mistério do Perdão dos Pecados, todos os Eons se retirarão para o oeste, para a esquerda, como véus diante dos olhos, até o décimo segundo, que será então tão purificado pela Luz do Tesouro de Luz, que todos os caminhos pelos quais os discípulos tiverem ascendido serão purificados; e além disso, o exterior do Tesouro de Luz (sendo o exterior o Espaço do Décimo Terceiro Eon) será revelado, e eles verão o Céu de baixo.

Será neste ponto que Jesus lhes dará as apologias, selos e números do Mistério com suas interpretações.

E quando tiverem recebido estes e saírem do corpo, tornar-se-ão luz pura e voarão para cima, para o Tesouro de Luz.

E então os Guardiões das Portas do Tesouro lhes abrirão, e eles passarão para cima e sempre para dentro através dos seguintes espaços, regozijando-se os poderes ali presentes e dando-lhes seus mistérios, selos e nomes de poder: as Ordens dos Três Améns, da Criança de

LIVRO DO GRANDE LOGOS.

a Criança, dos Gêmeos Salvadores, do Grande Sabaoth, do Grande Iao, o Bom, dos Sete Améns, das Cinco Árvores, das Sete Vozes; as Ordens dos Incontíveis, dos Impassíveis; as Ordens daqueles que estão antes e além (no tempo e no espaço) dos Incontíveis e Impassíveis; as Ordens dos Imaculáveis, e daqueles que estão antes e além deles; as Ordens dos Imóveis, e daqueles que estão antes e além deles; as Ordens dos Sem-Pais, e daqueles que estão antes deles; as Ordens das Cinco Impressões, dos Três Espaços, dos Cinco Sustentadores, do Tríplice-Espiritual, do Triplo Poder, do Primeiro Preceito (ou Estatuto), da Herança, dos Silêncios e da Paz, dos Véus que são estendidos diante do Grande Rei do Tesouro de Luz, até o próprio Grande Homem, o Rei de todo o Reino de Luz, cujo nome é Ieou.

Esses espaços e ordenações também são mencionados no tratado Pistis Sophia, mas eu os omiti no resumo para não confundir o leitor.

O assunto é extremamente difícil, e ninguém até agora conseguiu reconstruir em detalhe o elaborado esquema da Gnose pressuposto pelo compilador ou compiladores de nossos tratados, devido em grande medida ao estado fragmentário do Códice Brucianus, por um lado, e aos dados insuficientes do Códice Askew, por outro.

Ainda assim, para cima e para dentro devem eles alçar voo ao Espaço da Grande Luz que circunda ou transcende o próprio Tesouro de Luz exterior.

Ieou

LL está lá também, ele é a Grande Luz; este é o Segundo ou interior Tesouro de Luz.


Os guardiões abrirão os Portões e eles passarão para as Ordens dos Triplos Poderes do Segundo Tesouro de Luz; dali para dentro, à décima segunda Ordem do décimo segundo Grande Poder da emanação do Deus Verdadeiro.

Há doze Grandes Poderes com doze Chefes em cada uma de suas Ordens (dos quais os nomes autênticos são dados). Esses Doze permanecerão à parte neste Espaço e invocarão o Deus Verdadeiro com este "Nome" (? oração), dizendo:

"Ouve-nos, ó Pai, Pai de toda paternidade! [Segue-se aqui uma frase na linguagem do mistério contendo quatro das vogais, cada uma repetida sete vezes — com a interpretação: Isto é, Pai de toda paternidade, pois o Todo saiu do Alfa e retornará ao Ômega quando se cumprir a consumação de todas as consumações.] Invoquemos agora Teus Nomes imperecíveis, para que envies Teu grande Poder-Luz, e que ele siga estes Doze Incontíveis [isto é, os doze discípulos], pois eles verdadeiramente receberam o Mistério do Perdão dos Pecados e, portanto, não devem ser impedidos de se aproximar de Teu Tesouro de Luz."

Então o Deus Verdadeiro enviará seu Poder-Luz; ele brilhará por detrás dos discípulos e fará com que todos os Tesouros do Segundo Reino de Luz se retirem, e eles alcançarão o Espaço do Deus Verdadeiro.

Então o Deus Verdadeiro, por sua vez, invocará o

LIVRO DO GRANDE LOGOS.

Deus Inabordável, isto é, o Uno e

Único, e Ele enviará uma invocação de Poder-Luz

de Si mesmo, para o Espaço do Deus Verdadeiro, e os

discípulos serão aperfeiçoados em toda plenitude e

constituídos numa Ordem naquele Tesouro.

Eles cantarão

hinos de louvor ao Deus Inabordável,

pois, ainda no corpo, receberam o

Mistério do Perdão dos Pecados e alcançaram

o Espaço do Deus Verdadeiro.

Os discípulos então pedem que lhes seja dado este Grande Mistério; o Mestre promete que o dará; O Mistério mas antes de recebê-lo, devem ser informados do mistério dos Doze dos Doze (supremos) Éons, seus selos, nomes e apologias.

Estes são dados, diagramas de selos, nomes, números e apologias; sendo a última na forma "Abri caminho [nomes de mistério], vós, Governantes do primeiro (segundo, etc.) Mou, pois invoco [outros nomes de mistério — sendo estes nomes superiores do tesouro de luz]."

O sexto (? sétimo) Éon é chamado o Pequeno Meio, pois pertence aos seis Éons que creram na Luz; os Governantes desses Éons têm um pouco de bem neles.

No décimo segundo Éon estão o Deus Invisível, Barbelo e o Deus Ingerável.

O Deus Invisível está em um espaço sozinho no décimo segundo Éon, com véus estendidos diante dele, e nesse Éon há muitos outros deuses chamados os grandes governantes dos Éons, embora servos do Deus Invisível, de Barbelo e do Deus Ingerável.

No décimo terceiro Éon estão o Grande Deus Invisível, o Grande Espírito Virginal (? Barbelo) e os quatro O Décimo Terceiro


O Décimo Quarto

e vinte emanações do Deus Invisível.

Os nomes misteriosos desses quatro e vinte são dados, e também a invocação dos nomes superiores do Tesouro da Luz, nos quais estão contidas uma série de ômegas triplos repetidos quatro vezes, e uma série de etas triplos repetidos quatro vezes.

Diz-se que os nomes dessas emanações são seus nomes "desde o princípio".

Ainda mais alto no décimo quarto Éon está um segundo Grande Deus Invisível, e outro Grande Deus chamado o "Grande Justo" (XPI&TOS); ele é um poder dos três Governantes da Luz que estão dentro de todos os Éons, mas fora do Tesouro da Luz.

Aqui também há números de emanações.

Os poderes deste Éon tentarão deter os discípulos para que eles realizem os mistérios de Jesus nesses espaços, e assim esses poderes mesmos recebem poderes adicionais dos poderes do Tesouro da Luz.

Os discípulos, no entanto, recebem os selos, números e apologias apropriados, para que os poderes se retirem.

Agora, os três Grandes Governantes que estão dentro de todos esses Invisíveis (isto é, as emanações dos Décimo Terceiro e Décimo Quarto Éons), mas fora do Tesouro da Luz, são chamados os Deuses de Triplo Poder, e estão acima de todos os outros.

Eles mesmos receberam os mistérios do Tesouro da Luz, pois quando o Primeiro Poder saiu (do Reino da Luz), eles primeiramente permaneceram nele (o Poder), e quando emergiram dele, o Reino da Luz foi pregado a eles.

"Eu lhes dei," diz o Mestre, "os mistérios

LIVRO DO GRANDE LOGOS.

que vos dei, mas não lhes dei o Mistério do Perdão dos Pecados.

. . . Portanto, agora vos digo que eu, quando separar todos os Eons, darei a estes três Governantes da Luz, que estão no último [mais alto] de todos os Eons, o Mistério do Perdão dos Pecados, porque eles creram no Mistério do Reino da Luz."

Ninguém pode passar além deles até que tenha recebido o Mistério do Perdão dos Pecados; mas, continua o Mestre, eles não devem temer por causa disso, pois não há lugar de punição nesses espaços, pois seus habitantes receberam os Mistérios (?de Batismo).

Os selos, nomes e apologias desses poderes são então dados, e aqui, infelizmente, o texto se interrompe abruptamente, e chegamos ao fim do Segundo Livro de Jeu de Schmidt.

Tomando agora o Primeiro Livro de Schmidt, chegamos em seguida a uma descrição do Mundo médio da Luz, e

Concernindo

Jeu, o

seu Governante, o Verdadeiro Deus, o Demiurgos, Emanador do

Mundo médio da Luz.

acima do qual estão os Tesouros do Pleroma

do Pai.

Jesus ainda é o narrador.

O assunto é de imensa complexidade, com infinitas emanações, tesouros (isto é, depósitos de riquezas e plenitude), espaços, ordens e hierarquias, com diagramas e símbolos, e hostes de nomes "autênticos" (para mim) absolutamente ininteligíveis, que se diz estarem "na língua de meu Pai". O nome autêntico do Demiurgos superno é traduzido como o Verdadeiro Deus ou Deus da Verdade, e é dado em transliteração grega como Jeu, que Schmidt translitera para o alemão como Jeu.


Sugiro que Jeu é uma transliteração

O Tetra-

do nome místico de quatro letras do criador, segundo a tradição semítica e caldaica, o tetragrammaton da Cabala.

Teodoreto nos diz que os samaritanos pronunciavam esse nome como Iabe (Iave) e os judeus como Iao.

Desde o século XVI, ao adicionar as vogais de Adonai ao impronunciável Y H V H, tem sido pronunciado Jeová.

Atualmente, escreve-se geralmente Yahweh; mas não há certeza no assunto, além do fato de que Jeová está absolutamente errado.

Leou ou Iao são provavelmente tentativas de transliteração grega do mesmo nome semítico, que continha letras totalmente irrepresentáveis em grego; Yahoo ou Yahuwh, porventura, o nome oculto em Iacchus (Yach), ainda mais corrompido para Baco pelos gregos. Iacchus era o nome de mistério do poder criativo naquela grande tradição de mistérios; Baco era o nome no culto popular.

Mas continuemos com nosso resumo.

Jesus, o Vivente, aparentemente levou seus discípulos consigo através dos espaços interiores do mundo invisível e os trouxe ao plano deste Deus Verdadeiro, do qual Ele dá a instrução mística sobre a dispensação criativa do universo, no Reino da Luz.

Ele primeiro lhes mostra Ieou em sua própria natureza, como uma simples emanação dos Inefáveis Tesouros do Pai, antes de ele, por sua vez, ter emitido emanações por ordem do Pai.

Diz-se que uma estranha combinação de letras e sinais é o

LIVRO DO GRANDE LOGOS.

"nome" deste Deus "segundo os tesouros que estão fora desta região" — isto é, ou os planos abaixo ou subplanos daquele plano.

Em seguida vem um diagrama — um quadrado circundando um círculo, dentro do qual há outro quadrado contendo três linhas; diz-se que este diagrama é o tipo dos tesouros sobre os quais Ieou governará, e é também o tipo do próprio Ieou antes de ele emanar.

Mas de Ieou virão uma hoste de emanações, por ordem do Pai, que por sua vez se tornarão pais de tesouros; cada um desses pais também será chamado Ieou.

Essa ordenação é efetuada por Jesus como o Logos; mas o Deus Verdadeiro é o pai de todos esses pais ou paternidades, pois ele é uma emanação direta do Pai, e através dele e dele procederá toda emanação subsequente.

Além disso, de cada um dos leou subordinados, por ordem do Pai, procederão outras hostes para preencher os tesouros, e serão chamadas Ordens (ou hierarquias) dos Tesouros da Luz.

Miríades de miríades surgirão deles.

Estamos, portanto, no Reino da Luz.

Em seguida, recebemos um diagrama que se diz ser o tipo do Deus Verdadeiro antes de ele O Tipo do

Jr . o Deus

emanar, isto é, quando as subsequentes Verdadeiro leou.

emanações jaziam potenciais dentro dele.

O diagrama é como um ovo, com um ovo menor ou núcleo em seu interior contendo três linhas ou traços.

As circunferências superiores, ou cascas, tanto do ovo quanto do núcleo estão ausentes, como se para representar o raio de Luz criativo do Pai fluindo para dentro deles.


É muito provável, portanto, que nestes Os diagramas quadrados místicos possam representar tesouros ou o lado substância, enquanto círculos possam representar deuses ou o lado energia — mas estes podem se intercambiar, pois a substância de um plano ou fase torna-se a energia do plano abaixo.

Os três traços parecem representar a tríade potencial ou trindade latente em toda manifestação, e esta tríade agindo dentro da tétrade dos quadrados produz a ordenação infinita em doze ou dodecadas.

Devemos também lembrar que, com toda probabilidade, temos apenas uma reprodução muito imperfeita desses diagramas, pois temos de levar em conta a tradução e a cópia e recópia por escribas ignorantes.

Diz-se que as três linhas são as três Vozes, que leou enviará quando for ordenado "a louvar o Pai", isto é, a emanar, pois é assim que o canto criativo de louvor é entoado.

Em seguida, temos um diagrama do primeiro momento desta emanação cósmica; é curioso notar que os símbolos usados se assemelham muito a um espermatozoide e um óvulo.

Dentro de um quadrado há um pequeno círculo com seu diâmetro prolongado, de modo que representa muito bem a cabeça e a cauda de um espermatozoide; o óvulo consiste em três círculos concêntricos, o mais interno dos quais possui um diâmetro e é do mesmo tamanho que a cabeça do espermatozoide, que também tem um diâmetro semelhante; há assim duas das linhas ou traços ou Vozes ainda latentes, e apenas uma é até agora manifesta.

Em seguida vem um diagrama cuja metade superior aparentemente repete o diagrama anterior, e

LIVRO DO GRANDE LOGOS.

a metade inferior consiste em seis círculos concêntricos

com um ponto no centro.

Este último é chamado O Selo

sobre a

o selo (σφραγίς) sobre a face ou testa de

Testa

Ieou, e diz-se ser o tipo dos tesouros.

Esta emanação do Deus Verdadeiro é causada

pelo influxo, no Deus Verdadeiro, de um Poder-luz

proveniente dos inefáveis tesouros acima, em resposta

a uma invocação de Jesus como o Logos, clamando

pelo Nome de Seu Pai.

O Poder-luz é chamado

a "Pequena Ideia", presumivelmente para significar que, embora

tenha poder para energizar toda a criação, é contudo

pequeno comparado às verdadeiras "Grandezas" ou Ideias

na Mente Divina.

O que se segue está além da minha capacidade de resumir.

Temos diagramas de uma série de vinte e oito Ieous, antes de o texto novamente se interromper abruptamente.

Qual era o número completo no original é agora impossível de dizer; Schmidt supõe trinta.

Os diagramas parecem ter sido copiados com muito descuido, mas apresentam certas características gerais.

A parte superior geralmente consiste em seis quadrados, um dentro do outro; dentro do menor quadrado está a palavra Ieou, e o nome-mistério especial do Ieou ou tesouro ao qual o diagrama se refere.

Esses nomes são geralmente colocados sobre uma pequena figura oblonga (ou duas linhas), que se diz representarem a "raiz" dos espaços ou regiões em que o Ieou particular está situado.

Acima e abaixo, atravessando os lados superior e inferior dos seis quadrados, há duas linhas paralelas, que se diz denotarem os caminhos pelos quais se deve viajar para entrar no espaço do pai do tesouro.

Esses caminhos onde cruzam os lados do quadrado são marcados por letras gregas, alfas, que se diz representarem as cortinas ou véus que são estendidos diante do pai.


Acima de cada diagrama de quadrados encontramos novamente as três linhas ou traços, que agora se diz serem os três Portões ou Portas de cada tesouro.

Cada tesouro tem doze ordens, cujos nomes autênticos dos Chefes de cada uma são anexados, juntamente com os nomes autênticos dos três Guardiões ou Vigilantes dos Portões.

A metade inferior de cada diagrama consiste no selo sobre a fronte do leou; esses selos são em sua maioria círculos com conteúdos variados, mas é extremamente difícil traçar qualquer conexão entre eles.

Entre o segundo e o terceiro diagrama do leou está o Doze, outra figura que difere inteiramente do restante da

a Ordem

de Jesus.

série; quanto ao seu significado, não tenho noção.

É seguido por estas palavras de Jesus: "Dessas ordens tomarei Doze e os alinharei para Mim, para que Me sirvam." Isso provavelmente se refere aos protótipos das almas dos discípulos que Jesus escolhe para Si antes de sua encarnação, como aprendemos na Pistis Sophia.

Com o vigésimo oitavo diagrama o texto se interrompe subitamente; e o próximo assunto que encontramos, de acordo com a ordenação das folhas de Schmidt, é um hino que Jesus canta ao Primeiro Mistério.

Após imprimir este fragmento neste lugar, Schmidt chegou à conclusão de que estas páginas devem ser separadas e tratadas como fragmentos de

LIVRO DO GRANDE LOGOS.

outra obra, com base em que não poderiam ser trazidas a uma unidade orgânica com o restante.

Estamos agora no espaço ou plano inferior dos Treze Eons, cada um dos quais tem seu pai ou criador, seu Ieou, com governantes e poderes subordinados, os primeiros chamados decanos e liturgi, significando servidores, ministros ou obreiros.

Há treze louvores, um para cada Eon, mas o texto dos quatro primeiros está faltando.

O teor geral de cada petição é o seguinte:

"Dá ouvidos a mim, enquanto canto Teus louvores, ó Tu, Primeiro Mistério, que brilhaste em seu mistério [isto é, o mistério daquele Eon particular]; foi Tua Luz que fez Ieou ordenar este Eon e estabelecer nele seus governantes, ministros e obreiros.

[Segue-se então o "nome imperecível" do Eon.] Salva todos os meus Membros (Membros), que desde a fundação do mundo foram dispersos por todos os governantes, ministros e obreiros deste Eon, e reúne-os todos e recebe-os na Luz!"

A petição final é concluída por um tríplice Amém.

A peculiaridade do louvor com relação ao Décimo Terceiro Ieou consiste no fato de que ele é tratado aparentemente como um plano ou espaço separado.

Por comando do Primeiro Mistério, o Ieou deste espaço trouxe à existência o espaço das vinte e quatro emanações invisíveis, com todos os seus governantes, deuses, senhores, arcanjos e anjos, seus ministros e obreiros; além disso, a este espaço do Décimo Terceiro Eon são atribuídos os "três deuses". Ademais, por comando do Primeiro Mistério, os seis Governantes sob Iabraoth, que creram no Reino da Luz, são colocados logo abaixo deste Décimo Terceiro Eon, em um espaço de ar puro, sendo os seis Governantes impenitentes aparentemente atribuídos à atmosfera inferior e impura.


Com relação à dispersão dos Membros, podemos lembrar ao leitor a citação de Epifânio do Evangelho de Filipe: "Reconheci a mim mesmo e reuni-me de todos os lados."

"Não semeei filhos para o Governante [o senhor deste mundo], mas arranquei suas raízes; reuni meus membros que estavam dispersos, e sei quem tu és."

Somos agora introduzidos a um novo assunto.

Jesus, o Sessenta, está conduzindo Sua Ordem, os doze discípulos, através dos Tesouros do Mundo da Luz Média, e dando-lhes os selos, números e nomes autênticos pelos quais esses Tesouros podem ser adentrados e atravessados.

Há sessenta desses Tesouros, mas nossa narrativa começa apenas no quinquagésimo sexto, pois todas as páginas intermediárias estão perdidas.

Pelo que aqui nos é dito, estou inclinado a pensar que havia também sessenta diagramas dos leou's, e não apenas trinta, como Schmidt supõe.

Fundamentalmente, havia presumivelmente doze tesouros principais, mas cada um aparentemente era considerado sob cinco pontos de vista diferentes, sendo cada ponto de vista chamado de ordem ou ordenação.

Havia assim uma ordenação duodécupla, e também uma ordenação quíntupla, todas imanentes no Deus "que habita no Meio do universo", isto é, em leou, o Deus do Mundo da Luz Média.

Dos cinco, dois são

LIVRO DO GRANDE LOGOS.

chamados exteriores, dois interiores, e um a ordem média.

Diz-se que cada tesouro é cercado por seis regiões ou espaços, representados pelos quadrados dos diagramas.

Pelo uso dos selos (uma série de diagramas muito curiosos), números e nomes, diz-se que os Guardiões, Ordens e Véus se dispersam, e alcança-se o espaço mais íntimo do pai do tesouro, e assim o segredo de seu nome autêntico é revelado.

Além disso, dentro de cada tesouro há uma Porta ou Portal, e fora, três Portais; cada um dos Portais exteriores tem três Guardiões, mas o portal interior tem apenas um, presumivelmente o próprio pai do tesouro.

Ao concluir esta exposição, os discípulos perguntam como todos esses espaços e suas paternidades A Pequena vieram a existir.

Jesus responde que é por causa da "Pequena Ideia", que o Pai deixou para trás e não retirou para Si mesmo; todo o resto do Pai Ele retirou para Si mesmo.

Foi nesta Pequena Ideia que Eu flui, tendo o Meu ser no Pai; irrompi e libertei-Me dela.

Resplandeci e ela emanou-Me, a primeira emanação dela, sua perfeita semelhança e imagem.

Quando ela Me emanou, Eu permaneci diante dela." Esta foi a Primeira Voz.

Novamente ela resplandeceu e emanou, enviando a Segunda Voz — todos esses espaços, que surgiram um após o outro.

A Terceira Voz fluiu e emanou os governantes de todos esses espaços.

É Ele, Jesus, a Primeira Voz, a primeira emanação — ção, que reuniu a Sua própria Ordem — os Doze, e os levou através de todos os espaços, para que O sirvam. Ele lhes deu os poderes pelos quais podem atravessar todos esses espaços internos, até o espaço mais íntimo do governante de todos eles, o Deus Verdadeiro.


Os discípulos então lembram a Jesus que Ele havia prometido dar-lhes o nome-mestre único, pelo qual

O Nome do

cada espaço pudesse ser atravessado sem a tediosa

Grande Poder.

repetição de cada um dos nomes separados — o Nome que era a chave para abrir todos os portões de todos os tesouros.

É este, perguntam eles, o Grande Nome do Pai?

O Cristo (a primeira menção deste título) respondeu: "Não, mas o Nome do Grande Poder que está em todos os espaços."

Ele então lhes dá este nome autêntico — aparentemente uma sentença em cifra, intercalada com a repetição tripla das sete vogais.

Deve ser dito no Espaço do Deus Verdadeiro, no "espaço dos interiores que pertence ao espaço dos exteriores." O nome deve ser invocado, voltando-se para os quatro cantos do tesouro, e então seguido pelo pedido de que todos os caminhos para a paternidade sejam deixados livres ao discípulo, "pois invoquei o Grande Nome do Deus de todos os espaços." Então todos os véus serão retirados, e todos os governantes se dispersarão; eles se retirarão "para sua própria forma."

"Vede, agora," continuou o Mestre, "eu vos revelei o [nome-mestre]; guardai-o, e não o repitais continuamente, para que todos os espaços não sejam perturbados por causa da glória nele contida."

LIVRO DO GRANDE LOGOS.

Em seguida, Jesus ordena a Seus discípulos que O sigam, e avança ainda mais para dentro, até o sétimo hino ao tesouro; isto não pode aparentemente ser o sétimo tesouro dos sessenta, mas deve ser alguma outra ordenação sétima.

Aqui Ele lhes ordena que O cerquem, e Lhe respondam com um tríplice Amém para cada louvor, enquanto Ele entoa um hino de louvor ao Pai por causa da emanação dos tesouros.

O Pai é invocado primeiramente pelo Nome Inefável, cujos símbolos são dados; depois como "Deus, Meu Pai," e então como o "Inabordável." A forma de cada louvor começa com as palavras: "Eu Te louvo, ó Deus Inabordável, porque Tu resplandeceste em Ti mesmo," e termina com a pergunta: "Pois qual é agora a Tua vontade, senão que tudo isto seja, ó Deus Inabordável?"

O tema do hino é que Deus Se retirou para Si mesmo, para Sua Verdade, exceto por uma Pequena Ideia, cujo espaço Ele deixou como o mundo de Luz resplandecente, brilhando dentro do Pai.

É um resplendor do Pai dentro de Si mesmo, segundo a Sua vontade.

Esta Luz é Jesus, a única emanação do Pai através de Sua vontade.

Jesus é a perfeita semelhança e a imagem integral de Deus.

A segunda emanação traz à existência os espaços que circundam o Pai.

A terceira emanação é o trazer à existência dos poderes e governantes dos espaços de Luz, que são chamados Tesouros.

Ademais, todos esses poderes são energizados por um Grande Poder emanado pelo Pai, de modo que são chamados Deuses Verdadeiros, isto é, Deuses em Verdade (presumivelmente como dis- Os Grandes Logos segundo o Mistério.


tinguidos dos Deuses dos panteões vulgares). É este Poder que energiza não apenas nos vários pais dos tesouros, mas também nos poderes subordinados.

Assim também são emanados os Guardiões ou Vigilantes e as sessenta paternidades, uma para cada tesouro.

Essas sessenta são chamadas de "Ordens das Cinco Árvores". É também este Poder que trouxe à existência os selos e o grande nome.

Este mesmo Poder é ainda chamado de [Primeiro?] Mistério e a Imagem-de-Luz que circunda o Pai.

Estes Espaços-de-Luz são chamados os Espaços dos "Grandes Logoi segundo o Mistério", nos quais está a glória do Pai.

Isto nos leva a supor que o "Grande Logos" do título do tratado é o mesmo que o Primeiro Mistério, o Grande Poder, e portanto idêntico a Jesus.

Os Grandes Logoi são também chamados de leou's. O hino então continua:

"Eu Te louvo, ó Deus Inabordável, porque Tu resplandeceste em Ti mesmo; Tu emanaste o Teu Único e Exclusivo Mistério, Tu que és um Deus inabordável mesmo para esses Logoi.

Tu és inabordável entre eles, neste Grande Logos segundo o Mistério de leou, o pai de todos os leou's, que és Tu mesmo; — contudo, o que mais é o Teu único e exclusivo desejo senão que nos aproximemos de Ti neles, ó Deus que ninguém pode abordar, a quem, no entanto, nos aproximamos neste Grande Logos segundo o Mistério de leou?"

Estou inclinado a pensar que "Logos" é aqui usado em dois sentidos.

Geralmente significa Razão ou

LIVRO DO GRANDE LOGOS.

Palavra; aqui parece significar também Sermão, Discurso ou Ensinamento.

O hino termina com louvores nos quais o Pai

é novamente dito ter se retirado, ou inalado, a Si mesmo inteiramente em Sua Universal Semelhança e Ideia,

com a única exceção da Pequena Ideia, deixando-a como um meio pelo qual Suas ilimitadas Riquezas, glória universal e poderosos Mistérios pudessem ser manifestados.

A Grande ou Universal Ideia e a Pequena Ideia são assim vistas como correspondendo, no mundo espiritual ideal, às ideias do macrocosmo e do microcosmo.

E assim termina este notável hino, com um tríplice Amém final.

Os dois fragmentos restantes são colocados por Schmidt em um apêndice.

O primeiro fragmento faz parte de um hino de louvor, cujas estrofes de louvor começam com as palavras:

"Dá-me ouvidos, enquanto canto os Teus louvores, Tu, Mistério antes de todos os Incontíveis e Impassíveis, Jhe, que brilhaste no Teu Mistério, para que o Mistério, o Mistério que é desde o princípio, fosse completado."

O conteúdo do hino é o seguinte, sendo os nomes imperecíveis acrescentados após cada termo técnico:

O Mistério, brilhando, tornou-se Água do Oceano.

A Terra, no meio do Oceano, tornou-se purificada.

Toda a vasta matéria do Oceano tornou-se purificada — isto é, o Mar e todas as espécies nele existentes.

Através do seu brilhar, ele selou o Mar e tudo o que nele há, pois o poder que neles reside estava em desordem (? caos) contra a ordem existente (? cosmos).


O hino aqui se interrompe subitamente, e temos O Caminho de uma descrição da passagem da alma através das regiões dos poderes demoníacos, e dos nomes imperecíveis do "mistério do seu temor", pelos quais a alma pode escapar de suas garras.

Estes são os espaços das ordens dos vários grandes ministros do Grande Governante Poderoso no Caminho do Meio; e os nomes desses ministros, recuperáveis deste fragmento, são os mesmos que os dos Governantes do Caminho do Meio, conforme dados nos Extratos dos Livros do Salvador.

Este Grande Governante Poderoso é ainda descrito como "aquele que está cheio de ira". Ele é o sucessor do Governante das Trevas Exteriores, daquele espaço que transforma todas as formas.

Ele está estendido sobre o Caminho do Meio, para que possa arrebatar as almas como um ladrão.

As folhas nas quais estes fragmentos são encontrados diferem do restante do manuscrito por serem circundadas por bordas de linhas simples.

O APOCALIPSE SEM TÍTULO.

SELEÇÕES DO APOCALIPSE SEM TÍTULO DO CODEX BRUCIANUS.

O início está perdido, e as folhas que nos restam mergulham no meio de uma descrição dos seres e espaços supernos, como segue:

"Ele [o Deus além do Ser] o estabeleceu, para que pudessem lutar em direção à Cidade na qual está sua Primeira Imagem.

Nesta Cidade é que eles se movem e vivem; é a Casa do Pai, e a Vestidura do Filho, e o Poder da Mãe, e a Imagem da Plenitude (Pleroma). Ele é o Primeiro Pai do Todo; Ele é o primeiro Ser; Ele é o Rei dos Intangíveis.

É Ele em quem o Todo se move.

É Ele em quem Ele lhe deu (ao Todo) Forma.

Este é o Espaço autoproduzido e autogerado; esta é a Profundeza do Todo.

Ele é o Grande cujo ser real é mais profundo que a Profundeza.

É a Ele a quem o Todo veio.

O Todo silenciou diante d'Ele e não Lhe falou, pois inefável e incompreensível é Ele. Ele é a primeira Fonte; é Ele cuja Voz se fez ouvir em todos os espaços.

Ele é o primeiro Tom, pelo qual o Todo sente e compreende.

É Ele cujos Membros (Membros) formam miríades de miríades de Poderes, cada um dos quais provém deles.

"O segundo espaço veio a ser, que deve ser chamado Demiurgo, e Pai e LOGOS — O Segundo Ser.

e Fonte, e Mente, e Homem, e Eterno, e Ilimitado.

Este é o Pilar (ou Suporte); Ele é o Supervisor.

Ele, também, é Pai A Cruz Suprema.


As Doze Profundezas.

do Todo; é Ele sobre cuja Cabeça os Éons formam uma grinalda, emitindo seus raios.

O Contorno de Sua Face está além de toda possibilidade de conhecimento nos Mundos exteriores — aqueles Mundos que sempre buscam Sua Face, desejando conhecê-la, pois Sua Palavra se fez ouvir neles, e eles anseiam por vê-Lo.

A Luz de Seus Olhos penetra os Espaços do Pleroma Exterior, e a Palavra que sai de Sua Boca penetra o Acima e o Abaixo [dos Mundos Exteriores]. O Cabelo de Sua Cabeça é o número dos Mundos Ocultos, e o Contorno de Sua Face é o tipo dos Éons."

Os Cabelos de sua Face são o número dos Mundos Exteriores, e o estender de suas Mãos é a manifestação da Cruz; o estender da Cruz é o nônuplo, à Direita e à Esquerda.

"A fonte da Cruz é o Homem que nenhum homem pode compreender.

Ele é o Pai; Ele é a Fonte da qual o Silêncio brota; Ele é quem é desejado em todo Espaço.

Ele é o Pai de quem emanou a Mônada como uma centelha de luz, em comparação com a qual (Mônada) todos os Mundos são como [? escuridão]; pois é a Mônada que moveu todas as coisas em seu resplendor.

E eles receberam Gnose, e Vida, e Esperança, e Paz, e Amor, e Ressurreição, e Fé, e Renascimento, e o Selo.

Estes são o nônuplo que veio do Pai daqueles que são sem começo, d'Aquele que é Pai e Mãe para Si mesmo somente, cujo Pleroma circunda [isto é transcende] as Doze Profundezas.

O APOCALIPSE SEM TÍTULO.

"1. A primeira Profundidade é a Toda-Fonte da qual todas as Fontes vieram.

"2. A segunda Profundidade é o Todo-Sábio do qual todos os Sábios vieram.

"3. A terceira Profundidade é o Todo-Mistério do qual todos os Mistérios vieram.

"4. A quarta Profundidade é a Todo-Gnose da qual toda Gnose proveio.

"5. A quinta Profundidade é o Todo-Santo do qual toda Santidade proveio.

"6. A sexta Profundidade é o Silêncio do qual todo Silêncio proveio.

"7. A sétima Profundidade é o Portal que não tem substância, do qual todas as Substâncias vieram.

"8. A oitava Profundidade é o Antepassado do qual todos os Antepassados vieram.

"9. A nona Profundidade é o Todo-Pai-Pai-de-Si-Mesmo, no qual todos os Pais existem — sendo Ele o único pai que eles têm.

"10. A décima Profundidade é o Todo-Poder do qual todos os Poderes vieram.

"11. A décima primeira Profundidade é aquela na qual está o Primeiro Invisível, do qual todos os Invisíveis vieram.

"12. A décima segunda Profundidade é a Verdade da qual toda Verdade proveio.

"Isto [o segundo espaço, como uma Mônada, que circunda as Profundezas], é a Verdade que abrange a todas; esta é a Imagem do Pai; esta é a Verdade do Todo; esta é a Mãe de todos [os seus] Éons; é isto que circunda todas as Profundezas.

Esta é a Mônada que é incompreensível ou incognoscível; é isto que não tem Selo (ou Marca), no qual estão todos os Selos; que é bendita para todo o sempre.

Este é o Pai eterno; este é o Pai inefável, impensável, incompreensível, intranscendível; é isto em que o Todo se tornou jubiloso; alegrou-se e estava cheio de júbilo, e produziu em sua alegria miríades de miríades de Éons; foram chamados os 'Nascimentos da Alegria', porque (o Todo) se alegrara com o Pai.

Estes são os Mundos dos quais a Cruz surgiu; desses Membros incorpóreos é que o Homem se ergueu.

"Este é o Pai e a Fonte de Todo, cujos Membros são reunidos e completados.

Todos os Nomes vieram do Pai — sejam tais Nomes como Inefável, ou Incognoscível, ou Incompreensível, ou Invisível, ou Único, ou Solitário, ou Poder, ou Todo-Poder, ou todos aqueles Nomes que são nomeados apenas em silêncio — todos eles vêm do Pai, a quem todos os Mundos exteriores contemplam como as estrelas do firmamento na noite.

Assim como os homens desejam ver o sol, assim os Mundos exteriores desejam ver o Pai, por causa de sua invisibilidade que está ao redor d'Ele.

Para sempre aos Éons Ele dá Vida, e através de Sua Palavra o Indivisível [? Átomo] aprendeu a conhecer a Mônada; e por Sua Palavra o santo Pleroma veio a existir.

"Este é o Pai, o segundo Demiurgo; através do Sopro de Sua Boca a Providência fez o que-não-é.

O que-não-é surgiu pela vontade d'Ele, pois é Ele quem ordena que o Todo venha a ser.

Nisto

O APOCALIPSE SEM TÍTULO."

Sábio Ele fez o santo Pleroma: quatro Portões, e nele (o Pleroma) há quatro Mônadas, uma Mônada para cada Portão, e seis Sustentadores para cada Portão, perfazendo vinte e quatro Sustentadores, e vinte e quatro miríades de Potências para cada Portão; e nove Ênadas para cada Portão, e dez Décadas para cada Portão, e doze Dodecadas para cada Portão, e cinco Pêntadas de Potências para cada Portão, e um Vigia que tem três faces — uma face ingenerável, uma verdadeira e uma inefável, para cada Portão.

"Uma de suas faces olha para fora do Portão, para os Éons exteriores, e a outra olha para Seteu, e a terceira face do Trifacial olha para cima — para a Filialidade em cada Espaço facedo pela Mônada.

[i.e., a única Filialidade contida nas quatro Mônadas], onde [i.e., acima] está Afredon com seus doze Justos.

Lá [acima] está o Antepassado; nesse espaço está Adão [o Homem] que pertence à Luz, e seus trezentos e sessenta e cinco Éons, e lá está a Mente Perfeita, [todos os três] circundando um Cesto [? rede, representando um redemoinho cônico de forças ou átomos] que não conhece a morte.

"A face inefável do Vigia olha para dentro, para o Santo dos Santos — isto é, para o Ilimitado, sendo ele a cabeça do Lugar Santo (Santuário). Ele tem duas faces; uma se abre para o espaço da Profundeza e a outra se abre para o espaço do Vigia que é chamado de 'Criança'. E há lá [dentro] uma Profundeza que é chamada de 'Luz' ou o 'Resplandecente', na qual está oculto um Unigênito (μονογενής), que manifesta três Potências e é poderoso em todas as Potências.


"Ele [o Unigênito] é o Indivisível; é Ele quem nunca é dividido; é por Ele que o Todo se abriu [? dividiu] a si mesmo, pois a Ele pertencem todas as Potências."

As passagens acima, tomadas em ordem desde as primeiras páginas, conforme o arranjo de Schmidt das folhas, darão ao leitor alguma ideia da natureza do conteúdo integral deste tratado apocalíptico.

Quanto ao restante, devemos nos contentar com uma tradução de algumas das passagens mais inteligíveis ou marcantes.

O vidente original parece ter se esforçado para descrever sua visão dos espaços interiores a partir de diferentes pontos de vista, ou antes, ter visto o mesmo mistério sob vários pontos de vista, ou aspectos, em uma série de visões.

Entremeados, encontramos os comentários de outro escritor.

O primeiro exemplo indubitavelmente claro disso é uma passagem da qual, infelizmente, o tradutor copta fez terrível estrago.

O comentarista nos diz que o assunto é muito difícil, ou melhor, que é totalmente impossível descrever essas coisas com a "língua de carne"; no entanto, ele não pensa que alguém pudesse ter sucesso melhor do que o vidente original, ou aqueles que falaram ou escreveram por meio dele.

Esses espaços e seres são mais excelentes do que os poderes intelectuais no homem e, portanto, é impossível para qualquer um compreendê-los, a menos que tenha a boa fortuna de encontrar um "parente" daqueles seres superiores — isto é, um "parente do mistério" — alguém que tenha aprendido o mistério, ou seja, que tenha experimentado esses estados de consciência;

O APOCALIPSE SEM TÍTULO.

e mesmo assim o Mistério do Pai não pode ser expresso em sua realidade, como foi afirmado até mesmo por videntes tão avançados como Marsanes e Nicoteu, antigos videntes da Gnose; todos os Perfeitos O viram e cantaram Seus louvores, cada um da melhor maneira que pôde, mas todos falharam em revelá-Lo.

E um pouco mais adiante, ao comentar sobre a "Metrópole do Unigênito", o mesmo escritor cita outro Mestre da Gnose, que, quando compreendeu, disse: "Por meio Dele existe Aquilo-que-realmente-é e Aquilo-que-realmente-não-é, por meio do qual existem o Oculto-que-realmente-é e o Manifesto-que-realmente-não-é." O gnóstico de quem esta sentença é citada chama-se Phosilampes; mas as ideias são tão idênticas às de Basílides, que não posso deixar de pensar que Phosilampes é meramente algum criptônimo da escola para esse mestre.

O Logos e Seus poderes criativos e auto-emanação é o assunto de grande parte do nosso tratado.

Para citar um exemplo entre muitos:

"Este é Setheus, que habita no Santuário como Rei e Deus.

Ele é o Logos-Criador; é Ele, o Criativo, que ordena que o Todo opere.

Ele é a Mente Criativa segundo o comando de Deus, o Pai; a quem a criatura adora como Deus, e como Senhor, e como Salvador, e a Ele está sujeita; diante de quem todas as coisas se maravilham por causa de Sua graça e beleza; cuja cabeça o universo interior forma uma coroa, e o exterior está posto sob Seus pés, enquanto o universo médio O circunda, louvando-O e dizendo: "'Santo, santo, santo é Ele, o [aqui seguem as sete vogais, cada uma repetida três vezes]; isto é: Tu és o Vivente entre os viventes; Tu és o Santo entre os santos; Tu és o Ser entre os seres; Tu és o Pai entre os pais; Tu és o Deus entre os deuses; Tu és o Senhor entre os senhores; Tu és o Espaço entre os espaços.'


"Assim também O louvam: 'Tu és a Casa e Tu és o Habitante da Casa.' E ainda novamente louvam e se dirigem ao Filho oculto n'Ele: 'Tu és, Tu és o Unigênito, Luz, Vida e Graça.'"

Somos informados da descida da Centelha de Luz ou da Corrente de Luz do alto, e de como ela finalmente alcança a matéria.

"Então os Véus foram abertos e a Luz penetrou A Descida da na Matéria abaixo, e naqueles que não possuíam Centelha de Luz, nenhuma forma e nenhuma semelhança; e assim eles adquiriram para si mesmos a semelhança da Luz.

Alguns, de fato, regozijaram-se porque a Luz lhes havia chegado, e porque se haviam tornado ricos; outros choraram, porque se haviam tornado pobres, e o que era deles lhes fora tirado.

Assim veio a Graça naquilo que havia surgido.

E o cativeiro foi levado cativo e louvou os Éons que haviam recebido a Centelha em si mesmos.

E Guardiões lhes foram enviados...; eles deram ajuda àqueles que haviam crido na Centelha de Luz."

"E esta [a Centelha de Luz] é o Indivisível,

A qual conduziu a luta pelo universo; e todas A Centelha. as coisas lhe foram concedidas, através d'Aquele que

está exaltado acima de todas as coisas; e o imensurável

O APOCALIPSE SEM TÍTULO.

A Profundeza foi-lhe concedida, juntamente com as inúmeras paternidades que nela se encontram."

No campo do seu ser está a Terra portadora de Deus ou geradora de Deus.

E os poderes daquele que é coroado com esta grinalda de Luz, entoam louvores ao Rei, o Unigênito, o Logos, dizendo:

"Através de Ti alcançamos fama, e através de Ti vimos o Pai de todos, e a Mãe, Hino de todas as coisas ocultas em todos os espaços, a Concebedora de todos os éons.

Ela é a Concebedora de todos os deuses e todos os senhores; ela é a Gnose de todos os invisíveis.

Tua Imagem é a mãe de todos os Incontidos e o poder de todos os Impassíveis.

... Através de Tua Imagem nós Te vimos, a Ti fugimos, em Ti permanecemos, e recebemos a grinalda imarcescível, que foi conhecida através de Ti.

Louvor a Ti, para todo o sempre, ó Tu, Unigênito.

Amém!"

De tal ser aprendemos: "Ele tornou-se um corpo de luz e penetrou nos éons do Indivisível, O Cristo.

até alcançar o Unigênito, que está na Mônada [o Pai] que habita no silêncio solitário.

E eles [seus poderes] receberam a Graça do Unigênito, isto é, a Sua bondade, e ele recebeu a grinalda eterna.

Ele [o Logos] é o Pai de todas as centelhas de Luz; d'Ele é o chefe de todos os corpos imortais; este é Aquele por cuja causa a ressurreição é concedida a estes [imortais] corpos."

Graus cada vez mais elevados de ser são descritos, e ouvimos falar do Perfeito "que recebeu a Graça do Incognoscível, e com isso uma Filiação tal que o Pleroma não poderia suportar, porque do excesso da sua luz e do esplendor que n'Ele havia."


Ainda mais alto eleva-se a intuição do vidente Gnóstico, e lemos adiante sobre o Logos-Demiurgo,

Glorificado

de quem "está com ele uma hoste de poderes tendo grinaldas

(ou coroas) em suas cabeças.

Suas coroas emitem raios; o esplendor de seus corpos é como a vida do espaço para o qual vieram; a palavra (logos) que sai de sua boca é vida eterna, e a luz que emana de seus olhos é descanso para eles; o movimento de suas mãos é o seu voo para o espaço de onde vieram, e o seu olhar sobre os próprios rostos é o conhecimento de si mesmos; o ir a si mesmos é um retorno repetido, e o estender de suas mãos os estabelece; o ouvir de seus ouvidos é a percepção em seu coração, e a união de seus membros é a reunião da dispersão de Israel; o seu apego uns aos outros é a sua fortificação no Logos.

.  .  .

"E toda a reconciliação foi consumada

A do Criador-Logos com aqueles que haviam saído

da reordenação que fora realizada.

E todos se tornaram Um, como está escrito: 'Tornaram-se todos Um no Uno e Único.'

"Então o Logos-Criador tornou-se Poder Divino, e Senhor, e Salvador, e Cristo [ou Justo — ocorrendo frequentemente ao longo do MS. para , e Bom, e Pai, e Mãe.

É Ele cujo trabalho teve êxito; Ele foi honrado e tornou-se o Pai daqueles que creram.

Ele tornou-se o Senhor e o Poderoso."

O APOCALIPSE SEM TÍTULO.

Nesta consumação, todas as coisas são ordenadas de novo para o Vencedor.

"A Ele são dados os primeiros frutos da Soteriologia.

o sacrifício da Filialidade, pelo qual Lhe é dado poder para tornar-se tríplice-poderoso.

E Ele recebeu o voto da Filialidade, porque o universo foi vendido [? à escravidão]; e Ele recebeu a luta [tarefa] que Lhe foi confiada.

Ele ergueu toda a pureza da matéria e a transformou em um Mundo, um Éon, e uma Cidade, que é chamada 'Imortalidade' e 'Jerusalém.' E também é chamada a 'Nova Terra,' e 'Autossuficiente,' e 'Liberdade Perfeita.' Essa Terra é uma terra portadora de deus e vivificante."

A Coroa e o Manto do glorificado são celebrados. "Esta é a Coroa da qual está escrito: 'Foi dada a Salomão no dia da alegria do seu coração.'"

"A primeira Mônada enviou-Lhe uma Vestidura inefável, que é toda Luz, e toda Vida, e toda Ressurreição inefável, e todo Amor, e toda Esperança, e toda Fé, toda Sabedoria, e toda Gnose, e toda Verdade, e toda Paz. . . . E nela está o universo, e o universo encontrou-se nela, e conheceu-se a si mesmo nela.

E ela lhes deu toda a luz em sua Luz inefável, miríades de miríades de poderes foram-lhe dados, a fim de que ela erguesse o universo de uma vez por todas.

" Ela [a Mônada] reuniu suas vestiduras para si, e as fez à maneira de um véu, que a circunda por todos os lados, e derramou-se sobre elas, e ergueu tudo, e separou tudo segundo ordens e leis e providência.

" E aquilo-que-é separou-se daquilo-que-não-é, e aquilo-que-não-é é o mal que se manifestou na matéria. E o poder da Vestidura separou aquilo-que-é daquilo-que-não-é, e chamou aquilo-que-é de 'eterno' (seonian), e aquilo-que-não-é de 'matéria'; e dividiu ao meio aquilo-que-é daquilo-que-não-é, e colocou entre eles véus e poderes purificadores, a fim de que pudessem limpar e purgar."

A obra futura do Glorificado é ainda descrita: "E miríades de miríades de glórias e anjos e arcanjos e ministros foram-Lhe dados para servi-Lo — aqueles da matéria.

E autoridade sobre todas as coisas foi-Lhe dada, e Ele criou para Si um poderoso Éon, e nele estabeleceu um vasto Pleroma, e nele um poderoso Santuário, e todos os poderes que recebera, colocou-os neles.

E Ele se alegrou neles, ao trazer à luz Suas criaturas uma vez mais, segundo o mandamento do Pai que está oculto no silêncio, que Lhe enviou estes tesouros.

E a coroa da Paternidade foi-Lhe dada, pois Ele (o Pai) O estabeleceu como pai daqueles que surgiram após Ele [a saber, Seus discípulos, os discípulos do Mestre]."

"E Ele clamou e disse: 'Meus filhos, pelos quais sofro dores de parto até que Cristo seja formado em vós'; e novamente Ele clama: 'Sim, eu desejaria apresentar a uma santa virgem um único esposo, Cristo.'

"Assim, quando Ele viu a Graça com a qual o Pai oculto O havia dotado, Ele mesmo desejou reconduzir o universo ao Pai oculto, pois

O APOCALIPSE SEM TÍTULO.

A vontade d'Ele [do Pai] é esta: que o universo retorne a Ele.

"E eles [aqueles que se arrependeram] fugiram diante da matéria do éon [inferior], abandonando-a, e elevaram-se A Promessa- para cima, ao Éon d'Aquele que é pai somente de Si mesmo, e tomaram sobre si o voto que foi feito por eles por Aquele que diz: 'Aquele que tiver abandonado pai e mãe, irmão e irmã, esposa e filho, e posses, e tomar a sua cruz e Me seguir, receberá as promessas que Lhe fiz; e a tal darei o mistério do Pai oculto, pois amaram o que é d'Ele e fugiram daquele que os perseguiu com violência.'

"Assim Ele lhes deu Glória, Alegria, Jubilação, Contentamento, Paz, Esperança, Fé, Amor e Verdade imperecível.

Este é o novenário que é dado àqueles que fugiram da matéria.

E eles se tornaram benditos e perfeitos, e reconheceram o Deus Verdadeiro, e conheceram o mistério que é dado ao Homem, por cuja causa Ele Se revelou até que O vissem, pois Ele [o Deus Verdadeiro] é em verdade invisível; por amor deles Ele revelou em palavras o Seu Logos, para que O conhecessem e se tornassem deuses e perfeitos."

Ainda falando do Primogênito e de Suas glórias, os poderes cósmicos de Sua vestidura espiritual são novamente descritos:

"Deram-Lhe uma Vestidura para consumar todas as coisas n'Ele.

E nela estão todos os corpos: o corpo dos Poderes do fogo, o corpo da água, o corpo do éter, a vestidura.

corpo da terra, o corpo do ar, o corpo do os anjos, o corpo dos arcanjos, o corpo das potências, o corpo dos poderosos, o corpo dos deuses e o corpo dos senhores; numa palavra, nele estão todos os corpos, de modo que nada possa impedi-Lo de subir e descer ao mundo inferior.


" Ele é o Primogênito a quem o Interior e o Exterior prometeram tudo o que Ele desejar.

É Ele quem separou toda a matéria; e, assim como Se derramou sobre ela, 'como uma galinha que estende as asas sobre seus pintinhos', assim o Primogênito preparou a matéria e fez surgir miríades e miríades de espécies e gêneros.

E quando a matéria se aqueceu, libertou a multidão de potências que são Suas; e elas brotaram como ervas e foram separadas segundo gêneros e espécies.

E Ele lhes deu a lei — amarem-se uns aos outros, honrarem a Deus, louvá-Lo e buscarem saber quem Ele é e o que Ele é, e maravilharem-se com o lugar de onde saíram, pois é estreito e difícil, e não voltarem para lá novamente, mas seguirem Aquele que lhes deu a lei.

" E Ele os ergueu das trevas da matéria, que é sua mãe, e lhes disse o que é a Luz, pois ainda não conheciam a Luz, nem se ela existia ou não.

Então Ele lhes deu o mandamento de nunca ferirem uns aos outros, e Se afastou deles para junto da Mãe do universo, ao lado do Pai, para que eles [por sua vez] dessem leis àqueles que saíram da matéria."

O APOCALIPSE SEM TÍTULO.

E as potências da Mãe entoam um hino ao Filho, louvando o Único e Unigênito, e dizendo:

"Tu somente és o Sem Limites; Tu somente o Abismo; Tu somente o Incognoscível; Tu és Aquele por quem todos buscam e, contudo, [sem auxílio] não Te encontram, pois ninguém pode conhecer-Te contra Tua vontade, e ninguém pode louvar-Te contra Tua vontade.

Somente Tua vontade é que se tornou espaço para Ti, pois ninguém pode conter-Te, porque Tu és o espaço de tudo."

Eu Te rogo que dês ordenações àqueles do mundo, e regulamentos à minha descendência segundo a Tua vontade.

E não aflijas a minha descendência, pois ninguém jamais é afligido por Ti; contudo, ninguém jamais conheceu o Teu conselho.

Tu és Aquele de quem todos, tanto os internos como os externos, necessitam, pois só Tu és incontingível, e só Tu estás além de toda visão, e só Tu estás além de toda substância; Tu que só Tu deste selos [marcas distintivas ou características] a todas as criaturas, e as manifestaste em Ti mesmo.

"Tu também és Criador daquelas que ainda não se manifestaram.

Só Tu conheces estas; nós não as conhecemos.

Só Tu as indicas a nós, para que nós [os poderes] possamos rogar-Te por ela [a Mãe Sophia] que as manifestes a nós, pois só através de Ti podemos conhecê-las.

Só Tu Te exaltaste à hoste dos mundos ocultos, para que Te conhecessem; és Tu quem lhes deste o conhecimento de Ti, que Tu as trouxeste ao nascimento no Teu corpo incorpóreo, e Tu as ensinaste

NN que Tu geraste o Homem na Tua Mente autogerada, e na Tua Reflexão e Concepção.


"Ele é o Homem gerado da Mente, a quem O Homem.

A Reflexão deu forma.

Tu deste todas as coisas ao Homem.

Ele as veste como estas vestes, e as reveste como estas roupagens, e Se envolve com a criação como com um manto.

Este é o Homem a quem o universo roga para aprender a conhecer.

Só Tu ordenaste ao Homem que Se manifestasse, para que Tu fosses conhecido através dele, para que Tu O gerasses.

Tu Te manifestaste segundo a Tua vontade.

Tu és Aquele a quem rogo, Tu Pai de toda paternidade, Deus de todos os deuses, Senhor de todos os senhores — o 'eu' que Te implora que ordenes as minhas formas e descendência, para que eu lhes prepare alegria em Teu nome e em Teu poder."

[A hinodia torna-se confusa à medida que o místico se identifica com a Sophia.]

"Tu, Único e Solitário Rei, Tu que não mudas, dá-me um poder, e farei com que a minha descendência Te conheça, que Tu és o seu Salvador."

A centelha infinita de Luz desce sobre a Sophia; a ordenação do mundo consuma-se no drama do mundo; a purificação da natureza interior é alcançada na alma individual.

"E o Senhor do Esplendor desceu e o Senhor do Esplendor separou a matéria e dividiu-a em duas partes e em duas regiões; e deu limites a cada região, regiões que provêm de um só pai e de uma só mãe.

E aqueles que a Ele haviam fugido adoraram-No; Ele lhes deu o lugar à Sua direita, e concedeu-lhes vida eterna e imortalidade.

E chamou à direita o 'Lugar da Vida', e à esquerda o 'Lugar da Morte'; à direita o 'Lugar da Luz' e à esquerda o 'Lugar das Trevas'; à direita o 'Lugar do Repouso' e à esquerda o 'Lugar do Sofrimento'. E traçou limites e véus entre eles, para que não se percebessem mutuamente, e colocou guardiões nos véus.

E deu àqueles que O adoravam muitas honras, e exaltou-os acima daqueles que resistiam e se opunham a Ele.

E estendeu o espaço à direita em inúmeros espaços, e fê-los em muitas ordens, muitos éons, muitos mundos, muitos céus, muitos firmamentos, muitas regiões, muitos lugares, muitos espaços; e estabeleceu leis para eles e deu-lhes regulamentos.

'Sede firmes em Minha palavra e Eu vos darei vida eterna, e vos enviarei poderes; e vos fortalecerei em espíritos de poder, e vos darei autoridade segundo a vossa vontade.

E ninguém vos impedirá no que desejardes; e gerareis para vós mesmos éons, mundos e céus, a fim de que os espíritos nascidos da mente venham e habitem neles.

E sereis deuses, e sabereis que vindes de Deus, e vereis que Ele é Deus em vós, e Ele habitará em vosso éon.'

"Estas palavras disse o Senhor do universo a eles, e desapareceu de diante deles, e ocultou-Se deles.

E os nascimentos da matéria regozijaram-se por terem sido lembrados, e alegraram-se por terem saído do lugar estreito e difícil, e oraram ao Mistério oculto:


" ' Concede-nos autoridade para que possamos criar para nós mesmos éons e mundos, segundo a Tua palavra, ó Nascido da Terra, sobre a qual Tu concordaste com o Teu servo; pois Tu somente és o imutável, Tu somente o ilimitado, o incontível, autopensado, autogerado, autopai; Tu somente és o inabalável e incognoscível; Tu somente és silêncio, e amor, e fonte de tudo; Tu somente és virgem da matéria, imaculado; cuja raça nenhum homem pode contar, cuja manifestação nenhum homem pode compreender.

" ' Ouve-me, em verdade, Pai imperecível, Pai imortal, Deus dos mundos ocultos, Tu única Luz e Vida; Tu o único invisível, inefável, imaculável, invencível; Tu somente anterior a toda existência! Ouve a nossa oração, com a qual oramos Àquele que está oculto em todos os lugares; Ouve-nos e envia-nos espíritos incorporais, para que habitem conosco e nos ensinem daquelas coisas que Tu nos prometeste; para que permaneçam em nós e nós possamos ser corpos para eles.

Pois Tua vontade é esta, que isto seja; assim seja! Dá lei à nossa obra e estabelece-a, segundo a Tua vontade e segundo o estatuto dos éons ocultos, e

regula-nos de Ti mesmo, pois somos Teus!' "

Em resposta a esta oração, descreve-se como os mistérios (isto é, do batismo e do resto) foram dados àqueles que se arrependeram; sendo esses mistérios em

Os Poderes São-lhes Dados.

graus ou purificações, pelos quais o homem ascende a graus mais elevados de consciência, pela pureza de seus veículos internos, que correspondem a certos estados ou regiões.

O APOCALIPSE SEM TÍTULO.

"E Ele os ouviu e enviou poderes separadores, que conhecem o estatuto dos éons ocultos.

Enviou-os segundo o comando dos ocultos, e estabeleceu ordenações, segundo a ordenação da altura e segundo o estatuto oculto."

Começaram de baixo para cima, para que o edifício pudesse ser devidamente erguido em todas as suas fiadas.

"Ele criou o mundo do ar como lugar de repouso para aqueles que haviam saído [da matéria], para que eles A Escada pudessem permanecer ali até o estabelecimento daqueles Purificação, abaixo deles; depois, a verdadeira morada [?]; dentro desta, o lugar do arrependimento; dentro deste, os reflexos etéreos [? dos mansões da Herança]; dentro destes, os reflexos autogerados.

Naquele lugar eles se batizam em o Nome do Autogerado, que é Deus sobre eles; e poderes são estabelecidos ali junto à fonte da Água da Vida.

. . .

"Dentro destes está a Pistis Sophia e o Jesus pré-existente e etéreo com seus doze eões."

Os nomes dos poderes nos dois últimos espaços são dados, mas infelizmente uma lacuna se segue no manuscrito, e as folhas seguintes estão danificadas em numerosos lugares.

Espaços cada vez mais elevados são descritos à medida que as almas purificadas sobem a Grande Escada.

O Homem Celestial, e o Senhor do Pleroma, é celebrado: "O Pai O selou como Seu Filho O Filho em seu interior, para que aprendessem a conhecê-Lo em seu interior.

E o Nome os moveu em seu interior, para que vissem o Invisível Incognoscível.

E louvaram o Uno e Único Uno, e Concepção, e o Logos nascido da Mente, louvando os três, que são um, pois através d'Ele tornaram-se supersubstanciais.


E o Pai tomou toda a sua semelhança e a fez numa Cidade ou num Homem; Ele delineou o universo à Sua semelhança — isto é, todos esses poderes.

Cada um deles O conheceu nesta Cidade; todos começaram a entoar miríades de cânticos de louvor ao Homem ou à Cidade do Pai do universo.

E o Pai tomou a Sua glória e a fez numa Vestimenta exterior para o Homem.

. . . Ele criou o seu corpo no tipo do santo Pleroma."

Em seguida, segue toda a configuração dos Membros do Homem Celestial.

O restante do manuscrito é ocupado por um Hino à Luz, citado de algum outro compositor de hinos gnóstico, introduzido pelas palavras "ele diz", e prossegue assim:

"Eu Te louvo, ó Pai de todos os pais da Luz; eu Te louvo, ó Luz ilimitada, mais excelente do que todos os ilimitados; eu Te louvo, ó Luz incompreensível, que superas todos os incompreensíveis; eu Te louvo, ó Luz inefável, antes de todos os inefáveis."

E assim por diante, através de uma infinidade de louvores, frequentemente de grande beleza, até que o manuscrito se interrompe subitamente no meio de uma frase.

NOTAS SOBRE OS CÓDICES A E B.

NOTAS SOBRE O CONTEÚDO DOS CÓDICES BRUCE E ASKEW.

O leitor atento já terá percebido que o conteúdo do tratado Pistis Sophia, dos Extratos dos Livros do Salvador, e dos fragmentos de tratados dados sob o título O Livro do Grande Logos segundo o Mistério, estão intimamente relacionados entre si; eles pertencem indubitavelmente à mesma escola.

O resultado das pesquisas de Schmidt sobre essa questão tão interessante pode ser visto mais claramente em sua resposta à crítica de Preuschen sobre sua obra, uma cópia da qual me foi gentilmente enviada pelo próprio Schmidt.

(Veja Zeitschrift für wissenschaftliche Theologie, Pt. iv., 1894.) Schmidt aqui resume sua posição, reunindo os resultados de suas pesquisas.

Se eu mesmo pudesse aventurar uma opinião geral sobre um assunto tão difícil e abstruso, diria que todas as três compilações que estamos considerando pertencem não apenas à mesma escola, mas também a um mesmo esforço de sintetização e reformulação.

É evidente que cada uma delas contém materiais mais antigos, e é quase certo que o escritor da Pistis Sophia conhecia o material dos Extratos das exposições do leou e do Batismo.

A questão muito mais difícil é a relação dos Extratos com O Livro do Grande Logos, e a questão mais difícil de todas é a escola e os autores aos quais atribuí-los.


Até agora, nada está absolutamente provado quanto à Data.

data, exceto que os compiladores desses documentos tiveram acesso ao mesmo material de Ditos que os compiladores dos Evangelhos Canônicos; o *terminus a quo* pode, portanto, ser situado em algum ponto próximo ao final do primeiro quartel do segundo século.

Mas a curiosa frase usada ao introduzir uma citação das Epístolas Paulinas ("Tu nos disseste outrora pela boca de Paulo, nosso irmão") demonstra tamanha indiferença completa ao relato dos Atos Canônicos, que isso argumenta a favor de uma data antiga.

Devido à natureza complexa do conteúdo, no entanto, alguns os atribuíram ao terceiro século; mas isso não me parece razão suficiente para uma data tão tardia, quando consideramos a natureza complexa da obra gnóstica pré-irenéica recentemente descoberta, e o caráter excessivamente abstruso do conteúdo do MS. superior sem título do Códice Bruciano, cujo conteúdo Schmidt situa bem no segundo século.

Alguns dos materiais são, sem dúvida, muito antigos — quanto à autoria, de fato — mas é o problema da compilação que no momento nos ocupa. Creio que todos os três foram compilados pelo mesmo grupo, ou mesmo pelo mesmo escritor (embora esta última hipótese pareça muito temerária a alguns). É evidente que os tratados pertencem ao círculo mais íntimo do Gnosticismo, familiarizado com as tradições mais profundas, os documentos mais secretos e as experiências internas práticas da escola.

Não importa se você chama essa corrente da Gnose de "Ophita", "Barbelo-Gnóstica", "Gnóstica" ou "Valentiniana"; tais nomes pouco teriam significado para o compilador ou compiladores desses documentos.

Ora, é evidente que os Extratos e parte de O Livro do Grande Logos baseiam-se ambos no mesmo original.

É verdade que o texto do extrato do Batismo do Códice Askew difere ligeiramente do texto do mesmo rito no Códice Bruce, mas provavelmente foram traduzidos por mãos diferentes, e ambos os tradutores usaram grande liberdade em suas versões, e frequentemente ficaram perplexos sobre como verter o grego para o copta, como é evidente em muitas passagens.

Uma certa reformulação da Gnose é, então, referida como Os Livros do Salvador ou O Livro do Grande Logos; talvez o documento ou documentos originais em grego não tivessem título, e tenham sido os copistas, ou os tradutores e escribas coptas, que acrescentaram esses títulos.

O tratado Pistis Sophia, no entanto, refere-se a uma obra chamada Os Dois Livros de Jeou, e acrescenta ainda que foram dados pelo Salvador a Enoque e preservados do Dilúvio.

Ora, parece-me que, se essas referências na Pistis não são interpolações, Os Dois Livros de Jeou não podem ser idênticos ao documento comum nos Extratos e no Livro do Grande Logos, mas que esse documento era uma reelaboração e reformulação desses dois Livros.

Os Livros de Jeou pertenciam presumivelmente a alguma tradição antiga, provavelmente egípcia, contendo uma infinidade de símbolos e selos, senhas e nomes de mistério, e muito mais que eram referidos ao que Manetho chama de "o Egito antes do Dilúvio" (o Egito do "Primeiro Hermes" ou Agathodaemon), cujas tradições foram equiparadas às tradições semíticas pelos círculos gnósticos judeus e cristãos.


O Provável Autor.

A Obscuridade do Assunto.

Tratei deste assunto extensamente em minha obra sobre a literatura trismegística.

Creio, então, que o documento comum nos Extratos e no Livro do Grande Logos não era os próprios Livros de Jeou referidos na Pistis Sophia, mas que continha a substância dos Livros de Jeou, trabalhada por um escritor gnóstico em uma nova forma.

Sugiro ainda que esse escritor era o mesmo que o autor do tratado Pistis Sophia, que reformulou os Livros de Jeou à luz da Gnose do Mestre Vivo.

Essas coisas, no entanto, não parecem ter sido feitas em ordem; eram mais provavelmente as várias tentativas de alguma síntese consistente da sabedoria antiga, tentativas que, com toda probabilidade, não satisfizeram o escritor.

Eram presumivelmente os resultados de uma longa vida de trabalho, e podem ter sido várias vezes revisadas ou refundidas.

Quem pode dizer, em nossa presente ignorância de todos os dados históricos?

E se for perguntado: Quem poderia ter feito tal tentativa? Não posso encontrar resposta, ao revisar toda a lista de escritores gnósticos conhecidos, senão que Valentinus sozinho poderia, de alguma forma, tê-la tentado. Mas que isso possa algum dia ser provado além de qualquer objeção, não tenho esperança, pois não sabemos praticamente nada sobre ele e seus escritos; apenas conhecemos sua grande reputação e sua tentativa de reformulação da Gnose.

De fato, o chamado valentianismo não nos ajuda em nada nesta especulação;

NOTAS SOBRE OS CÓDICES A. E B.

pelo contrário, se devemos acreditar de alguma forma nas indicações dos Padres da Igreja, "os de Valentinus" parecem ter formulado as coisas de maneira um tanto diferente, e suas ideias formam apenas uma pequena parte integrada das grandes sínteses com as quais temos lidado.

Mas a informação dos Padres da Igreja é muito deficiente, e eles parecem, na maioria das vezes, ter lidado com a fase semipopular do gnosticismo.

Assuntos tão abstrusos e ensinamentos tão internos como os que nossos Códices contêm não poderiam possivelmente ter sido circulados publicamente; eles eram destinados aos "discípulos". É verdade que a Pistis está, em partes, numa forma muito mais popular, mas se tivesse sido amplamente circulada; é estranho que nenhuma menção de tão maravilhosa exposição tenha permanecido.

Eu, no entanto, apresento esta especulação com toda hesitação; ela significa uma leitura totalmente diferente do valentianismo, uma leitura de dentro e não de fora.

Nossas ideias sobre o gnosticismo têm, contudo, sido tão frequentemente revisadas ultimamente por novas descobertas, que ainda se pode esperar que algum novo achado possa lançar uma luz clara sobre este problema (atualmente) inteiramente obscuro.

Na Introdução à minha tradução da Pistis Sophia, descubro que declarei minhas conclusões de maneira um tanto mais crua do que faria agora. Portanto, ao repetir o que ali disse sobre a provável história das aventuras do conteúdo do Códice Askew, modificarei ligeiramente algumas expressões.

O tratado grego original que agora é chamado de Pistis Sophia pode, então, provavelmente foram compilados por Valentinus na segunda metade do segundo século, talvez em Alexandria.


Por "compilado" quero dizer que este Tratado Apocalíptico, ou Evangelho, ou qualquer que tenha sido seu título, não foi inventado do início ao fim por Valentinus; a estrutura da narrativa, a seleção de textos e ideias de outras escrituras, hebraicas, cristãs, egípcias, caldeias, gregas, etc., e a adaptação da nomenclatura, foram sua parte na tarefa.

Deste original, sem dúvida, várias cópias foram feitas, e erros podem ter se introduzido. Uma dessas cópias foi presumivelmente levada Nilo acima e traduzida para o vernáculo, sendo o grego pouco compreendido tão longe rio acima.

O tradutor evidentemente não era uma pessoa muito precisa; além disso, seu conhecimento do assunto era tão imperfeito que teve de deixar muitos dos termos técnicos no original e, sem dúvida, fez suposições sobre outros.

É também provável que algumas coisas tenham sido acrescentadas e outras subtraídas por questão de ortodoxia.

A extensão enfadonha dos Salmos, por exemplo, que Pistis Sophia recita em seus arrependimentos, seguida pelas mais curtas Odes Salomônicas, leva-nos a supor que o compilador originalmente citou apenas alguns versículos marcantes de cada salmo, e que o tradutor posterior e mais ortodoxo, com aquele amor pela repetição enfadonha tão característico da piedade monástica, seja do Oriente ou do Ocidente, acrescentou os outros versículos menos apropriados, com os quais estava muito familiarizado, enquanto foi compelido a deixar as Odes Salomônicas como estavam, devido à sua falta de conhecimento dos originais.

Além disso, o tradutor deve ter traduzido ou possuído uma tradução de outros documentos semelhantes, que ele ou um escriba posterior intitula Os Livros do Salvador, e deles extraiu o que considerava passagens apropriadas ao assunto em questão, e as anexou à tradução da Pistis.

NOTAS SOBRE OS CÓDICES A E B.

Estes Livros também, em minha opinião, provieram da oficina literária de Valentinus.

Todo o manuscrito do tradutor copta parece ter sido copiado por algum copista ignorante, que O Copista.

cometeu muitos erros de ortografia.

Foi copiado por um homem como tarefa, e executado às pressas; e eu sugeriria que duas cópias foram então feitas e, ocasionalmente, uma página de uma cópia foi substituída por uma página da outra; e, como as páginas não eram exatamente idênticas em uma palavra ou frase, podemos assim explicar algumas repetições intrigantes e algumas lacunas igualmente intrigantes.

Esta cópia foi conjecturalmente feita no final do século IV.

Qual foi a história do manuscrito após essa data é impossível até mesmo conjecturar.

Sua história, no entanto, deve ter sido suficientemente emocionante para ter escapado das mãos de fanáticos — tanto cristãos quanto maometanos.

Durante esse período, algumas das páginas foram perdidas.

Presumivelmente, o conteúdo do manuscrito inferior do Códice Bruce teve aventuras um tanto semelhantes, podendo até ter vindo do mesmo centro de distribuição copta.

Seria totalmente inadequado nestes breves esboços entrar em uma investigação crítica sobre a natureza da aeonologia, cosmologia, soteriologia, cristologia e escatologia desses documentos, e tentar traçar suas modificações.


A evolução do universo ocorre segundo uma certa ordem, mas sua involução parece mudar essa ordem; a soteriologia modifica a aeonologia e a cosmologia.

É, em minha opinião, por causa disso, mais do que por qualquer outra razão, que o esquema subjacente aos Extratos e ao Livro do Grande Logos é dito ser uma "forma mais antiga" do que aquele subjacente ao tratado Pistis.

O esquema subjacente à Pistis Sophia tem sido Esquema pre- diligentemente analisado por Köstlin e revisado supostamente antigo e corrigido por Schmidt, que também se esforçou

nesses

Tratados.

para traçar a modificação do esquema geral subjacente aos Extratos (até agora erroneamente chamados de Quarto Livro de Pistis Sophia) e ao Livro do Grande Logos, e do esquema pressuposto na Pistis Sophia, — modificações ocasionadas pela revelação das novas glórias dos três Espaços da Herança no último tratado.

Como as linhas gerais do esquema subjacente à Pistis Sophia podem ser de utilidade ao leitor, nós o apresentaremos aqui, mas deve-se entender que ele representa apenas uma configuração do mistério cósmico, em um certo momento do tempo, ou em uma certa fase da consciência.

O Inefável.

Os Membros do Inefável.

I. O Mundo de Luz Supremo, ou o Reino da Luz, i. O Primeiro Espaço do Inefável.

NOTAS SOBRE OS CÓDICES A. E B.

ii. O Segundo Espaço do Inefável, ou o Primeiro Espaço do Primeiro Mistério.

ii. O Segundo Espaço do Primeiro Mistério.

II. O Mundo de Luz Superior (ou Médio), i. O Tesouro da Luz, ii. O Lugar da Direita, iii. O Lugar do Meio.

III. O Mundo de Luz Inferior, ou Mundo dos Eons (A Mistura de Luz e Matéria), i. O Lugar da Esquerda.

f 1. O Décimo Terceiro Eon.

J2. Os Doze Eons.

(3. O Destino.

4. A Esfera.

Os Governantes dos Caminhos do Meio.

6. O Firmamento Inferior, ii. O Mundo dos Homens.

iii. O Submundo.

1. Amenti.

2. Caos.

3. Trevas Exteriores.

Chegamos agora a uma breve consideração do MS. superior do Códice Bruce.

Aqui também devemos descartar qualquer tentativa de lidar com uma exposição do sistema pressuposto pelo compilador ou compiladores, apesar da seguinte opinião e alta apreciação de Schmidt, que em sua Introdução (pp. 34 e 35) escreve:

"Que mundo diferente, ao contrário, nos encontra em nossas trinta e uma folhas! Encontramo-nos nas esferas puras do mais alto Pleroma, veja passo a passo este mundo, tão rico em seres celestiais, surgindo diante de nossos olhos; cada espaço individual com todos os seus habitantes é minuciosamente descrito, de modo que podemos formar para nós mesmos uma imagem viva da glória e do esplendor deste céu gnóstico.


As especulações não são tão confusas e fantásticas quanto as da Pistis Sophia e dos nossos dois Livros de Jeu; aqui tudo está em plena harmonia e sequência lógica.

O autor está imbuído do espírito grego, dotado de pleno conhecimento da filosofia grega, cheio da doutrina das ideias platônicas, adepto da visão de Platão sobre a origem do mal — isto é, a Hyle (Matéria). Aqui não é Cristo quem é o órgão de todas as comunicações aos discípulos; não é Jesus quem é o enviado de Deus, e o redentor e portador dos mistérios; mas possuímos nestas folhas uma obra magnificamente concebida por um antigo filósofo gnóstico, e ficamos estupefatos, maravilhados com a ousadia das especulações, deslumbrados pela riqueza do pensamento, tocados pela profundidade da alma do autor.

Isto não é, como a Pistis Sophia, o produto do Gnosticismo em declínio, mas data de um período em que o gênio gnóstico, como uma águia poderosa, deixou o mundo para trás e pairou em círculos amplos e cada vez mais amplos em direção à luz pura, em direção ao conhecimento puro, no qual se perdeu em êxtase.

"Em uma palavra, possuímos nesta obra gnóstica, quanto à idade e ao conteúdo, uma obra da mais alta importância, que nos leva a um período do Gnosticismo e, portanto, do Cristianismo, do qual

NOTAS SOBRE OS CÓDICES A. E B.

muito pouco conhecimento nos foi transmitido."

Embora concordemos cordialmente com Schmidt em seu último parágrafo, e em sua alta apreciação da Não para um sublimidade do conteúdo deste MS., devemos Único Autor.

ousar discordar dele quanto à clareza e ordem lógica do conteúdo tal como atualmente nos foi preservado. Se tudo é tão claro e em tal sequência lógica, é surpreendente que Schmidt não tenha feito nenhuma tentativa de explicar o conteúdo.

Muitas e muitas horas passei a decifrar o conteúdo de sua tradução e a tentar colocá-lo em ordem, mas até agora sempre falhei.

O resultado do meu estudo, no entanto, levou-me a divergir da suposição de Schmidt de que a obra é de um único autor.

Minha conclusão atual, que é, naturalmente, apresentada como inteiramente provisória, é que a matéria subjacente estava originalmente na forma de um apocalipse, uma série de visões de alguma fase sutil da ordenação interna e da substância das coisas.

Sugiro que essas visões não estavam em uma sequência ordenada, mas foram escritas, ou registradas, em diferentes momentos, à medida que o vidente descrevia o funcionamento interno da natureza a partir de diferentes pontos de vista.

O escritor original era claramente, ao que me parece, um adepto da Gnose Basilidiana, imbuído de seus ensinamentos e nomenclatura; mas ele também possuía sua própria iluminação e, vendo algumas das coisas que lhe haviam sido ensinadas, em alto entusiasmo e inspirada confiança, cantou das coisas maiores por analogia com as menores que vira — mesmo essas menores sendo tão gloriosas que ele não podia expressá-las como realmente são.

Essas visões apocalípticas foram elaboradamente expandidas e anotadas e soldadas em uma unidade (a primeira parte sendo cosmogônica, e a segunda soteriológica) por um escritor de grande conhecimento e vasta erudição, que não apenas estava familiarizado com toda a literatura gnóstica de seu tempo, mas também havia visto as coisas por si mesmo; ele se esforçou para fazer um tratado consistente com o material apocalíptico, ao qual atribuía um valor muito alto, como base; mas muitas vezes não teve sucesso, e declara claramente que é impossível para qualquer "língua de carne" contar tais sublimes mistérios.

Estou fortemente convencido de que a sobreescrita deste apocalipse pertence ao mesmo círculo de atividade literária do qual já tratamos.

Nela, creio, temos outro espécime das tentativas de re-editar e sintetizar a Gnose, das quais a principal tentativa está associada à atividade de Valentinus.

Quanto à história do original grego, ela provavelmente segue o mesmo curso da do original da Pistis Sophia.

Foi provavelmente traduzido aproximadamente na mesma época e teve aventuras de natureza um tanto semelhante.

NOTAS SOBRE OS CÓDICES A E B.

O CÓDICE DE AKHMIM.

Temos agora de apresentar aos nossos leitores as poucas informações atualmente disponíveis a respeito da mais recente descoberta no gnosticismo.

Há dez anos, o Dr. Carl Schmidt informou-me que tinha esperanças de publicar uma obra sobre o assunto (incluindo presumivelmente um texto e tradução) em cerca de dois anos; mas, infelizmente, os seus tão aguardados trabalhos ainda não vieram à luz.

Estamos, portanto, inteiramente dependentes do relato da importante comunicação feita por ele à Real Academia Prussiana de Ciências (Kgl. preuss. Acad. d. Wissenschaften), publicada nas Atas, com data de 16 de julho de 1896. A comunicação de Schmidt, intitulada "Uma Obra Gnóstica Original Pré-Ireneana em Copta" ("Ein vorirenaeisches gnostisches Original-werk in koptischer Sprache"), comprova a enorme importância da feliz descoberta.

O seu artigo é, naturalmente, extremamente técnico e erudito, mas o seguinte resumo dará ao leitor uma ideia geral de um assunto que, no presente, só pode interessar a um número muito limitado de especialistas, mas que, com o tempo, deveria tornar-se familiar a todos os estudiosos sérios da teosofia cristã.

Em janeiro de 1896, o Dr. Rheinhardt obteve no Cairo, de um negociante de antiguidades de Akhmim, o precioso manuscrito em papiro, que ele afirmava ter sido descoberto por um fellah num nicho de uma parede.

O manuscrito encontra-se agora no Museu Egípcio de Berlim, com cada folha cuidadosamente protegida por vidro.


Infelizmente, o manuscrito não está inteiramente perfeito; continha originalmente setenta e uma folhas — seis das quais estão agora faltando; cada página contém cerca de dezoito a vinte e duas linhas.

A escrita é de extraordinária beleza e aponta para o século V.

Após um breve prefácio, o MS. traz o título "Evangelho segundo Maria", e na p. 77 a subscriptio "Apócrifo de João"; imediatamente na mesma página segue o título "Sabedoria de Jesus Cristo", e na p. 128 a mesma subscriptio; a página seguinte começa sem título, mas no final do MS. encontramos a subscriptio "Atos de Pedro".

O MS. contém, portanto, três tratados distintos, sendo o Evangelho de Maria e o Apócrifo de João a mesma peça.

A primeira obra começa com as palavras: "Ora, aconteceu em um daqueles dias, quando João, irmão de Tiago — os filhos de Zebedeu — subira ao templo, que um fariseu, chamado Ananias (?), veio a ele e lhe disse: 'Onde está teu Mestre, para que não o sigas?' Ele lhe disse: 'Donde Ele veio para lá, para lá foi (?)'. O fariseu lhe disse: 'Com engano vos enganou o Nazareu, pois ele vos ... e fez desaparecer a tradição de vossos pais.' Quando ouvi isto, afastei-me do templo para o monte, a um lugar solitário, e fiquei excessivamente triste no coração e disse: 'Como foi agora o Salvador escolhido; e por que foi Ele enviado ao mundo por Seu Pai que O enviou; e quem é Seu Pai; e qual é a formação daquele éon para o qual iremos?'"

O CÓDICE DE AKHMIM.

Enquanto está imerso nesses pensamentos, os céus se abrem, e o Senhor aparece a ele e aos discípulos, para resolver suas dúvidas.

O Salvador então os deixa, e novamente eles ficam tristes e choram.

Disseram: "Como podemos ir aos pagãos e pregar o evangelho do reino do Filho do Homem? Se eles não O receberam, como nos receberão?"

Então Maria se levantou e, tendo abraçado a todos, falou a seus irmãos: "Não choreis, e não fiqueis tristes, nem duvideis, pois a Sua graça estará convosco todos e vos cobrirá com sua sombra.

Antes, louvemos a Sua bondade, pois Ele nos preparou e nos fez homens."

Pedro pede que ela proclame o que o Senhor lhe havia revelado, reconhecendo assim a grande distinção que o Senhor sempre lhe permitira acima de todas as mulheres.

Em seguida, ela começa a narrativa de uma aparição do Senhor em sonho; infelizmente, algumas páginas estão aqui faltando.

Mal ela termina, quando André se levanta e diz que não pode acreditar que o Senhor tenha dado ensinamentos tão novos.

Pedro também rejeita seu testemunho e a repreende.

E Maria, em lágrimas, diz-lhe: "Pedro, de que pensas? Crês que imaginei isto apenas em mim mesma, ou menti quanto ao Senhor?"

E então Levi adianta-se para ajudar Maria e repreende Pedro como um eterno contendor.

Como a disputa prosseguiu, não podemos determinar, pois duas páginas estão faltando.

Na p. 21, um novo episódio começa e continua até o fim do primeiro tratado sem interrupção.

O Senhor aparece novamente a João, e João imediatamente se dirige aos seus companheiros discípulos e relata o que o Salvador lhe havia revelado.


Schmidt sugere que o título original era O Apocalipse ou Revelação, e não O Apócrifo de João.

O livro da Sabedoria de Jesus Cristo começa A Sabedoria com as palavras: "Após a Sua ressurreição dos de Cristo.

mortos, Seus doze discípulos e sete discípulas haviam ido para a Galileia, ao monte que .... pois estavam em dúvida quanto à hipóstase do Todo .... quanto aos mistérios e à sagrada economia.

Então o Salvador lhes apareceu, não em Sua forma anterior, mas no espírito invisível.

Sua forma era a de um grande anjo de luz, Sua substância indescritível, e Ele não estava vestido de carne que morre, mas de carne pura e perfeita, como nos ensinou no monte da Galileia que era chamado .... Ele disse: 'Paz seja convosco; a Minha paz vos dou.'" E todos ficaram assombrados e tiveram medo.

E o Senhor lhes ordena que apresentem diante d'Ele todas as suas perguntas; e os vários discípulos expõem suas dúvidas e recebem as respostas desejadas.

Os Atos de Pedro são igualmente de origem gnóstica e pertencem ao grande grupo de histórias apócrifas dos Apóstolos.

Este terceiro documento trata de um episódio dos milagres de cura de Pedro.

A importância de todo o manuscrito reside não apenas no fato de que nos transmite três citações gnósticas até então desconhecidas dos escritos evangélicos, mas especialmente por nos fornecer uma obra que era conhecida de Irineu, nossa primeira e importante "autoridade" sobre o gnosticismo entre os Padres —

O CÓDICE DE AKHMIM.

uma obra da qual ele fez extratos, mas sem indicar as fontes de sua informação ou citar o título do livro.

Esta obra é o Evangelho de Maria.

Irineu começa a última seção de seu primeiro Livro (29-31) com as palavras: "E além destes, dentre aqueles que mencionamos antes como seguidores de Simão, uma multidão de Barbelo-Gnósticos surgiu, e eles se mostraram como cogumelos brotando do chão."

No capítulo,

ele trata principalmente de um grupo de chamados Barbelo-Gnósticos, a respeito dos quais ele apresenta o conteúdo de um dos livros que usavam, um ensinamento que não encontramos defendido nem pelos heresiarcas anteriores nem pelos posteriores.

Teodoreto (I. 13), entre os demais Refutadores, é o único que conhece esse ensinamento, e ele simplesmente copia Irineu.

Essa fonte é o nosso Evangelho de Maria; e agora podemos, pela primeira vez, controlar Irineu ponto por ponto, e ver quão pouco o Padre da Igreja conseguiu, ou poderia conseguir, reproduzir os sistemas extremamente complicados das escolas gnósticas.

Alguns exemplos serão suficientes para estabelecer abundantemente esse ponto.

Irineu começa sua exposição com estas palavras: "Alguns deles supõem um certo [ser] inominável

  '    sua menção

Luz     em     um     Espírito Virginal, a quem eles nomeiam

Barbelo.

Onde dizem que está um certo Pai inominável."

Esse "Pai de Todos" é caracterizado em nosso novo documento (p. 22) como o Invisível; como Luz Pura, na qual ninguém pode ver com olhos mortais; como Espírito, pois ninguém pode imaginar como Ele é.


formado; o Eterno, o Inefável; o Inominável, pois ninguém existia antes Dele para dar-Lhe um nome.

Dele é dito: "Ele pensa Sua Imagem sozinho e a contempla na Água de Luz Pura que O rodeia.

E Seu Pensamento energizou-se e revelou-se, e permaneceu diante Dele na Centelha de Luz; que é o Poder que existia antes do Todo, Poder que se revelou; que é o perfeito Pensamento Prévio do Todo; a Luz, a Semelhança da Luz, a Imagem da Mãe.

Invisível; isto é, o perfeito Poder, o Barbelo, o Éon perfeito em glória— glorificando-O, porque ela se manifestou Nele e O pensa.

Ela é o primeiro Pensamento, Sua Imagem; ela se torna o Primeiro Homem; isto é, o Espírito Virginal, ela da tríplice Humanidade, a triplo-poderosa, a triplo-nomeada, triplo-nascida; o Éon que não envelhece, o Homem-Mulher, que saiu de Seu Pensamento Prévio."

De acordo com isso, o "Pai do Todo" está à frente do sistema, o "Invisível". Depois Dele vem Sua "Imagem", isto é, o "Barbelo", o "perfeito Poder", o "Éon que não envelhece" de Ireneu.

Ao pensar em Sua Imagem, Seu Pensamento se revela na Centelha de Luz, isto é, em Barbelo.

Ireneu dá tudo isso em um resumo curto e incompreensível como segue: "E que Ele desejava manifestar-Se ao mesmo Barbelo.

E que o Pensamento saiu e permaneceu diante Dele, e pediu Presciência."

Nosso texto então prossegue: "E Barbelo suplicou à Pêntade.

Ele para dar-lhe Presciência.

Ele assentiu,

O CÓDICE DE AKHMIM.

e quando Ele assim assentiu, a Presciência manifestou-se e permaneceu com o Pensamento, isto é, o Pensamento Prévio, e glorificou o Invisível e o perfeito Poder, o Barbelo, porque através dela ela havia vindo à existência.

"Novamente este Poder suplicou que a Incorruptibilidade lhe fosse dada.

Ele assentiu, e quando Ele assim assentiu, a Incorruptibilidade manifestou-se e permaneceu com o Pensamento e a Presciência, glorificando o Invisível e Barbelo, porque através dela ela havia vindo à existência."

Por causa deles, ela suplicou que a Vida Eterna lhes fosse dada.

Ele assentiu, e quando assim assentiu em concordância, a Vida Eterna manifestou-se, e eles se puseram de pé e glorificaram a Ele e a Barbelo, porque através dela haviam chegado à existência na manifestação do Espírito Invisível.

"Esta é a pêntade dos Eons do Pai, isto é, o Primeiro Homem, a Imagem do Invisível; isto é, Barbelo, e o Pensamento, e a Presciência, e a Incorruptibilidade e a Vida Eterna."

A pedido de Barbelo, também, o Invisível faz surgir, após o Pensamento, os três seguintes Eons femininos, segundo Ireneu; "O Pensamento pediu a Presciência; tendo também a Presciência surgido, novamente, mediante sua petição, surgiu a Incorruptibilidade; então, depois, a Vida Eterna; na qual Barbelo, regozijando-se, e olhando para a grandeza, e deleitando-se com sua concepção, gerou nela uma Luz semelhante a ela; esta, afirmam, ser o princípio da iluminação e da geração de todas as coisas; e que o Pai, vendo esta Luz, ungiu-a com Sua bondade para torná-la perfeita; e isto, dizem, é o Cristo."


Nesta passagem, sem dúvida, Ireneu tinha diante dos olhos as palavras: "Ele é a década dos Eons, isto é, Ele é o Pai do Pai ingenerável.

Barbelo olhou fixamente para Ele... e ela deu à luz uma bendita centelha de Luz.

Nem difere dela em grandeza.

Este é o Unigênito, que se manifestou no Pai, o Deus autogerado, o Filho primogênito do Todo, o puro Espírito de Luz.

Ora, o Espírito Invisível regozijou-se sobre a Luz, que viera à existência, que primeiramente se manifestara no primeiro Poder — isto é, Sua Previsão — em Barbelo.

E Ele a ungiu com Sua bondade, para que fosse aperfeiçoada."

Este Unigênito é, consequentemente, idêntico à Luz ou ao Cristo.

Ireneu não nos oferece aqui esclarecimento algum, e mais adiante ele apenas nos dá a sentença: "Portanto, o Primeiro Anjo, que está próximo ao Unigênito," etc.

O Unigênito pede que a Mente lhe seja dada; quando isso é feito, ele louva, como Mente, o Pai e Barbelo.

Irineu continua: "E isto, dizem eles, é Cristo; o qual novamente solicita, como dizem, que a Mente lhe seja dada para auxiliá-lo; e então surgiu a Mente; e depois destes, o Pai envia o Verbo."

Neste ponto, Irineu omitiu uma etapa e esqueceu completamente o terceiro Eon masculino, a saber, a Vontade.

Nosso manuscrito nos dá o seguinte:

O CÓDICE DE AKHMIM.

"O Espírito Invisível quis energizar.

Sua Vontade energizou e revelou-se, e permaneceu com a Mente e a Luz louvando-O.

O Verbo seguiu a Vontade, pois através do Verbo Cristo criou todas as coisas."

Com isso, a Ogdôada superior é separada da Década, o eon inferior procedendo de pares separados.

O Cristo.

Em seguida, temos o Auto-gerado, procedente do Pensamento, o Verbo, de quem está escrito: "A quem Ele honrou com grande honra, porque ele surgiu de Seu primeiro Pensamento.

O Invisível o estabeleceu como Deus sobre o Todo.

O Deus Verdadeiro deu-lhe todos os poderes e sujeitou a Verdade que está Nele a ele, para que ele pudesse conceber o Todo."

Irineu reproduz isso da seguinte forma: "Então, posteriormente, da Mente e do Verbo, dizem eles, foi enviado o Auto-gerado, para representar a Grande Luz, e que ele foi altamente honrado, e todas as coisas lhe foram sujeitadas.

E a Verdade também foi enviada com ele, e que há uma conjunção do Auto-gerado e da Verdade."

(É impossível, no momento, tentar analisar o sistema a partir dos fragmentos acima; pode-se, no entanto, sugerir que o tratado aqui expõe as três fases-raiz, ou momentos de emanação, do Pleroma, ou mundo ideal: (a) o Ingerável, (b) o Auto-gerável e (c) o Gerável — o Pai, o Logos, o Todo.

A Gnose, contudo, é mais elaborada do que qualquer outro sistema conhecido, e suas intuições idealistas dos processos primordiais não conhecem limites.) Da Luz do Cristo e do Incorruptível procedem quatro grandes Luzes para circundar o Auto-gerado.


Seus nomes são Harmozel, Oroiael, Daveithe e Eleleth.

Da Vontade e da Vida Eterna procedem outros quatro: Charis, Synesis, Aisthesis e Phronesis.

Ireneu escreve:

"E da Luz que é Cristo, e da Incorruptibilidade, quatro Luminárias foram enviadas para cercar o Auto-gerado; e que, novamente, da Vontade e da Vida Eterna, quatro tais emanações foram enviadas para ministrar sob as quatro Luminárias, as quais eles chamam Graça (Charis), Livre-arbítrio (Thelesis), Entendimento (Synesis) e Prudência (Phronesis). E que Charis, por sua parte, foi unida à grande e primeira Luminária; e isto eles querem que seja o Salvador, e o chamam Harmogen; e Thelesis com a segunda, a qual também chamam Raguel; e Synesis com a terceira, a qual nomeiam David; e Phronesis com a quarta, a qual nomeiam Eleleth."

Esta passagem é de interesse de muitas maneiras.

Aprendemos os nomes corretos; notamos que três deles (Eleleth, Daveithe, Oroiael) também são encontrados no Códice Brucianus, e assim estabelecemos a relação deste importante Códice com a primeira peça em nosso manuscrito.

Estas provas são suficientes para estabelecer o ponto de que o Evangelho de Maria foi composto antes de d.C. 180, e que o original grego, do qual a tradução copta foi feita, era anterior a Ireneu.

Na opinião do Dr. Schmidt, a obra originou-se no Egito.

A Escola que a utilizava era a mesma designada por Ireneu como os Barbelo-Gnósticos, ou, como geralmente se autodenominavam, simplesmente os Gnósticos; esta Escola era ainda subdividida em muitas denominações individuais, cujos nomes e ensinamentos Epifânio nos deu em detalhe.

Entre eles circulavam muitos livros sob o nome de Maria; assim, Epifânio (Heresias, xxvi. 8) fala das Perguntas de Maria, tanto as Grandes quanto as Pequenas, e até mesmo em xii. da Genealogia de Maria.

Celso já havia também encontrado esta Escola, e talvez estivesse familiarizado com a nossa obra, pois ele nos informa que alguns hereges derivam sua origem de Maria e Marta, e fornece o conhecido diagrama dos chamados Ofitas.

Ainda mais; a nossa obra original nos mostra que Irineu "copiou" do nosso livro apenas até certo ponto; e em I, 30, ele utilizou uma segunda obra da mesma Escola que havia caído em suas mãos.

Até aqui o Dr. Schmidt, cuja interessante comunicação é seguida por uma nota do Professor Harnack.

Harnack dá sua opinião da seguinte forma:

"Esta descoberta é de primeira importância para a história da Igreja primitiva; não apenas porque temos uma (ou talvez três) obras gnósticas originais do segundo século — (seria a Sabedoria de Jesus Cristo possivelmente a famosa obra de Valentinus?) — mas o destino bondoso também acrescentou à nossa dívida o fato de que Irineu citou um dos três tratados.

Estamos assim, pela primeira vez, em posição de controlar pelo original a apresentação de um sistema gnóstico tal como foi renderizada pelo Padre da Igreja.

O resultado deste exame mostra, como poderíamos ter esperado, que devido a omissões, e porque nenhum esforço foi feito para compreender seus oponentes, o sentido das especulações de modo algum absurdas dos gnósticos foi arruinado pelo Padre da Igreja.


Outro fato — que só pode ser extraído com a maior dificuldade dos escritos de seus oponentes — é que o sistema trata de um processo psicológico dentro do primeiro princípio, que os gnósticos desejavam desdobrar.

Tertuliano certamente diz uma vez (Adv. Valent., iv.): 'Ptolemeu, o discípulo de Valentinus, dividiu os nomes e números dos aeons em "substâncias" personificadas, externas à divindade, enquanto o próprio Valentinus os havia incluído no próprio ápice da divindade como as impressões de sensação e sentimento' — mas qual dos Padres da Igreja se deu ao trabalho de assim compreender as especulações de Valentinus e dos outros gnósticos?"

"  Segundo Hipólito (Philos., vi. 42), os seguidores do gnóstico Marcos queixavam-se da deturpação de seus ensinamentos por Irineu; os seguidores de nosso livro recentemente descoberto também poderiam ter se queixado da maneira incompreensível pela qual Irineu havia representado seus ensinamentos.

"  Assim, conhecíamos anteriormente uma obra gnóstica que provavelmente se originou no Egito no século II, apenas através de um epítome dela feito por um bispo gaulês por volta do ano 185, e agora a encontramos novamente em uma tradução copta do século V — verdadeiramente um método paradoxal de transmissão!"

Se, no entanto, os últimos capítulos do Livro I de Irineu forem copiados do perdido Syntagma de Justino ou de alguma

O   CÓDICE   DE   AKHMIM.

outra obra anterior, como os melhores críticos sustentaram anteriormente, então o original de nosso novo documento tem uma data consideravelmente mais antiga do que Schmidt ou Harnack lhe atribuem na Transação acima mencionada.

O estudante do Gnosticismo perceberá imediatamente que a importância da nova descoberta não pode ser superestimada.

Os novos documentos lançam luz não apenas sobre o Códice Brucianus, mas também sobre o sistema da Pistis Sophia.

Temos agora estas três fontes originais sobre as quais basear nosso estudo da teosofia gnóstica; e há esperança de que, finalmente, algo possa ser feito para resgatar as visões dos melhores doutores gnósticos da obscuridade e do ambiente de refutação piedosa no qual foram anteriormente sufocadas.

A tarefa do estudante simpático deveria agora ser encontrar termos apropriados para as tecnicidades da Gnose, colocar as várias ordens de ideias em sua devida relação, e mostrar que o método da Gnose, que encarava os problemas da cosmogonia e da antropogonia de cima, pode ser tão razoável em seu domínio próprio quanto são os métodos da pesquisa científica moderna, que consideram tais problemas inteiramente de baixo.

Não deveríamos esquecer que homens como Valentino eram teosofistas, engajados precisamente nos mesmos estudos que seus irmãos em todo o mundo.

As maiores cosmogonias do mundo são da mesma natureza que a cosmogênese gnóstica, e um estudo destas nos convencerá da similaridade de origem.

A antropogênese gnóstica tem muitos pontos de similaridade com as ideias teosóficas gerais, e a psicologia gnóstica é em grande medida corroborada por pesquisas recentes.

Os Os termos técnicos gnósticos não são mais difíceis de compreender do que aqueles encontrados em outros escritores teosóficos; e há um paralelo exato entre o uso variado que diferentes escritores sobre a Gnose fazem de tais termos e a deturpação das visões dos gnósticos pelos Padres da Igreja, e os vários significados dados a termos semelhantes por outros escritores teosóficos e a deturpação de tais escritores por seus críticos.


Os gnósticos foram em parte culpados por sua obscuridade, e os Padres da Igreja foram em parte culpados por sua deturpação.

Em suma, o mesmo padrão de crítica tem de ser aplicado aos escritos dos gnósticos, como o estudante perspicaz tem de aplicar a toda essa literatura.

É verdade que hoje falamos abertamente de muitas coisas que os gnósticos envolveram em símbolo e mito; no entanto, nosso conhecimento real sobre tais assuntos não está tão distante à frente dos grandes doutores da Gnose quanto estamos inclinados a imaginar; agora, como então, há apenas alguns que realmente sabem sobre o que estão escrevendo, enquanto o restante copia, compara, adapta e especula.

ALGUNS DITOS ESQUECIDOS.

ALGUNS DITOS ESQUECIDOS.

Nos primeiros séculos do Cristianismo, circulavam muitas tradições, lendas e romances religiosos, chamados Memórias, Atos e Evangelhos, que continham Ditos-do-Senhor ou Logoi.

Esses Logoi ou Logia eram oráculos, ou enunciados oraculares, expressos na mesma linguagem e com muito do mesmo teor que os enunciados proféticos dos membros das Escolas dos Profetas, que eram introduzidos pela fórmula solene: "Assim diz o Senhor", quando registrados nos livros da Antiga Aliança da raça judaica.

Com o passar do tempo, certos desses cenários tradicionais, lendários e míticos dos Logoi foram declarados como os únicos históricos, e um cânon de tradição ortodoxa foi desenvolvido a partir da segunda metade do século II em diante.

Uso o termo "mítico" em seu melhor sentido, ou seja, histórias que incorporam de maneira simbólica e deliberada os ensinamentos dos mistérios, concernentes à natureza de Deus, do universo e da alma humana.

Como apenas alguns dos muitos escritos foram selecionados, um grande número de Logoi foi assim rejeitado.

Rejeitados. A mais recente coleção desses Logoi rejeitados foi feita por Resch, e foi publicada em 1889 na série Texte und Untersuchungen de Gebhardt e Harnack, sob o título de Agrapha: Aussercanonische Evangelienfragmente.

Alguns desses fragmentos extra-canônicos são variantes dos Ditos canônicos familiares, e são de interesse principalmente para a reconstrução de uma das fontes primárias das quais os compiladores sinóticos extraíram suas informações.

Alguns poucos foram preservados nas Cartas Paulinas.

Outros são totalmente desconhecidos para aqueles que apenas conhecem a seleção canônica dos livros do Novo Pacto, geralmente chamado de Novo Testamento.

Esses Logoi são de especial interesse para os estudantes das origens, e portanto anexo uma seleção deles traduzida do texto de Resch.

Pode-se mencionar que alguns desses Logoi foram incorporados a um romance religioso por um escritor judeu, sob o título As Others Saw Him, publicado em 1895, em Londres, por William Heinemann.

Sede misericordiosos para que obtenhais misericórdia; perdoai para que vos seja perdoado; assim como fizerdes, assim vos será feito; assim como derdes, assim vos será dado; assim como julgardes, assim sereis julgados; assim como servirdes, assim vos será servido; com a medida com que medirdes, com a mesma vos será medido em retorno.

A Sabedoria envia seus filhos.

Quem está perto de Mim está perto do fogo; e quem está longe de Mim está longe do reino.

Se não observais o pouco [isto é, o mistério], quem vos dará o grande?

Aqueles que desejam ver-Me e alcançar Meu reino devem atingir-Me com dor e sofrimento.

O bem deve necessariamente vir, mas bendito é aquele por quem ele vem; da mesma forma, o mal também deve necessariamente vir, mas ai daquele por quem ele vem.

Os fracos serão salvos pelos fortes.

ALGUNS DITOS ESQUECIDOS.

Guardai os mistérios para Mim e para os filhos de Minha casa.

Apegai-vos aos santos, pois aqueles que a eles se apegam são santificados.

A aparência deste mundo passa.

[Aparência — isto é, configuração (a-xwa), pois há outros mundos e outras fases deste mundo].

Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, fazei proclamação de Minha morte e confissão em Minha ressurreição e ascensão até que Eu venha [a vós].

[Uma variante apresenta o dito na terceira pessoa e fala da "morte do Filho do Homem", o Logos.

O Mestre promete retornar a Seus discípulos no momento da realização de um certo rito sagrado.]

Sede conscientes da fé e da esperança, através das quais nasce aquele amor a Deus e ao homem que dá a vida eterna.

Há uma mistura que conduz à morte, e há uma mistura que conduz à vida.

Observando um certo homem trabalhando no Sábado, disse-lhe: Homem, se sabes o que fazes, és bendito; mas se não sabes, és amaldiçoado e transgressor da lei.

Por que vos maravilhais com os sinais? Eu vos dou uma poderosa herança que o mundo inteiro não contém.

Quando o Senhor foi perguntado por um certo homem: Quando viria Seu reino, disse-lhe: Quando dois forem um, e o exterior como o interior, e o masculino com o feminino, nem masculino nem feminino.

Não chameis a ninguém de "Pai" na terra, pois na terra há [apenas] governantes; no céu está o Pai de quem provém toda descendência [isto é, "descendência de sangue de um pai" (-Trarpia)] tanto no céu quanto na terra.

Não entristeçais o Espírito Santo que está em vós, e não apagueis a Luz que brilhou em vós.

Assim como vos vedes a vós mesmos na água ou no espelho, assim vede-Me em vós mesmos.

Como Eu vos encontrar, assim vos julgarei.

Buscai as grandes [misteriosas] coisas, e as pequenas vos serão acrescentadas; buscai as celestiais, e as terrenas vos serão acrescentadas.

Sede cambistas aprovados, rejeitando o mau e retendo o bom.

Mantém pura a tua carne.

Por causa dos enfermos, eu estive enfermo; por causa dos famintos, eu tive fome; por causa dos sedentos, eu tive sede.

Não retribuindo mal por mal, nem injúria por injúria, nem punho por punho, nem maldição por maldição.

O amor cobre uma multidão de pecados.

Há falsos cristos e falsos mestres que blasfemaram o Espírito da Graça e cuspiram o seu dom de graça; estes não serão perdoados nem neste éon nem no éon vindouro.

[A Graça é o "poder superior", o poder do Logos que faz do homem um "cristo". Charis ou Graça é a consorte do Logos, Seu poder ou shakti.

Os falsos "cristos" são aqueles que foram "iniciados" e quebraram seus votos.

O éon é um certo período de tempo.]

Pois o Pai Celestial deseja o arrependimento do pecador, mais do que o seu castigo.

ALGUNS DITOS ESQUECIDOS.

Pois Deus deseja que todos recebam de Seus dons.

Guarda o que tens, e isso te será aumentado em mais.

Eis que faço os últimos como os primeiros.

Vim para pôr fim aos sacrifícios, e se não cessardes de sacrificar, a ira não cessará de vós.

[Ai daquele] que entristeceu o espírito do seu irmão.

E nunca vos alegreis, a menos que vejais vosso irmão [também] feliz.

Aquele que se maravilhou reinará, e aquele que reinou descansará.

[Este é um dito obscuro; foi comparado à frase de Platão: "Não há outro começo de filosofia senão o maravilhar-se" — isto é, considerar as obras da Divindade com admiração e reverência.

Este é o começo da filosofia, ou gnose, e o seu fim faz do homem rei de si mesmo, e assim senhor de deuses e homens; assim ele está em paz.]

Minha mãe, o Espírito Santo, agora mesmo me tomou por um dos cabelos da minha cabeça e me levou ao grande monte Tabor.

[Os cabelos da cabeça podem talvez simbolizar os nadis, como são chamados nos Upanishads, pelos quais a alma parte do corpo; a montanha é o caminho para as regiões espirituais.]

Aquele que me busca me encontrará nas crianças desde os sete anos [de idade]; pois, oculto nelas, manifesto-me no décimo quarto período (éon).


[Isto pode referir-se ao ego superior ou centelha de luz do Logos, ou a certos graus de iniciação, devendo o iniciado tornar-se como "criancinhas".]

Quando Salomé perguntou por quanto tempo a morte deveria dominar, o Senhor lhe disse: Enquanto vós, mulheres, derdes à luz; pois vim para pôr fim às obras da fêmea.

E Salomé Lhe disse: Então fiz bem em não dar à luz.

E o Senhor respondeu e disse: Comei de toda pastagem, mas daquilo que tem a amargura [da morte] não comais.

E quando Salomé perguntou quando seriam conhecidas aquelas coisas sobre as quais indagava, o Senhor disse: Quando pisardes a veste da vergonha, e quando os dois forem um, e o macho com a fêmea nem macho nem fêmea.

["Vergonha" é presumivelmente o mesmo que a "mistura" em um dos Logos citados acima. Pisar a veste da vergonha é elevar-se acima da natureza animal.]

Orai por vossos inimigos; bem-aventurados os que choram pela destruição dos incrédulos.

Eu me pus sobre uma montanha elevada e vi um homem gigantesco e outro, um anão; e ouvi como que uma voz de trovão, e aproximei-me para ouvir; e Ele me falou e disse: Eu sou tu e tu és Eu; e onde quer que estejas, aí estou Eu.

Em tudo estou disperso, e de onde quer que queiras, tu Me reúnes; e reunindo-Me, tu reúnes a ti mesmo.

[Aqui temos novamente a montanha da iniciação. O iniciado contempla a visão do Homem Celestial — o Logos — e de si mesmo, o anão; do Grande Homem e do pequeno homem, a centelha de luz que reside no coração.]

Que o Teu Espírito Santo venha sobre nós e nos purifique!

[De uma versão muito antiga da Oração do Senhor, em vez da cláusula "Venha o Teu Reino".]

Não possuais nada sobre a terra.

Ainda que estejais reunidos comigo em Meu seio, se não cumprirdes Meus mandamentos, Eu vos lançarei fora.

Ganhais para vós, ó filhos de Adão, por meio destas coisas transitórias que não são vossas, aquilo que é vosso próprio, e que não passa.

Pois mesmo entre os profetas, depois de terem sido ungidos pelo Espírito Santo, a palavra do pecado foi encontrada entre eles.

[Isto é, depois de terem sido feitos "cristos" (μετὰ τὸ χρισθῆναι αὐτοὺς ἐν πνεύματι ἁγίῳ). A "palavra do pecado" significa aparentemente enunciados proféticos errôneos.]

Se um homem abandonar tudo por causa do meu nome, na segunda vinda ele herdará a vida eterna.

["Por causa do meu nome" significa o poder do Grande Nome que o Mestre usou em sua pregação pública; a segunda vinda é a descida do Espírito Crístico sobre o candidato em sua iniciação.

"Vida eterna" é a vida dos eões ou existências espirituais, cujas vidas são uma eternidade.]

Se não fizerdes o que está embaixo como o que está em cima, e o que está em cima como o que está embaixo, o que está à direita como o que está à esquerda, e o que está à esquerda como o que está à direita, o que está diante como o que está atrás [e o que está atrás como o que está diante], não entrareis no reino de Deus.


[Isto é, não entrareis no ponto central e assim não passareis para a região espiritual.]

Eu hei de ser crucificado de novo.

Reconheci a mim mesmo, e reuni-me de todos os lados; não semeei filhos para o governante, mas arranquei suas raízes, e reuni [meus] membros que estavam dispersos; eu te conheço, quem tu és, pois sou dos reinos acima.

[Esta é a apologia, ou defesa, da alma do iniciado enquanto passa pelos reinos do mundo invisível, cada um dos quais está sob a guarda de um governante, o ministro da Morte.

Assim como o Logos reúne seus filhos (as centelhas de luz, os membros de seu corpo) e os leva para casa em seu seio, assim também o ego coleta seus membros e torna-se o osirificado.]

O que pregais com palavras diante do povo, fazei-o em obras diante de todo homem.

Tu és a chave [que abre] para cada homem, e fechas para cada homem.

[Este dito é posto na boca dos discípulos; na fórmula direta se leria: "Eu sou a chave", &c.]

Numerosos outros Logoi poderiam ser acrescentados da literatura gnóstica, especialmente do conteúdo dos Códices Coptas; mas o que foi dado basta para mostrar ao leitor que muito do material dos Ditos foi rejeitado e esquecido.

Quão preciosa era parte dessa matéria foi recentemente demonstrado por uma descoberta recente.

O antigo fragmento de papiro descoberto no sítio de Oxirrinco por Grenfell e Hunt, em 1897, preserva para nós a forma mais primitiva dos Logoi

ALGUNS DITOS ESQUECIDOS.

que conhecemos. Dos seis Ditos decifráveis que contém, um nos é familiar, dois contêm matéria nova e variantes importantes, e três são inteiramente novos.

Se a proporção de ditos agora desconhecidos para conhecidos era tão alta no restante do MS. quanto na folha solitária que chegou até nós, então de fato perdemos mais com o Cânon do que ganhamos.

Os Ditos recém-descobertos são os seguintes, omitindo-se aquele que já nos é familiar:

Jesus diz: Exceto se jejuardes para o mundo, de modo algum achareis o Reino de Deus; e exceto se guardardes o Sábado como sábado, não vereis o Pai.

Jesus diz: Eu me pus no meio do mundo, e em carne fui visto por eles, e achei a todos embriagados, e nenhum achei sedento entre eles.

E a Minha alma se entristece pelas almas dos homens, porque são cegos em seu coração e não veem.

. . .

Jesus diz: Onde quer que haja dois, não estão sem Deus; e onde quer que haja um só, digo: Eu estou com ele.

Levanta a pedra, e ali Me acharás; fende a madeira, e ali estou Eu.

[A primeira parte deste dito é extremamente imperfeita; segui as conjecturas de Blass.

Ver Taylor's Oxyrhynchus Logia, Oxford; 1899].

Jesus diz: Um profeta não é aceito em sua própria terra, nem um médico cura aqueles que o conhecem.

Jesus diz: Uma cidade construída no topo de um alto monte e estabelecida não pode cair nem ser ocultada.

Jesus diz: Tu ouves com um ouvido (mas o outro tu fechaste).

Desde a publicação da primeira edição desta obra, os montes de entulho da antiga Oxirrinco produziram ainda outro fragmento maltratado de papiro contendo material de uma coleção semelhante de ditos, cujas porções decifráveis são as seguintes, conforme a edição de Grenfell & Hunt (Novos Ditos de Jesus; Londres, 1904):


Estas são as . . . palavras que Jesus, o Vivente, falou a . . . e a Tomé, e Ele disse-lhes: Todo aquele que ouvir estas palavras jamais provará a morte.

Jesus diz: Não cesse aquele que busca . . . até que encontre, e quando encontrar se maravilhará; maravilhando-se reinará, e reinando descansará.

Jesus diz: (Perguntais? Quem são estes) que nos atraem (ao reino, se) o reino está no Céu? . . . as aves do ar, e todos os animais que estão sob a terra ou sobre a terra, e os peixes do mar (estes são os que vos atraem); e o Reino dos Céus está dentro de vós; e quem quer que se conheça a si mesmo o encontrará. (Esforçai-vos, portanto?) por conhecer-vos a vós mesmos, e sabereis que sois os filhos do . . . Pai; (e?) sabereis que estais na (Cidade de Deus?), e vós sois (a Cidade?).

Jesus diz: Tudo o que não está diante de tua face e o que te está oculto te será revelado.

Pois nada há oculto que não venha a ser manifestado, nem sepultado que não venha a ser erguido.

CONCLUSÃO,

Ó Luz de Deus, adorável! Nós Te adoramos, para que derrames Tua luz em nossas mentes!

Baseado no Gayatri.

POSFÁCIO.

LEITOR, se chegaste até aqui, podes ter viajado comigo ou ter sido conduzido por outro caminho; mas se chegaste tão longe na estrada? então parece — a mim, ao menos — como se tivéssemos viajado juntos até alguma região de luz.

Por algumas breves horas fomos privilegiados a desfrutar do convívio daqueles que amaram e amam o Mestre.

Com suas palavras ainda ressoando em nossos ouvidos, com a vida de seu amor ainda vibrando em nossas veias, como ousamos falar mal deles? "Vinde a Mim, vós que estais cansados!" Em tal luz de amor, como encontraremos coragem para condenar, porque eles foram ao Seu encontro com todo o seu ser? Lendo suas palavras e contemplando suas vidas, eu, por minha parte, vejo a marca de "Heresia", escrita tão grande em seu horizonte para muitos, desaparecendo na distância nebulosa, e em seu lugar contemplo a figura do Mestre de pé, com as mãos de bênção estendidas sobre suas cabeças.

Não sei por que este lado do cristianismo primitivo foi permitido cair no esquecimento.

Sem dúvida, houve um propósito servido pelo seu recolhimento; mas hoje, no início do século vinte, na maior liberdade e mais ampla tolerância que agora desfrutamos, não poderá o véu ser novamente levantado? As formas antigas não precisam retornar — embora certamente algumas delas tenham beleza suficiente! Mas o antigo poder está lá, esperando e vigiando, pronto para revestir-se de novas formas, formas ainda mais belas, se tão somente nos voltarmos para Aquele que detém o poder, como Ele realmente é, e não como O limitamos por nossos credos sectários.

Quanto tempo deverá passar antes que aprendamos que há tantos caminhos para adorar a Deus quantos são os homens na terra? Contudo, cada homem ainda declara: O meu caminho é o melhor; o meu é o único caminho.

Ou, se não o diz, pensa-o. Estas coisas, é verdade, transcendem nossa razão; a religião é algo em nós maior que nossa razão, e sendo maior, dá maior satisfação.

Para nos salvarmos, devemos perder a nós mesmos; embora não irracionalmente, se a razão é transcendida.

Se é verdade que vivemos muitas vidas antes, de quantas maneiras não teremos adorado a Deus ou falhado em fazê-lo? Quantas vezes condenamos o caminho que antes louvamos! Intolerantes em uma fé, igualmente intolerantes em outra, condenando nossos eus passados!

Que pensais, então, de Cristo? Não deve Ele ser um Mestre da religião, sábio além de nossos mais elevados ideais de sabedoria? Condena Ele os Seus adoradores porque os seus caminhos são diversos; condena Ele aqueles que adoram os Seus Irmãos, que também ensinaram o Caminho? Quanto ao resto, que necessidade há de demasiada precisão? Quem conhece com o intelecto o bastante para decidir sobre todos esses elevados assuntos

POSFÁCIO.

por seus semelhantes? Que cada um siga a Luz como a vê — há o bastante para todos; para que por fim possamos ver "todas as coisas transformadas em luz — doce, jubilosa luz." Estas são, então, todas as minhas palavras, exceto acrescentar, com um antigo escriba copta, "Ó Senhor, tende misericórdia da alma do pecador que escreveu isto!"

BIBLIOGRAFIAS.

Como nada que possa realmente ser chamado de bibliografia do assunto existe, acrescento uma tentativa de contribuição preliminar para uma Bibliografia completa do Gnosticismo.

Toda obra (e artigo) de importância está (tenho quase certeza) incluída, e penso que a lista dos trabalhos feitos sobre os escritos gnósticos coptas pode ser considerada razoavelmente completa; há, contudo, um certo número de artigos em periódicos e publicações de sociedades eruditas (francesas especialmente) que ainda está por ser acrescentado, embora não pense que esse número seja grande.

Poderia ter acrescentado mais

referências a Enciclopédias, mas a vasta maioria dos artigos em tais publicações é de muito pouco valor.

Dividi a Bibliografia Geral em: (i.) Obras Antigas; (ii.) Estudos Críticos anteriores a 1851; (iii.) Obras posteriores à Publicação do Texto dos Philosophumena em 1851. A Divisão i. contém obras geralmente de muito pouco valor; a Divisão ii. sofre da ignorância do conteúdo dos Philosophumena de Hipólito, cujo texto foi publicado pela primeira vez por Miller em Oxford em 1851. Seu

BIBLIOGRAFIA GERAL.

conteúdo pode-se dizer que revolucionou o estudo do Gnosticismo.

Também mantive separada a Bibliografia do trabalho feito sobre os escritos gnósticos coptas, que, creio, no futuro revolucionará ainda mais nossas ideias sobre a Gnose.

Fiz uma ou duas observações sobre as fontes de informação mais populares em inglês, mas abstive-me de todas as outras notas por serem inadequadas a uma obra tão geral como a presente.

BIBLIOGRAFIA GERAL.

Obras Antigas.

1569. Marcossius (G. P.). De Vitis, Secretis, et Dog-
matibus omnium Haereticorum . . . Elen-
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1664. Siricius (M.). Simonis Magi Haereticorum omnium
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Giessae.

1667. Michaelis (I.). Dissertatio de Indiciis Philosophiae
gnosticae Tempore LXX., in Syntagma
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1690. Ittig (T.). T. Ittigii . . . de Haeresiarchis
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1709. Ittig (T.). Dissertationis Ittigianae de Haeresiarchis
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a Cruce . . . Defensio.
Lipsiae.


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1739. Mosheim (J. L. v.). Institutiones christianae majores.
Helmstadii.
Vol. i., pp. 376 ff. Uma dissertação competente sobre os Dositeanos.

1750. (?). Mosheim (J. L. v.). Geschichte der Schlangen- brüder.
Helmstadt (?). Não está no Museu Britânico.

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Não está no Museu Britânico.

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Citado por Amelirieau em seu Essai.

Não está no Museu Britânico.

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Não está no Museu Britânico.

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Não está no Museu Britânico.

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1855. Volkmar (G.). Die Quellen der Ketzergeschichte bis zum Nicanum kritisch untersucht, Erstes Band: Hippolytus und die römischen Zeitgenossen; oder die Philosophumena und die verwandten Schriften nach Umfang, Composition und Quellen untersucht. Zurique.

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Der Gnosticismus und die Philosophumena mit besonderer Rücksicht auf die neuesten Bearbeitungen von W. Möller und R. A. Lipsius.

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Zeitschr. f. wiss. Theol.

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Schenkel's (D.)

Bibel-Lexikon.

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1872. Lipsius (R. A.). Die Quellen der romischen Petrussage kritisch untersucht.

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1884. Giraud (?). Ophitae, Dissertatio de eorum Origine,

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Paris.

Não está no Museu Britânico; referido por Carl Schmidt, que, no entanto, não encontrou um exemplar.

1884. Hilgenfeld (A.). Die Ketzergeschichte des

Urchristenthums.

Leipzig.

Resumindo os resultados de suas pesquisas anteriores.

1885. Zahn (T.). Artigo.

Die Dialoge des Adamantinus

(para Marcion). Zeitschr.

f. Kirchengesch.

Gotha.

Vol.

ix., pp. 193 e seguintes.


1885. Salmon (G.). Artigo.

As Referências Cruzadas nas Philosophumena.

Hermathena.

Dublin.

Pp. 389 e seguintes.

1887. King (C.W.). Os Gnósticos e seus Restos, antigos e medievais.

Londres.

ed. 1ª ed., 1864, muito menor e sem referência à Pistis Sophia.

1887. Amelineau (E.). Ensaio sobre o Gnosticismo egípcio,

seus Desenvolvimentos e sua Origem egípcia.

Annales du Musee Guimet.

Paris.

Vol.

xiv.

1888. Harnack (A.). Artigo.

Valentinus.

Encyclopaedia

Britannica.

Londres.

9ª edição.

Um artigo mais longo que o de Tulloch sobre todo o Gnosticismo.

1888. Zahn (T.). Adota a teoria de Salmon sobre as Philosophumena.

Geschichte des N. T. Kanons.

Erlangen.

Vol I. i. p. 24, n. 2.

1889. Usener (H.). Investigações de História das Religiões.

Th. i. Das Weihnachtsfest.

Bonn.

1889. Harnack (A.). Crítica, sobre o acima.

Theologische

Literaturzeitung.

Leipzig.

Nr. viii., pp.

199—211. 1889. Honig (A.). Die Ophiten.

Uma Contribuição para a

História do Gnosticismo Judaico.

Berlim.

1889. Harnack (A.). Crítica do Ensaio de Amelineau.

Theolog.

Literaturztg.

Leipzig.

Nr. ix., pp. 232 e seguintes.

1890. Stahelin (H.). As Fontes Gnósticas de Hipólito

em sua Obra Principal contra os Hereges.

Textos e Investigações.

Leipzig.

Vol.

vi., pt. 3. 1890. Harnack (A.). Sete Novos Fragmentos dos

Silogismos de Apeles.

Texto.

u. Unter.

Leipzig.

Vol.

vi., pt. 3. 1890. Kurtz (J. H.). Lehrbuch der Kirchengeschichte.

BIBLIOGRAFIA GERAL.

Leipzig, 11ª ed., 1890. Tradução inglesa de Macpherson (J.). Church History.

Londres.

vols., 1888–1890. Vol.

i., pp. 98–125. 1891. Blunt (J. H.). Dictionary of Sects, Heresies, ecclesiastical Parties and Schools of religious Thought.

Londres.

Nova ed. Muito insatisfatória.

1891. Brooke (A. E.). The Fragments of Heracleon

recentemente editados a partir dos MSS.

com Introdução e Notas.

Cambridge.

Texts and Studies.

Vol.

i., No. 4.

1892. Mead (G. R. S.). Simon Magus.

Um Ensaio.

Londres.

1893. Harnack (A.). Geschichte der altchristlichen

Litteratur bis Eusebius.

Leipzig.

vols.

1894. Anrich (G.). Das antike Mysterienwesen in seinem

Einfluss auf das Christentum.

Gottingen.

Der

Gnosticismus in seinem Zusammenhang mit

dem Mysterienwesen.

Pp. 74–105. 1894. Harnack (A.). Lehrbuch der Dogmengeschichte.

Freiburg i. B. u. Leipzig.

vols., 3ª ed.

1ª ed., 1886. Die Versuche der Gnostiker

u. s. w. Vol.

i., pp. 211–253. 1894. Harnack (A.). History of Dogma.

Tradução inglesa

por várias mãos.

Londres.

vols.

As

Tentativas dos Gnósticos de criar uma

Dogmática Apostólica e uma Teologia Cristã;

ou a Secularização Aguda do Cristianismo,

Vol.

i., pp. 222–265. 1894. Kunze (J.). De Historia Gnosticismi Fontibus

novae Quaestiones criticae.

Leipzig.

1894. Harnack (A.). Rev.

da tese de Kunze.

Theolog.

Literaturztg.

Leipzig.

Pp. 506 e seguintes.


1895. Amelineau (E.). Le nouveau Traité gnostique de

Turin.

Paris.

1895. Anz (W.). Zur Frage nach dem Ursprung des

Gnostizismus.

Texte u. Untersuch.

Leipzig.

Vol.

xv. 1897. Nau (F.). Une Biographie inédite de Bardesane

l'astrologue.

Paris.

1897. Bevan (A. A.). The Hymns of the Soul

[atribuídos a Bardesanes] contidos nos

Atos Sírios de São Tomé.

Texts and

Studies.

Cambridge.

Vol.

v., No. 3. 1898. Friedländer (M.). Der vorchristliche jüdische

Gnosticismus.

Gottingen.

1899. Nau (F.). Bardesane l'Astrologue: Le Livre des Lois des Pays. Paris.

1899. Burkitt (F. C.). The Hymn of Bardaisan, traduzido para o inglês. Londres.

1900. Mead (G. R. S.). Fragments of a Faith Forgotten. Alguns Breves Esboços entre os Gnósticos, principalmente dos Primeiros Dois Séculos. Uma Contribuição ao Estudo das Origens Cristãs. Londres.

1900. Preuschen (E.). Die apokryphen gnostichen Adamschriften aus dem Armenischen iiber-setzt. (?) Kreyenbiihl. Das Evangelium der Wahrheit. vols. Vol. ii. 1905 ('?). Não está no Museu Britânico.

1901. Waitz (H.). Das pseudotertullianische Gedicht adversus Marcionem. Ein Beitrag zur Geschichte der altchrist. Literatur sowie zur Quellenkritik des Marcionitismus. Darmstadt.

1902. Liechtenhari (R.). Art. Die pseudepigraphe Literatur der Gnostiker. Zeitschr. f. d. neutest. Wissenchaft. Giessen. Fascc. iii., xiv.

1903. Hoffmann (G.). Zwei Hymnen der Thomasakten. Zeitschr. f. d. neutest. Wissenchaft. Giessen. Vol. iv., pp. 273—309.

1903. De Faye (E.). Introduction a 1'etude du Gnosticisme au II" et III6 Siecle. Paris.

1904. Waitz (W.). Die Pseudoklementinen Houailien u. Rekognitionen. Texte u. Untersuchungen. Leipzig. N. F. Bd. x. Hft. 4.

1904. Hi]genfeld (A.). Art. Der Konigssohn und die Perlen. Ein morgenlandischer Gedicht. Zeitschr. f. wissenschaft. Theologie. Leipzig. Vol. xlviii., (N. F. xii.). Hft. ii., pp. 229—241.

1904. Preuschen (E.). Zwei Gnostische Hymnen. Giessen.

1905. Harnack (A.). Ed. The Letter of Ptolemy to Flora. Cambridge.

1905. Kriiger (G.) Art. Das Taufbekentniss der romischen Gemeinde als Niederschlag des Kampfes gegen Marcion. Zeit. f. d. neutest. Wiss. Heft i.

1906. Mead (G. R. S.). Thrice-Greatest Hermes. Estudos em Teosofia e Gnose Helenísticas. Sendo uma Tradução dos Sermões e Fragmentos Existentes da Literatura Trismegística, com Prolegômenos, Comentários e Notas. Londres. vols.

FRAGMENTS OF A FAITH FORGOTTEN. THE COPTIC GNOSTIC WORKS.

O estudante encontrará avisos críticos sobre a maioria das seguintes obras na Introdução à minha tradução da Pistis Sophia.

1770. Art.

in Brittische theolog. Magazin (1). Ver Kostlin infra.

Não consigo encontrar nenhum vestígio disso no Museu Britânico.

1773. Woide (C. A.). Art.

in Journal des Savants.

Paris.

1778. Woide (C. A.). Art.

in Cramer's (J. A.) Beytrage zur Beforderung theologischer und andrer wichtigen Kentnisse.

Kiel und Hamburg.

Pp. 82 if.

1799. Woide (C. A.). Appendix ad Editionem Novi Testimenti grseci e Codice ms. Alexandrine et cet.

Oxonii.

P. 137.

1812. Miinter (F. C. C. H.). Odrc gnosticse Salomon tribute, thebaice et latine.

Prefatione et Adnotationibus philologicis illustrate.

Hafnise.

1838. Dulaurier (E.). Art.

in Le Moniteur.

Paris.

Sep. 27.

1843. Matter (J). Histoire critique du Gnosticisme.

Ver Bibliografia Geral acima.

ed. Vol. ii., pp. 41 ff., 350 ff. Tradução alemã de Dorner, vol. ii., pp. 69 ff., 163 ff.

1847. Dulaurier (E.). Art.

Notice stir le Manuscript copte-thebain, intitule La Fidele Sagesse ; et sur la Publication projetee du Texte et de la Traduction franaise (k oe Manuscript.

AS OBRAS GNÓSTICAS COPTAS.

Journal asiatique.

Paris.

4ª série.

Vol. ix., juin, pp. 534—548.

1851. Schwartze (M. G.). Pistis Sophia, Opu.s gnosticum Valentino adjudicatnm, e Codice manuscripto coptico londinensi description.

Texto e tradução latina (1853) por Schwartze, ed. por Petermann (J. H.). Berlin.

1852. Bimsen (C. C. J.). Hippolytus und seine Zeit.

Anfange und Aussichten des Chris tenth urns und der Menschheit.

Leipzig.

Vol. i., pp. 47, 48. Hippolytus and his Age.

London.

Vol. i., pp. 61, 62.

1853. Baur (F. C.). Das Christenthum und die christ-liche Kirche der drei ersten Jahrhunderte.

Tubingen.

Notas pp. 185, 186 e 205 206.

1854. Kostlin (K. R.). Art.

Das gnostische System des Buches Pistis Sophia.

Theolog. Jahrbiicher.

Tubingen.

Vol. xiii., pp. 1 — 104, 137—196.

1856. Migne (J. P.). Le Livre de la fidele Sagasse.

Uma tradução anônima no Dictionaire des Apocryphes de Migne.

Paris.

Vol. i. append., pt. ii., coll. — 1286.

1860. Lipsius (R. A.). Gnosticismus. Leipzig. pp. 95 e segs., e segs. Ver Bibliog. Geral.

1875. Wright (W.). The Paheographical Society. Fac-símiles de MSS. e Inscrições. Série Oriental. Ed. por W. W. Londres. Lâmina xlii.

1877. Jacobi (J. L.). Artigo. Gnosis. Enciclopédia Real Teológica de Herzog. Ver Bibliog. Geral.

1887. King (C. W.). Os Gnósticos e seus Restos. Contém uma tradução de várias páginas da P. S. Ver Bibliog. Geral.

1887. Lipsius (R. A.). Artigo. Pistis Sophia, Dicionário de Cristo e Biografia de Smith e Wace. Ver Bibliog. Geral.

1887. Amelineau (E.). Essai sur le Gnosticisme égyptien. Especialmente parte iii., pp. 106–322. Ver Bibliog. Geral.

1889. Harnack (A.). Crítica do acima. Ver Bibliog. Geral.

1890. Amelineau (E.). Artigo. Les Traités gnostiques d'Oxford. Étude critique. Revue de l'Histoire des Religions. Paris. pp. 1–72.

1891. Schmidt (Carl). Artigo. Ueber die in koptischer Sprache erhaltenen gnostischen Originalwerke. Sitzungsber. der königl. preuss. Akad. der Wissensch. Berlim. Phil.-hist. Klasse. xi. pp. 215–219.

1891. Harnack (A.). Ueber das gnostische Buch Pistis Sophia. Leipzig. Text und Untersuch. Vol. vii., parte 2.

1891. Ryle (H. E.) e James (M. R.). Salmos dos Fariseus, comumente chamados os Salmos de Salomão. Cambridge. Para as cinco Odes Salomônicas citadas na P.S. Ver Introdução para bibliografia completa do assunto.

1891. Amelineau (E.). Notice sur le Papyrus gnostique Bruce. Texte et Traduction. Paris.

1891. Schmidt (C.). Crítica sobre a Notice de Amelineau. Göttingische gelehrte Anzeigen. Göttingen. Nº xvii., pp. 640–657.

1891. Amelineau (E.). Artigo. Le Papyrus Bruce. Réponse aux Göttingische gelehrte Anzeigen. Revue de l'Histoire des Religions. Paris. Vol. xxiv., nº 3, pp. 376–380.

1892. Schmidt (C.). Resposta final de Schmidt. Gott. gelehr. Anz. Nº vi., pp. 201–222.

1892. Schmidt (C.). Gnostische Schriften in koptischer Sprache aus dem Codex brucianus, herausgegeben, übersetzt und bearbeitet. Leipzig. Text u. Untersuch. Vol. viii., partes 1, 2.


AS OBRAS GNÓSTICAS CÓPTICAS.

1894. Preuschen (E.). Grit, on above. Theolog. Litt.-Ztg. Leipzig. Nr. 7. Schmidt (C.). Resposta. Die in rlem koptisch-gnostischen Codex brucianus enthalteneri "beiden Biicher Jeu" in ihrem Verhaltnis zu der Pistis Sophia. Zeitschr. f. wiss. Theolog. Leipzig. Pt. iv., Nr. xxiv., pp. 555-585.

1895. Amelineau (E.). Pistis Sophia. Ouvrage gnostique de Valentin, traduit du copte en français, avec une Introduction. Paris.

1896. Mead (G. R. S.). Pistis Sophia. Um Evangelho Gnóstico (com Extratos dos Livros do Salvador anexados) originalmente traduzido do grego para o copta, e agora pela primeira vez traduzido para o inglês a partir da versão latina de Schwartze do único manuscrito copta conhecido e verificado pela versão francesa de Amelineau, com uma Introdução. Londres.

1896. Schmidt (C.). Artigo. Ein vorirenaeisches gnostisches Originalwerk in koptischer Sprache. Sitzungsber. der königl. preuss. Akad. der Wissenschaft, zu Berlin. Pp. 837-847.

1898. Schmidt (C.). Resenha sobre a tradução de Amelineau de P.S. Sonder-Abdruck aus den Göttingisch. gelehr. Anzeigen. Nr. vi.

1901. Liechtenhan (R.). Untersuchungen zur koptisch-gnostischer Literatur. Die Offenbarung im Gnosticismus. Göttingen.

1905. Schmidt (C.). Koptisch-gnostische Schriften. Die Pistis Sophia. Die beiden Bücher des Jeu. Unbekanntes altgnostisches Werk. Leipzig. Vol. 1.

FRAGMENTOS DE UMA FÉ ESQUECIDA. RESENHAS E ARTIGOS EM PERIÓDICOS INGLESES E AMERICANOS.

Estes são retirados principalmente do Index to Periodical Literature de Poole (W. F.). Boston. 3ª ed., 1885, com Suplementos até 1898. As marcas de prensa do Museu Britânico são convenientemente fornecidas nas tabelas de abreviações, etc., desta publicação.

1828. Nota sobre a Histoire de Matter (1ª ed.). The Foreign Quarterly Review. Londres. Vol. iii., pp. 307-309.

1830. Resenha sobre o mesmo. Ibid., vol. v., pp. 569-598.

1830. Artigo. Gnosticismo. The Methodist Magazine. Londres. Vol. liii., pp. 325 ff.

1831. Artigo. História do Gnosticismo. The Eclectic Review. Londres. Vol. liv., pp. 373 ff.

1833. Cheever (G. B.). Artigo. A Filosofia dos Gnósticos.

O Repositório Bíblico Americano.

Nova York.

Série.

Vol. iii., pp. 353 ss. 1833. Cheever (G. B.). Artigo.

A Filosofia dos Gnósticos.

Ibid., vol. vi., pp. 253 ss. 1837. Parker (T.). Artigo.

História do Gnosticismo.

O Examinador Cristão.

Boston.

Vol. xxiv., pp. ss. 1858. Schaff (P.). Artigo.

Análise do Gnosticismo.

A Revista de Mercersburg.

Mercersburg.

Vol. x., pp. 520 ss. 1858. Harwood (E.). Artigo.

Gnosticismo.

A Revista da Igreja Americana.

Nova Haven e Nova York.

Vol. x., pp. 259 ss. 1865. Resenha.

Sobre os Gnósticos de King e seus Remanescentes.

AS RESENHAS E ARTIGOS.

Christian Remembrancer.

Londres.

Vol. i., pp. 459 ss. 1865. Artigo.

Gnosticismo.

O Jornal de Arte.

Londres.

Vol. xvii. pp. 41 ss. 1867. Clarke (J. C. C.). Artigo.

Gnosticismo Esboçado.

A Revista Trimestral Batista.

Filadélfia.

Vol. i., pp. 35 ss. 1868. Sears (E. H.). Artigo.

Gnosticismo.

A Revista Religiosa Mensal.

Boston.

Vol. xli., pp. 101 ss. 1870. Harmon (H. M.). Artigo.

de Groot sobre Testemunhos Gnósticos ao N. T. O Metodista Trimestral.

Nova York.

Vol. xxx., pp. 485 ss. 1874. Artigo.

Gnosticismo.

A Revista de Dublin.

Dublin.

Vol. lxxvi., pp. 56 ss. 1875. Resenha.

Sobre as Heresias Gnósticas de Mansel.

O Observador Cristão.

Vol. lxxv., pp. 438 ss. 1878. Allen (J. H.). Artigo, Gnosticismo.

A Revista Unitária.

Boston.

Vol. x., pp. 543 ss. 1885. Salmon (G.). Artigo.

As Referências Cruzadas nos "Philosophumena." Hermathena.

Dublin.

Vol. v., pp. 389—402. 1887. Resenha.

Sobre os Gnósticos de King (2ª ed.). A Revista Saturday.

Londres.

Vol. lxiv., pp. 641 ss. 1887. Lang (J. M.). Artigo.

Seitas Gnósticas do Segundo Século.

A Revista Evangélica Britânica e Estrangeira.

Londres.

Vol. xxxvi., pp. 226 ss. 1889. Conder (C. R.). Artigo.

Os Gnósticos.

A Revista Asiática.

Londres.

Vol. v., pp. 84 ss. 1891. Artigo.

Gnosticismo.

A Revista Trimestral de Londres.

Vol. lxvii., pp. 120 ss. 1895. Stokes (G. T.). Artigo.

Gnosticismo e Panteísmo Moderno.

Mind.

Londres.

Vol. xx., pp. ss.


1898. Cams (P.). Artigo.

Gnosticismo em Relação ao Cristianismo.

O Monista.

Chicago.

Vol. viii., pp. 502 — 546.

1898. Scott (C. A.) Rev.

sobre a obra de Ariz, *Zur Frage nach dem Ursprung des Gnosticismus*.

ATOS NÃO CANÔNICOS.

O seguinte pode servir como introdução ao assunto.
A obra exaustiva de Lipsius fornecerá dados para uma bibliografia completa.

1851. Tischendorf (C. de). *Acta Apostolorum apocrypha*.
Leipzig.

1871. Wright (W.). *Atos Apócrifos dos Apóstolos*.
Texto Siríaco e Tradução para o Inglês.
Londres.
2 vols.

1880. Zahn (T.). *Acta Joannis*.
Erlangen.

1883. Lipsius (R. A.). *Die apokryphen Apostelgeschichten und Apostellegenden*.
*Ein Beitrag zur altchristlichen Literaturgeschichte*.
Braunschweig.
3 vols., 1883, 1887, 1890.

1883. Bonnet (M.). *Supplementum Codicis apocryphi*.
*Acta Thomae*.
Leipzig.

1891. Lipsius (R. A.) e Bonnet (M.). *Acta Apostolorum apocrypha*.
Leipzig.
2 partes, parte i. ed. por L., 1891, parte ii. por B., 1898.

1897. James (M. R.). *Apocrypha Anecdota II*. Cambridge.
*Texts and Studies*.
Vol. v., Nº 1.

1897. Bevan (A. A.). *O Hino da Alma contido nos Atos Siríacos de São Tomé*.
Cambridge.
*Texts and Studies*.
Vol. v., Nº 3.

GEMAS GNÓSTICAS.

GEMAS GNÓSTICAS (?) E ESTUDOS SOBRE ABRAXAS.

Para obras anteriores a 1828, ver a *Histoire* de Matter, 1ª ed., vol. ii., pp. 52, 53, onde se encontra uma bibliografia bastante completa.
Ver também *Gnostics and their Remains*, de King.
Para pesquisas mais recentes, ver:

1891. Dieterich (A.). *Abraxas*.
*Studien zur Religionsgeschichte des spätern Altertums*.
Leipzig.

OBRAS GNÓSTICAS MENCIONADAS POR ESCRITORES ANTIGOS.

Para uma lista de obras gnósticas, das quais algumas ainda existem em fragmentos, mas da maioria apenas os títulos, ver:

1893. Harnack (A.). *Geschichte der altchristlichen Literatur bis Eusebius*.
Leipzig.
2 vols.
*Gnostische, marcionitische und ebionitische Literatur*.
Vol. i., pp. 143–231.

OS TEXTOS MAIS RECENTES DOS PADRES DA IGREJA HERESIOLÓGICOS E SUAS TRADUÇÕES PARA O INGLÊS.

*Corpus Haeresiologicum*.
Oehler (F.). Berlim.
3 vols.
1856, 1859, 1861. Vol. i. contém os escritores heresiológicos menores latinos.
Filástrio, Agostinho, Praedestinatus, Pseudo-Tertuliano, Pseudo-Jerônimo, Isidoro de Sevilha, Paulo, Honório de Autun, Genádio de Marselha.
Vols. ii., iii.
*Epiphanii Panaria*.


Justino Mártir.

Otto (J. C. T. v.). Jena.

vols.

ed. 1847 — 1850. Também em Corpus Apologetarum christianorum Saeculi secundi.

vols.

—1881.

Trad. inglesa por Dods (M.) e Reith (G.), em Ante-Nicene Christian Library.

Edimburgo.

1867.

Clemente de Alexandria.

Dindorf (G.). Oxford.

vols.

1869.

Trad. inglesa por Wilson (W.), em Ante-N. Ch. Lib.

Edin.

vols.

1867, 1869.

(Protrepticus e Paedagogus). Stählin (O.). Leipzig. Herausg.

v. d. Kirchenvater-Commission der k. Preuss.

Akad.

d. Wiss.

Irineu.

Stieren (A.). Leipzig.

vols.

1848.

Trad. inglesa por Roberts (A.) e Rambaut (W. H.), em Ante-N. Ch. Lib.

Edin.

vols.

1868, 1869. Tertuliano.

Oehler (F.). Leipzig.

vols.

1853, 1854.

Trad. inglesa por Holmes (P.), em Ante-N. Ch. Lib.

Edin.

vols., 1868-1870.

(De Praescriptione Haereticorum). Bindley (T. H.). Oxford.

1893.

Preuschen (E.). 1892. (Sammlung ausgewählter kirchen- und dogmengeschichtlicher Quellen-Schriften.

Heft iii.).

Hipólito.

(Philos.). Dunker (L.), e Schneidewin (F. G.). Göttingen.

1859. Cruice (P.). Paris.

1860.

Trad. inglesa por MacMahon (J. H.), em Ante-N. Ch. Lib.

Edin.

1868.

Orígenes.

(C. Celsum). Lommatzsch (C. H. E.). Berlim.

vols., 1845, 1846. Selwyn (W.). Cambridge.

1873. Livros i.— iii. apenas.

Textos.

Trad. inglesa por Crombie (F.), em Ante-N. Ch. Lib.

Edin.

vols., 1869, 1872.

Eusébio.

Dindorf (G.). Leipzig.

vols., 1867—1871.

Trad. inglesa (Hist. Ecl.) por Cruse (C. F.)

em Bonn's Ecclesiastical Library.

Londres.

Nova ed., 1894. (História da Igreja, Vida de Constantino, etc.) por McGiffert (A. C.) e outros,

em Select Library of Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church.

Nova Série.

Oxford.

1890.

Epifânio.

Dindorf (G.). Leipzig.

vols., 1859 — 1863.

Não existe tradução em inglês.

Filástrio.

Marx (F.). Viena.

1898.

Não existe tradução em inglês.

Teodoreto.

Migne (J. P.). Patrologiae Cursus Completus.

Series Graeca.

Paris.

Vols. 80, 84. 1857. Não existe tradução em inglês.

Obras de G. R. S. Mead, B.A., M.R.A.S.

Apolônio de Tiana:

O FILÓSOFO-REFORMADOR DO PRIMEIRO SÉCULO D.C.

Um estudo crítico do único registro existente de sua vida, com alguns relatos da guerra de opiniões a seu respeito, e uma introdução sobre as associações e irmandades religiosas da época e a possível influência do pensamento indiano sobre a Grécia.

SINOPSE DO CONTEÚDO.

i. Introdutório. ii. As Associações e Comunidades Religiosas do Primeiro Século. iii. Índia e Grécia. iv. O Apolônio da Opinião Primitiva. v. Textos, Traduções e Literatura. vi. O Biógrafo de Apolônio. vii. Vida Primitiva. viii. As Viagens de Apolônio. ix. Os Santuários dos Templos e os Retiros da Religião. x. Os Gimnosofistas do Alto Egito. xi. Apolônio e os Governantes do Império. xii. Apolônio, o Profeta e Taumaturgo. xiii. Seu Modo de Vida. xiv. Ele Mesmo e seu Círculo. xv. De seus Ditos e Sermões. xvi. De suas Cartas. xvii. Os Escritos de Apolônio. xviii. Notas Bibliográficas.

pp. 8vo grande. Tecido. 3s. 6d. líquido.

ALGUMAS OPINIÕES DA IMPRENSA.

"O Sr. Mead já é favoravelmente conhecido dos estudiosos como um escritor bem informado sobre as origens da religião. Seu campo particular de estudo é aquilo que passa pelo nome de 'oculto' — uma palavra que pode ser pouco mais que um eufemismo para a nossa ignorância. . . . O trabalho do Sr. Mead é cuidadoso, erudito e crítico, e ainda assim profundamente simpático àqueles ideais espirituais de vida que são muito maiores do que todos os credos. Será considerado muito útil para os leitores ingleses." — Bradford Observer.

"Com muito do que o Sr. Mead diz sobre Apolônio, estamos inteiramente dispostos a concordar." — Spectator.

"A monografia simpática do Sr. Mead é baseada em um estudo cuidadoso da literatura sobre o assunto. Escreve com moderação e prestou um bom serviço ao examinar Apolônio de um ponto de vista novo." — Manchester Guardian.

"Damos uma recepção especialmente cordial ao 'Apolônio de Tiana' do Sr. G. R. S. Mead. . . . É um livro que todos os espiritualistas bem instruídos poderão apreciar e compreender." — Light.

"Uma pequena obra encantadora e esclarecedora, cheia de conhecimento, brilhante em simpatia e magistral no estilo." — The Coming Day.

"  Não é apenas interessante, é justo e, em grande medida, erudito, embora seja leve e popular em sua concepção.

O espírito e o tom são admiráveis.

O Sr. Mead não ridiculariza

o que considera equivocado nem afirma acriticamente o que acredita. Ele usa suas

fontes com cuidado e discernimento, e fornece referências exatas.

Algumas boas sugestões são feitas no livro." — Literature.

"  Através dessa selva de fábula, controvérsia e mal-entendido, o Sr. Mead heroicamente se propôs a abrir caminho até o homem como ele era.

Praticamente, ele o considera um teosofista do primeiro século, que havia sido iniciado nas ordens mais elevadas e incumbido de regenerar os cultos em muitos dos maiores santuários.

O autor estudou as fontes originais cuidadosamente, e também o trabalho de seus predecessores.

É, naturalmente, impossível dizer se sua tentativa de retornar ao verdadeiro Apolônio foi bem-sucedida.

Na maioria dos

A SOCIEDADE TEOSÓFICA DE PUBLICAÇÃO, LONDRES E BENARES.

OBRAS DO MESMO AUTOR.

aspectos, seu relato é plausível e muito possivelmente pode representar os fatos. De

qualquer forma, estudantes imparciais serão gratos por sua vindicação simpática de Apolônio contra a acusação demasiado frequente de que ele nada mais era do que um charlatão.

Ele pensa que Apolônio deve certamente ter visitado algumas das sociedades cristãs e ter encontrado Paulo, se não antes, pelo menos em Roma em 66. Parece-nos muito problemático que ele tenha tido qualquer interesse nos cristãos, embora a probabilidade fosse muito aumentada se a visão do Sr. Mead sobre o cristianismo primitivo pudesse ser substanciada." — The Primitive Methodist Quarterly Review.

"  Estudantes da história religiosa dos primeiros séculos da era cristã já estão em dívida com o Sr. Mead por suas elucidações de mais de um documento obscuro daquela era remota.

Seu relato sobre Apolônio de Tiana será ainda mais bem-vindo porque, tratando seu assunto sem prepossessões teológicas ou denominacionais, revela o antigo filósofo sob uma nova luz, que muito bem pode ser também uma verdadeira."

. . . O Sr. Mead apresenta um relato legível e bem estudado dele, revisando o pouco que ainda se sabe sobre sua vida e indagando, sem controvérsia, qual deve ter sido o caráter de alguém que teve uma influência tão real na vida religiosa de seu tempo. O livro é rico em sugestões sobre as realidades da vida religiosa do mundo antigo, quando o Cristianismo ainda estava em sua infância.

É bem digno da atenção de todos os interessados no assunto." — The Scotsman.

"Este pequeno livro é uma tentativa de nos contar tudo o que é definitivamente conhecido sobre uma das figuras mais extraordinárias da história.

. . . É feito, em sua maior parte, com absoluta imparcialidade e considerável erudição.

Não é um livro satisfatório, mas é útil e interessante e, na falta de algo melhor, pode ser recomendado." — Saturday Review.

"A tarefa que o Sr. Mead se propôs é recuperar da narrativa altamente romântica de Filóstrato os poucos fatos que podem ser realmente conhecidos e apresentar ao público uma história simples e direta que esteja de acordo com a vida simples e humilde do tianeano; e ele alcançou não pouco sucesso.

Seu livro é totalmente legível, o modo de escrever é

muito atraente, e seu entusiasmo é evidentemente sincero. A última obra do Sr. Mead é

verdadeiramente erudita, e ele contribuiu com uma página muito valiosa para a história filosófica." — Chatham and Rochester Observer.

"As obras do Sr. Mead valem sempre a pena ser lidas.

Caracterizam-se pela clareza, sensatez e moderação; são eruditas e sempre concebidas em um espírito profundamente religioso.

As bibliografias são excelentes.

Com o trabalho do Sr. Mead, temos apenas uma falha a apontar.

Para dar elevação às palavras de seu herói, ele não apenas afeta expressões poéticas — o que é permissível — e inversões poéticas de fala — o que não é permissível — mas também se entrega a uma página inteira de verso branco irregular.

O Sr. Mead é mestre de um excelente estilo em prosa, e Pégaso é um pobre pangaré quando Pégaso manca." — Journal of the Royal Asiatic Society.

"Este volume bem escrito oferece um estudo crítico do único registro existente da vida de Apolônio de Tiana. Seus princípios, seu modo de ensinar, suas viagens pelo oriente e pelo sul e ocidente, seu modo de vida, seus ditos, cartas e escritos, e notas bibliográficas, são todos apresentados em um estilo claro e interessante." — Asiatic Quarterly Review.

"O autor, com base na biografia filostrática, pretende apresentar um quadro da vida e da obra de Apolônio. Não lhe falta nem juízo ponderado, nem a necessária erudição na literatura pertinente. O autor, embora evidentemente ele próprio teólogo, mantém-se livre do preconceito teológico que tão cedo e por tanto tempo causou danos na avaliação de Apolônio." — Wochenschrift für klassische Philologie.

"O Sr. Mead escreve de forma muito clara e trata do tema da vida do sábio." — Erevna.

SOCIEDADE TEOSÓFICA EDITORA, LONDRES E BENARES.

OBRAS DO MESMO AUTOR.

OS EVANGELHOS E O EVANGELHO:

UM ESTUDO DOS RESULTADOS MAIS RECENTES DA CRÍTICA INFERIOR E SUPERIOR.

SINOPSE DO CONTEÚDO.

Preâmbulo — Um Vislumbre da História da Evolução da Crítica Bíblica — A "Palavra de Deus" e a "Crítica Inferior" — A Natureza da Tradição dos Autógrafos Evangélicos — Traços Autobiográficos nos Documentos Existentes — Um Exame das Evidências Externas Mais Antigas — A Posição Atual do Problema Sinótico — A Credibilidade dos Sinóticos — O Problema Joanino — Resumo das Evidências de Todas as Fontes — O Lado Vital do Cristianismo — O Evangelho do Cristo Vivo.

pp. Grande oitavo.

Encadernado, 4s. 6d. líquido.

ALGUMAS NOTAS DA IMPRENSA.

"Um relato claro, inteligente e interessante da história do desenvolvimento da crítica bíblica .... um livro ponderado e erudito, embora legível, que bem merece a atenção dos leitores interessados em seu assunto." — The Scotsman.

"O Sr. Mead começa com um esboço do progresso recente da crítica bíblica.

O tom não é exatamente o que se desejaria — os 'conservadores' estavam, afinal, lutando pelo que consideravam muito precioso — mas é substancialmente verdadeiro." — Spectator.

"O Sr. Mead descreve seu livro como 'um estudo nos resultados mais recentes da crítica superior e da crítica inferior'. A descrição é incompleta antes que inadequada, pois o estudo é feito de um ponto de vista neognóstico, e sob prepossessões neognósticas.

O Sr. Mead demonstrou, em volumes anteriores, como o fascinante encanto de seus escritos o atraiu, e, embora eles sejam representados principalmente por fragmentos imperfeitos, porém sugestivos, ele fez o seu melhor para reconstruí-los e para reviver, quando possível, sua vitalidade remanescente.

Seu trabalho, nessas linhas, encontrou a devida apreciação. Ele

considera o Gnosticismo como uma religião suprimida que pode ainda resultar em um credo abrangente, que combinará e focará os raios dispersos agora espalhados entre fés divergentes." — Sheffield Daily Telegraph.

"Em seu modesto preâmbulo, o autor se descreve como nem cientista nem teólogo, mas como 'um espectador amigável, que, como devotado amante tanto da ciência quanto da religião, não tem interesse partidário a servir, e, como crente nas bênçãos daquela verdadeira tolerância que permite perfeita liberdade em todas as questões de opinião e crença, não tem desejo de ditar aos outros qual deveria ser sua decisão sobre qualquer um dos muitos pontos controversos abordados.' Mais adiante, ele aconselha fortemente o leitor 'perturbado', 'que teme mergulhar mais fundo nas águas livres da crítica', a 'deixar o assunto de lado e contentar-se com os credos e cultos das igrejas.' Portanto, não podemos reclamar se, na sequência, ele apresenta conclusões amplamente diferentes daquelas geralmente sustentadas, mesmo nesta era 'avançada', pelo estudante pensativo comum."

Ele afirma tratar o assunto "sem temor ou favor", e, ao mesmo tempo em que rejeita o "ultra-racionalismo" da "escola extrema" de crítica, ele, não obstante, "sente-se compelido a aceitar em grande parte as provas apresentadas da natureza não histórica de muito nas narrativas evangélicas, e também as principais posições em todos os assuntos de crítica evangélica que não envolvam um elemento religioso místico ou prático." Como teosofista, parece ter uma afeição peculiar, por motivos místicos, pelo quarto Evangelho, que, no entanto, considera adequado classificar juntamente com Hermes Trismegisto.

Seria uma tarefa demasiado elaborada tentar tratar aqui dos detalhes de seu argumento.

Seus resultados afirmam basear-se na obra de Nestle, merecidamente popular.

Qualquer pessoa que deseje ver Nestle interpretado teosoficamente pode muito bem ler as páginas lúcidas e interessantes do Sr. Mead por si mesma. Há muitos outros pontos que criticaríamos se tivéssemos espaço.

Mas há muitos pontos, por outro lado, que merecem sincera recomendação; não menos, a cruzada do Sr. Mead contra a "adoração de livros". — The Guardian.

"Esta obra consiste em vários capítulos que apareceram de tempos em tempos numa Revista dedicada ao estudo da religião de um ponto de vista inteiramente independente, e lida por uma classe de leitores pertencentes a muitas Igrejas da Cristandade, a escolas ou seitas do Bramanismo, Budismo, Maometismo, Zoroastrismo, e outros que não seguem religião alguma.

O autor considera que as controvérsias que têm sido travadas sob o termo da 'Crítica Superior' foram quase exclusivamente entre o conhecimento progressivo dos fatos físicos (naturais, históricos e literários) e o conservadorismo das visões teológicas tradicionais, e nunca, em momento algum, entre Ciência e Religião em seu verdadeiro significado." — Asiatic Quarterly Review.

"Embora o Sr. Mead esteja assim em concordância geral com a extrema esquerda na crítica,

ele está muito longe de adotar seu ponto de vista racionalista. Quanto às datas, o

autor atribui todos os Evangelhos ao reinado de Adriano.

Os fenômenos dos Sinóticos

A SOCIEDADE TEOSÓFICA DE PUBLICAÇÕES, LONDRES E BENARES.

OBRAS DO MESMO AUTOR.

Os Evangelhos, pensa ele, apontam para um esforço concertado, e acredita que foram escritos no Egito.

Não é surpreendente que ele dê grande ênfase ao Gnosticismo, mas não deseja revivê-lo. Antes, defende que devemos estudá-lo com vistas a recuperar preciosas verdades que foram perdidas.

O livro é escrito em um estilo agradável, e o lemos com interesse, mas não podemos considerá-lo o esforço mais bem-sucedido do Sr. Mead." — *The Primitive Methodist Quarterly*.

"Esta análise dos 'Evangelhos', contudo, é preliminar a uma vindicação daquele 'Evangelho' eterno que jaz sob toda essa literatura.

O Sr. Mead sustenta que este Evangelho pode ser descoberto nos escritos gnósticos que foram condenados pela Igreja Cristã primitiva como heresias.

Ele admite livremente que as formas da antiga 'Gnose' não podem agora ser revividas, mas encontra na doutrina evangélica popular do Cristo vivo uma adumbração da sabedoria antiga dos gnósticos condenados.

Mas o Cristo do ensinamento do Sr. Mead é um de uma sagrada irmandade, incluindo Buda, Krishna, Zoroastro e outros grandes iluminadores da raça.

Estes são todos energias espirituais vivas, inspirando e guiando a humanidade em sua laboriosa busca por verdade e retidão.

Os leitores encontrarão nas páginas ponderadas e eruditas do Sr. Mead muito que ajudará naquela reconstrução racional e espiritual que é a grande tarefa religiosa do momento." — *Yorkshire Daily Observer*.

TOJV &p%uv rov ;pirTtaviy]u,oj x. G. K.. S. Mead  

ivirtv apri JU-?XET»!V Trspi r-nc pto-rtavtJtr UXotfotac Ifow; did'ajcTtJtnv.

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K.    Meal    fivs    sis    TWV    KQfVQetun   7x.a7ravEOJv    rns    Ipivwiriyjric   roe,i/rric    spyacra    nai  Trav    o  ,    TI    ypa?t    Kfivit)    ota.bi/7»K    TTpOirors     aftov.

.       .       .      'E/x7rv?0|UHv&c    tTro  Trie    vyiovc    rocvrvic    apr,    o    x.    Mead    7Vv?T5?iE(Tsv    lo-arwr    Qauacnov    "pyov."-  Erevna.

JESUS VIVEU 100 A.C.?

Uma Investigação sobre as Histórias de Jesus no Talmude, o Toldoth Jeschu, e Algumas Declarações Curiosas de Epifânio — Sendo uma Contribuição ao Estudo das Origens Cristãs.

440, xvi. pp. Grande oitavo.

Tecido, 9s. líquido.

ALGUMAS NOTAS DA IMPRENSA.

"Uma investigação minuciosa e erudita. O Sr. Mead é um estudioso teosófico cujos trabalhos anteriores, tratando do Gnosticismo e da crítica evangélica, têm algum valor não apenas para os teosofistas, mas também para os teólogos." — The Times.

"Na análise desses contos pouco conhecidos, o Sr. Mead despende uma quantidade de paciência, trabalho e erudição que o homem comum .... consideraria ridícula.

Felizmente, porém, o mundo ainda não é povoado exclusivamente por pessoas gordas, rechonchudas e comuns, e aqueles que seguem o Sr. Mead podem ter certeza de recompensa em matéria que os fará pensar.

. . . Essas pesquisas são contribuições ao estudo das origens do Cristianismo, e sua singularidade reside no fato de que pouquíssimos escritores jamais adentram os campos onde o Sr. Mead trabalha com tão louvável diligência.

O leitor comum confia demasiadamente, nessas questões, em seu Geikie e em seu Farrar, e até mesmo o estudioso que tem um traço de herege em si contenta-se facilmente demais com seu Zienan.

Para ambas as classes de leitores, os capítulos do Sr. Mead abrirão novos campos de pensamento.

O leitor se encontrará em meio àqueles fanatismos ferozes e às estranhas teosofias ocultas que faziam parte da atmosfera na qual o Cristianismo infantil cresceu.

Sem um conhecimento adequado desses elementos, as origens cristãs não podem ser compreendidas.

Esse conhecimento, os leitores do Sr. Mead obterão se o seguirem de perto, e sua visão dos primórdios do Cristianismo será correspondentemente plena e verdadeira." — The Yorkshire Daily Observer.

"As incursões anteriores do Sr. Mead por veredas históricas resultaram em muito conhecimento curioso associado ao Gnosticismo e aos Neoplatonistas, e ele parece ter sido

atraído a este campo adjacente como um provável depositário de tesouros ocultos. Para

aqueles que desejam uma introdução a este ramo da literatura, o Sr. Mead o tornou facilmente acessível." — The Sheffield Daily Telegraph.

"Escrito por um teosofista declarado, esta obra é, no entanto, inteiramente livre do vício do dogmatismo de qualquer espécie."

É, de fato, uma contribuição valiosa para a literatura sobre o assunto, que é tão abundante quanto caótica.

O autor coletou e revisou essa massa, e a resumiu e criticou até moldá-la em algo de um todo coerente.

A matéria rabínica e outra hebraica, lendária e histórica, que trata da suposta origem e vida do Messias, é cuidadosamente peneirada, e o assunto é abordado com a devida reverência. Que o livro é valiosíssimo do ponto de vista sugestivo não se pode negar.

Merece a atenção de todos os interessados na crítica cristã." — The Scotsman.

THE THEOSOPHICAL PUBLISHING SOCIETY, LONDRES E BENARES.

OBRAS DO MESMO AUTOR.

"Este livro, com seu notável título, trata de maneira muito crítica das origens do cristianismo.

. . . Embora crítico em alto grau, o autor não dogmatiza e preserva uma calma filosófica." — The Chatham and Rochester Observer.

"O autor desta obra erudita não está propondo um mero enigma teológico, nem se pode dizer que esteja se apresentando levianamente apenas para aumentar o número de quebra-cabeças que confrontam o estudante das origens cristãs. O autor tem sido um estudante muito diligente do Talmud, e talvez seu longo relato desse extraordinário corpo de tradições seja um dos melhores em nossa língua. O argumento, ao longo de toda a obra, é marcado por grande erudição e notável modéstia." — The Glasgow Herald.

"A questão não é uma pergunta de tolo.

É séria, e o Sr. Mead a leva a sério." — The Expository Times.

"O Sr. Mead realizou muito trabalho de primeira linha, em linhas não tradicionais, na história da Igreja primitiva, e propôs teoremas dos quais se ouvirá falar muito mais.

Ele sempre escreve como um erudito, com total evitação de infelicidades de expressão teológica que com demasiada frequência têm prejudicado heterodoxias sugestivas." — The Literary World.

"Os materiais para a continuação da investigação estão todos reunidos neste volume, e o autor está evidentemente empenhado em manter o equilíbrio cuidadosamente entre as diferentes autoridades que cita."

Ele leu tudo o que há de importante que foi publicado sobre o assunto de que trata.

É evidentemente um homem de vasta leitura, e possui muito senso crítico, bem como todas as melhores qualificações para a investigação histórica e a pesquisa original.

A obra será, não duvidamos, amplamente lida por teólogos cristãos." — The Asiatic Quarterly Review.

"Este é o quinto livro do Sr. Mead que temos o prazer de apresentar aos nossos leitores.

Em nossas resenhas de seus volumes anteriores, temos nos alegrado em reconhecer, quer concordássemos com ele ou não, a erudição, a seriedade, o método científico e o profundo espírito religioso que os animaram.

O título do presente volume, antecipamos, fará com que muitos leitores o considerem uma especulação excêntrica.

.     .     . Não é, contudo, uma obra que se dispense com um mero encolher de ombros.

.     .     . O Sr. Mead produziu não simplesmente uma obra interessante, mas valiosa, mesmo à parte da tese especial que investiga." — The Primitive Methodist Quarterly Review.

"Gostaria de chamar a atenção de homens cultos e eruditos para um livro muito notável

.    escrito por G. R. S. Mead. Convido nossos clérigos protestantes cultos e de mente séria, em toda parte, a ler este livro e me dizer, em particular, o que pensam dele." — Standish O'Grady, in The All Ireland Review.

"Uma coleção muito mais notável de apócrifos é o tema de um curioso livro do Sr. Mead, conhecido do pequeno público interessado em tais coisas como erudito nas fantasias do Gnosticismo. Raramente lemos um livro erudito do qual discordemos tão amplamente com interesse mais genuíno, e somos obrigados a reconhecer a maneira digna e erudita com que o Sr. Mead apresenta suas teses, por mais estranhas e impossíveis que algumas delas nos pareçam." — The Pilot.

PISTIS SOPHIA: Um Evangelho Gnóstico.

(Com Extratos dos Livros do Salvador anexados.) Originalmente traduzido do grego para o copta, e agora pela primeira vez vertido para o inglês a partir da Versão Latina de Schwartze do único MS. copta conhecido, e conferido com a versão francesa de Amelineau.

Com uma Introdução e Bibliografia.

394, xliv. pp. em oitavo grande.

Encadernado em tecido.

7s. 6d. líquido.

(Esgotado.

Uma Edição Revista está sendo considerada.)

ALGUMAS OPINIÕES DA IMPRENSA.

" A 'Pistis Sophia' há muito é reconhecida como um dos mais importantes documentos gnósticos que possuímos, e o Sr. Mead merece a gratidão dos estudiosos da História da Igreja e da História do Pensamento Cristão, por sua admirável tradução e edição deste curioso Evangelho." — Glasgow Herald.

" O Sr. Mead prestou um serviço a outros além dos teosofistas com sua tradução da 'Pistis Sophia.' Esta obra curiosa não recebeu até recentemente a atenção que merece. . . . . Ele prefixou uma breve Introdução, que inclui uma excelente bibliografia. Assim, o leitor inglês está agora em condições de julgar por si mesmo o valor científico do único tratado gnóstico de extensão considerável que chegou até nós." — Guardian

" Do ponto de vista de um estudioso, a obra é valiosa por ilustrar as tendências filosófico-místicas do segundo século." — Record.

" O Sr. Mead merece agradecimentos por ter vestido em trajes ingleses este curioso documento dos primórdios da filosofia cristã." — Manchester Guardian.

A SOCIEDADE TEOSÓFICA DE PUBLICAÇÕES, LONDRES E BENARES

OBRAS DO MESMO AUTOR.

A TEOSOFIA DOS GREGOS,

PLOTINO.

Com Bibliografia.

Oitavo.

Tecido, 1s. líquido.

A TEOSOFIA DOS VEDAS.

OS UPANISHADS: 2 Volumes.

Meio oitavo.

Tecido, 1s. 6d. cada líquido.

VOLUME I.

Contém uma Tradução dos Upanishads Isha, Kena, Katha, Prashna, Mundaka e Mandukya, com um Preâmbulo Geral, Argumentos e Notas por G. R. S. Mead e J. C. Chattopadhyaya (Roy Choudhuri).

VOLUME II.

Contém uma Tradução dos Upanishads Taittiriya, Aitareya e Shvetashvatara, com Argumentos e Notas.

TRADUÇÃO FRANCESA.

A TEOSOFIA DOS VEDAS: NOVE UPANISHADS.

Tradução francesa, de E. Marcault.

Paris: Librairie de l'Art Indépendant, 10 rue Saint-Lazare.

SIMÃO MAGO: Um Ensaio.

Quarto.

Brochura, 5s. líquido.

(Esgotado.)

O MISTÉRIO DO MUNDO: Quatro Ensaios.

Conteúdo: A Alma do Mundo; As Vestes da Alma; A Teia do Destino; Verdadeira Autoconfiança.

Oitavo.

Encadernado, 3s. 6d. líquido.

(Esgotado.)

Orfeu.

Com três Diagramas e Bibliografia.

Servirá como Introdução à Teologia Helênica.

Oitavo, Encadernado, 4s. 6d. líquido.

(Esgotado.)

SOCIEDADE EDITORA TEOSÓFICA, LONDRES E BENARES.

OBRAS DO MESMO AUTOR.

HERMES TRISMEGISTO.

Estudos em Teosofia e Gnose Helenística.

Sendo uma Tradução dos Sermões e Fragmentos Existentes da Literatura Trismegística, com Prolegômenos, Comentários e Notas.

Vol. I. — Prolegômenos. — pp. xvi., 481.

Vol. II. — Sermões. — pp. xi., 403.

Vol. III. — Excertos e Fragmentos. — pp. xii., 371.

Vol. I. — i. Os Restos da Literatura Trismegística; ii. A História da Evolução da Opinião; iii. Toth, o Mestre da Sabedoria; iv. O Culto Popular do Hermes Teúrgico nos Papiros Mágicos Gregos; v. A Principal Fonte da Literatura Trismegística — Manetão, Sumo Sacerdote do Egito; vi. Um Protótipo Egípcio das Principais Características da Cosmogonia do Pœmandres; vii. O Mito do Homem nos Mistérios; viii. Fílon de Alexandria e a Teologia Helenística; ix. Plutarco Acerca dos Mistérios de Ísis e Osíris; x. "Hernias" e "Hermes"; xi. Acerca da Doutrina do Éon; xii. As Sete Zonas e suas Características; xiii. Platão Acerca da Metempsicose; xiv. A Visão de Er; xv. Acerca do Cratere ou Cálice; xvi. Os Discípulos do Três Vezes Grande Hermes.

Vol. II. — i. O Corpus Hermeticum; ii. O Sermão Perfeito.

Vol. III. — i. Excertos de Estobeu; ii. Referências e Fragmentos nos Padres — Justino Mártir, Atenágoras, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Cipriano, Arnóbio, Lactâncio, Agostinho, Cirilo de Alexandria, Suidas; iii.

Referências e Fragmentos nos Filósofos — Zosimus, Jâmblico, Juliano o Imperador, Fulgêncio o Mitógrafo; iv. Conclusão; v. Índice.

Grande 8vo, encadernado; 30s. líquido.

TRADUÇÕES.

Apolônio de Tiana

Chez Bailly, rue Saint-Lazare, 11, Paris.

Apolônio de Tiana

Biblioteca Orientalista, Tapineria, 24, Barcelona.

A SOCIEDADE TEOSÓFICA DE PUBLICAÇÕES, LONDRES E BENARES.

o

POR FAVOR, NÃO REMOVA CARTÕES OU FICHAS DESTE BOLSO

BIBLIOTECA DA UNIVERSIDADE DE TORONTO

Mead, George Robert Stowe Fragmentos de fé esquecida